NÃO ERRE MAIS! PORTUGUÊS AGRADÁVEL E DESCOMPLICADO. - Simulado Concurso

NÃO ERRE MAIS! PORTUGUÊS AGRADÁVEL E DESCOMPLICADO.

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Luiz Antonio Sacconi
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Luiz Antonio Sacconi
Não erre mais!
29.a
 edição
educacional
Não erre mais!
29.a
 edição
Entre os elementos orgânicos de uma nação,
é o idioma a revelação mais eloqüente do espírito de nacionalidade e,
ao mesmo passo, o vínculo mais forte da união nacional
Laudelino Freire
escala
educacional
E isto
Um indivíduo só pode dizer-se inteiramente livre, no âmbito da
comunicação lingüística, quando conhece todas as modalidades de
língua a seu dispor e escolhe aquela que melhor convém ao momento do
discurso. É pouco, portanto, conhecer apenas uma língua funcional ou a
sua variante sociolingüística. O ideal é que o indivíduo seja um poliglota
dentro da sua própria língua.
Conhecer a norma culta, assim, de certa forma, é sentir-se mais livre
para comunicar-se. Norma culta, ou seja, a língua utilizada segundo os
padrões estabelecidos pelos clássicos ou bons escritores do idioma, é
assim como etiqueta social: não é preciso conhecê-la para viver, mas é
absolutamente indispensável conhecê-la para conviver.
Há os que, quase simploriamente, afirmam que o importante é se
comunicar. Sim senhor! Por fumaç a também se comunica! A esses, no
ato da alimentação, certamente o mais importante é a digestão, sendo de
somenos importância os meios como se leva o alimento à boca. Mas são
justamente esses meios que diferenciam o ser humano educado, civilizado,
dos demais de sua espécie. Cada qual vive e come à sua própria moda,
é certo, mas todos têm o direito de conhecer caminhos, para poderem
fazer a sua escolha. É justamente essa escolha que determina a posição
e o papel que cada um de nós deve ocupar em nosso meio, na sociedade.
Ademais, a norma culta é a única que garante a unidade lingüística de
uma nação.
Esta obra, desde a sua primeira edição, em 1975, surgiu como uma
opção aos que pretendem conhecer a norma culta, a fim de usá-la no
momento que for ou que achar conveniente. Assim como não se aconselha
o uso da língua popular num discurso, também desaconselhável será o
emprego da norma culta entre amigos que se divertem ou que tomam sol
numa praia. Saber distinguir os vários momentos é fundamental. Por isso,
esta obra não deve ser vista como um instrumento tirano, mas como um
meio de levar você, caro leitor, a alcançar um pouco mais da tão sonhada
liberdade. Mais livres somos quanto mais escolhas temos à disposição.
As brincadeiras, ironias e às vezes até alguns sarcasmos encontrados
aqui e ali ficam por conta de uma índole espirituosa, quando não de uma
caturrice sem conta. Nada tem que ver com desprezo ou menosprezo
aos ignorantes. Afinal, todos têm o direito de ser felizes à sua própria
moda...
Luiz Antonio Sacconi
Devo escrever Aírton Sena ou Ayrton Senna?
Pelas norma s ortográficas em vigor, fixada s pela Academia Brasileira
de Letras, hoje devemos escrever Aírton Sena.
É bem provável que o leitor tenha ficado surpreso com a resposta. É
compreensível; nós também não somos favorável a tamanh a mutilação,
principalment e nos sobrenomes.
Pelas regras vigentes, no entanto, após a morte de uma pessoa, seu
nome passa a estar sujeito às norma s ortográficas em vigor: Philomeno
vira Filomeno, Raphael vira Rafael, Thomaz vira Tomás, Teophilo vira
Teófilo, Josephina vira Josefína, Manoel vira Manuel, Newton vira Nilton,
Walter tem de se torna r Válter e assim por diante. Os sobrenomes nacionais
com letras dobradas, como Villa-Lobos e Villas-Boas, devem perder
uma dessas letras, tornando-se , portanto, Vila-Lobos, Vilas-Boas, etc. Não
considero isso razoável, por isso desobedeço aqui e em outras obras minhas
a essa norma, mas apenas no tocante aos apelidos ou sobrenomes.
Convém lembrar, porém, que Thomé de Souza passou a Tomé de Sousa
(e ninguém reclama); que Adhemar de Barros virou Ademar de Barros (e
ninguém reclama); que Paes Leme passou a Pais Leme; que Rodrigues de
Moraes passou a Rodrigues de Morais; que Viriato Corrêa virou Viriato
Correia; que Carlos Goes passou a Carlos Góis; que Osman Lins virou
Osmã Lins. Um dia, também eu mesmo virarei Luís Antônio Sacconi. (E
já estou indignado.)
Mesmo com relação aos nomes, é preciso haver alguma condescendência.
Veja o caso de Wilson. Alguém aceitará Uílson? Ou Vílson? Não,
creio que já seja hora de mudarmo s isso. Toda mudança , contudo, tem de
ter a chancela da Academia Brasileira de Letras, que ainda não se dignou
manifestar.
Tom Jobim não aceitava que alguém escrevesse Vinícius (com acento)
de Morais (com i). Queria que todos respeitassem a grafia constante do
registro civil do grande poeta: Vinícius de Moraes. Mal sabia Tom que seu
próprio sobrenome deveria ser escrito, após a sua morte, Jubim (esta é a
forma correta, segundo a norma em vigor).
Os sobrenomes estrangeiros ou de origem estrangeira ficam, até pela
norma, imutáveis. Portanto, grafaremos sempre Drummond, Goulart,
Kubitschek, Matarazzo, Sacconi, etc.
o "falecimento" de Aírton Senna
Não. O piloto brasileiro não "faleceu" . Morreu. Só falece aquele que
sai da vida naturalmente , ou por velhice. Morre todo aquele que perde a
".ida, brutalment e ou não. Toda pessoa que falece, morre, mas nem toda
pessoa que morre, falece. Uma pessoa assassinada não "falece", morre.
Um nonagenário, num asilo ou num leito de hospital, falece. Só a morte
pode ser violenta; o falecimento, ao contrário, apenas exprime um efeito
natura l e é sereno, calmo, tranqüilo. Por isso, rezemos todos par a falecermos,
bem tarde, muito tarde !
2 6 NÃO ERRE MAIS! 5 1
todo o mundo
Sempre com o artigo, em qualquer acepção. Mas todo o mundo no
Brasil escreve "todo mundo" . É impressionante! Existem até certos gramáticos
que abonam a expressão sem o artigo, num equívoco imperdoável.
Como é em francês? Tout le monde. Como é em espanhol? Todo el mundo.
Por que, em português, seria "todo mundo"? Daí por que saem matérias
em jornais assim: Todo mundo mente. A mentirafaz parte da natureza humana.
Segundo recentes estudos científicos sobre a mentira, constatou-se
que esta faz parte da natureza humana: todo o mundo mente.
Reparou, caro leitor? No título, "todo mundo" ; no texto, todo o mundo.
Uma das tarefas mais interessantes reservadas aos jornalistas de hoje
é justament e esta: confundir o leitor, que, naturalmente, não deixa de ser
uma forma de mentir. Mas a confusão, a mentira, não fica só por conta dos
jornalistas. Veja como escreve um dos imortais da Academia Brasileira
de Letras: "Todo mundo", pelo menos "todo mundo" com quem converso,
sabe que tive problemas com álcool e, de certa forma, sempre terei,
porque ele é meu inimigo permanente. Saiu até minha cara toda inchada
na capa de uma revista, apareci igualmente inchado e meio bêbedo num
programa de tevê em que eu era o assunto e, quando ia falar no sofrimento
que estava enfrentando, as luzes se apagaram. "Todo mundo"ficou
impressionado, há quem até hoje ache que foi intencional.
De fato, estou impressionado e até acho que foi intencional...
A Embratel anuncia: "Todo mundo" vai se comunicar melhor. Use
o 21 para fazer DDD e DDI pelo celular. "Todo mundo" fala mais, ouve
mais e vê "o"quanto é barato.
Comunicar-se melhor desse jeito?!
A Veja, ed. 1.818, pág. 34, reproduziu assim uma declaração do presidente
Lula: "Todo mundo"sabe que nunca aceitei o rótulo de esquerda.
No site da revista se leu, ainda: Milhões de fiéis em "todo mundo"
esperam pelo novo pontífice a partir desta segunda-feira.
Os jornalistas da revista, sem dúvida a melhor do Brasil, parece que
são visceralmente contra o uso do artigo nessa expressão, até mesmo
quando ela eqüivale a o mundo inteiro. Veja como se leu no site da revista:
Em seu primeiro sermão, o novo papa disse aos católicos de "todo
mundo " que pretende trabalhar sem poupar energia para manter a unidade
dos seguidores de Cristo. Ele ainda prometeu continuar a obra de seu
antecessor, João Paulo II, e manter o diálogo com outras fés.
Como se não bastasse, surge agora um dicionário registrando
"todo mundo" . Mas nele, como veremos logo adiante, tudo é perfeita -
mente normal.
2 6 NÃO ERRE MAIS! 6 1
disparado
Esta palavra é invariável quando funciona como advérbio; eqüivale a
de longe, sem comparação: O Brasil tem os melhores jogadores de futebol
do mundo disparado! * * * As mulheres brasileiras são as mais bonitas do
mundo disparado!
Tudo isso, todo o mundo já está cansado de saber. Dia destes, porém,
um participant e do programa Manhattan Connection, da Globo News,
saiu-se com esta, lá de Nova Iorque: As reservas de petróleo da Arábia
Saudita são maiores que as do Iraque "disparadas".
Seria o caso de perguntar: quem foi o gigante que espantou as reservas,
a ponto de elas saírem disparadas?
"em" Veja ou na Veja ?
Caro leitor, leia sempre a Veja, esteja sempre com a Veja nas mãos,
que se trata, sem dúvida, da melhor revista do Brasil - disparado.
Se, porém, quiser faze r referênci a a um conhecido (e também bom)
produto de limpeza, use apenas Veja. Por isso, compre a Veja nas banca s e
Veja na mercearia, na quitanda , nos supermercados.
Todo e qualquer nome de revista deve ser usado com o artigo: a Placar,
a Carinho, a Capricho, a Contigo, a Caras, a Playboy, a Tudo, a ISTOÉ,
a Época, etc.
Para encerrar, todavia, leia com atenção este editorial da Veja 1.907:
Muito se especulou entre políticos governistas sobre as motivações "de"
Veja ao publicar as recentes reportagens a respeito da corrupção em órgãos
públicos. O ministro José Dirceu disse que beirava o golpismo a reprodução
"por"Veja de uma frase dele sobre os perigos que corriam dois
companheiros graduados do partido de ser pegos por uma CPI. A frase de
Dirceu foi relatada "a"Veja por dois petistas.
Ficamos-lhe muito agradecido pelo que nos tem feito
Frase perfeita. O adjetivo ou o pronome adjetivo pode ficar no singular,
quando se refer e a uma só pessoa.
Veja outros exemplos: Nós mesmo percebemos isso. (É, na verdade,
uma única pessoa que fala ou escreve.) *** O fato nos deixou profundamente
impressionado. (O adjetivo se refere, na verdade a um pronome da
primeira pessoa (eu), subentendido.)
Trata-se do plural majestático, que ocorre, portanto, sempre que a
primeira pessoa do plural expressa um só indivíduo.
Os desavisados acham que o orador ou o escritor erra, ao proceder
assim.
Consulte Silepse de número, em Nossa gramática contemporânea, da
Escala Educacional.
2 6 NÃO ERRE MAIS! 7 1
"Mogi" é palavra de origem "tupi-guarani"?
A palavra de origem tupi é, em verdade, Moji, de onde sai mojiano (a
grafia "mogiano" não existe). "Mogi" é apenas a forma tradicional.
O tupi e o guarani constituem línguas distintas. Na verdade, o que
existe é o grupo, a família tupi-guarani, não a língua.
O tupi era a língua usada pelos jesuítas na catequese; era falada do
Maranhão a São Vicente (SP), a primeira cidade brasileira. O guarani, um
dialeto do tupi, era a língua falada pelos nativos de São Vicente ao Paraguai,
onde até hoje é a língua oficial, ao lado da castelhana.
O tupi é o idioma indígena que mais contribuiu para o léxico português.
Foi a língua da catequese e a língua das bandeiras: os bandeirantes
conheciam muito bem o tupi, o que lhes facilitava a comunicação com os
índios, na busca do ouro e das pedras preciosas.
Na Universidade de São Paulo (USP), no departamento de Letras
Vernáculas, existe uma cadeira, e apenas uma: Tupi. Ninguém, ao menos
até agora, apresentou-se para ministrar aulas de"Tupi-Guarani"...
Mogi-Guaçu
Os intransigentes preferimos grafar Mojiguaçu, além de Embuguaçu
e Mojimirim. Primeiro, porque Moji é palavra de origem indígena; segundo,
porque os sufixos -açu ou -guaçu (= grande) e -mirim (= pequeno) só se
ligam por hífen a palavras terminadas em vogai acentuada graficamente
(p. ex.: amoré-guaçu) ou em tônica nasal (p. ex.: capim-mirim).
Fora daí, o emprego do hífen é desnecessário e, naturalmente, incorreto.
Note que ninguém escreve "cupu-açu", mas cupuaçu. Sendo assim,
cabe-nos a nós, os intransigentes, corrigir o que os antigos fizeram errado.
Aliás, eles escreviam "Mogi-Guassu","Embu-Guassu". Alguns preferiram
corrigir parcialmente; os intransigentes preferem a correção integral...
Jaboticabal / Pirassununga / Bagé
• Estão no mesmo caso de "Mogi": devem ser preteridas tais formas.
Uma das grandes virtudes do ser humano é a coerência. E não há coerência
naqueles que grafam Jaboticabal a par de jabuticabalénse. Ora,
escrever que jabuticabalense é aquele que nasce em Jaboticabal é uma
notória incoerência. A menos que ainda queira escrever "jaboticaba".
Como a Reforma Ortográfica de 1943 veio corrigir todas as discrepâncias
que havia na nossa maneira de escrever, não posso aceitar que ainda haj a
pessoas que não a tenham acatado. Quem for a qualquer bom dicionário
só encontrará jabuticabalense, piraçununguense, bajeense. Como, então,
querem morar em Jaboticabal, Pirassununga e Bagé?
pé-rapado
Este composto, eminentemente popular, cujo significado é que ou pessoa
que tem baixa condição socioeconômica, pode ser adjetivo e também
2 6 NÃO ERRE MAIS! 8 1
nome sobrecomum. Não varia em gênero: Tenho uma amiga pé-rapado.
1'lssa mulher é um pé-rapado.
Muito bem. Todo brasileiro sabe que as nossas telenovelas não são
positivamente um marco no processo de educação em nosso país. Numa
delas (Cabocla), diz, então, uma de suas personagens: Não vejo como um
moço fino e bonito como o Luís possa viver bem com uma cabocla pé-rapada
como Zuca.
Na verdade, aí, além do erro "pé-rapada" , existe uma notória redundância,
já que todo Luís (ou Luiz) é fino e bonito...
"quisto" ou cisto?
Cisto é a forma correta, embora na língua cotidiana muito se encontro
"quisto".
Opinião do embaixador Itamar Franco, publicada pela Folha de S.
Paulo em 26 de maio de 2005, sobre Romero Jucá, ministro da Previdência,
e Henrique Meirelles, presidente do Banco Central: Não convém ao
PT, não convém ao presidente a permanência desses homens. São "quislos
"no governo. "Quisto"no governo faz mal à opinião pública.
Há muito mais coisas que fazem mal à opinião pública, embaixador.
horas "extra"
As pessoas fazem horas extras, vôos extras e lêem edições extras. A
palavra varia normalmente no plural, e a pronúncia correta é êstra(s).
Apesar de certos supermercados, que divulgam justamente o contrário.
"extra-terrestre"
O prefixo extra- (que se pronuncia êstra) só exige hífen antes de palavras
iniciadas por vogai (extra-escolar; extra-oficial, extra-uterino), h
(axtra-humano), r (extra-regulamentar) ou s (extra-sensorial, extra-so-
/ur). Portanto, sem hífen: extraclasse, extraconjugal, extrajudicial, extramatrimonial,
extraprograma, extraventricular, etc.
Em Fortaleza há um apresentador de televisão famoso por imitar Sílvio
Santos. Recentemente, perguntou a um de seus "jurados": Dr. Lima, o
senhor acredita em "extras terrestres "?
A imitação era, realmente, perfeita...
"neste" sábado / "neste" domingo
Quando se diz Sábado eu vou, já se entende que se trata do próximo
sábado. Quando se diz Domingo eu vou, já se entende que se trata do
próximo domingo. E assim por diante.
As emissoras de televisão, no entanto, insistem em anunciar: "Neste
sábado"não percam o nosso programa de calouros. *** "Neste domingo",
não percam o Domingão do Leitão.
Se o anúncio de um programa que será exibido no sábado for numa
2 6 NÃO ERRE MAIS! 9 1
quinta-feira, por exemplo, deverão usar depois de amanhã-, se for numa
sexta-feira, usem amanhã; se for no próprio sábado, usem hoje.
Pode ser, todavia, que as palavras hoje e amanhã e a expressão depois
de amanhã tenham caído em desuso. Se for esse o caso, quero que todos
me perdoem...
No site de um jornal, exatamente no dia da notícia: A partir "deste
domingo", usuários de celulares terão de de escolher a operadora que
fará as chamadas de DDD e DDI.
E se fosse a partir de hoje, seria diferente?
No site do mesmo jornal, numa segunda-feira: O líder do governo na
Câmara afirmou hoje que a base governista tentará concluir "nesta terça-
-feira"a votação da reforma da Previdência.
E se fosse amanhã, não seria melhor?
Notícia veiculada numa sexta-feira: Sob aplausos e gritos de "santo,
santo", a multidão que participa emocionada do funeral de João Paulo II,
"nesta sexta-feira", na basílica de São Pedro (Vaticano), interrompeu os
ritos por alguns minutos, logo após a comunhão, pedindo a canonização
do sumo pontífice, que morreu no sábado (2).
Notícia lida numa quarta-feira: A chegada de dom Cláudio Hummes,
arcebispo de São Paulo, para os funerais do Papa João Paulo II está prevista
para "esta quarta-feira ".
Por que não usar hoje, em ambos os textos?
Na primeira página de um jornal paulistano, numa segunda-feira: O
jornal espanhol ABC diz "nesta segunda-feira" que já estão começando
a aparecer relatos de curas milagrosas que teriam sido realizadas pelo
Papa João Paulo II quando ainda estava vivo.
Se usasse hoje, o jornalista, além de economizar espaço, pouparia o
leitor a mais essa excrescência do jornalismo brasileiro.
relâmpago
Esta palavra não varia quando usada com o valor de adjetivo, por
muito rápido. Portanto, construímos: gols relâmpago, promoções relâmpago,
etc.
Numa folha paulistana: Cinco homens foram presos nesta quarta-
-feira acusados de praticar roubos em casas na região do Jabaquara, zona
sul de São Paulo, com características de seqüestros "relâmpagos ".
Note ainda que os jornalistas parece não serem capazes de se livrar
do vício: aí também se vê "nesta quarta-feira "por hoje.
Manchete de um diário de São Paulo: Quadrilha internacional fez 72
seqüestros "relâmpagos".
Veja, agora, como escreveu um jornalista cearense: O autor de dois
"seqüestros-relâmpagos" ocorridos anteontem à noite, na área nobre da
Capital, foi capturado em flagrante por policiais militares.
Não satisfeito apenas com relâmpago, no singular, o nobre jornalista
achou ainda de usar um hífen completamente desnecessário. Para ligar o
que a quê?
2 6 NÃO ERRE MAIS! 9 1
Estado "de" Mato Grosso do Sul
Os nomes de Estado que trazem modificadores exigem obrigatoriamente
o uso do artigo. Portanto: Estado do Rio Grande do Norte, Estado
do Rio Grande do Sul, Estado do Mato Grosso do Sul.
O Estado do Mato Grosso do Sul, no entanto mando u timbra r todos
os papéis oficiais sem o artigo: Governo "de" Mato Grosso do Sul. É pouco
provável, entretanto, que algum membro do governo do Mato Grosso do
Sul já tenha dito que passou "por" Rio Grande do Norte ou que já tenha
morado "em" Rio Grande do Sul.
Estado "do" Mato Grosso
Nome s de Estado normalment e não exigem o emprego do artigo, a
não ser nos casos vistos acima e no de Bahia. Portanto: Estado de Mato
Grosso. Moro em Mato Grosso. Gosto muito de Mato Grosso.
Noticia, então, uma folha paulistana: Um terremoto considerado moderado
atingiu o norte "do"Mato Grosso na tarde desta quarta-feira.
Esse texto, tão curto, traz mais dois inconvenientes: "norte", com mina
i minúscula, quando deveria ter inicial maiúscula; e "desta quarta-feiin"
em vez de hoje (a notícia estava sendo veiculada na própria quarta -
feiru).
Estado "de" Tocantins
A exemplo de Mato Grosso do Sul, este nome também exige o artigo:
Moro no Tocantins. Conheço o Tocantins. Governo do Tocantins. Há
jornalist a que ainda não aprendeu esta singela lição. Veja: Médicos cubanos
são proibidos de trabalhar "em" Tocantins. Os 62 médicos cubanos
que trabalham no Tocantins devem voltar ao seu país nesta sexta-feira.
A decisão é do juiz federal Marcelo Albernaz, que concedeu liminar ao
Conselho Regional de Medicina "de" Tocantins pedindo que eles fossem
impedidos de atuar profissionalmente por falta de registro na entidade.
Repare: ora o jornalist a usa o artigo, ora não. Quem é a vítima? O
leitor, que fica sem saber se,é isto ou aquilo.
está na hora dela chegar
Há uma tendência no portuguê s contemporâneo de contrair a preposição
de com o artigo ou o pronome antes de orações reduzida s de infiniI
ivo, em benefício da eufonia. De fato, os melhores escritores portugueses
c brasileiros efetuaram a contração. Por isso, não há nenhum risco da
língua ruir...
Sinta-se, portanto, plenament e à vontade par a construir frase s como
estas: Ele sai para o trabalho antes do Sol nascer. *** Em vez dele ir ao
cinema, foi ao estádio. * * * No momento do avião decolar, começou a pane
no motor. * * * Já passou do tempo do governo perceber que a falta de segurança
é gravíssima. * * * Chegou a hora desses caras se mancarem. * * *
2 6 NÃO ERRE MAIS! 10 1
O fato do Brasil ficar na América do Sul não significa que seus habitantes
falem espanhol. *** Apesar dela ter-me feito isso, ainda a amo. *** Não
gosto do modo dela me beijar.
Afinal, todos dizemos Chegou a hora da onça beber água. Ou alguém
prefere separar?...
recomendar "para que"
Ninguém recomenda "para que"nem"par a alguma coisa". Este verbo
se constrói corretamente assim: Recomendei a meus filhos que voltassem
cedo. (E não: Recomendei a meus filhos "para que" voltassem cedo.) ***
Recomendei a ela que fosse deitar-se. (E não: Recomendei a ela "para que"
fosse deitar-se.) *** Vou recomendar a ela ter cautela nessa questão.. (E
não: Vou recomendar a ela "para" ter cautela nessa questão.) *** Ela não
tinha condições para fazer ginástica; recomendei-lhe, então, que pegasse
seu ônibus dois pontos antes. (E não:... recomendei-lhe, então,"para"que
pegasse seu ônibus dois pontos antes.)
Na mídia: Foi Nossa Senhora que, em Fátima, recomendou aos três
pastorinhos "para" que rezassem o Terço todos os dias, afim de alcançarem
a paz.
O objeto indireto pode vir antecedido tanto de a quanto de para: O
filme é bom e já o recomendei a (ou para) várias amigas.
patinar / patinhar
Só patina quem anda em patins. Como carro nenhum neste mundo
não possui patins, na lama ou na neve ele patinha, ou seja, suas rodas giram
em falso, fazendo um movimento parecido com o dos patos na água.
Usa-se patinhar em sentido figurado por escorregar ou, então, por
não evoluir ou não progredir, estacionar. O jogador patinhou na hora de
fazer o gol. *** A cultura musical brasileira regrediu, patinhou ou evoluiu
depois da bossa nova?
De um âncora de telejornal: A economia mundial "patina": só na
Alemanha, o PIB caiu 2%.
Manchete de um jornal paulistano: Corinthians "patinou"em Salvador:
0 a 0.
É difícil imaginar que economia e equipes patinem, ainda que seja o
Corinthians...
O uso de patinar por patinhar é tão descabido, que nenhuma palavra
da mesma família de patinar tem ligação semântica com patinhar. Há
dicionários que contrariam tudo isso.
a gente "véve" bem aqui
Imagine se não vivesse... Pessoas a quem falta alguma escolaridade
costumam usar"véve"por vive e também"asséste"por assiste. São pessoas
que devem ter muita afinidade com Bento Carnêro,"vampir brasilêro",
aquele que "véve" no além e no aquém...
2 6 NÃO ERRE MAIS! 12 1
os "sem-terra"
Há quem defenda esta "concordância". Nesta vida há mesmo de
tudo! Se há até os que vivem no aquém, temos naturalment e que compreender...

Na verdade, o que as pessoas fazem é uma ligeira confusã o entre
a expressão Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra, (legítima,
já que sem neste caso é preposição) e Movimento dos Sem-Terras
(aqui sem já não é preposição, mas prefixo, daí por que o substantivo
(cin de variar). O diabo é que poucos conhecem a diferenç a entre um
elemento e outro; a conseqüência, evidentemente , só pode ser uma
grande confusão.
Vamos, contudo, ao cerne da questão. Existe uma regra que preceitua
o seguinte: todo substantivo composto formado de prefixo + substantivo
luz o plural com variação do segundo elemento. Isso está em qualquer
gramática, até mesmo nas mambembes. Assim, temos: os ex-ministros, os
r/rc-prefeitos, os sem-vergonhas, os sem-tetos, os sem-lares, os sem-carrtis,
os sem-culturas, os sem-dentes, os sem-túmulos, os sem-responsabiIidades,
os sem-juízos e, naturalmente, os sem-terras.
Há dicionários que dão o plural de apenas alguns compostos desse
tipo, mas incompreensivelmente se omitem em outros. Por que dar o plural,
por exemplo, de sem-fim e de sem-justiça, mas não de sem-terra? Só o
aquém explica...
Na mídia: Na terra dos "sem-delegacia" o tráfico é rei. *** Rossetto
todo feliz no palácio...e os "sem-terra" botando pra quebrar. *** A Vale do
Rio Doce entrou para o movimento dos "com-avião ". É agora proprietária
de um Cessna.
É, de fato, uma criatividade emocionante!
De um articulista da revista Veja: Não se deixe enganar pelas sandálias
havaianas dos "sem-terra".
Eu não me deixo enganar...
Os que desatinadamente aceitam "os sem-terra" ou "os sem-teto"são
obrigados, por coerência, a aceitar concordâncias grotescas, como estas,
que já apareceram e continuam aparecendo em revistas e jornais brasileiros:
"Sem-terra seqüestram" caminhão em Pernambuco. *** Obrigados
pela Justiça a desocupar uma fazenda em São Paulo, "sem-terra
roubaram"eletrodomésticos e mataram animais. *** "Sem-terra prevêem"
intensificação de invasões. *** "Sem-terra tomam"secretário como
refém em Alagoas. *** "Sem-teto fazem" manifestação em frente ao INCRA.
*** "Sem-teto da República vão"para Rua Aurora. *** "Sem-teto
2 6 NÃO ERRE MAIS! 13 1
tentam"invadir cinco imóveis em São Paulo. *** "Sem-terra invadem"
Ministério e debocham do país.
Recentemente, a Veja trouxe isto: Um grupo de sem-terra "ocuparam"
uma fazenda da multinacional Monsanto, para queimar plantação
de transgênicos.
Ou seja: a mais clássica concordância do absurdo.
Com esse tipo de "concordância", os jornalistas brasileiros conseguem
inovar, invertendo uma situação sintática, pois as pessoas iletradas
costumam deixar o verbo no singular, quando o sujeito está no plural (As
pessoas "vive"bem aqui. Nós "fica"em casa quando chove.).
Como continuo acreditando na evolução do ser humano, repudio tal
"concordância". Mas se o jornalismo brasileiro "véve"bem com elas, que
fique à vontade, que vá em frente ! Afinal, cada qual deve sentir-se à vontade
no ambiente em que "véve"...
atender "o" telefone
Quando o complemento é coisa, o verbo atender se usa com a preposição
a: atender ao portão, à porta, à campainha, ao pedido, aos seus
próprios interesses e, naturalmente, ao telefone.
Quando o complemento é pessoa, podemos dispensar a preposição:
atender o (ou ao) pai de aluno, atender os (ou aos) deputados, atender os
(ou aos) empregados.
No site da Abrelivros, órgão dos principais editores brasileiros: No
dia 13 de maio, o Ministério da Cultura e o Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES) anunciam um conjunto de medidas
que serão tomadas pelo banco para atender "o" mercado editorial
brasileiro, e que integrarão o Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL)
com a alcunha de BNDES-PROLIVRO.
De um secretário da Educação de São Paulo: O governo "atende
uma"reivindicação justa dos professores.
Atente, por favor para o cargo: secretário da Educação!
Ir "à" cavalo / ir "à" pé
Antes de palavras masculinas não pode haver à, a não ser em casos
especialíssimos, que a gramática prevê.
A verdade é que todo o mundo vai mesmo a cavalo e a pé.
Repare nesta notícia do provedor Terra: Os ruralistas aceitaram na
reunião "deste domingo" suspender a barreira na ponta se os "sem-terra""voltassem"à
localidade de Passo do Verde, onde também há colonos
acampados. No entanto, o MST não concordou com a proposta. Neste
momento, fazendeiros "à" cavalo e "à" pé, munidos de pedaços de pau,
lanças e "cacetetes" estão de um lado da ponte, e os "sem-terra"permanecem
no outro com bandeiras do movimento.
2 6 NÃO ERRE MAIS! 14 1
No lugar de "deste domingo" deveria estar hoje; no de "sem-terra",
.r ni-terras, no lugar de "voltassem", voltarem; no de "à" cavalo, a cavalo;
no lugar de"à"pé , a pé; e, finalmente, no de"cacetetes", cassetetes.
O nível do jornalismo brasileiro contemporâneo é de arrepiar!
Logo abaixo, voltava-se a ler: O efetivo policial, que contava com dez
oi aturas, além de homens "à" cavalo e "à"pé da Polícia Militar e da Polícia
Rodoviária Federal, está sendo reforçado por Batalhões de Operações
Kspeciais das cidades próximas.
Esquecem-s e nossos jornalista s de que o castigo sempre vem a
cnvulo...
assistir
Este é um verbo transitivo indireto, na acepção de ver, presenciar:
assisti ao espetáculo, assisti ao filme, assisti à cena, etc. Isso quase todo
o inundo sabe. O que poucos sabem é que este verbo não admite o pronome
lhe (ou variação) como complemento, mas sim a ele (ou variações).
Portanto, devemos construir: O filme é bom, mas ainda não tive tempo de
assistir a ele (e não: "assisti-lo"). A cena foi essa, e muita gente assistiu a
<7« (> não: "assisti-la").
Eis, no entanto, como declara um diretor de telenovela: A novela
A mérica é histérica. Todos falam acima do tom. Tenho deixado de "assisti
Ia" porque é estressante.
Estressante: eis a palavra certa!
bicho-de-sete-cabeças
Qualquer criança sabe disso: bicho-de-sete-cabeças (com hifens) é
coisa complicada, difícil de fazer, de resolver ou de entender: Informática
não é um bicho-de-sete-cabeças. Não se confunde com bicho de sete cabeças
(sem hifens), que é um ente ou monstro imaginário, de sete cabeças.
Eis como um jornalista de um dos grandes jornais de Fortaleza achou
de elaborar o título de uma notícia: Automação não é nenhum "bicho de
sete cabeças".
Que ninguém duvide disso!...
"Chega" ao fim os erros dos jornalistas?
Parece que não. Veja o que um deles escreveu no site de A Gazeta
Esportiva, em manchete: "Chega" ao fim as trajetórias de Hierro e Del
IUísque no Real Madrid.
Quando é que chegam ao fim? Nunca?!
empatar / empatado / empate
Uma equipe empata com outra sempre de (ou por) determinado placur,
e não "em". Ex.: O Flamengo empatou com o Vasco de (oupor) 2 a 2.
2 6 NÃO ERRE MAIS! 15 1
Empatado se usa com as mesma s preposições, porém, empate só aceita
de: O jogo terminou empatado de (oupor) 2 a 2. *** O empate de 2 a 2
agradou às duas equipes. *** O jogo terminou em empate de 0 a 0.
Na mídia: Com um futebol completamente apático, o Brasil não saiu
do empate "em" 0 a 0 com a seleção da China.
Há até um dicionário especializado em regência nomina l que registra
"empate em". Pois é.
"Quem gostaria? "
Eis a pergunt a mais asinina dos últimos tempos. A pessoa atende
ao telefone e, antes de chama r a pessoa com quem desejamos falar, faz
essa clássica pergunta , em vez de Quem deseja falar com ele (a)? Existem
atendentes, ainda, que acentuam e prolongam a primeir a sílaba do verbo,
tornando-s e ainda mais dolorosa a pergunta: "Quem gosssstaria?". Eu
bem que gostaria...
No futebol, uma vitória por 4 a 3 é goleada?
Não. Goleada é uma vitória por uma diferenç a igual ou superior a
três gols. Por exemplo, quando o Palmeira s vence o Corinthians por 4 a 1.
Outro exemplo: quando o Palmeira s é derrotado pelo Vitória por 2 a 7.
Os jornalista s esportivos têm dito, em vitórias de 4 a 3 e de 5 a 4, que
o time vencedor aplicou goleada. Equivocam-s e (aliás, é o que mais eles
fazem): goleada não é vitória por muitos gols. A goleada existe na diferença,
e não na quantidade .
perder por "5 a 0"
Só as vitórias merecem os placares favoráveis; as derrotas merecem,
naturalmente , os desfavoráveis. Assim, em rigor, um time vence por 5 a 0
e perde por 0 a 5.
No site de um provedor da Internet: Bastou uma derrota na primeira
partida da temporada para conturbar o ambiente no São Paulo. Cartolas
do clube bateram cabeça após os "2 a 1 "contra o Paulista de Jundiaí, pelo
Paulistão.
Perde r de"2 a 1" agrava ainda mais a dor de cabeça...
Escreve um jornalist a esportivo: O Santos perdeu por "2 x 0"para o
Vitória, da Bahia, pois não soube aproveitar as chances.
Ora, se o Santos perdeu, como partir do número positivo?
trave = travessão?
Não. Trave é o nome de cada um dos postes ou barra s verticais que
sustentam o travessão, a barr a horizontal que une as traves, delimitando
a altura do gol ou arco. Assim, uma bola que bate na trave, vai de en2
6 NÃO ERRE MAIS! 16 1
rontro necessariamente a um dos postes laterais; se bate no travessão,
evidentemente, não bate na trave.
Alguns narradores esportivos, no entanto, falam em bater na trave,
cm referência ao encontro da bola contra o travessão. Na emoção do gol
que não saiu, a torcida nem percebe o dislate. Mas há quem, em meio ao
uuuuuuuuuuuuuu da torcida, está atento e grita sozinho: uuuuuuuuuuu
(agora não é nenhuma emoção, é vaia mesmo...).
dengue
Tanto o nome do mosquito quanto o nome da doença são femininos:
ii dengue. Recentemente, porém, o apresentador de um programa de esportes
pela televisão, armando-se de grande autoridade em assuntos do
idioma, disse que era "o"dengue, e não a dengue. E falou com uma segurança
de arrepiar criancinha!
Pessoas desse tipo só prestam desserviços. Há indivíduos que se julgum
sábios só porque conhecem de cor escalações de equipes de futebol
do tempo do Onça. É muito pouco! Mas sempre se consegue enganar alguém.
E o homem recebeu o título de cidadão paulistano em 2003. No
Hrasil, é assim...
Rui Barbosa foi cognominado "o" Águia de Haia?
Seria uma afronta, e não um elogio, se conferissem a Rui Barbosa o
cognome de "o" Águia de Haia, porque o águia é o mesmo que o velhaco,
o espertalhão, o vigarista, o cabra-safado, o sabichão (com toda a carga
pejorativa que o termo encerra).
No feminino, águia é o mesmo que inteligência, sagacidade. Sabe-se
que a águia é a ave que representa a perspicácia, a sutileza, o talento, a
inteligência, virtudes que se acumulavam em Rui, a quem com justiça
denominaram a Águia de Haia.
O mesmo apresentador de um programa de esportes da televisão que
garantiu a todos os espectadores que o correto era "o" dengue, afirmou
i|uc Rui Barbosa foi "o" Águia de Haia.
Como pululam os águias por aí!...
cólera
Em qualquer sentido, só existe a cólera.
Certa vez uma fábrica de desinfetante provocou muita cólera, ao
anunciar:
Não deixe "o" cólera atacar. Proteja sua família.
Continuavam: "O"cólera é uma doença infecciosa que ataca o sistema
digestivo, produzindo diarréia, podendo levar à morte. Para proteger
sua família contra esse inimigo, alguns simples cuidados devem
ser tomados.
Falar em proteção e em inimigo a esta altura já é demais!
Na campanha presidencial de 2002, um dos candidatos declarou (sem
2 6 NÃO ERRE MAIS! 17 1
ficar vermelho): Quando Ciro foi governador do Ceará, a dengue e "o"
cólera tiveram os índices mais altos do Ceará. Ele chegou a ser apelidado
de governador "do " cólera.
Mentira dá nisso.
fome
A pronúncia correta desta palavra éfôme (com o fechado). Se não estiver
com fome, convém pronunciar fôme. Mas se estiver com muita fome,
é melhor pronunciar fôme. Isto é, sem abrir muito a boca (porque não há
nenhuma necessidade).
Creio que me fiz entender: é sempre melhor estar com fôme. Há, no
entanto, os que preferem estar sempre com "fome". Cada um tem a fome
que merece.
Quando o governo de Lula lançou o programa Fome Zero, alguns
apresentadores de telejornais diziam corretamente: fôme (principalmente
os cariocas e nordestinos). Outros, bem, outros ainda continuam com
"fóme"...
homem / lobisomem
Pronunciam-se também com o fechado. Toda vogai que antecede
consoante nasal é fechada. Não há exceção a esta regra. Jamais encontraremos
no português do Brasil uma vogai aberta antes de consoante nasal
(cf. ema, ama, cama, lenha, banha, fronha, dona, etc.).
Por que, então, as pessoas dizem "fóme", "hómem", "lobisomem"?
Ora, porque cada um vive e diz como quiser. Aqueles que quiserem, podem
ficar à vontade e continuar dizendo: O "hómem" que "cóme" sem
estar com "fóme"vira "lobisomem".
A gente sempre entende...
Toninho / Tonho / Tonhão
Todos estes três nomes são hipocorísticos de Antônio. Todos têm o
primeiro o fechado, justamente pela presença da consoante nasal (nh).
Curioso é que no Brasil todos escrevemos Antônio, com acento circunflexo
no o (indicando som fechado), e quase todo o mundo diz "Antônio",
que é a pronúncia e a escrita lusitanas. Daí por que, no meio popular,
também se ouve "Tòninho", "Tónho", "Tònhão". Além desses, há mais
um: Totonho, que o vulgo pronuncia "Totónho".
Note, todavia, que outro hipocorístico de Antônio muito comum
é Tôni (e não "Tóne"). No interior paulista, todavia, existem muitos
"Tónes".
EM TEMPO - Hipocorístico é o nome curto e carinhoso, retirado do
próprio nome de batismo, geralmente duplicado ou no diminutivo, ao
qual o povo chama apelido. Assim, Lili, Ciça, Lulu, Chico, Zezé, Toninho,
Toninha, Tonho, Totonho, Tonhão, etc. são hipocorísticos, nome difícil
para designar coisinhas tão curtas e carinhosas.
2 6 NÃO ERRE MAIS! 18 1
Jonas
Também se pronuncia com o fechado: Jônas. Repare na presença da
ronsoante nasal (n). Em boa parte do Brasil, contudo, se diz "Jónas". Mas
por que diabos nenhum brasileiro diz também "dóna", "lona", "sóno"?
Por quê? Porque isso é coisa de português.
Jaime
Pronuncia-se com o ditongo fechado: Jaime. O ditongo ai, quando
nntecede fonema nasal, soa fechado. Repare: amaina, andaime, paina, faina,
Baima, sotaina, polainas, Taino, Gislaine, Elaine (no Nordeste se diz
"eláine"). Os cariocas pronunciam corretamente este nome; os paulistas,
bem os paulistas estão na extremidade oposta à dos cariocas, neste item.
Roraima
A pronúncia correta deste nome é Roraima (o ditongo é fechado),
pelas razões expostas anteriormente.
Quem diz "Roráima", com o ditongo aberto (e há os que insistem nesiia
pronúncia) fala mal, dá mau exemplo, presta desserviço à educação, já
que nas salas de aula se aprende que a pronúncia correta é Roraima. Na
verdade, quem diz "Roráima" imita os índios ianomâmis da região que,
impossibilitados foneticamente da nasalação, dizem "Roráima". Ora, mas
eles assim pronunciam, porque não conseguem articular fonemas nasais.
Nós não conseguimos?
TV E
Diz-se TV é (as vogais e e o, pronunciadas isoladamente, soam abertas).

Vamos, então, ler em voz alta: vitamina E, a turma E da escola, Tafman
E, lâmpada GE, o TRE, o DNER, o DER, a ECT, o BNDES, a série E
da Mercedes-Benz, o grupo E da Copa do Mundo, Toyota XE, o Corolla
SE-G; o SOS, a LDO, o ET (= extraterrestre), etc.
A Mercedes-Benz resolveu, recentemente, divulgar pela televisão os
seus automóveis. Uma voz que se ouvia antes do início do Jornal Nacional
anunciava: Mercedes-Benz Classe "ê" oferece o Jornal Nacional.
A marca é boa, o carro é bom, mas o apresentador furou os quatro
pneus do carro...
quilômetro / têxtil / têxteis
Note: estas três palavras têm acento circunflexo na vogai tônica, indicando
que se trata de vogais fechadas. Então, por que quase todo o
mundo pronuncia"kilómetro","téstil","tésteis"? Só o sobrenatural tem a
resposta.
2 6 NÃO ERRE MAIS! 19 1
sobressair
Este não é nem nunca foi verbo pronominal, o que eqüivale a dizer
que nunca devemos usá-lo com o pronome oblíquo ("sobressair-se").
Na mídia: Não se pode negar que o Omega foi um carro que passou
por problemas, afinal, ele veio para substituir o mito Opala, talvez o carro
mais querido do Brasil. Porém, suas qualidades "se sobressaíram" e ele
se tornou um líder de vendas, assim como seu antecessor. *** Cazuza
foi, sem dúvida, um cantor e compositor que "se"sobressaiu no rock nacional.
*** O fato de o cacto "se"sobressair em regiões áridas deve-se à
capacidade de armazenamento de água em seu interior. *** Num setor
onde as maiores multinacionais investem bilhões de dólares, a Gurgel
"se" sobressaía usando tecnologia e recursos nacionais, que, porém, não
foram suficientes para evitar a sua falência.
Escrever assim, francamente , é querer levar a língua à falência.
Aliás, à falência também andam querendo levar a língua certos dicionários,
tidos por muita gente como a fina flor da lexicografia portuguesa.
Como pode ser visto assim um dicionário que registra sobressair
como verbo pronominal? Deste assunto, ainda trataremos adiante.
Sua "senhora" já chegou?
A palavra feminina que corresponde a marido é mulher, somente
mulher.
Esposo e esposa, por sua vez, são termos que se usam em meios bem
específicos (jurídico e administrativo), além de se aplicarem propriamente
em referência a pessoas ilustres e a deuses da antigüidade: O duque
veio acompanhado da rainha, sua esposa. *** A primeira-dama não soube
explicar por que o presidente, seu esposo, deixara de usar aliança na
mão esquerda. *** Júpiter era o esposo de Juno?
Recentemente, num desses programas populares da televisão, o apresentador
perguntou a uma senhora que sobrevive catando papel nas ruas:
A senhora veio com seu "esposo"?
Não tenho nada "haver" com isso.
Na verdade, esta frase é que não tem nada a ver...
Sim, porque esse é um caso de emprego da preposição a + o verbo
ver, e não do verbo haver, que não tem nada a ver com isso. Por isso, estas
são as frases que têm tudo a ver: Sua opinião não tem nada a ver com a
minha. * * * Seu papo tem tudo a ver comigo.
Como se vê, trata-se de um uso eminentemente popular, restrito à
língua falada despretensiosa, princ. dos jovens. No português castiço,
usa-se assim: Não tenho nada que ver com isso. *** Sua opinião não tem
nada que ver com a minha. *** Seu papo tem tudo que ver comigo.
A garotada, porém, não quer nem ouvir falar nisso. Com razão, porque
esse uso está muito mais próximo de Portugal que do Brasil.
2 6 NÃO ERRE MAIS! 20 1
brasileiros e brasileiras
Esta é uma invenção de um ex-presidente da República, no afã de
agradar ao eleitorado feminino.
A expressão não teve o mesmo brilho com Collor, mas foi reabilita-
<n pelo Sr. Fernando Henrique e, agora, parece prestigiada, se bem que
ilc forma mais ou menos alterada, por Lula, que recentemente declarou:
K.vía é a hora de cada "brasileiro e brasileira"pensar menos em si mesmo
c mais no país.
Ora! Não há nenhuma necessidade de usar o adjetivo pátrio no feminino.
Quando dizemos O Brasil espera que cada brasileiro cumpra seu
dever, já estamos nos referindo ao homem e à mulher. Ou o Brasil só espera
que o homem brasileiro cumpra seu dever?
Quando afirmamos que o Brasil tem mais de 140 milhões de eleitores,
jíü estamos nos referindo ao homem e à mulher. Acrescentar"e eleitoras"é
de uma primariedade imperdoável. E asinina, naturalmente. Isso de querer
agradar às mulheres, ofendendo a língua, não me parece boa política.
Ademais, com aquele acréscimo injustificado, a frase acabou trazendo
erros elementares de concordância, pois pensar e mesmo deveriam estar
no plural.
O presidente Lula declarou em setembro de 2003 que erradicaria o
analfabetismo do país até 2006. Vejamos como um jornalista nos trouxe
a notícia: Segundo Lula, os brasileiros e brasileiras que aprenderam a
ler e a escrever devem socializar esse conhecimento com aqueles que não
I iveram a mesma oportunidade e, assim, será possível acabar com o analfabetismo
no país.
Realmente, com um pouco de esforço até que dá...
Quem usa essa expressão equivocada fica obrigado, pela coerência, a
usar também "eleitores e eleitoras", "telespectadores e telespectadoras",
"leitores e leitoras","lixeiros e lixeiras", etc., como, aliás, fez o ministro
da Previdência, em 2003, em carta aberta aos funcionários públicos.
O início da carta estava assim: "Caras servidoras e caros servidores".

Ora... A seguir por aí, uma escola não tem tantos mil alunos, tem tantos
mil "alunos e alunas". A seguir por aí, não existem hoje no país 185
milhões de brasileiros, mas 185 milhões de "brasileiros e brasileiras".
Agora, o dia 15 de outubro já não é o Dia do Professor. É o Dia do
1'rofessor e"da Professora" .Veja você!
Brincadeiras têm hora e lugar! E brincadeiras de mau-gosto não têm
nem hora nem lugar.
O presidente Lula se redimiu, em discurso improvisado, no congresso
da CUT, em junho de 2003, quando afirmou, cutucando seu antecessor:
Eu não tenho que falar inglês para ser respeitado no mundo. Eu tenho que
[idar português. Eu só tenho que falar a língua de 185 milhões de brasileiros
para merecer o respeito do mundo. Falou e disse...
Mas por ocasião da comemoração dos 50 anos de criação da Petro2
6 NÃO ERRE MAIS! 21 1
bras, no final do discurso, a recaída: Parabéns, petroleiros e "petroleiras"
de todo Brasil!
Ninguém é perfeito...
paisinho / paizinho
Convém não confundir. Paisinho é diminutivo de país; paizinho,
de pai. Há, ainda diferença de pronúncia: na primeira, existe hiato,
portanto se diz pa-i-si-nho; na segunda existe ditongo, portanto se
pronunci a pai-zi-nho.
Em setembro de 2003, por ocasião da formatur a de alguns diplomatas,
o presidente brasileiro emitiu uma nota afirmando que o Brasil já não
é aquele "paizinho" do Terceiro Mundo, aquele "paizinho" só do futebol,
aquele "paizinho" só do carnaval.
Paizinho, presidente, o Brasil nunca foi mesmo!
caça-níqueis
Usa-se assim tanto no singular quanto no plural: o/os caça-níqueis.
Recentemente, porém, o presidente da República, discursando em Caxias
do Sul, em meio à divulgação do primeiro escândalo no seu governo,
declarou, orgulhoso: Vou acabar com os "bingo"e com os "caças-níquel".
Só, presidente?...
simpatia
Quem tem simpatia, tem simpatia normalmente por alguém. Ninguém
deve duvidar disso. Portanto, construímos: Tenho simpatia por essa
atriz. * * * Essa é uma atriz pela qual tenho simpatia. * * * Essa é uma tese
por que não nutro simpatia. *** Esse é um regime por que nunca senti
nenhuma simpatia.
Muito bem. O presidente Lula discursa, então, por ocasião do lançamento
da loteria Timemania: O Botafogo é um daqueles times que não
têm uma torcida igual à do Flamengo e do Vasco, mas todo o mundo tem
simpatia.
Pode até ser que o Botafogo seja um time que não tem uma torcida
tão numerosa quanto a do Flamengo e a do Vasco da Gama. Mas posso
garantir que é um clube pelo qual todo o mundo tem simpatia.
a cavaleiro
Significa perfeitamente à vontade: Estou a cavaleiro para falar neste
assunto.
Depois de um discurso na ONU, afirmou uma autoridade brasileira:
O Brasil hoje é um país que está a "cavalheira", e não precisa renovar o
acordo com o FMI.
2 6 NÃO ERRE MAIS! 22 1
definição de ilha
A correta definição é: ilha é uma porção de terra cercada de água
marinha, fluvial ou lacustre.
Em alguns livros de Geografia, no entanto, lê-se redundantemente :
ilha é uma porção de terra cercada de água "por todos os lados ".
Há quem já tenha visto alguma coisa cercada que não seja por todos
os lados?
A toda ação corresponde uma reação igual "e contrária".
Frase que muito se ouve no dia-a-dia , mas também redundante , uma
vez que na palavra reação já existe a idéia de força contrária. Reagir significa
opor a uma ação outra que lhe é contrária.
A terceira lei de Newton, ou seja, a lei da ação e reação é enunciada
geralmente assim: A toda ação corresponde uma reação, com a mesma
intensidade, na mesma direção "e em sentidos contrários".
O melhor mesmo é enunciá-l a assim: A toda força corresponde uma
força contrária, de mesma intensidade e direção. Ou: A toda ação corresponde
uma reação igual.
prova dos noves
Prova corretíssima. A prova sempre foi dos noves. Veio o burro, não
soube faze r a prova e saiu dizendo que prova dos "nove"não era com ele.
Burro é sempre burro...
O nome dos números varia normalmente : os uns, os quatros, os cincos,
os setes, os oitos, os noves, etc. Só os que terminam em -s ou em -z
não sofrem variação: dois, três, seis e dez.
Assim, 44 se faz com dois quatros juntos; 111 se faz com três uns
juntos. Nenhum ser human o norma l forma 99 sem servir-se de dois noves
juntos, um ao lado do outro. Hoje, existe até dicionário que traz
"prova dos nove"! É o tipo de dicionário que tem vítimas, em vez de
consulentes.
anos "sessenta"
É o que mais se vê e ouve. Mas está errado. Há um notório erro de
concordância aqui, que poucos conseguem ver (ou enxergar). Quem sabe
distinguir numera i de substantivo facilment e vê; quem não sabe não vai
ver nunca . Muito menos enxergar.
O numera i é invariável; o substantivo não. Ter sete irmãos é uma
coisa; pinta r os setes é outra. No primeiro caso temos um numerai, por
isso, jamais caberia ali "setes"; no segundo caso temos um substantivo,
portanto: setes.
2 6 NÃO ERRE MAIS! 23 1
Vamos ver isto, porém, com mais calma! A década de 1960 é composta,
naturalmente , de dez anos:
1960 - mil novecentos e sessenta (já temos 1 sessenta);
1961 - mil novecentos e sessenta e um (temos, agora, 2 sessentas);
1962 - mil novecentos e sessenta e dois (temos 3 sessentas);
1963 - mil novecentos e sessenta e três (temos 4 sessentas);
1964 - mil novecentos e sessenta e quatro (temos 5 sessentas);
1965 - mil novecentos e sessenta e cinco (temos 6 sessentas);
1966 - mil novecentos e sessenta e seis (temos 7 sessentas);
1967 - mil novecentos e sessenta e sete (temos 8 sessentas);
1968 - mil novecentos e sessenta e oito (temos 9 sessentas) e
1969 - mil novecentos e sessenta e nove (temos 10 sessentas).
O fato se repete com as décadas de 1920,1930,1940,1950,1970,1980
e 1990. Já com a década de 1910, não é possível usar "anos dezes", primeiro
porque dez (que termina em -z) não varia (1010 se faz com dois
dez, e não com dois "dezes"); segundo, porque a década de 1910 é assim
formada :
1910 - mil novecentos e dez (portanto, 1 só dez);
1911 - mil novecentos e onze;
1912 - mil novecentos e doze;
1913 - mil novecentos e treze, e assim por diante.
Ou seja, não se repet e o dez em mais nenhum ano da referid a década.

Agora, que - espero - tudo está maravilhosament e mais claro, deixeme
revelar uma coisa: se você não viveu os maravilhosos anos sessentas,
os dourados anos sessentas, esteja certo: você não sabe o que perdeu!
Importante: sabemos que, apesar de todas as evidências, apesar dessa
irrefutáve l prova matemática , muita gente vai continua r vivendo dos
seus anos "vinte", dos seus anos "trinta" , dos seus anos "noventa", etc.
Cada um que viva do jeito que quiser, mas que ao menos tenha consciência!...

"esteje" / "seje"
Só existem as forma s esteja e seja. Por isso, seja sempre atencioso e
esteja sempre atento: anos sessentas!...
Muito pior do que usar "esteje" e "seje" é usar "teja" por tenha, como
fez recentement e o goleiro de um clube paulista, tido pelos jornalista s esportivos
como "intelectual": Por mais experiência que você "teja", antes
de uma partida importante você sempre fica meio tenso.
protestar a favor da paz
Expressão perfeita. Muitos pensam que só se protesta contra. Enga -
nam-se.
2 6 NÃO ERRE MAIS! 24 1
Protestar significa levantar-se, insurgir-se, clamar, bradar. Assim, todos
podemos (e devemos) protestar a favor da paz, protestar a favor do
amor, a favor da alegria e - sem dúvida - protestar contra os incêndios
na Amazônia, protestar contra a matança das baleias, protestar contra o
contrabando de nossos animais silvestres. Enfim, protestar a favor do ser
humano e veementemente contra o homem predador e irracional!
anético / anistórico
São, à luz da coerência, as formas rigorosamente corretas, muito melhores
e mais coerentes que "aético" e "aistórico".
Ora, em nossa língua, palavras iniciadas por vogai ou por h receitem
o prefixo an- (analfabeto, analgésico, anidro, anistórico); as iniciadas
por consoante recebem o prefixo a- (amoral, apartidário, apolítico,
ateu, atípico).
Se assim é (e não há exceção a essa norma), por que, então, "aético"?
Por que "aistórico"?
Um deputado paulista, ex-ministro de vários governos militares, declarou:
Economia é uma ciência "aética".
Definição anética.
Conhecido jornalista escreveu: O Estado vem se revelando um ente
"aético".
Bem, em pena de jornalista tudo é normal...
Recentemente, conhecida professora universitária declarou: O texto
c "a-histórico", equivocado e um desaforo!
Isso é português ou é desaforo?
Me dó um beijo!
É assim que todos nós, brasileiros, pedimos ao ser amado. Os portugueses
não. Pedem diferente: Dã-me um beijo! Por quê? Porque em sua
fala é mais fácil dizer Dá-me que Me dá. A nós, brasileiros, ocorre justamente
o oposto.
O português falado no Brasil guarda algumas diferenças de ordem
fonética em relação ao português lusitano, e não poderia ser mesmo diferente:
todo um oceano nos separa.
Entre nós, a próclise (colocação do pronome oblíquo antes do verbo)
tem preferência em quaisquer circunstâncias, mesmo que em início de
período. Tal preferência se explica e se justifica pelos padrões fonéticos
por nós utilizados.
Os brasileiros preferimos a próclise com alguma razão. Em Portugal,
a preferência pela ênclise (colocação do pronome oblíquo depois do verbo)
faz os lusitanos construir com visível duplo sentido uma frase como
esta, por exemplo: Os jornais chamam-nos de animais.
Os brasileiros evitamos a ambigüidade, ao construirmos: Os jornais
os chamam de animais.
2 6 NÃO ERRE MAIS! 25 1
Que brasileiro cantaria "Dá-me um dinheiro aí?"Que brasileiro pede,
ao balcão do bar, um cafezinho usando Dá-me?
Não se amofine com o assunto colocação pronominal, caro leitor: tenha
sempre como aliado o ouvido! E siga em frente!
Certos exames vestibulares continuam insistindo em exigir conhecimentos
de colocação pronominal com base na colocação portuguesa.
Exigência esdrúxula. É bom parar com isso.
O Sr. Antônio Ermírio de Moraes escreveu certa feita na Folha de S.
Paulo: A reviravolta soviética é estimulante. Nos faz pensar.
Tal colocação torna seu autor um inovador, um vanguardista, um
verdadeiro revolucionário. Adelante, camaradas!...
TEXACO - Produtos "que" o mundo confia.
Hoje em dia está muito perigoso viver, caro leitor! Está muito difícil
confiar em alguém, em alguma coisa. A gente abre o jornal, vem a bomba;
lê um anúncio, vem outra bomba; abre a revista, mais bomba; liga o televisor,
eis nova bomba! Vai a um posto de gasolina, leva bomba!
Não está fácil. Realmente, viver não está fácil!
Se quem confia, confia em alguém ou em alguma coisa, como pode a
TEXACO, empresa simpática, que nos vende gasolina boa e barata, adotar
um slogan mambembe desses?
Todos estamos certos de que na TEXACO se encontram produtos em
que o mundo todo confia. Então, por que nos causar tanta decepção?
Recentemente, a mesma TEXACO, empresa simpática, que nos vende
gasolina boa e barata, anunciou numa revista, em letras garrafais: Leve
seu carro "num"posto TEXACO para conhecer a gasolina "que"os pilotos
do mundo todo confiam.
Ora, sim senhor! Levar o carro "num" posto? Para abastecer com a
gasolina "que" os pilotos do mundo todo confiam? Não, prefiro levar meu
carro a outro posto, para conhecer outra gasolina, menos sofisticada, é
bem verdade, mas a gasolina em que eu mesmo confio...
Em vista disso tudo - a simpática TEXACO que me perdoe! -, mas a
pergunta me parece inevitável (e pertinente): confiar em quê?
penal = pênalti?
Não. Em futebol, a infração cometida por um jogador dentro da sua
grande área é punida com um chute livre direto, ou seja, com uma penalidade
máxima ou pênalti.
Certos jornalista s esportivos acham lindo usar "penal" por pênalti,
sinonímia inexistente, mas nem por isso fora de registro de certos dicionários.

2 6 NÃO ERRE MAIS! 26 1
motosserra
É esta a forma correta, assim como motobomba, motomecanizado,
motonáutica, motoniveladora, etc., sempre sem hífen, porque o elemento
moto- nunca o exige.
A revista Veja, contudo, na capa de sua ed. 1.592 (repare bem: na
capa), traz em letras garrafais, amarelas: O massacre da "moto-serra".
Era matéria exclusiva.
O erro, primário, chocou, principalmente por ter saído onde saiu,
mas não teria sido tão chocante se não houvesse a tentativa grotesca, na
edição posterior, de corrigir o equívoco. A emenda foi muito, muito, muito
pior que o soneto.
A Veja é a melhor revista de informação do Brasil - disparado! Não
precisava disso. Bastava reconhecer, numa linha: Erramos. Afinal, quem
não erra?
E, então, todos os seus leitores perdoaríamos.
"mega-sena"
Se você quiser ter sorte na vida, caro leitor, comece logo com o pé
direito: escrevendo corretamente: megassena.
O elemento mega- não exige hífen: megaempresário, megainvestidor,
etc.
Chorou, "ao" ponto de desmaiar
Não existe a locução "ao"ponto de, mas apenas a ponto de, de valor
consecutivo nas orações reduzidas de iníinitivo. Portanto: Chorou, a ponto
de desmaiar. (= Chorou tanto, que desmaiou.) *** Gumersindo ficou
nervoso, a ponto de esmurrar a mesa. (= Gumersindo ficou tão nervoso,
que esmurrou a mesa.) *** Juçara se humilhou tanto, a ponto de beijar
os pés do namorado. *** O ministro está a ponto de pedir demissão do
cargo. * * * A população de São Paulo e do Rio de Janeiro está assustada
a ponto de já não sair de casa à noite.
No sentido de prestes a é ainda a ponto de que se usa: Manuel se endividou
tanto, que está a ponto de perder tudo o que possui.
Um dia antes do jogo final da Copa do Mundo no Japão, escreveu um
jornalista esportivo: O goleiro Marcos, da seleção brasileira, disse que
não vê tanta qualidade assim no goleiro da Alemanha, "ao"ponto de elegê-lo
como o melhor do mundo.
O homem tem - no mínimo - 500 anos de jornalismo esportivo. E
ainda não aprendeu.
Sem sair do esporte, escreve outro jornalista: O Palmeiras continua a
oscilar muito dentro de um mesmo jogo. Há momentos em que ele dá um
sufoco no adversário. Em outros, todo seu time parece ficar paralisado "ao"
ponto de deixar o adversário livre para realizar qualquer tipo de jogada.
O Palmeiras, por um tempo, andou tão capenga, tão mal administrai
Io, que qualquer pessoa que se referisse ao time ficava mesmo a ponto de
locar a loucura...
2 6 NÃO ERRE MAIS! 27 1
dormir "no" volante
Se dormir ao volante já é perigoso, que se dirá, então, de dormir "no"
volante!
Certa vez, lemos no pára-choque de um caminhão: Não tenho medo de
animais na pista, mas tenho muito medo de alguns burros "no"volante.
Ele era mais um...
Certa vez, a revista Veja (ed. 1.619) apresentou na capa um jogador de
futebol, com uma frase animalesca: Animais "no"volante.
Ante a grita de alguns leitores mais atentos, veio lá a revista com
uma conversa mole, com um nhenhenhém daqueles, tentando confundir
o leitor. Resolveu, então, consultar uma professora e um professor (o mesmo
que costuma repetir no vídeo a didática e as doutrinas alheias - sem
corar!). Como se, para isso, uma redação do porte da Veja precisasse de
consultas sobre assunto tão elementar.
A professora da Universidade de São Paulo diz que há o registro coloquial
e o registro da norma culta. Correto. E as publicações - as sérias,
pelo menos, como a Veja - devem usar o registro da norma culta.
Por favor, não tentem nos fazer crer que o registro coloquial serve
para a imprensa! Como já tentou fazer uma vez a mesma revista, ao querer
justificar a expressão "uma grama de ouro". Conversa mole só serve
mesmo para boi dormir.
falar "no" telefone
Na norma culta, fala-se ao telefone, assim como se toca ao piano, se
trabalha ao computador, se senta à janela do ônibus.
Certa vez, uma companhia de aviação anunciou: O melhor lugar num
avião não é na frente, atrás, no meio, "na"janela: é o lugar que você preferir.

Há os que preferem fora...
O ônibus passa "na" porta de casa
É assim que o português do Brasil prefere, ou seja, nós, brasileiros,
preferimos usar a preposição em, quando se trata de indicar proximidade,
contigüidade. Em Portugal, todavia, o ônibus nunca passa "na" porta,
mas à porta. Lá em Portugal, ônibus que passa na porta é o que passa por
cima dela. Apesar de ser uma porta - convenhamos - ela não tem culpa...

o Zé / a Ciça
Usamos o artigo antes de nome próprio somente quando se trata de
pessoas íntimas ou que gozam da nossa amizade. O emprego do artigo,
neste caso, é próprio da língua falada. Assim é que temos o Zé, a Chiquinha,
o Mané, a Ciça, o Carlinhos, a Nandinha, etc.
Em certas regiões brasileiras, porém, usa-se o artigo antes de qual2
6 NÃO ERRE MAIS! 28 1
(|uer nome de pessoa, conhecida ou não, simpática ou não, amiga ou não.
Assim, ouve-se comumente: o Antônio Carlos (em referência a Antônio
Carlos Magalhães). Ou: o Maluf(em referência a Paulo Salim Maluf). Ou:
a Maria Betânia. Ou: o Caetano. Ou: o Palocci. Ou: o Genoino.
Mesmo quando se trata de nomes inteiros (neste caso, a língua culta
rejeita o artigo), costumam usá-lo: "o" Fernando Henrique Cardoso, "o"
Caetano Veloso, "a"Marta Suplicy, "a"Roseana Sarney. Já ouvimos pessoas
que, ao referirem-se a Machado de Assis, disseram: "o"Machado. Aí
já é intimidade demais... A propósito, alguém se meteu recentemente a
comentar os "erros" machadianos pela Internet. Escreveu assim o título
de seu "trabalho": Os erros de português do Machado de Assis. (Reparou:
e ainda "português", sem acento. Quem confia?)
Se essa não é uma intimidade nada boa, que se dirá daquela que insinuou
uma governadora fluminense, do PT, que, desesperada com a presença
em seu Estado de um perigoso bandido e querendo livrar-se dele,
sem o conseguir, declarou: Espero que algum governador aceite receber
"o " Fernandinho Beira-Mar.
Que intimidade mais estranha!...
viajar "à" 180km/h
Viajar a essa velocidade é desejar ser multado. Mas também multado
deverá ser o patrulheiro rodoviário que lavrar multa dessa forma. Antes de
numerais não se usa o acento da crase. Por isso, viajar a 180km/h, embora
não seja recomendável, é muito mais saudável que viajar "à" 30km/h...
Agora, que mal lhe pergunte, caro leitor: como vai sua vida a dois?
de segunda "à" sexta-feira
Atende-se melhor de segunda a sexta-feira. Ora, se não se usou o
artigo contraído com a preposição de (da), não pode haver acento no a, já
que aqui não há o artigo. Afinal, crase não é o nome da fusão de dois aa?
Note, agora, esta frase: Os alunos estão em prova, da quinta à oitava
s(:
rie. Por que, agora, o à? Porque antes tivemos da, e não "de". Se usarmos,
portanto: Atendemos da segunda à sexta-feira, também é obrigatório
o uso de à.
TV a cabo
Expressão consagrada, porém, a legítima é outra: TVpor cabo. Nunca
vi ninguém aderir à TV "à" assinatura, mas sim à TV por assinatura;
nunca vi ninguém receber sinal "a" satélite, mas sim por satélite.
Há os que usam, ainda, TV"à"cabo, o que é quase um duplo homicídio
qualificado...
bode "expiratório"
Quando sobre uma pessoa recai a culpa de outrem ou quando é o alvo
predileto de chacotas de outras, diz-se que é bode expiatório.
2 6 NÃO ERRE MAIS! 29 1
Um famoso seqüestrador, no entanto, ao ser preso, declarou aos repórteres
que estava sendo mero bode "expiratório". Ou seja: ele estava
querendo no fundo, no fundo (porque bem o merecia), expirar antes do
tempo...
Vulcão expele "larva"?
Por enquanto, não... O que os vulcões expelem (todo o mundo sabe) é
lava, rocha em fusão.
Num jornal: As fantásticas ruínas romanas de Pompéia, a cidade dizimada
pela "larva"de um vulcão.
Que larva poderosa é essa, capaz de destruir uma cidade inteira?...
"Miss" Brasil
No Brasil é diferente: Misse Brasil. Lá fora, sim, é que a faixa da
nossa representante nesses concursos traz Miss. Não só isso: traz também
Brazil. Aqui devemos usar misse.
Numa revista: A história da "miss" cassada por ser casada acabou
bem para todas as partes. *** Os organizadores do "Miss"Brasil celebraram
o oba-oba em torno de um concurso quase esquecido.
Só faltou escreverem "Miss Brazil".
uma contato "publicitário"
Contato, usada como sinônimo de profissional que estabelece um elo
entre uma agência de publicidade e um cliente, é nome comum-de-dois,
ou seja, usa-se o contato para o homem e a contato para a mulher.
Se, todavia, a palavra vier modificada por um adjetivo, a concordância
se fará com o artigo, naturalmente, assim como se dá com a modelo
fotográfica. Portanto: a contato publicitária.
No site de um jornal: Joseane, a "Miss"Brasil, foi eliminada hoje do
Big Brother Brasil 3 com 64% dos votos. Ela disputou o paredão com a
contato "publicitário "Andréa.
ponto separativo
Os números que indicam quantias são separados por ponto:
R$1.385.876,00. A vírgula só separa a parte inteira da decimal.
O ponto não deve substituir a vírgula neste caso, ao menos na língua
portuguesa. A indústria automotiva, no entanto, lança seus veículos" 1.8",
"2.0","2.5", rigorosamente como fazem os ingleses e norte-americanos, já
que a língua inglesa usa ponto onde usamos vírgula.
Sobre este assunto, veja esta pérola encontrada em manchete de uma
folha paulistana: O Copom aumentou em 0,25 "ponto percentual"a taxa
Selic.
O jornalismo brasileiro é, realmente, formidável...
2 6 NÃO ERRE MAIS! 30 1
números comuns
Nos números comuns, ou usamos o ponto, ou deixamos um espaço em
branco que lhe corresponda: 5.692 ou 5 692.
Convém lembrar, todavia, que os números que identificam o ano não
l.em ponto nem intervalo: 1958, 2004, etc.
retornar "a" ligação
Faltou só o acento grave aí, pois o verbo retornar (dar retorno a telefonema,
recado, etc.) é transitivo indireto.
Portanto, se ela ainda não retornou à ligação que você fez, por algo
Norá...
abuso do gerúndio
Gerúndio é uma forma nomina l do verbo, assim como o infinitivo e o
particípio. É chamado forma nominal, porque, além da funçã o de verbo,
exerce também a funçã o de nome. Sempre termina em -não: cantando,
rendendo, partindo, beijando, correndo, etc.
Há certas pessoas (principalmente as nossas lindas e charmosa s secretárias)
que acham elegante usar o gerúndio. E nos mandam gerúndio
i torto e a direito: Vou estar "retornando sua"ligação em alguns minutos.
Nota-se aí mais um inconveniente: a transitividade do verbo retornar (v.
eiiso anterior).
Basta usar: Retornarei à sua ligação em alguns minutos.
Mais exemplos de abuso do gerúndio: Estarei "enviando" a nota fiscal
amanhã. (Aliás: Enviarei a nota fiscal amanhã.) *** Amanhã vou estar
"viajando"para o Rio de Janeiro. (Aliás: Amanh ã viajarei par a o Rio
ile Janeiro.) *** Seu vôo vai estar "saindo"dentro de quinze minutos. (Ou
mija: Seu vôo sairá dentro de quinze minutos.) *** Vou estar "mandando"
hcii dinheiro amanhã. (Isto é: Mandarei seu dinheiro amanhã.) *** Ela
/•ai estar "se apresentando"neste teatro na próxima semana. (Aliás: Ela
v< • apresentará neste teatro na próxima semana.) * * * Seu cheque vai estar
"sendo" debitado em sua conta corrente ainda hoje. (Aliás: Seu cheque
ndrá debitado... )
O abuso do gerúndio tem nome: gerundismo.
"uso abusivo" do gerúndio
Combinação redundante . Deve ser substituída por abuso ou, então,
por uso excessivo, uso exagerado, uso imoderado, etc.
N um jornal: O "uso abusivo"de antibióticos prejudica a saúde.
Noutro jornal, um título: STF critica o "uso abusivo"de MPs.
Escreve um artigo um professor e o intitula assim: O professor e a
prevenção ao "uso abusivo" de drogas na escola.
É muito abuso!
2 6 NÃO ERRE MAIS! 31 1
A França é três vezes "menor" que o Amazonas
Não. O Amazonas é que é três vezes maior que a França.
Se uma coisa pode ser tantas vezes maior que a outra, isso não significa
que esta pode ser tantas vezes "menor" que aquela, porque, evidentemente,
apenas uma vez menor já é igual a zero.
ministro de "descendência" árabe
Pode haver ministro de ascendência árabe, e não de "descendência"
árabe. O que produz um filho ou a prole é ascendente; o que resulta disso,
ou seja, o filho ou a prole se diz descendente.
Assim, pergunta-se corretamente: - Você tem ascendência italiana?
Responde-se: - Sim, tenho ascendência italiana.
cerveja que desce redondo
Frase perfeita. Redondo, aí, é advérbio, e não adjetivo; eqüivale a de
modo redondo. Nessa frase, tem sentido figurado e significa: fácil e gostoso
(= de modo fácil e gostoso).
Experimenta! Experimenta! Experimenta!
Nada contra esta forma verbal nem muito menos contra cervejas.
Convém apenas ressaltar que, na fala brasileira, com exceção de Santa
Catarina e do Rio Grande do Sul, no imperativo afirmativo a preferência
é pela forma da terceira pessoa, e não da segunda. Tanto é que normalmente
dizemos: Escreva isso para mim! (E não: Escreve isso para mim!).
*** Leia a carta para mim! (E não: Lê a carta para mim!)
Ora, se assim é, por que, então, contrariar um uso quase generalizado
numa propaganda? Ou ela foi feita apenas para gaúchos e catarinenses?
A forma experimenta é da segunda pessoa (que a maioria dos brasileiros
rejeita); experimente é que é a forma da terceira pessoa. Portanto: Experimente!
Experimente! Experimente!
Assim, ninguém rejeita!
O mais curioso é que na propaganda que a fábrica faz, há uma advertência
absolutamente correta: Aprecie com moderação.
E aprecie de que pessoa é mesmo?...
Um mês depois do lançamento do Experimenta!, saiu novo anúncio,
novamente equivocado: Se experimentar, não dirija. Se dirigir, não "experimenta".

Desse jeito, qualque r cerveja vai descer quadradinho , quadra -
dinho...
recém / refém
Estas duas palavras são oxítonas, mas aqui e ali sempre se ouve
"récem", "réfem". É perigoso! Já pensou, caro leitor, ter um "récem-nascido"como
"réfem" de bandidos?
É torturante!...
2 6 NÃO ERRE MAIS! 32 1

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octogenário
É a palavra correta, mas há quem insista em usar"octagenário" .
Na revista Quatro Rodas: Quando leio ou escuto a palavra roadster,
logo o E-Type aparece na minha mente. Julgo-o o supra-sumo da categoria.
Norman Dewis (hoje um "octagenário"ativo que participa de eventos
da Jaguar) teve soberba sensibilidade em seus testes.
No melhor jorna l da Bahia: Uma visita à Bahia feita pelo "octagenário"
pianista cubano Bebo Valdés foi o ponto de partida do filme
espanhol.
Filme pode agradar "o" público?
Não, filme só pode agradar ao público. Agradar só se usa como transitivo
direto, quando o sujeito é ser animado: Por mais que se esforce, ela
não consegue agradar o chefe (ou agradá-lo).
Se o sujeito é ser inanimado, convém usar o verbo apenas como transitivo
indireto: A notícia agradou ao presidente (ou agradou-lhe). *** O
resultado das pesquisas agradou à candidata (ou agradou-lhe).
O antônimo, desagradar, é rigorosamente transitivo indireto: A notícia
desagradou ao presidente (ou desagradou-lhe). *** O resultado das
pesquisas desagradou à candidata (ou desagradou-lhe).
Na mídia: Berzoini diz que proposta é boa porque "desagrada opostos".
*** A nova proposta da Fiesp não agradou "os" sindicatos. ***
Novos preços do arroz não agradam indústria do RS. *** Mudanças na
Unesco para agradar "os" EUA. *** Aumento da meta de superávit, de
11,75% para 4,25% do PIB, agrada "o"FMI.
Durant e a realização de um de nossos salões do automóvel, um instituto
de pesquisa distribuiu um folheto com a seguinte pergunta: Qual o
automóvel nacional que mais "o" agradou neste salão?
Por ocasião do lançamento do Honda FIT, a revista Quatro Rodas
trouxe na capa a foto do veículo junto com uma pérola: Será que o campeão
de vendas no Japão vai agradar "o " brasileiro?
Carro agradar gente é mesmo coisa do outro mundo.
Em suma: essa gente não anda agradando a ninguém...
ao + infinitivo
Neste tipo de construção, o infinitivo varia obrigatoriamente. Ex.: Ao
entrarmos, encontramos tudo revirado. * * * Ao ouvirem isso, todos ficaram
preocupados. *** Ao derreterem-se, as amostras de gelo deixaram
grossas camadas de sedimentos negros.
Na capa da revista de maior circulação nacional: A luta pública do
ator Raul Cortez contra um câncer mostra não apenas coragem. É um sinal
dos tempos: com o fim dos tabus, pacientes e familiares sofrem menos
"ao enfrentar" abertamente a doença.
Na mesma edição da revista, há uma entrevista com um membro da
Academia Brasileira de Letras, que diz: Os colonizadores ingleses, "ao
2 6 NÃO ERRE MAIS! 33 1
vir" para a América, estavam dando as costas para a Europa. Sua intenção,
"ao chegar" ao Novo Mundo, era conceber uma nação ou várias
pequenas nações nas treze colônias.
Num jornal: Classes média e alta não são civilizadas "ao dirigir". ***
Autoridades russas confirmaram a morte de 32 estudantes que dormiam
em alojamento, em Moscou. Mais de 139 ficaram intoxicados "ao inalar"
fumaça ou feridos "ao pular" das janelas.
mais bem - mais mal
São formas corretas, quando usadas antes de adjetivos-particípios.
Assim, por exemplo: Suas crianças estão gordas, porque são mais bemalimentadas
que as minhas. *** Seus filhos são mais mal-educados que os
meus. (Convém usar o hífen, quando for o caso.)
Se houver posposição, empregar-se-ão as formas sintéticas melhor
e pior: Suas crianças estão gordas, porque são alimentadas melhor
que as minhas. *** Seus filhos são educados pior que os meus.
"sócio-econômico"
O elemento socio- (redução de social) não exige hífen: socioeconômico,
sociocultural, sociolingüística, sociopolítico, etc.
Num jornal: Lula tem aprovação de 83,6%, diz CNT-Sensus. O índice
de satisfação com a atual política "sócio-econômica" dos entrevistados
foi de 34%, mas mostrou que a expectativa de melhoras para os próximos
meses é de 63,5%.
"todos dois"
Não existe "todos dois" em nossa língua, embora seja combinação
muito usada em certas regiões do Nordeste. Por exemplo: O clube contratou
Alex e Pedrinho. "Todos dois"são armadores.
O pronome todos só se usa de três em diante: Estavam no carro os
três filhos de Isaque; todos três saíram ilesos do acidente.
Numa de nossas revistas semanais de informação: Elas são seis: Adélia,
Otilia, Juracy, Laurinda, Eulinda e Marinete - as irmãs Lira, como
são conhecidas em Caruaru, PE. Algumas são cinqüentonas; outras já
estão na casa dos 60. "Todas as seis"são solteironas.
O uso do artigo, neste caso, só se justifica quando o numerai antecede
o substantivo. Assim, por exemplo: Todas as seis solteironas são de Caruaru
(PE). Todos os quatro filhos de Cármen já são formados.
bossa nova = Bossa Nova?
Não. A bossa nova é o ritmo musical, misto de jazz com samba, de
melodia e harmonia novas, excepcionalmente inovadoras, surgido no final
da década de 1950, em Ipanema, bairro carioca; muitos dizem apenas
bossa. O Brasil precisa reencontrar urgentemente o caminho da bossa
nova, que é o verdadeiro rumo da sua cultura musical. Bossa Nova é o
2 6 NÃO ERRE MAIS! 34 1
nome do movimento ou, com mais propriedade, do surto cultural da musica
popular brasileira, iniciado em 1958, no Rio de Janeiro, com o propósito
de renovar a forma rítmica, harmônica e melódica da música popular
da época e valorizar as suas letras, com o ressurgimento do sentimento da
beleza da vida, dos encantos da terra e da paixão à mulher amada. Constitui-se
na principal arrancada da nossa cultura musical rumo ao belo,
à perfeição. Mas... tornemos à bossa nova. Como é um misto de jazz com
samba, a bossa nova agradou em cheio ao mais exigente dos músicos norte-americanos,
que o chamam com propriedade o jazz brasileiro. Garota
de Ipanema, Ela é carioca, Samba do avião, Samba de uma nota só e Corcovado
são as cinco músicas que marcaram o auge da bossa nova, tanto
no Brasil quanto no exterior. Não por acaso, todas cinco são composições
de Tom Jobim, o gênio da bossa nova e um dos maiores compositores da
música popular brasileira de todos os tempos. Hoje, incompreensivelmente,
ouve-se mais bossa nova nos Estados Unidos e no Japão que no
Brasil. O Brasil precisa merecer a bossa nova - eis a frase proverbial de
Tom Jobim. Merece? Hoje o mundo canta e toca bossa nova. E o Brasil?
"Reage Rio"
Há uma regra singela de pontuação que preceitua o seguinte: todo
vocativo deve vir isolado por vírgula. Portanto: Reage, Rio! (Note, ainda
o ponto de exclamação, também obrigatório, porque se trata de frase imperativa,
com caráter enfático.)
Um partido político saiu-se recentemente com esta: "Competência
Brasil!" (Foi justamente o que eles esqueceram: a competência.)
Recentemente, torcedores do Santos F.C. lançaram um movimento do
Fico, em relação ao principal jogador da equipe. Assim: Fica Robinho. O
que aconteceu? O jogador foi...
Não faz muito, o Ministério da Saúde lançou um programa muito
interessante pelas televisões educativas, apresentado por um conhecido
médico, que tinha ainda o mérito de ser bastante didático. Mas o nome do
programa padecia de doença grave: O que eu faço doutor?
Se usar camisinha, nos dias de hoje, é importante; se fazer exercícios
físicos sempre foi uma necessidade do homem; se fuma r ou deixar de fumar
é apenas uma questão de ser inteligente ou não, convém saber que a
vírgula nunca deixou de ser importante.
Portanto, pra frente, Brasil!
mais vírgula
A vírgula é um sinal de pontuação importante, mas cada vez mais
desprezado, não por redução de sua importância, mas por queda de conhecimento,
queda de cultura, queda até de bom-senso, ao escrever.
Antes de orações reduzidas temporais iniciadas por ao + infinitivo,
por exemplo, é obrigatório o uso da vírgula. Veja, porém, o que se leu num
editorial da maior revista semanal de informação do Brasil: O governo do
2 6 NÃO ERRE MAIS! 35 1
PT está brincando com fogo ao permitir que diversas autoridades dêem
livremente sua opinião sobre taxa de câmbio.
A falta da vírgula depois de fogo e antes da oração reduzida iniciada
por ao + infinitivo revela que o redator não tem pleno domínio do que
escreve.
O texto continua assim: Até o presidente contribuiu para o erro ao
dizer, dias atrás, que o real não deveria valorizar-se muito para não atrapalhar
as exportações.
São duas, agora, as vírgulas faltantes: uma depois de erro, e a outra
antes de para (que inicia nova oração reduzida).
Mais adiante se lê: Há dois anos os epidemiologistas americanos ficaram
intrigados "ao encontrar" traços de um dos vírus mais antigos de
que se tem notícia, o da malária, em Boston.
São dois os problemas aqui: "encontrar" (por encontrarem) e a ausência
da vírgula, depois de intrigados.
a vírgula, outra vez
Qualquer estudante do ensino médio sabe que o sujeito não pode
vir separado do predicado por vírgula. Por isso, nenhum deles escreve:
Minha namorada, queria me dar um beijo. Mesmo porque, seriam duas
mentiras...
Jornalista que mente, porém, é intolerável. Veja esta "mentira"
de um deles: Os CDs de Inezita Barroso, Teca Calazans e Isaac
"Brasil, mostram" que há no país música rural de qualidade. Não
é apenas aquele lixo das duplas sertanejas disponíveis no mercado.
Ao menos, no final, esse jornalista foi sincero: a música popular
brasileira, nos dias atuais, está não no lixo, mas no lixão! É
uma pobreza de fazer dó! Há uma total e completa inversão de valores
em nossa música popular hoje em dia: em vez de vermos ótimos
intérpretes da nossa boa música, como Fátima Guedes, Lisa
Ono e Rosa Passos, vemos cada vez mais lixos. Até quando vai isso?
ainda, a vírgula
As orações explicativas vêm obrigatoriamente antecedidas de vírgula.
Por quê? Por arbitrariedade da língua? Não, porque esse tipo de
oração exige pausa. Daí a razão pela qual escrevemos: Não chore, que é
pior! * * * Não faça isso, porque é feio!
Os vocativos, como já vimos, desde o surgimento de Camões, devem vir
sempre separados por vírgula: Jeni, venha cá. *** Aondefoste, Mônica?
No editorial de uma revista: Vamos lá que o desafio não é pequeno.
A bem da verdade, faltaram dois sinais: a vírgula, antes da oração
explicativa, e o ponto de exclamação, encerrando o período, já que as
frases imperativas normalmente exigem seu término com esse sinal.
Ao virarmos a página, encontramos: Salve simpatia.
Salve, língua portuguesa!
2 6 NÃO ERRE MAIS! 36 1
finalmente, a vírgula
A vírgula é obrigatória, para separar orações iniciadas pela conjunção
e, quando os sujeitos forem diferentes. Eis exemplos singelos: A mulher
chegou, e o homem saiu. *** O presidente discursou, e o ministro
apenas falou à imprensa.
De um famoso jornalista carioca, sediado em Brasília: Nossa economia
estagnou e a luz de alerta está acesa no Palácio do Planalto.
Uma singela vírgula depois de estagnou elevaria o conceito do jornalista
perante muitos leitores.
Esse mesmo jornalista é autor desta frase (completamente sem vírC.iila):
A privatização além de piorar os serviços públicos também os tornou
mais caros.
Ele truncou a oração principal e não indicou graücamente. A leitura
correta dessa frase é esta: A privatização (pausa) além de piorar os serviços
públicos (pausa) também os tornou mais caros.
A pausa da fala é marcada na escrita, normalmente, pela vírgula.
Esse mesmo jornalista escreve (totalmente sem vírgula): Nessa torre
de babel que é a reforma da Previdência não há ninguém para zelar por
nós trabalhadores que temos uma aposentadoria limitada.
Em português escorreito, essa mesma frase deveria ser publicada
assim: Nessa torre de babel, que é a reforma da Previdência, não há ninguém
para zelar por nós, trabalhadores, que temos uma aposentadoria
limitada.
Esse mesmo jornalista é autor desta frase: "Nesses" primeiros seis
meses de governo Lula uma coisa ficou clara: uma coisa é prometer outra
é conseguir cumprir as metas de campanha.
Além do emprego de "nesses" por nestes, nota-se falta da competente
vírgula depois de Lula e de prometer.
Conclusão: o homem é mesmo j ej uno em questão de emprego da vírgula.
Esta é de outro jornalista, não menos "inimigo" da vírgula: Lula e Fernando
Henrique continuam trocando farpas e uma ruptura é iminente.
A Serasa faz, então, propaganda por ocasião dos seus 35 anos de fun -
dação. Depois de um histórico, o encerramento foi com esta frase: Mais
consumo significa mais produção, que gera mais emprego, que gera mais
consumo, que por sua vez gera mais produção e o resto da história você já
conhece.
Só conheço esta história: a falta da vírgula depois de produção.
NÃO ERRE MAIS! 37 1
confraternizar
É verbo transitivo indireto ou intransitivo, mas nunca pronominal:
Ao final da partida, alguns jogadores confraternizaram com o árbitro.
*** Ao final da partida, os jogadores e o árbitro confraternizaram.
Nada, portanto, de 'confraternizar-se" , "confraternizaram-se" .
No editorial do Correio Braziliense: O Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra vive momento de grande contradição. Seus líderes vão
ao Palácio do Planalto, "confraternizam-se" com o presidente da República,
que, apesar do evidente desgaste, se deixa fotografar com boné da
entidade na cabeça, mas, em vez de ceder ao diálogo, continua a se utilizar
da força.
Agora, repare como define confraternização um de nossos dicionários:
ato ou efeito de "confraternizar-se" . Logo abaixo, está o verbete
confraternizar, mas o autor não classifica esse verbo como pronominal.
Então, é o caso de perguntar: o que é "confraternizar-se"? O que é de fato
um bom dicionário?
Classic
A palavra é inglesa, portanto, pronuncia-se kléssik. Se a palavra é
inglesa, devemos lê-la à inglesa. Conforme fazemos, aliás, com Sprite,
Nike, Hilux, Goodyear, Firestone, American Airlines, etc. Se a palavra é
francesa, devemos lê-la conforme sua língua de origem, ou seja, à fran -
cesa. Por exemplo: Air France, Renault, Michelin, 5áSec (mas a própria
empresa anda anunciando "cinco"a sé/c), etc.
Nos anos setentas, despontou nos Estados Unidos um conjunto vocal
chamado Classics Four. Nenhum locutor por aqui, naquela época, ousou
dizer "klassíks fór".
No Brasil, o ensino tem regredido tanto da década de 1970 para cá,
que as pessoas, ao invés de progredirem, regridem. E a passos largos!
Pouco tempo atrás, o próprio Banco do Brasil lançou um cheque especial
chamado Classic. Tudo seria normal, se o banco não fosse o do
Brasil e não o anunciasse como "klassík".
O Boticário lançou recentemente uma fragrânci a masculina e lhe
deu o nome Classic. Mas nenhum dos seus funcionários fala em suas lojas
em "klassík".
Por aqui, é normal termos pessoas pronunciando equivocadamente
os nomes estrangeiros. Existe um clube de futebol no Peru de nome
Alianza. Sabe-se que no espanhol não existe o som zê: a consoante [z]
eqüivale ao nosso c ou ç. Então: aliança. Há, contudo, uma casta de repórteres
esportivos que lêem a forma castelhana como se portuguesa ela
fosse: "alianza". Parece brincadeira.
Existe outro clube de futebol, agora na Espanha, chamado Zaragoza.
Os repórteres esportivos são incapazes de dizer corretamente. Só sai "zaragoza".
De arrepiar!
O Palmeiras disputou dois jogos no final dos anos noventas com o
2 6 NÃO ERRE MAIS! 38 1
San Lorenzo de Almagro. Você, naturalmente, já sabe como e que eles
pronunciaram o nome da equipe argentina.
Há um jogador colombiano que anda rondando vários clubes brasileiros:
Aristizâbal. Bem, o caro leitor já sabe como é que eles pronunciam
o nome do jogador.
O correio eletrônico, no Brasil, é chamado e-mail, como nos países
de língua inglesa. Naturalmente, se a palavra é inglesa, devemos lê-la
integralmente à inglesa: i-mêil. Pois já existe gente por aí dizendo e-mêil.
Mas ainda ninguém chegou a dizer "e-ma-íl". Graças a Deus! Não deixa
de ser um progresso...
brincadeira de "mal gosto"
Esta é, de fato, uma brincadeira de muito mau-gosto: escrever mal
por mau é coisa que tem relação, no máximo, com a quinta série do ensino
fundamental.
Não faz muito, o ministro da Casa Civil deu uma declaração um tanto
ou quanto meio estranha, que o Jornal do SBT reproduziu assim: O
governo é "mal" como um pica-pau.
Nem mesmo o u do pica-pau serviu para ajudar...
Certa feita, um famoso apresentador da televisão brasileira, também
empresário, resolveu fazer uma brincadeira com uma repórter de uma revista
e declarou, lá dos Estados Unidos, que estava à beira da morte, que
já havia vendido seus bens e que nunca mais voltaria ao Brasil, porque
queria morrer em paz.
Muito bem. A coisa repercutiu enormemente. A editora vendeu tantas
revistas, que conseguiu equilibrar o orçamento do ano inteiro. Dias
depois, como o rumo que o caso tomou foi bem diverso do pretendido, o
"moribundo"resolveu desmentir.
Eis como foi, pelo site de um jornal: "Foi uma brincadeira que não
saiu como eu queria e que passou a ser uma brincadeira de "mal gosto".
Esse é o tipo de brincadeira que nunca acaba mesmo em boa coisa.
torcer "para" o Palmeiras
Torcedor que se preza torce por seu time, e não "para" seu time. Por
isso, é melhor torcer pelo Palmeiras (apesar da enorme "competência" de
sua diretoria).
Manchete de uma gazeta paulistana: Marcelo Teixeira diz que vai
torcer "para"o Japão, no jogo de hoje contra o Brasil.
Como seria bom se todos torcêssemos pelo Brasil!...
Quem torce pelo Palmeiras é "palmeirista"?
Não. Quem torce pelo Palmeiras é palmeirense. Ou esmeraldino.
Mas agora é também porco, denominação recente, grotesca, pejora -
tiva, de profund o mau-gosto. O bicho-símbolo do Palmeiras sempre foi
o periquito.
Os corintianos gostam de chamar os palmeirenses de porcos. Os palmeirenses
revidam, chamando-os de gambás. Aí começa uma rivalidade
NÃO ERRE MAIS! 3 9 1
não muito inteligente. O Corinthians e o Palmeiras são, na verdade, clubes
coirmãos, quer queiram, quer não queiram os seus torcedores; suas
histórias estão intimamente ligadas.
O Palmeiras e o Corinthians são os clubes de maior rivalidade em
São Paulo. Os corintianos se orgulham de formar a segunda maior torcida
do país. Os palmeirenses, na eterna "guerra "de gozações que empreendem
contra os corintianos, não se incomodam, mas rebatem, dizendo que
o importante mesmo é ter saúde.
Agora, para desespero maior dos corintianos, surgem os astrônomos
norte-americanos e declaram, para espanto do mundo (não meu) que o
universo é verde. Essa realmente é de ficar orgulhoso. Será mesmo que o
Criador também tem seu clube preferido?!...
"alvi-verde" / "alvi-negro"
O Palmeiras sempre foi alviverde. Quem escreve "alvi-verde", naturalmente,
deve torcer por outro time. Por um alvinegro qualquer, por
exemplo...
"super-campeão"
Não. O Palmeiras, de Valdir, D jalma Santos, Valdemar e Geraldo, Zequinha
e Aldemar; Julinho, Romeiro, Américo, Chinesinho e Nardo, foi,
na verdade, supercampeão em 1959, disputando três jogos decisivos com
o poderoso Santos F.C., de Pelé, Zito e Coutinho.
O alviverde ganhou, assim, naquele ano, o super campeonato paulista
de futebol. Aliás, o Palmeiras (permita-me dizer, caro leitor) foi a única
equipe no futebol paulista que conseguiu interromper a série de títulos
do então fabuloso Santos F.C. Por isso, merece lembrança e menção honrosa
aqui. Só por isso...
O prefixo super- só exige hífen antes de palavras iniciadas por h (super-homem)
e r (super-realista). Fora daí, não há hífen.
Na capa de uma revista de automóveis: Tigra! - o "super-segredo"da
GM.
A verdade é que esse modelo, o supersegredo da GM, por coincidência
ou não, acabou sendo um fracasso de vendas no Brasil.
"bi-campeão"
Quem fica campeão de verdade duas vezes é bicampeão; três vezes,
tricampeão; quatro vezes, tetracampeão; cinco vezes, pentacampeão.
Quando o São Paulo F.C. se tornou bicampeão mundial de futebol,
mandaram escrever bem à frente do seu estádio: "Bi-campeão"mundial
de futebol. Mais tarde, anos depois, fizeram a devida correção.
Os derivados também se escrevem sem hífen: bicampeonato, tricampeonato,
tetracampeonato, pentacampeonato.
Também sem hífen se escrevem supercampeão e super campeonato.
2 6 NÃO ERRE MAIS! 40 1
Corinthians: campeão do "IV.°" Centenário?
O Corinthians foi o legítimo campeão do IV Centenário (1954), mas
ufio do"IV.°", que isto não existe.
Os algarismos romanos não devem vir acompanhados do sinal porque
eles já são lidos como numerais ordinais. Tal sinal só acompanha
numerais cardinais: 1.°, 2.°, etc. Aliás, convém acrescentar que não se usa
I racinho nesse caso, mas ponto.
Na sala de troféus do Sport Club Corinthians Paulista, guarda-se a
bola com que foi disputado e ganho o título do IV Centenário da cidade
de São Paulo. Na velha bola marrom, vê-se: Bola do "IVo
" Centenário.
Como deverá ser a bola do V Centenário?...
por ora / por hora
São duas expressões que se usam em situações distintas. A primeira
eqüivale a por enquanto, por agora: Por ora, estou satisfeito com o meu
salário. *** Vou aplicar por ora apenas metade do que eu tenho.
A segunda eqüivale a cada período de sessenta minutos: Você ganha
vinte centavos por hora e diz que por ora está satisfeito com seu salário?
Numa das principais revistas de esporte do país lemos isto, recentemente:
É praticamente certo que Luiz Gonzaga Belluzzo disputará a
eleição do Palmeiras contra o atual presidente, que "por hora"conta com
0 apoio da maioria dos conselheiros "alvi-verdes".
O jornalista nem sequer soube escrever alviverde. (Adivinhe, então,
qual é o time dele... )
Bem, por ora é só, caro leitor. Não. Ainda não. Tenho só uma pergun1
inha: Ganhas quanto por hora?
site
Trata-se de um anglicismo consagrado no âmbito da Internet, assim
como consagrados estão os anglicismos shopping, show, slalom, skate,
pullman, etc.
Os portugueses usam sítio, aportuguesamento que, como tantos outros,
não soou muito simpático entre nós, brasileiros, já que preferimos
usar essa palavra para significados mais singelos...
Os puristas, que adoram uma novidadezinha dessas, já estão por aí,
no entanto, a empregar sítio por site. Ora, quem usa sítio por site, deve (se
for coerente) usar também rato por mouse; semicúpio por bidê, jines por
•jeans e escapar ate por vitrina...
cal
É palavra feminina: a cal, uma cal, cal hidratada, cal viva, cal nova.
*** Quando viu a mulher, ficou branco tal qual a cal. *** O susto a fez
branca como a cal.
Na imprensa esportiva, todavia, usam-na como palavra masculina: O
arbitro marcou a falta dentro da área e apontou a marca "do"cal.
2 6 NÃO ERRE MAIS! 41 1
Hoje, porém (façamos justiça!), só os jornalistas de quinto escalão
cometem tal equívoco.
Região "Centro-Sul"
É uma região brasileira que ainda não existe. Mas, se existe, nem
mesmo o IBGE a conhece. Os jornalistas brasileiros, no entanto, referemse
a ela quase todos os dias.
O IBGE divide o Brasil apenas nestas regiões: Norte, Nordeste, Centro-Oeste,
Sudeste e Sul. A Região "Centro-Sul" é um adendo jornalístico,
talvez para corrigir uma "falha" do IBGE...
Eis uma referência a essa região, feita por um de nossos jornalistas;
A previsão da próxima safra é otimista, com a área do milho crescendo
em todo o "Centro-Sul".
E eu continuo curioso de saber: onde fica?
"uma" BMW / "uma" Mercedes / "uma" Ferrari
Coisa boa isso não é. Atrás do nome de qualquer carro está uma idéia
masculina: automóvel. Daí por que só devemos sonhar com um BMW,
com um Mercedes, com um Jaguar, com um Porsche, com um Ferrari e
até com um Romi-Isetta.
Muita gente, porém, usa "uma"Ferrari, "uma"Mercedes (às vezes até
no diminutivo: "uma"Mercedinha), talvez por desejar fazer prevalecer a
idéia de poderosa máquina sobre a de um simples automóvel. Tolice.
esquizofrenia
Penso que poucos duvidarão da ortografia desta palavra e de suas
derivadas, que também se grafam com z. Recentemente, porém, lendo um
respeitável colunista do Jornal da Tarde, deparamos com a grafia "esquisofrenia"
como subtítulo de seu trabalho. Estranhamos. Fomos, então, ao
corpo da matéria, onde lemos ainda estarrecidos: Não falta quem considere
"esquisofrênicas" atitudes desse tipo. E completa, para desespero
ainda maior dos que padecem: O presidente Lula é um dos poucos chefes
de estado em condições de contribuir para a transformação desse mundo
"esquisofrênico ".
Pois t®1
.
indústria "automobilística"
A bem da verdade, esta indústria não existe, nunca foi instalada, a
não sear na cabecinha de certos "privilegiados"...
O adjetivo automobilístico se felaciona com automobilismo (modalidade
esportivàf A Mih , só se aplica adequadament e quando se trata de
corrida de automóvel: prova automobilística, corrida automobilística,
pista automobilística, etc.
2 6 NÃO ERRE MAIS! 42 1
Não sendo assim, é o adjetivo automotivo que deve ter uso (em Portur.al
se usa também automóvel como adjetivo): indústria automotiva, setor
automotivo, peças automotivas, oficina automotiva, poluição automotiva,
evento automotivo, etc.
Quem usa indústria "automobilística"por que não afirma que o Salao
de Frankfurt é um evento "automobilístico"?
O jornalismo brasileiro, revelando estar tão perdido no assunto
quanto cego em meio a cerrado tiroteio, escreve: Ontem, o ministro do
I 'lanejamento, Guido Mantega, confirmou que o governo continua negociando
um plano de auxílio ao setor "automobilístico".
Mas arremata: Furlan descarta a visão de que o Fórum esteja sendo
criado simplesmente para solucionar uma questão pontual na atual crise
do setor automotivo.
No site de um jornal: Setor "automobilístico" convoca estagiários.
Que beleza!
Escreve um jornalista italiano há muito tempo radicado no Brasil,
comentarista de esportes e de automóveis: Como o Brasil saiu atrasado
na corrida rumo "a" segurança e controle de poluição "automobilística"
está sempre uma etapa atrás.
Poluição é bem a palavra...
A revista Veja, ed. 1.833, p. 94, no entanto, dá uma demonstração de
conhecimento e maturidade: Os utilitários esportivos, como são classificados
os jipões de luxo, representam metade das vendas dos veículos de
passageiros nos Estados Unidos. Mina de ouro da indústria automotiva,
eles detêm a preferência dos motoristas graças á aparência possante e á
fartura de espaço interno.
E na mesma reportagem: É a primeira vez que a indústria automotiva
reconhece o problema de segurança dos utilitários esportivos.
A Veja, realmente, de uns tempos para cá, anda diferente. Tão diferente,
que já passou até a dançar chachachá, quando antes preferia rumbar
ao ritmo do"chá-chá-chá"...
Afinal, o tempo existe para evoluirmos...
talvez
Esta palavra, quando usada antes do verbo, exige o subjuntivo: Amanhã
eu talvez vá ao estádio. * * * No futuro talvez eu faça uma viagem dessas.
*** Talvez o pessoal tenha chegado e ainda não tenhamos sabido.
Após o verbo, porém, a palavra não interfere no emprego do modo:
Irei ao estádio talvez amanhã. *** O pessoal chega talvez ainda hoje.
Num editorial: Talvez "chegou"a hora do Brasil.
Hora de quê?...
2 6 NÃO ERRE MAIS! 43 1
"auto-falante"
Esta é uma das grandes invenções modernas. As pessoas acham que
estão se referindo a falantes de automóveis. Então, não têm dúvida: escrevem
"auto-falante" .
Veja: Foi o próprio governo, por seus "auto-falantes" expostos ou embutidos...
*** Montado em seu triciclo equipado com gravador, amplificador,
"auto-falantes", bandeiras e espelhos... *** Informação de "autofalante"
poderá influir.
Até algumas fábricas estão anunciando que seus veículos têm seis
"auto-falantes" . Deve ser uma barulheira daquelas!...
"showmício"
E uma excrescência: mistura palavra estrangeira (shozv) com o final
de palavra vernácula (comício). Mas consta num dicionário! Nesse, porém,
tudo é perfeitamente normal, como veremos adiante.
Os neologismos surgem por necessidade de momento. Para serem incorporados
ao vocabulário, é necessário que não possuam equivalentes
no idioma e que estejam de acordo com os princípios da língua, ou seja,
que sejam bem-formados. Comício-show me parece muito mais razoável
que essa excrescência.
dona de casa
É assim que se escreve, e não "dona-de-casa". Mas os jornalistas insistem
em usar os hifens, que aí não têm nenhuma necessidade. Repare
embaixo, no vídeo, como eles escrevem, quando um repórter de televisão
entrevista uma dona de casa.
Há até dicionários que registram "dona-de-casa". Mas esses mesmos
dicionários não são capazes de ser coerentes e registrar também "dor-de-
-cabeça","dor-de-barriga","dor-de-dente" , etc. E por que não o fazem?
Porque é asneira, naturalmente!
Só se usa o hífen por razões bem-definidas e necessárias. Para ficar
bem claro o assunto, tomemos como exemplo o caso de dedo duro e de
dedo-duro: dedo duro é dedo teso, que não se articula. O Papa João Paulo
II, depois do atentado que sofreu, tem um dedo duro. Dedo-duro é delator,
alcagüete, algo bem diferente.
O uso do hífen propicia o surgimento de outro termo; surge, em virtude
do seu emprego, outra unidade semântica. Não é o caso de"dona-de -
-casa". Que diferença há entre dona de casa e"dona-de-casa"? Nenhuma.
Então, por que os hifens?
No site de um jornal: "Dona-de-casa"foi esquartejada viva por cirurgião.
No dia seguinte, uo mesmo site: Polícia conclui inquérito sobre esquartejamento
de "dona-de-casa". Nesta vida, lamentavelmente, é difícil,
mas se tem de estar preparado para experimentar uma tragédia atrás da
outra...
2 6 NÃO ERRE MAIS! 44 1
O caro leitor percebe claramente a diferença de sentido entre cabra
cega e cabra-cega. Ou entre pé de meia e pé-de-meia.
No futebol, fala-se muito em virada-de-mesa (com hífen), porque virada
de mesa se toma no sentido literal. A palavra hifenizada significa
mudança radical numa situação praticamente consolidada.
Há certos clubes brasileiros que entendem muito de viradas-de-
-mesa...
Ihama
É palavra masculina: o lhama, um lhama.
Recentemente, uma de nossas revistas semanais de informação
trouxe, na ed. 1.096, pág. 20: Cientistas árabes comemoram o primeiro
mês de vida de um animal gerado com esperma de um camelo e óvulo
de "uma" lhama. O filhote, batizado de cama, herdou o pêlo suave da
linhagem materna.
Se o esperma de um camelo e o óvulo de "uma" lhama produzem
uma cama, que produto sairá do esperma de um camelo e do óvulo de
um lhama?
"o" Marrocos
Marrocos é nome que não exige artigo: Conheço Marrocos. *** Já
estive em Marrocos. *** Governo de Marrocos. *** Passei rapidamente
por Marrocos.
As revistas semanais de informação repetem o erro várias vezes até
numa mesma edição: região montanhosa "do" Marrocos; pesquisadores
"do" Marrocos; "o" Marrocos quer transformar em parque turístico: rei
"do" Marrocos.
Uma delas trouxe, na ed. 1.712, pág. 20: Espanha retoma ilhota "do"
Marrocos. Note ainda a falta do artigo antes de Espanha.
No site de um jornal: Barco inflável afundou e matou pelo menos 18
pessoas afogadas "no"Marrocos.
No mesmo site, dias depois: Vinte e quatro pessoas morreram em
cinco atentados, três deles com carros-bomba, em Casablanca, "no"
Marrocos.
No mesmo site, no dia seguinte a esse, a manchete era: Polícia prende
27 por atentado em Marrocos. (Ufa!, pensamos, eles finalmente corrigiram
o erro.) A euforia durou poucos segundos. Abaixo se lia: Nenhum
grupo assumiu a autoria do ataque que teria deixado 41 mortos e cem
feridos em explosões ontem em Casablanca, capital comercial "do" Marrocos,
onde várias bombas explodiram simultaneamente.
É uma no cravo e a outra bem na ferradura...
Na mesma época se leu no site de outro jornal: "O" Marrocos está
decidido a castigar sem clemência os terroristas.
2 6 NÃO ERRE MAIS! 45 1
Castigo só para eles?!...
Depois de realizadas as reuniões de cúpula entre chefes de Estado
árabes e sul-americanos, em maio de 2005, no Brasil, os repórteres se
apressaram em dizer que as próximas reuniões se farão "no" Marrocos.
Vejamos, finalmente, o que trouxe uma revista: Espanha e Marrocos
brigam por uma ilhota (subtítulo). Na matéria se lê: "O"Marrocos sempre
reivindicou a posse dessa ilhota. E ao longo dela só se vê o nome Marrocos
antecedido do incompetente artigo.
Jornalistas, em princípio, deveriam conhecer a língua, porque vivem
dela, é seu instrumento de trabalho. Os diretores do jornal suíço escrito
em francês Les Temps, cansados de ver erros lingüísticos na publicação,
decidiram multar os jornalistas em três dólares por erro cometido, seja
de ortografia, seja de sintaxe. Se a medida fosse adotada no Brasil, os
diretores de jornal já não precisariam preocupar-se em vender suas publicações:
estariam milionários...
Mas não são apenas os jornalistas que padecem desse mal: entre eles
há até dicionaristas! V. item seguinte.
um "tira-teima"
Em português só existe tira-teimas, assim como só existe tira-dúvidas
(e não"tira-dúvida").
"Tira-teima"é brincadeira do mais refinado mau-gosto. Mas, mesmo
assim, foi agasalhada por dois dicionários: a um chamaremos, doravante,
dicionário secular, ao outro, dicionário do entulho, em razão do grande
número de "recheios" que traz, sem nenhuma necessidade, além do semnúmero
de equívocos, alguns grosseiros, realmente imperdoáveis.
O dicionário do entulho criou uma acepção especial, só para incluir
esta cacografLa. É um privilégio realmente encantador.
Tudo seria muito bom, se ambos não pecassem mortalmente. Confiança,
afinal, adquire-se, não se vende nem se empurra goela abaixo.
Atenhamo-nos inicialmente a alguns (apenas alguns) dos equívocos
do dicionário secular:
1. coco-da-baía
Esta palavra seria melhor grafada coco-da-bahia, mas o Vocabulário
Oficial não traz esta forma. O dicionário secular registra coco-da-baía,
mas no verbete água-de-coco usa justamente a forma não autorizada oficialmente
(embora seja a melhor): coco-da-bahia.
2. "arquisseguro"
Os dois dicionários trazem esta forma. Ora, mas o prefixo arqui- exige
hífen antes de palavras iniciadas por s (arqui-sacerdote, arqui-sinagoga,
etc.) Por que, então, "arquisseguro"? Não se sabe: é um mistério.
2 6 NÃO ERRE MAIS! 46 1
3. reduzir "a menos"
Qualquer pessoa vê nesta combinação uma redundância. Mas na
acepção 3 de atenuar, o dicionário a traz. Seria possível, então, também
"reduzir a mais"?
4. "azeite-de-dendê"
A grafia correta é azeite de dendê, sem hifens. O dicionário secular,
no entanto, registra "azeite-de-dendê", mal de que não padece o outro,
dicionário do entulho.
Ora, se devemos escrever "azeite-de-dendê", somos obrigados,
pela coerência, a grafar também "azeite-de-oliva", "azeite-de-oliveira",
"óleo-de-soja", "óleo-de-amendoim", etc. Mas isso nenhum dicionário
traz. Por algo será...
5. "dona-de-casa"
Como já vimos, é uma tolice. A grafia correta é dona de casa, sem
hifens.
O mais interessante nisso tudo é que os dois dicionários registram
palavras hifenizadas quando elas não exigem hifens e, por outro lado,
deixam de empregá-lo quando há necessidade deles. Por exemplo: buraco-negro
(no sentido astronômico), disco-voador (ovni) e mala-direta (no
sentido publicitário).
Há grande diferença entre um buraco negro e um buraco-negro. Um
buraco negro é um buraco que não é branco, nem verde, nem amarelo, etc.
O buraco-negro é um termo da astronomia; daí por que o vocábulo deve
ser hifenizado.
A caixa-preta das aeronaves não é uma caixa preta (ela tem a cor
laranja), assim como um buraco-negro não é um buraco negro. Se alguns
dicionaristas conseguissem entender isso, evitariam muita s complicações.

Façamos justiça, porém: na edição do século XXI já se mudou de
"manteiga derretida" para manteiga-derretida (pessoa que chora à toa).
IVIas no dicionário do entulho continua a "manteiga derretida". Ora, não
haverá sensível diferença semântica entre uma manteiga que se derreteu
(manteiga derretida) e uma pessoa que chora com facilidade (manteigaderretida)?

Ou tudo é a mesma coisa?
2 6 NÃO ERRE MAIS! 47 1
6. "pôr-do-sol"
É outra brincadeira. É preciso sabermos admirar o verdadeiro pôr do
Sol. Note: sem hífen e com S maiúsculo (de preferência).
Quem escreve ou registra "pôr-do-sol"tem de, por coerência, escrever
e registrar também "nascer-do-sol". Que dicionarista já teve a coragem
de fazê-lo? Nenhum. E por que, então, alguns se enchem de coragem para
registrar "pôr-do-sol"?
Dia desses vimos uma frase que nos deixou ao mesmo tempo entusiasmado
e esperançoso: De todos os fenômenos celestes, o mais visível é
o nascer e o pôr do Sol.
Alguma luz sempre se faz...
O dicionário secular registra "pôr-do-sol", mas no verbete sol-pôr,
sinônimo, incompreensivelmente, traz correto: pôr do Sol. Não é maravilhosa
a coerência?
Já o dicionário do entulho não comete a mesma asneira: traz essa
expressão sem o hífen, mas não com S (maiúsculo): pôr do sol. Não deixa
de ser uma esperança.
A Editora Abril lançou recentemente o seu Guia Brasil, em que destaca
uma lista dos poentes mais bonitos em nosso país. E anunciou: O
melhor do "pôr-do-sol".
Que tal lançar, para breve: O melhor do "nascer-do-sol"?
7. "escola de samba"
É outro equívoco dos dois dicionários. O nome correto da agremiação
que desfila no carnaval, geralmente com carros alegóricos, é escola-desamba.

Quem, contudo, quer aprender a sambar vai a uma escola de samba,
assim como quem quer aprender a dançar forró vai a uma escola de forró;
assim como quem quer aprender a dança do ventre vai à escola de dança
do ventre.
É muito fácil estabelecer a diferença entre uma escola e outra. Os
dicionários não conseguem!
8. cagüira
Todo o mundo sabe o que é isso: muito medo e também azar no jogo.
Com trema, naturalmente. Mas os dois dicionários trazem "caguira". Alguém
já teve "caguira"?
9. vereador "municipal"
Qualquer pessoa detecta de pronto a redundância existente nesta
combinação. O vereador só pode ser municipal. Mas o dicionário secular
define camarista assim: vereador municipal. Existiria, então, o "vereador
estadual"? Ou o "vereador federal"?
2 6 NÃO ERRE MAIS! 48 1
10. sineta "pequena"
Qualquer criança sabe que sineta é sino pequeno. Assim, a combinarão
acima é redundante. Ao definir campainha, o dicionário secular traz:
sineta pequena e manual. Mas em sineta, o próprio dicionário define: sino
pequeno.
Durma-se com tanto sino batendo...
11. "Esporte Clube Coríntiõs Paulista"
Eis aqui o que nem mesmo o mais fanático palmeirense reconheceria.
Kxiste este clube no Brasil? Os corintianos sabem que não. Mas no verbete
corintiano está lá. Quem torce por um clube desses?
12. tecnicólor
É assim que devemos escrever e pronunciar esta palavra. O dicionário
secular, no entanto, registra tecnicolor, ou seja, como oxítona, rimando
com trator.
O caro leitor, por acaso, já assistiu a algum filme em "tecnicolor"?
13. dengue
É palavra feminina (já o dissemos), em qualquer sentido: a dengue. O
dicionário secular registra a palavra, na acepção de doença, como masculina.
Quem pegou "o" dengue que se cuide!
14. Ihama
Você já sabe: lhama é nome masculino. O dicionário secular dá corretamente
a palavra como masculina, mas no verbete alpaca trata o animal
de "a lhama".
15. dundum
É nome masculino (projétil). O dicionário secular, no entanto, dá a
palavra como feminina. É para ferir menos?...
16. colocar
Não se aconselha o uso deste verbo como sinônimo de expor. Por isso,
não fica bem "colocar" uma questão. Mas o dicionário secular registra a
sinonímia.
1 7. "mais" superior
Esta combinação é redundante , porque a idéia de mais já se encontra
no adjetivo. No verbete escapula, acepção 4, porém, está: a parte "mais
superior" do membro superior.
Tudo, naturalmente, muito superior...
2 6 NÃO ERRE MAIS! 49 1
18. embora "sendo"
Combinação reprovável: embora não aceita a companhi a de gerúndio.

outros equívocos imperdoáveis do dicionário secular
1. Em amigado dá amasiado como sinônimo, mas não traz esta palavra.
2. Confunde verbo unipessoal (usado nas terceiras pessoas, do singular
e do plural) com verbo impessoal (só usado na terceira pessoa do singular),
no verbete anoitecer.
3. Dá atobá como substantivo feminino.
4. Dá atrito como substantivo masculino (corretamente), mas define-o,
na acepção 5, como adjetivo: que tem atrição.
5. Confunde adjetivo com particípio, como se vê no exemplo fornecido
no verbete ativado.
6. Confunde verbo transitivo indireto com verbo intransitivo, como se vê
pelo exemplo do verbete batalhar.
7. Registra caixa-de-fósforos como substantivo masculino.
8. Dá cambeba como substantivo feminino e remete o consulente a cambeva,
que já não é feminino, mas masculino.
9. Registra (imagine!) "camondongo", remete o consulente a camundongo,
mas neste verbete não se refere à cacografia "camondongo".
10. Registra "cerusita", em vez de cerussita.
11. Registra chuva-de-ouro como substantivo masculino e"dobermann" ,
quando a raça do cão é mais singela: doberman.
12. No verbete cianotipia aparece azul-da-prússia, que o dicionário não
registra.
13. Confunde verbo transitivo direto e indireto com verbo transitivo direto
e adjunto adverbial, como se vê na acepção 17 do verbete cobrir.
14. No verbete coincidir, acepção 7, fornece exemplo em que se tem claro
erro de concordância verbal e falta de competente vírgula.
15. Registra corretamente desabafar como verbo intransitivo, na acepção
de desafogar-se, revelando o que sente ou pensa, mas no verbete desafogar
faz constar, na acepção 12,"desabafar-se". O mesmo equívoco
acontece em desapertar, acepção 6.
16. Dá blastoderme como substantivo masculino. A propósito, o dicionário
do entulho dá blastoderma como feminina e blastoderme como
masculina. E é justamente o contrário.
17. Na acepção 3 de desaperceber, dá como sinônimo desprover-se (verbo
pronominal), mas não registra o verbo como pronominal.
18. Dá dina (física) como substantivo feminino, mas no verbete erg traz
um dina. Qual seria o gênero correto de dina?
2 6 NÃO ERRE MAIS! 50 1
11» I )ii parteiro (pasme!) como sinônimo de obstetra. Se um dia, caro leitor,
estiveres numa maternidade, chama o obstetra de parteiro e verás
como nascem os maiores palavrões (sem o uso de fórceps)...
:'<>. No subverbete ciclo suetônico, menciona "Meton", em vez de Méton,
astrônomo ateniense do séc.V a.C.
1! I. Em esquinado dá facetado como sinônimo, mas não registra esta
palavra.
"i. Dá focai (óptica) como substantivo masculino, mas três linhas abaixo
aparece duas focais. Qual seria o gênero correto?
23. Dá forcejar como verbo transitivo indireto e fornece exemplo em que
o verbo é intransitivo.
24. Em garantia, acepção 1, define: ato ou efeito de garantir (-se), mas não
registra o verbo como pronominal.
25. Dá inocular como verbo transitivo direto e indireto e fornece exemplo
em que o verbo é apenas transitivo direto. Fato idêntico ocorre com
o verbo interdizer, em que confunde o pronome lhe, objeto indireto,
com o pronome lhe com valor possessivo.
26. Confunde continuidade e continuação, conforme se percebe pela
acepção 1 de interromper.
27. Confunde mandato com mandado, como se vê pela acepção 2 do verbete
mandatário.
28. Insiste (desde a antiga edição) em registrar manganina como substantivo
masculino.
29. Insiste (desde a antiga edição) em dar numeração como substantivo
masculino.
30. Insiste em registrar o verbo refinar como pronominal, mas fornecer
exemplo de verbo intransitivo.
31. Insiste em registrar sacar como verbo transitivo indireto, fornecendo
exemplo em que o complemento é objeto direto preposicionado: sacou
de um canivete.
32. Insiste em confundir substantivo sobrecomum com substantivo comum-de-dois,
remetendo o consulente de um verbete para o outro.
33. Confunde objeto indireto com adjunto adverbial de finalidade, como
se vê no verbete pelejar.
34. Em perpetuar, acepção 8, fornece este exemplo: segundo a Bíblia, o
homem não se perpetuará "para sempre". (Graças a Deus!...)
35. Em subtangente usa "seguimento"por segmento.
36. Dá último como adjetivo e fornece exemplo com um substantivo: o
último da fila.
37. Em vidrar, dá o verbo como transitivo indireto e fornece este exemplo:
O mineiro é vidrado em mar. Não seria vidrado, aí, um adjetivo?
38. Dá voltado e volvido como sinônimos de virado, mas não registra nenhum
daqueles verbetes. Ou, melhor: dá, sim, voltado, mas não como
sinônimo de virado.
2 6 NÃO ERRE MAIS! 51 1
39. Dá "fim de semana", sem hifens, em vez de fim-de-semana, como sinônimo
do anglicismo weekend.
40. Dá eliminante como substantivo masculino.
41. Registra "epistase" por epístase e"epistoma"por epístoma.
42. Em derby, informa que a corrida de cavalos na Inglaterra teve início
no século XVII, quando na verdade foi no século XVIII (1780).
43. Em palavra-filtro, dá "máscara (26)" como sinônimo, quando é máscara
(27).
44. No verbete nove horas, ora usa nove-horas, ora"nove horas". Afinal, o
dicionário é cheio de "nove horas" ou de nove-horas?
45. No verbete noticiar, dá notificar-se como sinônimo, na acepção 3, mas
não registra notificar como verbo pronominal.
46. Em nistatina, a fórmula química está completamente errada. (Não
explode?... )
47. Em neutrófilo usa granulócito como adjetivo, quando ele próprio só
registra esse nome como substantivo.
48. Registra neoprene, em vez de neopreno e dá coxão duro como sinônimo
de chã-de-fora (no que está correto), mas não registra nem coxão
duro nem muito menos coxão mole. É mole?
49. Em nefanálise existe um estranho "metereológicas". Existiriam mesmo
informações desse tipo?
50. Usa "independente" por independentemente no verbete nécton.
51. Em nascer, corrompe a ordem alfabética, ao trazer Não ter nascido
ontem depois de Nascer ontem.
Bem, paremos por aqui, mesmo porque 51 sempre dá uma boa
idéia...
alguns equívocos imperdoáveis do dicionário do entulho
1. Registra "todo mundo" , em vez de todo o mundo, e dá "furoa" como
feminino de furão.
2. Registra corretamente antidepressivo, mas ao longo do dicionário usa
"anti-depressivo" (v. o verbete psicotrópico).
3. Registra neo-imperialista como partidário do neo-imperialismo (e o
é, de fato), mas não registra neo-imperialismo; registra polarográfico
desta forma: relativo a polarografia ou a polarógrafo, mas não registra
polarógrafo.
4. Dá teta, mama, seio e úbere como sinônimos. (Ora, mulher tem teta?!
Mulher tem úbere?!)
5. Registra os adjetivos relativos a microfauna (microfauniano e microfaunístico),
mas não faz sequer alusão aos adjetivos relativos
a macrofauna.
6. Registra corretament e conto de fadas (sem hífen) e, logo abaixo,
em outro verbete, usa "conto-de-fadas" . (Ora, a palavra é ou não
é hifenizada? )
2 6 NÃO ERRE MAIS! 52 1
7. Dá peão como sinônimo de pedestre. (Ora, então, todas aquelas pessoas
que caminham pela Avenida Paulista, em São Paulo, são peões?!)
8. Dá xirimbambada como variante de turumbamba, o que é correto, mas
em vez de registrar o verbete xirimbambada, registra outro, que não
existe, "xirimbamba".
9. Dá "portas-e-janelas" como plural de porta-e-janela, quando se sabe
que o plural das palavras ligadas por e se faz com variação apenas do
último elemento (p. ex.: ponto-e-vírgulas, quarto-e-salas).
10. Registra "toca-fita" ao lado de toca-fitas, mas não registra "toca-disco".
(Ora, aquele que registra "toca-fita", que não existe, tem de ser
coerente e registrar também"toca-disco" , que também não existe. Por
que não o faz?... )
11. Dá largo como sinônimo de praça. (Ora, então, podemos dizer indiferentemente:
Largo ou Praça da República, Praça ou Largo do Ouvidor?!)

12. Dá musicista como sinônimo de músico e, como conseqüência desse
equívoco, define retretista como "musicista de retreta".
13. Registra patinar como sinônimo de ganhar (concreções terrosas) e fornece
este exemplo para "elucidar" a acepção: O tempo patinou o mármore
da Acrópole. (Ora, segundo a definição, temos: "O tempo ganhou
concreções terrosas o mármore da Acrópole", ou seja, totalmente sem
sentido.)
14. Procede corretamente, ao não registrar "aficcionado", porque a palavra
não existe, mas emprega justamente "aficcionado" na obra, no
verbete micreiro.
15. Define substantivo como se fosse adjetivo (prodigalidade, acepção 2) e
define adjetivo como se fosse substantivo (mudo, acepção 4.2, combinado,
acepção 7 e macrofilo).
16. Registra corretamente o verbo obedecer como transitivo indireto, mas
usa-o como transitivo direto (ato, acepção 5).
17. Registra biopoese e microcâmara como substantivos masculinos.
18. Registra "por causa que" e até (imagine!) "por causo que". (Só faltou
registrar "mendingo" e "mortandela"...)
19. Registra "tutti frutti " sem hífen, classifica corretamente a expressão
como locução substantiva, mas a define como adjetivo.
20. Registra trecentésimo sem fazer nenhuma referência à forma tricentésimo,
mas registra esta forma e, no verbete (sem se referir a trecentésimo),
muda o texto usado em trecentésimo, como se existissem
acepções distintas para as duas palavras.
21. Confunde objeto indireto com adjunto adverbial e, conseqüentemente,
verbo transitivo indireto com verbo intransitivo, fato claro no verbete
pular.
22. Registra, no verbete pé, "pé de atleta" e faz o mesmo registro em verbete
próprio (pé-de-atleta). (Afinal, qual a palavra correta, com hífen
ou sem hífen?)
NÃO ERRE MAIS! 5 3 1
23. Registra, também no verbete pé, "pé quente" e faz o mesmo registro
em verbete próprio {pé-quente). (Afinal, o dicionário é"pé quente" ou
é"pé-quente"?)
24. Registra muçarela e mozarela, mas dá a primeira como palavra masculina.
(O caro leitor já experimentou comer "um bom" muçarela?)
25. Define tamborete assim: assento quadrado ou redondo, sem encosto
"e" braços. (Ora, a correlativa de sem é nem, e não "e"; daí por que
temos dicionários sem eira nem beira, dicionários sem pé nem cabeça,
etc.)
26. Registra a excrescência "showmício". (Só faltou registrar "menas" e
"questã"...)
27. Usa, a exemplo de Odorico Paraguaçu, famosa personagem de Dias
Gomes, "adredemente", no verbete conhecimento. (Ora, "adredemente"é
absurdo tão grande quanto"apenasmente","emboramente","somentemente".)

28. Usa, a exemplo de criança da quinta série, "rabujento " (verbete
coroca).
29. Usa a incrível palavra "imparciabilidade", em vez de imparcialidade,
no verbete eqüidade.
30. Usa"calcáreo" , em vez de calcário, no verbete bezoar.
31. Dá bituca como palavra masculina (!) e confere-lhe significado totalmente
diverso do que todos conhecemos.
32. Registra corretamente ponto-de-venda, mas no verbete bandeira usa
"ponto de venda". (Afinal, a palavra é ou não é hifenizada?)
33. Classifica os verbos segundo a antiga nomenclatura (bitransitivo,
p. e x
.
)
.
34. Não usa ponto no final das frases nem vírgula antes de etc., contrariando
o que preceitua ou sugere o Vocabulário Oficial.
35. Confunde juiz com árbitro e vice-versa. (Um torcedor que xingue o
árbitro de "juiz ladrão" é compreensível, mas um dicionário confundir
um ofício com outro é imperdoável!)
36. Registra xerox, considerando-a palavra oxítona e também como masculina,
além de registrar o verbo "xerocar", corruptela grosseira de
xerografar.
37. Confunde vaporar com evaporar e vaporizar, e vaporizar com vaporar,
volatilizar e evaporar. (Faz uma bagunça daquelas entre esses verbos,
que não são sinônimos: a água não "se evapora" nem "se volatiliza" a
100°C, mas vaporiza-se.)
38. Registra direitinho Via Láctea, no verbete via, mas em galáxia tem
uma recaída e usa quatro vezes "Via-Láctea". (Afinal, o nome da nossa
galáxia é Via Láctea, sem hífen, ou "Via-Láctea"?)
39. Troca a nacionalidade de pessoas, registrando como médico norte-
-americano o britânico Joseph Bancroft, em bancroftíase.
40. Registra"conto-da-carochinha" com hífen e ainda dá a palavra como
feminina.
2 6 NÃO ERRE MAIS! 54 1
41. Registra miorrelaxante como substantivo feminino (!), mas o define
como adjetivo e substantivo masculino; com cerebral faz justamente o
oposto: define o adjetivo como se substantivo fosse, na acepção 6.
42. Considera transitivo direto e indireto o verbo da frase voltei do trabalho
para casa e transitivo indireto o verbo das frases voltei ao início
da página e quando voltará você à nossa casa. (Ora, o verbo das três
frases é unicamente intransitivo, seguido de adjuntos adverbiais, e
não de complemento verbal.)
43. Registra "bandoneon", palavra oxítona com -on final, totalmente incompatível
com a índole do idioma. (A forma correta é bandônion.)
44. Usa acento grave na expressão a distância, em xeta. [Ora, qualquer
estudante sabe que só se usa acento grave nessa expressão quando
ela vem determinada: Vejo algo a distância. (Sem acento.) Vejo algo à
distância de vinte metros. (Com acento.)]
45. Registra microaerófilo como substantivo masculino, mas o define
como se fosse um adjetivo.
46. Acentua corretamente fórum, pia-máter e vade-mécum, mas não faz
o mesmo com quorum. (Ora, quem não acentua quorum também não
deverá acentuar fórum, álbum, etc.)
47. Confunde frade com monge (existiria mesmo o frade budista?) e faz
enorme confusão com os nomes científicos (p. ex.: Myrcia multiflora
não é o nome científico da pedra-ume, mas sim do cambuí, e ele dá
ambos os termos como sinônimos, que não são).
48. Dá accessível e accessório como equivalentes, respectivamente, de
acessível e acessório, mas nestes verbetes não faz referência àquelas
formas. (Aliás, neste particular, o dicionário é um pecador inveterado.)

49. Define verbo como se fosse um substantivo (v. arrastar, acepção 11);
define substantivo como se fosse verbo (v. acidificação); define um adjetivo
como se fosse substantivo (v. condigno, acepção 1); define um
adjetivo e fornece um substantivo como exemplo (v. comandante,
acepção 1).
50. Usa Marrocos com artigo ("o Marrocos" e "do Marrocos"), nos verbetes
almorávida e marroquino? (Marrocos é nome que não admite
artigo.)
51. Registra os verbos sobressair e avultar como pronominais ("sobressair-se",
"avultar-se"), coisa que a língua nunca admitiu e, por outro
lado, não registra o verbo branquear como pronominal, fazendo lá o
que deveria ter feito aqui. Enfim, um desastre!
Bem, mas agora é preciso parar: afinal, 51 sempre dá uma boa
idéia...
Mas há mais, muito mais ao longo da obra. É só ter paciência. Por
exemplo: o que um filho pensaria do pai, se ele lhe perguntasse o que é
degelo, e o "velho" respondesse: Meu filho, degelo é degelo mesmo! ?
2 6 NÃO ERRE MAIS! 55 1
Outro exemplo: arrebentação e arrebentamento. O dicionário traz,
na primeira acepção: ato ou efeito de arrebentar(-se). Mas não registra o
verbo arrebentar como pronominal. Como pode uma coisa arrebentar-se,
se isso, para o dicionário, não existe?
Outro exemplo: uma obra séria não pode registrar cabra como feminino
de bode nem vaca como feminino de boi, porque tais nomes não são
"femininos" dos respectivos nomes masculinos.
Outro exemplo? É só ir folhando o dicionário: a cada página, uma ou
mais surpresas, cada qual com seu tamanho. O verbo conceituar é mesmo
bitransitivo? Ou é verbo transobjetivo?
Tudo isso, caro leitor, tudo isso só para lhe mostra r que "tira-teima"
é mais um de seus grandes equívocos, mais uma de suas formidá -
veis invenções.
Suponhamos que, em vez de"tira-teima" , a emissora de televisão que
criou e propagou essa excrescência, tivesse escolhido "tira-dúvida". Será
que o referido dicionarista iria muda r o vocábulo correto tira-dúvidas
para "tira-dúvida"?
A revista Quatro Rodas já estampou isto na capa: Civic x Corolla: o
"tira-teima" dos faixas pretas.
Substituiria, por acaso, o manchetista "tira-teima" por "tira-dúvida"?
(Eu até que não duvido...)
Qualquer dia destes ainda vai aparecer dicionarista que registrará
"auto-falante" . Para atender ao interesse das fábricas, que quase sem
exceção, fazem propaganda afirmando que seus carros têm seis "autofalantes".

"às custas de"
Não existe esta locução em nossa língua. O dicionário do entulho, no
entanto, não só registra, como usa "às custas de" no verbete astúcia.
Se um marido vive à custa da mulher, ninguém tem nada a ver com
isso, mas se um jornalista ou um dicionarista vive"às custas do"leitor, do
consulente ou do assinante, bem, aí a coisa muda.
Veja como escrevem os jornalistas, talvez embasados no maravilhoso
dicionário: Néstor Kirchner, 53, assumiu a Presidência da Argentina
diante de 13 chefes de Estado. Segundo ele, o país honrará seus compromissos
financeiros, mas não "às custas da"fome e da exclusão do povo.
*** Recuperação do Brasil "não pode ser "às custas da" Argentina, diz
integrante de ministério argentino. *** A única coisa que se implanta
com rapidez no Brasil é o esquema de faturamento "às custas do " consumidor.

2 6 NÃO ERRE MAIS! 56 1
Recentemente , declarou uma autoridad e argentina: Temos a mesma
necessidade de crescer que o Brasil. O Brasil não vai crescer à nossa
1'umta.
Nuestros "hermanos", muy amigos...
viking / viquingue
Os vikings ou viquingues (aportuguesamento) eram pirata s escandinavos
que saquearam as costas da Europa desde o século IX até o século
XI. Até aqui, nenhuma novidade.
O dicionário secular não faz nenhuma referênci a à forma viking-,
prefere registrar o aportuguesamento viquingue (paroxítono). Já o dicionário
do entulho não registra viquingue, mas apenas viking, porém,
cometendo um erro palma r de ordem alfabética : inclui o verbete depois
de vípero, quando deveria figura r antes de vil, que, aliás, assim como 51,
também nos dá uma boa idéia...
esgotar
Na acepção de vender até o último artigo ou exemplar, é verbo pronominal:
O estoque de televisores da loja se esgotou em dois dias. *** O
livro se esgotou em pouco tempo. *** Esta obra se esgotará brevemente.
No dicionário do entulho, registra-se este verbo também como intransitivo.

Na verdade, somente na acepção de esvaziar-se ou vazar-se completamente,
ou na de consumir-se, gastar-se completamente é que este verbo
pode ser usado como intransitivo ou como pronominal: A água do reservatório
esgotou (ou se esgotou) em três tempos. * * * A fortuna do pai
esgotou (ou se esgotou) em poucos anos, com suas extravagâncias.
espreguiçar
E verbo pronominal, e não intransitivo: Hortênsia saiu do quarto espreguiçando-se.
*** Eu nunca me espreguicei na vida. *** Não é muito
aconselhável espreguiçar-se em público.
O dicionário do entulho, todavia, registra este verbo como intransitivo
nesta acepção. Nele, é normal.
estilhaçar
É verbo pronominal, e não intransitivo: As vidraças do prédio se estilhaçaram
com o terremoto. *** O pára-brisa se estilhaçou, ferindo o
motorista. * * * Este vidro trinca, mas não se estilhaça.
No dicionário do entulho, no entanto, o verbo tem registro como intransitivo.
E então? Não é normal?
2 6 NÃO ERRE MAIS! 57 1
estragar
É verbo pronominal, e não intransitivo: Vinho aberto se estragafacilmente.
*** Fora da geladeira, qualquer leite se estraga em pouco tempo.
O dicionário do entulho registra este verbo também como intransitivo.
É ou não é normal?
sujar
Este verbo é rigorosamente pronominal, na acepção de tornar-se
sujo: Com este ar poluído, a pele e os cabelos facilmente se sujam. *** O
chapéu se sujou logo ao primeiro uso.
O dicionário do entulho registra este verbo direitinho como verbo
pronominal. Parabéns! Mas...
Mas no verbete salvaguarda, acepção 6, usa-o como verbo intransitivo.
Afinal, o verbo é pronominal ou intransitivo?
azaléia / azálea
As duas formas existem, mas a segunda é mais aconselhável, embora
a primeira seja a mais popular.
O dicionário do entulho, no entanto, arrumou uma terceira forma,
inexistente: "azaléa" (no verbete murchar).
"mais" anterior
Palavras como anterior, posterior, inferior, superior, etc. não admitem
modificadores como mais, menos, etc., porque sua terminação já dá a
idéia de mais ou de menos. Não existe, portanto, um fato "mais" anterior
a outro. Existe, sim, fato anterior a outro. Não existe, em rigor, um produto
"mais" superior a outro. O que temos é um produto superior a outro.
No dicionário do entulho, todavia, se lê no verbete clitóris: porção
"mais"anterior da vulva.
Isso existe?
parusia
Todo bom católico sabe o que esta palavra significa: retorno glorioso
de Jesus Cristo, no final do tempos, para estar presente ao Juízo Final. A
palavra nos vem do grego parousia e é rigorosamente paroxítona, com
acento na sílaba -si-.
O grande dicionário, todavia, registra "parúsia", coisa naturalmente
relacionada com a chegada do demo...
assim, assim
Quando alguém nos pergunta como vamos, e a nossa saúde não anda
lá essas coisas, costumamos responder: Vou assim, assim.
Mas o dicionário do entulho não vai assim, assim. Vai "assim-assim".

2 6 NÃO ERRE MAIS! 58 1
•ociocultural
íl assim que se escreve esta palavra, e o dicionário do entulho a regisIra
corretamente, mas...
Mas no verbete ambiente, acepção 8, se vê diferente: "sócio-cultural".

Afinal, para o dicionário a forma correta é esta ou aquela?
crisântemo
É esta a única prosódia da palavra, no português contemporâneo. O
calhamaço registra direitinho a palavra como proparoxítona, mas...
Mas no verbete variante, ao fornecer exemplo de variantes prosódicas,
lasca lá um "crisântemo", a par de crisântemo.
Coisas do dicionário do entulho.
"infectocontagioso"
A palavra é hifenizada: infecto-contagioso. O calhamaço, no entanto,
registra "infectocontagioso".
Ora, se infecto é adjetivo, tem vida independente. Não há, por isso,
nenhuma razão para a omissão do hífen. Repare que escrevemos sempre
com hífen: econômico-financeiro, gráfico-industrial, etc.
literocientífico / literomusical
É assim que se escrevem estas palavras, ou seja, sem hífen. Muitos
grafam "lítero-musical"equivocadamente: litero- não é adjetivo, como infecto,
do caso anterior, mas elemento prefixo-radical, a exemplo de aero-
(aeroclube), agro- (agroindústria), áudio- (audiovisual), bi- (bicampeão),
cardio- (cardiorrespiratório), eletro- (eletroeletrônico), morfo- (morfossintaxe),
musculo- (musculomembranoso), radio- (radiopatrulha), socio-
(socioeconômico), turbo- (turbocompressor), etc., que nunca exigem hífen,
a não ser em raríssimos casos.
A primeira palavra (literocientífico) tem uma variante gráfica: literário-científico.
Por que, agora, com hífen? Porque literário é um adjetivo,
e não um elemento prefixo-radical. Curiosamente, o calhamaço não
registra nenhuma daquelas duas palavras. Se registrasse, talvez o fizesse
ambas com hífen. Só para ser coerente, naturalmente...
Veja, agora, caro leitor, como anunciou a nossa melhor revista semanal
de informação, em manchete, a morte do Papa: Morre o papa João
Paulo II. Pontífice teve septicemia e crise "cardio-circulatória".
musculocartilaginoso / musculomembranoso /
musculotendinoso
É assim que se escrevem tais adjetivos compostos, ou seja, sem acento
no elemento musculo-, que, como vimos no caso anterior, não exige
hífen.
2 6 NÃO ERRE MAIS! 59 1
Os consulente s daquel e formidáve l dicionário encontrarão no
verbete diafragma uma novidade , que também não chega a ser uma
GRANDE novidade. O mais curioso é que o dicionário não registra a
referid a palavra .
destarte / dessarte
As duas formas existem. Mas nenhuma delas se classifica como advérbio;
trata-se de palavra denotativa de continuação (v. Nossa gramática
contemporânea).
Eis, porém, o que escreveu um jornalista, que também, nas horas vagas,
põe-se a professor eletrônico, para dirimir as dúvidas das pessoas
(que quase sempre acabam ficando ainda com mais dúvidas): Quando o
erudito deputado Roberto de Oliveira Campos usou o "advérbio"dessarte
em um de seus artigos pela privatização, a bandeira maior do neoliberalismo,
os ossos do padre Vieira chacoalharam de satisfação na Bahia,
onde foi enterrado há trezentos anos: ele usou dessarte em um de seus
sermões no Século 17.
O calhamaço está com o jornalista: classifica a palavra como advérbio.
franco-atirador
Como este composto é formado de adjetivo (franco = livre) + substantivo
(atirador), ambos os elementos variam no plural: os francos-atiradores.
Houve época em que se confundia o adjetivo com o elemento
franco- = francês, o mesmo de franco-alemão, franco-belga, franco-canadense,
etc. Daí por que se vulgarizou o plural franco-atiradores, que tem
a preferência da mídia.
peso-pesado
É assim que se escreve este nome do mundo do boxe, assim como
estes: peso-galo, peso-leve, peso-leve-ligeiro, peso-médio, peso-meio-
-médio, peso-meio-médio-ligeiro, peso-meio-pesado, peso-mosca e peso-
-pena.
Muito bem. O dicionário do entulho, todavia, registra corretamente
peso-galo, peso-mosca e peso-pena, mas incompreensivelmente "peso
leve","peso leve ligeiro","peso médio","peso meio-médio","peso meio-
-médio ligeiro", "peso meio-pesado" e "peso pesado". Ou seja, faz uma
lambança muito a gosto de crianças, que misturam tudo quanto podem,
quando brincam. Mas só quando brincam...
indochinês / indo-chinês
Convém não confundir. Indochinês é da península da Indochina, península
do Sudeste asiático. Indo-chinês é da índia e da China ou entre
esses dois países: as relações indo-chinesas.
2 6 NÃO ERRE MAIS! 60 1
Repare: a Indochina fica no Sudeste da Ásia. Pois bem. O dicionário
do entulho, no entanto, traz justamente o oposto: que a referida península
lica no "Sudoeste" asiático.
E agora?
ISO
Esta é uma sigla inglesa. De Internacional Standard Organization =
Organização Internacional de Padronização. O dicionário do entulho, no
entanto, acusa: "International Organization for Standardization". Ora,
como é que a sigla ISO pode sair dessa expressão? Por milagre?
avultar
Este verbo não é pronominal. Portanto, ninguém "se" avulta. Entre
os cientistas do mundo, avulta Einstein. *** Entre os escritores
brasileiros avulta Machado de Assis. Neste caso, avultar significa sobressair,
destacar-se.
Também na acepção de crescer, aumentar, tomar vulto, este verbo é
rigorosamente intransitivo: As baixas norte-americanas avultam no Iraque.
*** O prestígio do PT só tem avultado com a extraordinária e surpreendente
gestão do presidente Lula.
O fantástico dicionário do entulho, no entanto, registra este verbo
como pronominal, que ele não é.
mala-sem-alça
Os nomes femininos de coisas, usados em sentido figurado, em referência
a pessoas, passam a sobrecomum, no masculino. Assim, se banana
(feminino) se aplica a uma pessoa, usamos: Ele (ou Ela) é um banana.
Se picareta (feminino) se aplica a alguém, empregamos: Esse homem (ou
Essa mulher) é um picareta. Se laranja (feminino) se aplica a uma pessoa,
usamos: Esse rapaz (ou Essa garota) é só o laranja, o chefão não aparece
nunca.
Muito bem. Passemos, agora, ao caso de mala, redução de mala-sem-
-alça, termo que se aplica no Brasil, como gíria, ao indivíduo cacete, chato,
cricri, cuja companhia nunca é agradável ou bem-vinda. Trata-se,
como banana, picareta e laranja, de um nome feminino de coisa, em referência
a pessoas. Portanto, o nome é sobrecomum, e não comum-de-dois,
como querem dicionaristas menos avisados. Portanto: Esse dicionarista
(ou Essa dicionarista) é um mala!
Cremos ter sido claro...
pé-de-atleta / pé-quente |
E assim que se grafam estas palavras; a primeira é da área dermatológica
(micose); a segunda se aplica à pessoa que dá ou traz sorte. O
dicionário do entulho registra ambos os verbetes corretamente, mas...
2 6 NÃO ERRE MAIS! 61 1
Mas no verbete pé, registra os subverbetes "pé de atleta" e "pé quente",
reproduzindo a significação dada naqueles verbetes.
Afinal, o dicionário provoca "pé de atleta" ou pé-de-atleta? É péquente
ou pé-frio?...
teimar "com insistência"
Visível redundância: quem teima já procede com insistência. Mas o
dicionário do entulho é um poço sem fundo de inépcias. No verbete amuar,
acepção 3, traz a redundância.
É por isso que aqui a gente sempre teima: Não erre mais! (Será que,
para alguns, vale a insistência?)
derivar
É verbo transitivo indireto, usado pronominalmente ou não, na acepção
de originar-se, provir; resultar: Jibóia deriva (ou se deriva) do tupi.
*** O queijo e o iogurte derivam (ou se derivam) do leite.
Quanto a este verbo em particular, caro leitor, queira ir ao calhamaço!

Tomamos o verbete derivar apenas como o modelo de bagunça que
campeia na obra, na classificação dos verbos. A ânsia por economia de
espaço obrigou o autor a englobar várias classificações num só item. O
resultado é um imbróglio que confunde até mesmo o consulente mais
atento. Acrescente-se a esse imbróglio a escolha infeliz do autor de usar
nomenclatura arcaica: bitransitivo, p. ex.
Outro fato que salta aos olhos é a classificação errônea dos verbos.
Em derivar, p. ex., na acepção 10, o que para o autor é transitivo indireto,
na verdade se trata de verbo intransitivo, já que campeia confusão, em
toda a obra, entre objeto indireto e adjunto adverbial, mal de que padece
também o dicionário secular.
E saber que uma revista semanal de informação alardeou, à época do
seu lançamento, a obra como a melhor no gênero já publicada no Brasil.
Cego julgando cego dá nisso.
Habemus papam dominum?
parodiador = parodista?
Não. O parodiador é aquele que faz imitações humorísticas. Existem
apresentadores de televisão que têm muitos parodiadores, alguns bons,
outros sofríveis. Quantos parodiadores não tem o presidente?
Parodista é a pessoa que escreve paródias, é o escritor ou a escritora
de paródias.
O dicionário do entulho, todavia, registra ambos os termos como sinônimos.
Nele, normal.
2 6 NÃO ERRE MAIS! 62 1
apogeu / perígeu
Todo o mundo sabe disso, não é novidade nenhuma: apogeu é o oposto
de perigeu. Em astronomia, apogeu é o ponto da órbita de um planeta
ou de um satélite no qual este se encontra mais distante da Terra; perigeu
é o ponto da órbita de um planeta ou de um satélite no qual este se encontra
mais próximo da Terra.
Em sentido figurado, apogeu significa o grau máximo de desenvolvimento
ou de perfeição que uma pessoa ou uma coisa pode alcançar, o
ponto ou grau mais alto. Uma mulher pode estar no apogeu da sua juventude.
Uma pessoa pode estar no apogeu da carreira. Minha geração viu o
apogeu e a derrocada do império soviético.
Ora, se apogeu e perigeu são antônimos, como pode perigeu significar
também o ponto ou grau mais alto? Pois é. O calhamaço veio mesmo para
mudar tudo.
Habemus papam dominum?
"mais" inferior / "mais" superior
Qualquer estudante mais ou menos aplicado já sabe que inferior e
superior são palavras que não admitem modificadores, como "mais", "menos",
"muito mais", "muito menos", etc. Também não aceitam "que" ou
"do que", mas apenas a: Esse produto é inferior ao meu. *** O preço
desse carro é superior ao meu.
Muito bem. Espantar-se-ia o caro leitor se deparasse "mais inferior"
num dicionário?Talvez não. Talvez sim. Pelo sim, pelo não, queira consultar
o verbete escorralho. Do calhamaço, naturalmente.
cabra-da-peste / cabra-da-moléstia
É assim que se grafam corretamente estas palavras, mas se o caro
leitor for a qualquer dicionário vai encontrar "cabra da peste" e "cabra da
moléstia". Ora, se as duas palavras se prestam a função adjetiva (homem
cabra-da-peste, mulher cabra-da-moléstia), como não hifenizar? E por
que com hífen trazem esses mesmos dicionários todas estas palavras: cabra-de-chifre,
cabra-de-eito, cabra-de-peia, cabra-escovado, cabra-feio,
cabra-macho e cabra-sarado e não cabra-da-moléstia e cabra-da-peste?
Só os ETs explicam.
habeas corpus / habeas data
É assim que se escrevem estes latinismos, ou seja, sem acento nem
hífen.
O dicionário do entulho, contudo, registra habeas corpus (corretamente),
ao lado de"hábeas-data" . Sua coerência é formidável!
habitar
Este verbo pode ser transitivo direto ou intransitivo. Como transitivo
2 6 NÃO ERRE MAIS! 63 1
direto: Habito uma casa modesta. *** Ele habita favela. Como intransitivo:
Habito numa casa modesta. *** Ele habita em favela.
Como intransitivo, costuma ter adjunto adverbial regido da preposição
em (numa casa modesta, em favela).
Qualquer estudante da oitava série sabe distinguir um objeto indireto
(complemento de verbo transitivo indireto) de um adjunto adverbial
de lugar.
O dicionário do entulho, todavia, revela desconhecer a diferenç a
entre um e outro, e isto está claro em muitos verbetes, inclusive em habitar,
em que considera transitivo indireto um verbo que é clarament e
intransitivo.
descongelar
Cubos de gelo se descongelam: o verbo descongelar (derreter-se, degelar)
é rigorosamente pronominal. No microondas, uma carne congelada
se descongela mais rapidamente.
O dicionário do entulho, todavia, registra o verbo também como intransitivo.
Nele, normal.
"aquarelismo"
O caro leitor já ouviu falar em "aquarelismo"? Decerto que não: a
palavra não existe! Mas se um consulente quiser saber o que é aquarelista
e for a certo dicionário, verá que lá está a palavra (que nem mesmo o
próprio registra).
Afinal de contas, o que será"a-qua-re-lis-mo" ? Onde encontrar esse
verbete? Não consigo. Fico, então, sem saber o que é"aquarelismo". Quem
sabe se na próxima edição...
consistir
Este verbo rege a preposição em, e não a preposição "de": O esqueleto
humano consiste em muitos ossos. *** Minha biblioteca consiste
em algumas obras raras. *** A Terra consiste em três quartos de água.
*** A vida consiste em muitos anos de tolices e em muito poucos anos
de lucidez.
Muito bem. O dicionário do entulho traz exemplos perfeitament e
corretos com este verbo. Mas ao usá-lo, ao longo da obra, faz justament e
o oposto. Consulte os verbetes escorregador e número!
Podemos até afirmar, para sermos bem didático, que o dicionário
consiste em muitos equívocos...
E que "tudo mais" vá para o inferno!
A exemplo de todo o mundo, a expressão em destaque não dispensa
o artigo. Portanto, quero, sim, que você me aqueça neste inverno. E que
tudo o mais vá para o inferno!

NÀ NAO ERRE MAIS! 1 1 5
"questã"
Quem usa "questã "está perto de usar também"coraçã","limã","mamã" ,
mHã","sabã","bobã" , que tudo é uma simples questão de cultura.
Há ainda os mais corajosos, que dizem "kuestã"! Aí é mesmo para
(icar maluco! Certa feita uma senhora, muito simpática, depois de uma
do nossas palestras, chegou e nos convidou, à queima-roupa : Professor, eu
faço "questã" que o senhor jante com a gente.
Está claro que preferi a fome...
"mendingo" / "menas "
"Mendingo"e"menas" , a exemplo de"questã" , são farinh a do mesmo
saco.
pantera negra
Não se trata de uma espécie diferent e de animal. Trata-se apenas de
uma panter a que, por ter excesso de melanina , apresenta a pelagem totalment
e negra. Por isso, não há nenhuma necessidade de se usar o hífen
aqui. O dicionário do entulho, todavia, registra "pantera-negra" . Na década
de 1960, nos Estados Unidos, havia os Panteras Negras ou os"Pan -
teras-Negras" ? (Eita perguntinh a marota!)
penal
Não se usa esta palavra, estritament e do meio jurídico, na linguagem
do futebol. A prática esportiva só conhece penalidade máxima ou pênalti,
quando a infraçã o do jogo é cometida dentro da grande área. O dicionário
do entulho, no entanto, registra a palavra por pênalti.
de somenos importância
Assim como não existe "menas" , também não existe "somenas" . Recentemente,
porém, um presidente de tribunal, numa entrevista pela televisão,
afirmou com toda a segurança que o problema da morosidade na
justiç a é de "somenas" importância.
O que, então, é realment e importante?
nomes das horas
Os nome s das horas exigem o artigo: Trabalho das 8h às 18h. (E não:
Trabalho "de" 8h às 18h.) *** Cheguei por volta da meia-noite. (E não:
Cheguei por volta "de" meia-noite".) *** As lojas, aqui, abrem a partir
das 9h. *** Esperei-a desde as duas horas. *** Antes do meio-dia estarei
lá. *** Da zero hora aos trinta minutos, passamos muito frio lá. *** Telefone-me
por volta do meio-dia! *** Estarei de volta entre as duas e as
três horas. *** Só a encontrei depois da uma da madrugada.
É justament e esse artigo que justifica o uso do acento da crase em:
Voltei às nove horas. *** Cheguei às 15h.
1 1 5
NÀ NAO ERRE MAIS!
Se não houvesse o artigo, frases que tais dispensariam o acento grave,
porque não haveria a ocorrência de crase. Por isso, quem usa o acento
grave aí e não usa o artigo nas frases como as que se viram acima não
sabe nem mesmo por que acentua o à ou às.
Alguns jornalistas acham exagero exigir o uso do artigo antes dos
nomes das horas. O valor ou a importância das coisas, para esses, certamente,
se mede pelo seu tamanho.
Na mídia: Morre Joel, campeão mundial em 1958: o corpo será velado
a partir "de" 19h30 na sede da Gávea. *** Entre "10h40"da manhã e
"21h20"da quinta-feira passada, Paulo Maluffez um programa diferente
dos que costuma cumprir em suas férias anuais em Paris. *** Uma estudante
foi morta com várias facadas por volta "de" meia-noite, logo após
chegar ao prédio com um homem que seria o seu namorado.
Veja, agora, caro leitor, o exemplo que encontramos no verbete bacurau,
acepção 5, em ambos os dicionários: ônibus que circula entre "uma"
e "seis"horas da manhã.
Estamos ou não estamos muito bem de dicionários?
lateral-direita
O futebol, na verdade, possui lateral-direita, e não "lateral-direito".
Por isso, pode afirmar, sem medo de errar: O maior lateral-direita do
mundo foi Djalma Santos.
Se lateral e ponta são palavras femininas, só poderemos ter (corretamente,
claro): lateral-direita, lateral-esquerda, ponta-direita, ponta-
-esquerda. Por que é que nenhum jornalista usa "ponta-direito", "ponta-
-esquerdo"? Por algo será...
Nos dias que correm, alguns substituíram lateral por ala. Mas nenhum
deles usa"ala-direito" nem"ala-esquerdo" . Todos dizem ou escrevem
direitinho: ala-direita, ala-esquerda.
O nosso futebol é pentacampeão mundial. E os nossos jornalistas esportivos?

EM TEMPO - O dicionário do entulho registra lateral-direita a par de lateral-direito,
assim como lateral-esquerda a par de lateral-esquerdo. Seu
autor levou em consideração o uso, apenas o uso, ao aceitar os compostos
aqui impugnados. Há certos dicionários que têm como lema "o que cair
na rede é peixe".Tudo para aumentar o número de verbetes. Qualquer dia
destes, certos dicionários ainda vão trazer "mendingo", "mortandela",
"menas", "questã", "ignomia", "idoniedade", "espontaniedade" e outras
palavras populares. Aí, então, já não será preciso ter dicionário em casa.
"De sábado"
Quando algo se repete, nos dias da semana, usamos o nome do dia no
plural, antecedido da preposição a: Aos sábados não há expediente. ***
Ns segundas-feiras tenho aula de Português. *** Aos domingos não saio
de casa.
Quem, na década de 1960, não cantou, pelo menos uma vez, aquela
bela canção americana Never on Sunday? Ou seja: Nunca aos domingos.

NÀ NAO ERRE MAIS! 1 1 5
Há pessoas, no entanto, que se sentem melhor cantando "Nunca de
domingo". Assim como há os que se sentem melhor faland o em"lateraldireito"
e "lateral-esquerdo" . Quem é sensato respeita; quem tem juízo
nunca acata.
O Titanik "afundou"
Esta informação não traduz inteirament e a verdade. Sim, porque o
Titanik em verdade se afundou logo na viagem inaugural, quando se dirigia
da Inglaterra par a os Estados Unidos, na noite de 14 para 15 de abril
de 1912, depois de chocar-se com um iceberg.
Há uma diferença abissal entre afundar (= ir ao fundo) e afundar-se
(= ir a pique, naufragar). Um mergulhador ou um submarino afunda e
logo emerge. Muito diferent e é um submarino afundar, e outro afundarse:
par a um, trata-s e de operação merament e de rotina; par a outro, nem
tanto...
Golfinhos, baleias e jacaré s afundam e logo voltam à tona.
Há dicionários que confundem afundar com afundar-se. Não chega a
causar AQUELA surpresa nem AQUELE espanto...
Uma curiosidade: no Brasil se pronunci a "Titanique" , que em verda -
de é uma grande tolice. O navio era britânico, e não francês. A pronúnci a
verdadeira é taiténik.
jogo de "pimbolim"
O jogo que se faz com 22 bonecos numa caixa de madeira , imitante s
a jogadore s de futebol, é o pebolim.
Um famoso treinador, porém, depois de uma grande vitória do Palmeiras
sobre o São Paulo (4 x 2), quando tudo indicava fácil triunf o são-
-paulino, talvez empolgado pelo placar elástico, que teve até gol de chapéu
(Alex), declarou solenemente que futebol não é jogo de "pimbolim" .
Isso não existe. Nem em Luxemburgo...
semiEste
prefixo exige hífe n apena s antes de vogai, h, r ou s: semi-automático,
semi-herbáceo, semi-reta, semi-sintético. Não há hífe n em nenhum
outro caso. Os revendedore s de veículos novos têm geralment e um
setor de carros usados, que eles tratam por "semi-novos". A partida que
antecede a final de uma competição não é semifinal. Para os jornalista s
esportivos, trata-s e de"semi-fmal" .
miniEste
elemento, oficialmente, exige hífen apena s antes de h. Portanto,
segundo a Academia Brasileira de Letras, grafaremos: minissaia, minissérie,
minisselo, minirrestaurante, minirrevólver, mas: mini-harpa, mini-
-hélice, mini-hotel, etc.
1 1 5
NÀ NAO ERRE MAIS!
A nosso ver, todavia, trata-se de um prefixo que deveria exigir hífen,
assim como arqui-, antes não só de h, mas também antes de r e s: mini-
-restaurante, mini-revólver, mini-saia, mini-série, mini-selo, etc. Portanto,
antes de qualquer outra letra, não há hífen. Mas os jornalistas parecem
ignorar isso. Veja como escrevem: Robinho fica na reserva no "minicoletivo"
da seleção.
Se a Reforma Ortográfica realmente vier, todos esses probleminhas
sobre o hífen serão amenizados. Resta saber quando virá.
Quem nasce no Acre é...
Oficialmente, acreano (forma incorreta); na verdade acriano: é a vogai
i que se usa neste caso, com queda da vogai final e. Repare: Açores/
açoriano, Goethe/goethiano, Iraque/iraquiano, raqueiraquiano, etc.
O Vocabulário Oficial, no entanto, registra acreano. E o sapo, quem
tem de engolir somos nós. Aliás, o Vocabulário Oficial nos obriga não só a
engolir esse sapo, mas muitos outros, cada um maior que o outro.
Durma-se com um coaxar desses!
Por falar em sapos, há vários deles em nosso léxico, que andamos
engolindo faz tempo. A Academia Brasileira de Letras, responsável pelo
Vocabulário Oficial, tem de se manifesta r sobre eles. Tem de nos explicar,
por exemplo, por que não agasalha as formas legítimas carcassa, cassarola,
chererém, corsel, gengibirra, harpão, liaça e miçanga que, pelos seus
étimos, jamais poderiam ser grafada s como estão no Vocabulário Oficial.
E por que engazopar, se se trata de derivada de gás? E por que cardeal,
se a palavra nos vem do latim cardinalis? Onde foram achar esse e? E por
que chupim, se a palavra nos vem do tupi xopil E por que chute, se o grupo
sh dó inglês se representa com x em português (xampu, xerife, etc.)?
Não seria um verdadeiro chute?
Em vez de nos dar resposta a essas perguntas, o Vocabulário Oficial
se preocupa em incluir palavras como inro (porta-remédio, em japonês),
charruká (festa judaica), gefiltefish (bolinho de peixe), tzedaká (boa ação),
etc., que absolutamente não correm entre nós. Importante e urgente, sim,
é consertarmos primeiro as nossas inépcias.
A Academia Brasileira de Letras foi fundad a por Machado de Assis
e outros intelectuais contemporâneos seus para - precipuamente - cuidar
da língua portuguesa. Sendo assim, a entidade tem de nos explicar por
que, por exemplo, só admite as formas engulimos e engulis, do presente
do indicativo, se o verbo é engolir. Tem de explicar por que agasalha a
forma estripulia (forma incabível em Portugal, em que só se usa estrepolia).
Tem de explicar por que estmpício, se o étimo é stroppicio (italiano)
e em Portugal só se tem corretamente estropício. Tem de explicar por que
acolhe a forma mezanino, se os zz italianos dão necessariamente c ou ç
em português. A coerência e a história nos levam a apenas uma grafia:
meçanino. E o caso de muçarela ou moçarelal Quem engole a forma proNÀ
NAO ERRE MAIS! 1 1 5
posta mozarela? Tem de explicar por que abona extensão a par de estender,
se são palavras da mesma família.
Por que a Academia nos faz escrever perônio, se o étimo é o grego
perone, através do latim peroneusl Por que fazer conviverem perônio e
peroneal? Por que sustenido, se o étimo, seja o espanhol sostenido, seja o
italiano sostenuto, só nos leva a grafar com o na primeira sílaba? Por que
a Academia prefere a grafia acrídeo a acrídio (a oficial em Portugal), se a
palavra provém do grego akridion, diminutivo de akris = gafanhoto? Por
que a Academia registra xucro, se a palavra tem por étimo chucre que,
em espanhol, significa recém-chegado e, como tal, ignorante das coisas
americanas?
A Academia Brasileira de Letras precisa explicar por que registra
neoprene e neopreno (corretamente), mas apenas isopreno. Precisa explicar
por que não manda acentuar os substantivos fôrma e sêde, se os
acentos gráficos em tais palavras são absolutamente necessários. Seria
interessante, ainda, que a Academia nos explicasse por que considera
mini- um elemento prefixo-radical, e não um prefixo.
Esperamos ainda da Academia Brasileira de Letras uma solução
para o caso dos nomes próprios, alguns de origem indígena, como Mossoró
e Sergipe, e outros de origens as mais diversas, como Gibraltar, que
deveriam, todos três, de acordo com seus étimos, ser grafados, respectivamente,
Moçoró, Serjipe e Jibraltar.
A Academia Brasileira de Letras precisa, enfim, começar a atuar
como a Academia Francesa, por exemplo, que produz o Dicionário, uma
obra séria, o árbitro oficial da língua francesa. Afinal, já temos mais de
quinhentos anos! Não está na hora de criarmos juízo?
EM TEMPO - Sobre a Academia Brasileira de Letras, eis o que trouxe
uma revista semanal de informação, na ed. 1.715, pág. 144: Há muito
tempo, a Academia Brasileira de Letras não produz nada de relevância
cultural. Gera, no máximo, algumas fofocas curiosas. E, mesmo assim, só
de vez em quando. Como se vê, muito longe dos princípios que nortearam
Machado de Assis a fundá-la .
piorar "mais" / piorar "ainda mais"
Visíveis redundâncias, porém, muito cometidas nos dias que correm,
principalmente por repórteres e jornalistas. Eis um exemplo: Em São
Paulo, 66% da população consideram o trânsito da cidade ruim e 67%
acreditam que a situação vai piorar ainda "mais".
Numa revista: Empresas e prestadores de serviço fazem malabarismos
para evitar que a situação piore "ainda mais ".
Há certos jornalistas que se comprazem mais em fazer malabarismos
com a língua...
O mais trágico, porém, aconteceria num fatídico dia de abril de 2003.
Um jornalista escreveu: O clima no Palmeiras, já conturbado depois da
N À NAO ERRE MAIS! 11 5
derrota por 7 a 2 para o Vitória, na última quarta-feira, piorou "ainda
mais" nesta sexta-feira, na véspera da estréia da equipe na Série B do
Campeonato Brasileiro, contra o Brasiliense, em Taguatinga.
Piorar "ainda mais", principalment e no Parque Antártica, em 2002,
era impossível. A verdade é que o Palmeiras piorou tanto, mas piorou
tanto naquele ano, que caiu para a segunda divisão do campeonato
brasileiro.
Reparou? Não foi preciso usar "mais "nem "ainda mais".
adiar "para depois"
Nem é preciso comentar: trata-se de uma redundância palmar. Há,
porém, variantes. Repare nesta frase de um economista, escrita num periódico:
Crédito, ou confiança, que um estabelecimento dispensa ao consumidor
permite adiar o cumprimento de uma obrigação "para uma oportunidade
posterior".
Mais curioso ainda seria se um estabelecimento adiasse o cumprimento
de uma obrigação "para uma oportunidade anterior"...
melhorar "mais"
Redundância explosiva, como as anteriores. Semelhante a "cair para
baixo". Ou seja, coisa de "demente mental"... O governo federal, no entanto,
cometeu-a. Em 1996, durante o primeiro mandato de Fernando
Henrique Cardoso, um de seus anúncios pela televisão anunciava uma
melhora para todos os brasileiros. Então, se lia na tela: Para uns, "melhorou
mais", para outros "melhorou menos", mas que melhorou, melhorou.
Naturalmente, o razoável seria que lêssemos de outra forma. Assim,
por exemplo: Para uns, melhorou muito, para outros melhorou pouco,
mas que melhorou, melhorou.
ir para
Quem vai para algum lugar, vai para ficar ou demorar bastante;
quem vai passear ou mesmo trabalha r às pressas e tenciona regressar
brevemente, vai a. Portanto: Vou a Santos todos os fins de semana. ***
Nas férias irei a Madri. ***Vou a Fortaleza, mas voltarei amanhã. *** Faz
dez anos que Bernadete foi para Lajes. * * * Depois disso nunca mais a vi.
*** Querida, escolhi nossa futura cidade: iremos para Teresópolis!
Assim, não se usa com propriedade, por exemplo, a preposição para
em frases assim: vou "para" a praia, vou "para" a piscina, vou "para" o
clube. A não ser que a intenção seja morar ali definitivamente, o que não
parece coisa razoável.
Num jornal: Para ver uma rena ao vivo, só indo "para" o pólo Norte
ou "para"a Eurásia (a parte superior da Europa), seu ambiente natural.
„ Nem tanto...

NÀ NAO ERRE MAIS! 1 1 5
Noutro jornal: Uma empresária foi vítima de assalto e acabou baleada
no braço quando levava três filhas para a escola.
E as filhas ficaram lá na escola, nunca mais voltaram pra casa?!...
dar à luz uma criança
É assim que se constrói o verbo dar nesta expressão. Eis mais exemplos:
Minha vizinha deu à luz gêmeos. (E não: Minha vizinha deu "a"luz
"a"gêmeos.) *** A elefanta deu à luz um macho. (E não: A elefanta deu
"a" luz "a"um macho.)
Num jornal: Cigarra consegue dar à luz "a" mais de 300 filhotes. (E
muitos pensaram que o verdadeiro exagero estava nos 300... )
assim como / bem como
Quando entre os sujeitos houver a expressão assim como ou bem como,
o verbo concordará sempre com o primeiro sujeito: Eu, assim como vocês,
sou brasileiro. *** Vocês, bem como eu, são brasileiros. *** O Brasil, bem
como todos os países sul-americanos, épobre. * * * O homem, assim como
todos os seres humanos, ê mortal. *** Nós, assim como elas, chegaremos a
um acordo. *** Elas, bem como nós, chegarão a um acordo.
De um jornalista: A partir de agora, a publicação de livros, revistas,
jornais e panfletos, bem como sua importação e comercialização, "dependerão
" de autorização prévia das autoridades.
berinjela ou beringela?
O Vocabulário Oficial traz apenas a primeira forma, mas a etimologicamente
correta é a segunda.
Um dicionarista registra a forma beringela como correta, fato que
tem um lado positivo e um negativo. O positivo fica por conta da iniciativa
corajosa, digna de um autêntico dicionarista; o negativo fica por conta
da confusão em que a iniciativa pode meter alunos, que já não saberão
como escrever a palavra corretamente, e professores, que não poderão
corrigir nem uma nem outra forma de seus alunos, já que campeia a bagunça,
a desordem, o caos em relação à palavra.
Levado pelo rigoroso senso de disciplina que nos norteia, nossa posição
é de defesa intransigente da forma berinjela, até que a nobre Academia
Brasileira de Letras se prontifique a registrar a outra forma, mais
consentânea com a etimologia. Os luminares acadêmicos se basearam no
espanhol berenjena para fixar a grafia da nossa palavra, mas se esqueceram
do persa (badingan) e das demais línguas latinas, com exceção do espanhol,
que só a registram com g, caso do catalão alberginia e do francê s
aubergine.
O que me surpreende, todavia, no dicionarista que dá preferência à
Ibrma beringela é o fato de não proceder da mesma forma em relação a
outras palavras, cujo étimo leva à escrita diferente daquela registrada no
Vocabulário Oficial. Carcaça, por exemplo. A palavra, em rigor, se levado
N À NAO ERRE MAIS! 11 5
em eonta o seu étimo, só poderia ser escrita com ss: carcassa. Nada nos
faz escrever com ç, a não ser o registro oficial. Por que, então, o dicionarista
não mudou também a grafia da palavra?
Por que não mudou a grafia de arpão para harpão?
Por que não mudou a grafia de caçarola para cassarola?
Por que não fez constar em seu dicionário a grafia corsel?
Por que não mudou a grafia de giz para gis, já que o étimo só nos leva
a esta forma?
São perguntas que, infelizmente, já não podem ter resposta, uma vez
que seu autor já não está entre nós.
malograr
Este verbo é pronominal, no sentido de fracassar, gorar: Os esforços
para a paz malograram-se. * * * Os planos do governo para erradicar a
fome malograram-se.
Escreve um jornalista carioca sediado em Brasília: Funcionalismo
público promete greve geral para amanhã, mas parece que vai "malograr".
No editorial de um jornal: Esse plano, como se vê, tem tudo para
"malograr". Por isso, se a realidade da educação básica já é trágica, como
atesta o Saeb, ela poderá piorar "ainda mais" se Lula não mandar seu
ministro da Educação deixar de lado a demagogia e preparar um novo
plano mais realista e compatível com a realidade financeira do Estado.
Será que tudo mesmo vai piorar?...
bastidores
É palavra só usada no plural (lado íntimo ou curioso, pouco sabido
do público): os bastidores da política, os bastidores das televisões.
Dia destes, uma repórter começou seu trabalho assim: Comenta-se
"no bastidor" que...
Repórter que já começa dando notícia dessa forma não deve conhecer
nada do que acontece nos bastidores.
Outra repórter nos informava que "no bastidor" já se sabia que o ministro
dos Transportes não seria exonerado pelo presidente.
Na verdade, nenhuma conhece o trabalho de bastidores...
história / estória
Urge estabelecer a distinção entre história e estória, como já fizeram
João Ribeiro, Câmara Cascudo e tantos outros insignes brasileiros. Guimarães
Rosa, um de nossos mais revolucionários e notáveis escritores,
escreveu Primeiras estórias (contos, 1962). Todos eles teriam cometido
equívoco? Todos teriam vacilado? A distinção entre as formas história e
estória é uma questão de bom-senso, e não propriamente de etimologia,
de ciência.

NÀ NAO ERRE MAIS! 1 1 5
A forma estória nos vem do inglês story, trata-se em verdade de um
cstrangeirismo como outro qualquer e merece, sim, toda a consideração.
()u você também é avesso aos estrangeirismos? Se for, não se envolva com
informática! Se for, não se meta com futebol nem muito menos com esportes
radicais! Se preferir ser ranzinza, ranheta, você vai acabar ficando
confinado numa jaula lingüística. Não vale a pena: a vida é curta!
Ademais, estória não é só um anglicismo, senão uma forma arcaica
do próprio português. João Ribeiro, o gramático, em 1919 já admitia o seu
emprego, a par de história. Foi ele quem sugeriu o emprego da palavra.
Câmara Cascudo, um grande brasileiro, acatou-lhe a sugestão, além de
tantos outros insignes escritores nacionais.
História é ciência, é o que jamais se inventa; é o que existe ou o que
existiu como fato; é fato comprovado por documentos. Sendo assim, estórias
jamais ganharão o status de histórias. Nenhuma estória faz história;
vira conto, narrativa. Mas a história propicia muitas estórias engraçadas.
Houve já um autor nacional que resolveu contar-nos passagens dos bastidores
da nossa história. Intitulou a obra desta forma: Estórias da nossa
história. Perfeito.
Ademais, estória não é só um anglicismo, senão uma forma arcaica
do próprio português. João Ribeiro, o gramático, em 1919 já admitia o seu
emprego, a par de história. Foi ele quem sugeriu o emprego da palavra, na
acepção de balela, lorota, conversa mole ou na de ficção: Não me venha
com estórias! Criança gosta mesmo é de estórias em quadrinhos.
Repare ainda nestas frases, em que só cabe mesmo o emprego de estória,
aqui equivalente de complicação: Deus me livre de estória com a
polícia! Não há uma pessoa na cidade que queira estória com essa gente.
É bem verdade que muitos de nossos escritores, principalmente os regionalistas,
relutaram em usar estória e, na dúvida, empregavam mesmo
história, para não criarem polêmica.
É mais do que sabido que a única grafia cientificamente defensável,
no português, é história. Não é esse, porém, o ponto que se discute. Se as
maiores autoridades em lexicografia latina já registravam história por
"causo" ou por conversa fiada, é hora de estabelecermos a distinção, para
maior clareza da comunicação, por bom-senso (que não faz ciência, mas
é virtude sempre indispensável). Um ladrão ou um bandido, à frente de
um juiz, nunca jamais contará a história; preocupar-se-á com estórias,
porque a verdade conspira contra ele.
O Dicionário do folclore brasileiro, de Luís da Câmara Cascudo, traz
a forma estória, além da informação de que em Portugal o conde de Sabugosa,
no prefácio de Damas de tempos idos, propõe a forma que tanta
abominação causa a certos autores e escritores brasileiros, muitos deles
caturras por excelência.
Caldas Aulete registra a forma estória, além de outros lexicógrafos
de nomeada. Nós estabelecemos a diferença e fazemos questão de nos
nortear por ela. O leitor que dela não se convencer estará livre para env
 1 1 5
NÀ NAO ERRE MAIS!
cerrar-se definitivamente na história, quando contarem "causos": não
ofende a língua, mas agride firmemente o bom-senso!
Por falar em "causo" e só por mor de ilustração, eis um interessante,
que talvez o ajude, caro leitor, a decidir por esta ou aquela forma, conforme
sua consciência:
Numa cidadezinha do interior, dois compadres conversavam aproveitando
o clarão da Lua. Cadeira na calçada, pito na boca e o costumeiro
pijama listrado. Aí, um compadre diz pro outro:
- Conta uma daquelas estórias suas, compadre! A Lua tá tão boazinha,
tá memo pra gente proseá. Como foi memo sua viage à Bahia? Deu
tudo certo?
Vendo que não podia fugir do papo, o compadre não teve jeito:
- Que certo, que nada, compadre, quase que eu morro!
Aparteando com um Num diga!, o compadre viu logo que ia sair estória.
Encostou mais a cadeira, e o outro foi narrando sua aventura.
- Quando o desgraçado do navio ia se aproximando da costa da
Bahia, compadre, não é que foi batê logo numa pedra e arromba todo o
casco? E haj a água pra entrá por tudo quanto era buraco!
O compadre, cada vez mais interessado pela estória, procurando ajudar
o outro, ajuntou:
- E vosmecê, compadre, que nunca nadou nem memo em riacho daqui,
que tem somente uns parmo de fundura , hem?
E o outro prosseguiu:
- Mas na hora da morte, compadre, a gente é capaz de tudo! Quando
vi o aguaceiro entrá porta adentro do meu quarto do navio, subindo parmo
a parmo numa ligeireza danada, e a porta depois fechá com o ferrolho
emperrado, tive uma idéia pai-d'égua.
- Conta, conta, compadre - acudiu o outro, cada vez mais interessado.
- Então, abri aquela portinha redonda de vidro que fica no quarto
pra gente oiá o mar; tirei toda a roupa, peguei minha latinha de vaselina,
besuntei todo o corpo e... tchibung! caí no mar e taquei a nadá em direção
a terra.
- Nadando memo, compadre? - aparteou o outro.
- Nadando que nem um cão, guiado por umas luizinha que piscava
lá longe. Mas isso num é tudo! O pió é que quando eu tava meio caminho
andado, já perto da terra, não é que me vi cercado de tubarão por tudo
quanto é canto, cada um querendo me ganhá primeiro, compadre, e por
baixo!!!
- Ixe, nossa mãe!
- Aí, compadre, num tive dúvida, saquei da minha pexera e fui degolando
de um em um.
- Mas como, compadre?! - atalhou o outro - vosmecê num disse que
tinha saído do navio nuzinho em pêlo?
A esta altura, o compadre estourou:
NÀ NAO ERRE MAIS! 73 1 5
Basta, compadre, basta! Já vi que vosmecê num tá querendo memo
ouvi estória.
E retirou-se, zangado.
Há muita gente séria por aí que só gosta de ouvir histórias desse
tipo...
Um time pode perder "do" outro?
Não, um time ganha do outro, mas perde para o outro: Faz tempo que
o Flamengo ganha do Vasco da Gama. * * * Faz tempo que o Flamengo não
perde para o Vasco. * * * O Corinthians andava ganhando de todo o mundo.
* * * O Palmeiras perdeu até para o ASA, de Arapiraca.
acordo entre "Brasil" e "Argentina"
É comum nossos jornais trazerem manchetes assim, ou seja, sem o
artigo antes de nomes que o exigem. Ora, alguém mora "em" Brasil ou
"em" Argentina?
Eis uma notícia de jornal: Mais de 700 mulheres australianas posaram
nuas hoje para protestar contra o provável envolvimento do seu país
no caso de uma guerra entre "Estados Unidos"e "Iraque". (Ora, quem é
que vai a "Estados Unidos" e foge "de" Iraque?)
Escreve no Jornal da Tarde conhecido e respeitado editorialista: Parece
que Lula e Bush vão surpreender o mundo com uma parceria inédita
entre "Brasil"e "Estados Unidos".
É o caso de perguntar: será que o jornalista conhece o Brasil?; será
que ele sabe onde ficam os Estados Unidos? Ou ele mora mesmo é "em"
Brasil e viaja sempre "a" Estados Unidos?
Outro jornalista carioca, mas sediado em Brasília, escreve: A guerra
entre "EUA"e "Iraque"é cada vez mais iminente e colocará em frangalhos
a economia mundial.
A guerra, viu-se depois, não colocou em frangalhos apenas a economia
mundial, mas também evidenciou o frangalho em que se encontra a
pena de muitos jornalistas.
É o mesmo jornalista que escreve: Vejam a contradição: "EUA"e "Inglaterra"
estão destruindo Bagdá e outras cidades iraquianas, mas já escolheram
as empresas que irão participar da reconstrução.
Vejam que contradição!...
Esta é de outro jornalista: "França" e "Brasil" se aproximam
ainda mais graças a encontro entre representantes dos dois países.
O caro leitor, por acaso, já visitou "França"? Conhece "França"?
Mora "em" Brasil? Vive "em" Brasil? Trabalha "em" Brasil? Já viajo u
"por" Brasil?
N À NAO ERRE MAIS! 11 5
Noutro jornal: Segundo o presidente da UIA (União da Indústria Argentina),
Héctor Mendez, Furlan é o ministro brasileiro que mais preocupa
os empresários argentinos. Para ele, é necessário a adoção de uma política
empresarial entre "Brasil"e "Argentina"que seja capaz de corrigir
as assimetrias do Mercosul.
Numa revista: A história das relações entre "Brasil" e "Argentina"
obedece a um princípio básico: toda vez que a economia de um deles atinge
velocidade superior à do outro, surgem atritos diplomáticos.
AVeja (ed. 1.615) fez uma entrevista com o respeitável senador Pedro
Simon, um dos políticos mais dignos que este país já produziu. Lá pelas
tantas:
- O senhor acha que os paulistas são arrogantes?
- Não. É que São Paulo está muito à frente. Tem de fazer um esforço
muito grande para conversar com o resto do Brasil. E como os Estados
Unidos dialogando com "Bolívia", "Equador" ou Uganda.
Repare no uso escorreito do artigo antes de Estados Unidos e de Brasil.
Mas... por que diabo o competente, digníssimo e também muito simpático
senador o omitiu antes de Bolívia e Equador?
É um mistério!
Nomes de clube também exigem o artigo?
Também: o Flamengo, o Corinthians, a Portuguesa, o Atlético, o Cruzeiro,
o Grêmio, o Internacional, o Palmeiras, o ASA...
Quando, porém, a referência é a um jogo, a omissão do artigo é também
correta: Palmeiras e Corinthians sempre foi um jogo emocionante.
*** A tabela marca Vasco e Flamengo no Maracanã.
nós "vai", vocês "fica"
É de rir, não é? Pois bem, há jornalista por aí cometendo quase a mesma
asnice. Veja o que se leu recentemente no site de A Gazeta Esportiva:
O volante Claudecir reconheceu que o Palmeiras ainda não apresentou
um futebol digno do Palmeiras. De acordo com o jogador, as duas vitórias
do time não "iludiu" o elenco nem a torcida.
A maré do Palmeiras andou tão em baixa em 2002, que jornalista que
se referia ao clube já nem pensava em plural, porque o clube era muito
singular...
taça Libertadores "de" América
Em português não existe isso, mas os nossos jornalistas e narradores
esportivos abusam da expressão. Em espanhol, sim, é que a palavra
América dispensa o artigo; os povos de língua espanhola estão, portanto,
NÀ NAO ERRE MAIS! 5 1 5
corretos em usar a expressão daquela forma. Nós, brasileiros, não. Que
brasileiro diria que Colombo foi o descobridor "de"América?
campeonato mundial "interclubes"
A palavra interclube é malformada , já que o prefixo inter- se apõe a
adjetivo, e não a substantivo. Assim, deveríamos ter em seu lugar interclubista,
que ninguém usa, mesmo porque não existe no seio da língua.
Em razão dessa má formação, os jornalistas esportivos usam a palavra
por entre clubes, daí resultando uma concordância extraterrena: um adjetivo
no plural modificando uma expressão no singular.
Olimpíadas
Os jogos olímpicos modernos se denominam Olimpíadas (sempre no
plural). A Olimpíada faz parte do tempo do Onça: eram jogos disputados
antes de Cristo. V. Dicionário de dúvidas, dificuldades e curiosidades da
língua portuguesa.
No site de um jornal: São Paulo e Rio de Janeiro acirram disputa
"pela Olimpíada"de 2012.
A manchete seria mais palatável se estivesse rigorosamente assim:
São Paulo e o Rio de Janeiro acirram disputa pelas Olimpíadas.
A vida, no entanto, nunca é como a gente quer...
"massivo"
Não existe esta palavra em nossa língua. Quem a usa está, na verdade,
empregando uma adaptação do vocábulo da língua inglesa massive.
Em português existe maciço, vocábulo que, aliás, deveria ser grafado de
outra forma: massiço, já que é derivado de massa. O Vocabulário Oficial,
todavia, prega-nos mais essa peça.
No site de um jornal: Documento reitera que Iraque já não possui
armas de destruição "massiva".
No site de um provedor: Ataque "massivo" dos Estados Unidos ao
Iraque.
O que se vê, na verdade, cotidianamente, é um ataque maciço à língua...
crianças "prodígios"
Prodígio (extraordinariamente talentoso) é uma palavra que, usada
como adjetivo, não varia: Madame de Staêlfoi uma menina prodígio. ***
Essa escola está cheia de alunas prodígio. *** Joana Maranhão, garota
prodígio de 16 anos, ganha medalha e vai às Olimpíadas.
Existem até os que usam para animais: cachorros prodígio, cavalos
prodígio, etc. Note: além de não variar, também sempre sem hífen.
Numa emissora de televisão, num desses programas de fofocas, a
apresentadora, ao falar sobre o excepcional papel desempenhado por
uma menina em certa novela, afirmou: Muitas crianças já foram consideradas
"prodígias" na TV.
1 1 5
NÀ NAO ERRE MAIS!
A autora da pérola, certamente, nunca esteve entre elas.
Ele só fala "dele" mesmo
Em português, os pronomes da terceira pessoa que indicam reflexibilidade
são se, si e consigo. Assim, ninguém fala "dele" mesmo, nem faz
elogio a "ele" mesmo, mas fala de si mesmo, faz elogio a si mesmo: Os
árabes brigam entre si mesmos. * * * As mulheres se enfeitam para si mesmas.
*** Ele só fala de si mesmo. *** Ela só gosta de si mesma. *** Eles
só falam de si mesmos. * * * Elas só gostam de si mesmas. * * * Ele só se
interessa por si mesmo. *** Ela só se esforça por si mesma. *** Eles só
respondem por si mesmos. * * * Elas só se responsabilizam por si mesmas.
*** O ministro fez um elogio a si mesmo.
Na mídia: Viola está encantado. Com "ele"mesmo. *** O nosso planeta,
a Terra, gira em volta "dele"mesmo. * * * Deputados trabalham para
"eles" mesmos. *** Quem acompanha futebol conhece as brincadeiras
que os jogadores costumam fazer entre "eles". Numa revista: Será que
não está na hora de o povo brasileiro ser fã "dele mesmo" e não cultuar
tantos artistas e atletas?
Manchete de um âncora de telej ornai: Deputados aumentam salários
para "eles"mesmos.
Se ISSO não é uma ver-go-nha, o que será?
a "poeta"
As mulheres sensíveis, que procuram atingir e difundir o belo em
versos, são rigorosamente poetisas.
Há somente um caso em que a palavra poeta pode ser empregada em
referência a mulheres, mas só absolutamente um caso: quando se considera
o todo, o universo dos poetas (homens e mulheres). Assim, por exemplo:
Cecília Meireles é o maior poeta da literatura brasileira. Ou seja:
entre todos os poetas (homens e mulheres) brasileiros, Cecília é quem se
destaca, quem sobressai. Fora daí, nada!
Numa revista: Atenção para o nome de Maria Lúcia Dal Farra: ninguém
no Brasil é melhor poeta que ela.
Alvíssaras! Certo! Absolutamente certo! Quando li, fiz um esforço
danado para que a forte emoção não me dominasse por completo...
Só para firmar conhecimento, veja mais este exemplo: Juçara é o melhor
advogado da cidade. Se afirmarmos que Juçara é a melhor advogada
da cidade, os homens que exercem a mesma profissão estarão de fora,
automaticamente.
Certa feita, qualificaram-se em Maceió e Natal para disputar o segundo
turno duas mulheres em cada uma dessas capitais. Tanto bastou para
que uma repórter anunciasse (com certo ar de regozijo de classe): Em Maceió
e Natal, "a prefeita"será obrigatoriamente uma mulher. Não será, não!
Em Maceió e Natal, o prefeito será obrigatoriamente uma mulher.

NÀ NAO ERRE MAIS! 1 1 5
Noutra vez uma revista semanal de informação trouxe na capa (ed.
1 (>70): Marta Suplicy, candidata a "prefeita" em São Paulo. Não, ela foi
candidata a prefeito.
Dois anos depois, no site de um jornal: Marta é a pior entre 9 prefeitos,
segundo pesquisa Datafolha. (Aliás, Marta é o pior entre 9 prefeitos.)
No site da Jovem Pan: Marta é considerada pior "prefeita". (Aliás,
Marta é considerada pior prefeito.)
O mais curioso nisso tudo é que as livrarias estão cheias de manuais
de redação que se propõem "ensinar" português. Como?
Escreve-me um consulente afirmando que, numa consulta a certo
professor eletrônico, este afirmou que poeta já é substantivo comum-dedois.
Sem comentários.
Lojas Americanas
Expressão que não leva o verbo ao plural, a exemplo de Casas Bahia,
Supermercados Pão de Açúcar, Lojas Brasil, Lojas Riachuelo, Casas da
Banha, etc. Se, porém, tivéssemos um artigo antes de tais nomes, o verbo
iria obrigatoriamente para o plural.
Suponhamos, então, que o nome da empresa fosse As Lojas Americanas.
Construiríamos: As Lojas Americanas abrirão nova filial na cidade.
Portanto: Casas Bahia deseja a seus amigos e fregueses um feliz Natal.
*** Lojas Riachuelo comunica à praça que... *** Casas da Banha felicita
os campeões. *** Tintas Coral muda de endereço.
"um" mil
Uma das grandes tolices inventadas por alguém que não tinha o que
fazer é essa de usar um antes de mil. Só uma cabeça muito pequena pode
conceber um singular junto de um plural.
O Brasil foi descoberto em mil e quinhentos, e não em "um mil e quinhentos".
Bombril nunca foi uma esponja de aço de "uma mil" e uma utilidades.
E nenhum país, até hoje, produziu "uma mil" toneladas de aço.
Apesar da evidência, há ainda os que preenchem cheques desta forma:
"um mil reais". Por receio de fraude, outros preenchem cheques assim:
"hum mil reais".
Alguns até acham que é uma exigência bancária a inclusão desse
malsinado "hum" antes de mil. Qual nada! Sempre preenchi os meus
raros cheques dessa importância sem "um" nem muito menos "hum". E
nunca tive os meus cheques recusados por bancos. Aliás, a Lei do Cheque
(2.591, de 07/8/1972) não traz nem poderia trazer a esdrúxula e inaceitável
exigência.
um milhão
É preciso não fazer confusão: milhão, bilhão, trilhão, etc. são nomes
coletivos e de número singular. Sendo assim, aceitam o um, que também
é desse número.
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NÀ NAO ERRE MAIS!
Certa vez, ouvimos de uma repórter de televisão: Eu e "todos os outros
um milhão" e duzentos mil mutuários do Sistema Financeiro de Habitação
pagaremos maior prestação da casa própria.
Que pérola! Se um é singular, como aceitar "outros"?
Um milhão de pessoas morreu nessa guerra
Frase corretíssima. Milhão, como vimos no caso anterior, não é palavra
de plural; trata-se de nome coletivo, assim como exército, turma,
bando, etc., palavras que exigem o verbo no singular, embora dêem idéia
de vários ou de muitos seres. Note, ainda, que milhão se faz acompanhar
de um. E um, neste mundo que Deus criou, é e sempre será de singular. A
menos que os extraterrestres cheguem a qualquer momento e nos mostrem
que não é bem assim...
Enquanto eles não chegam, sejamos ao menos razoáveis: Um milhão
de reais foi gasto à toa nessa obra. *** Um bilhão de pessoas vive na índia.
*** Um trilhão de dólares é o déficit dos Estados Unidos. *** Um milhão
de crianças foi vacinado ontem. * * * Foi arrecadado um milhão de reais em
donativos.
Na capa de uma revista: Um milhão de brasileiros já "moram" em
condomínios fechados.
Noutra revista: "Vivem" em todo o mundo um milhão de bebês de
proveta.
Num tradicional jornal paulistano: Na praça São Pedro e arredores,
além de governantes, reis, rainhas e personalidades importantes, cerca de
um milhão de fiéis "acompanharam"a missa do funeral de João Paulo II.
Nesse mesmo jornal: A frota brasileira de veículos a gás é a segunda
do mundo, com 660 mil veículos, e só perde para a da Argentina, onde
"existem" 1 milhão de veículos desse tipo.
Manchete de um diário de São Paulo: Quase um milhão de aposentadas
"sustentam"a família em São Paulo.
Acho louvável toda atitude ou toda campanha antitabagista, porque
o fumant e é um ser que precisa de ajuda, que necessita de cuidados especiais,
mas nunca de compreensão. Por quê? Porque fuma r aumenta as rugas
ao redor da boca e favorece o aparecimento do câncer bucal. Porque o
cigarro potencializa os sintomas do envelhecimento. Porque onde há fu -
maça há fogo (câncer). Porque fuma r está completamente fora de moda.
Porque, enfim, todo fumant e é um estúpido, não tem sequer bom-senso.
Por tudo o que a medicina hoje conhece e procura prevenir as pessoas,
fuma r chega a ser não só sinônimo de alta estupidez, de pulmão e boca
fétidos, como de intolerável breguice. O que antes era charmoso, hoje é a
expressão inequívoca de grande breguice, da mais inequívoca deselegância,
do mais insuportável mau-gosto!
Tudo isso para dizer que, recentemente, uma empresa antitabagista
fez campanha pela imprensa, nestes termos: Nos Estados Unidos, mais de

NÀ NAO ERRE MAIS! 79 1 5
1 milhão de pessoas já "abandonaram"o cigarro sem usar nicotina. Este
sucesso já está no Brasil.
Escrevendo assim, eles ainda têm coragem de falar em sucesso!...
namorar com
Construção própria do italiano. Nós, brasileiros, imitamos, até porque
boa parte de brasileiros descende de italianos.
Trata-se de construção plenamente consagrada não só entre jovens,
mas entre bons autores, assim como jogar de goleiro e entrar de sócio.
Quem é que, na prática do futebol, diz que joga como goleiro, e não que
joga de goleiro?
Quem é que, associando-se a um clube, diz que entrou como sócio do
clube, e não que entrou de sócio? Que aluno que, ao não conseguir aprovação
para o ano seguinte, diz que repetiu o ano, e não que repetiu de ano?
Que estudante, por mais dedicado e aplicado que seja, diz que passou
o ano, e não que passou de ano?
Por tudo isso é que estamos livres para namorar todo o mundo ou com
todo o mundo. O importante é ser honesto.
"girabrequim"
Há muita gente por aí que, se pudesse, construiria motor com "girabrequim"
. Claro que fundiri a na primeira movimentação. A peça boa,
que qualquer motor saudável aceita, é o virabrequim.
O dicionário do entulho, todavia, registra "girabrequim" . Faz
parte...
A viagem não foi "de toda" má
Não. Viagem assim é sempre de todo muito má.
Locução adverbial não varia: A sentença não foi de todo injusta. ***
A vida na ilha não é de todo monótona. * * * Disfarça-te e sai de f ninho! (E
não: "de fininha".) *** Vidas têm sido colocadas em risco nos estádios de
futebol. (E não: "em riscas".) *** Muitas espécies animais estão em extinção.
(E não: "em extinções".) *** Recebi mensagem por escrito. (E não: "por
escrita".) *** A questão continua em aberto. (E não: "em aberta".) *** Os
salários estão em dia. (E não: "em dias".) *** A equipe corintiana se abriu
por inteiro. (E não: "por inteira".) *** Houve muitos votos em branco nestas
eleições. (E não: "em brancos".)
Certa feita, um repórter esportivo nos revelou que um jogador de fu -
tebol havia pisado com as duas pernas"em falsas", por isso sentia muitas
dores. E o repórter? Não sentiu dor nenhuma?!
Noutra oportunidade, um repórter policial perguntou a uma delegada,
depois da prisão de uns marginais: E agora, doutora, o que vai ser
feito desses ladrões?
A resposta foi sensacional: Eles serão autuados "emflagrantes"e encaminhados
ao xadrez.
1 1 5
NÀ NAO ERRE MAIS!
Cadeia?!
Não faz muito tempo, um governador paulista ordenou a um repórter
que o cobrava de algo ainda não atendido: Faça uma carta "por escrita"
me relatando tudo e me mande, que eu tomarei as providências cabíveis!
O governador deveria, certamente, estar um pouco nervoso ou muito desorientado;
primeiro: se é carta, só pode ser por escrito; segundo, "por
escrita" foi, naturalmente, brincadeira dele.
No Brasil costuma haver muitos políticos brincalhões. A começar de
presidentes....
"primeiro-damo"
Eis mais uma invenção de jornalista brasileiro. Quando Benedita da
Silva assumiu o governo do Rio de Janeiro, em abril de 2002, os jornalistas
logo acorreram a cuidar da sua vida pessoal. Como ela é casada com
Antônio Pitanga, pai da belíssima Camila, trataram-no por "primeiro-
-damo" , numa analogia com primeira-dama. Como pilhéria, troça ou gozação,
até que serve.
Com a eleição de outra governadora, no Rio de Janeiro, ficou a pergunta:
Garotinho, agora, virou "primeiro-damo"? Não, não virou não.
Marido de governadora ou de presidenta não tem na língua, por enquanto,
nome especial.
ante "a" isso
Ante já é preposição; então, para que se lhe pospor outra preposição?
Alguns advogados (naturalmente os pouco sérios) são mestres neste emprego
abusivo.
Recentemente, um jogador ganhou uma ação trabalhista contra o
Palmeiras. O ministro do Tribunal Superior do Trabalho, ao dar a sentença,
escreveu assim: Nego provimento ao agravo e, "ante a"seu caráter
manifestamente protelário, condeno a agravante ao pagamento de multa
de 10% sobre o valor corrigido da causa.
Ante isso, o Palmeiras teve forçosamente de pagar. Mas quem mais
pagou o pato foi a língua...
Ficar "comovido" com um grande espetáculo
Fica comovido aquele que sente um choque, uma emoção negativa
muito forte. Quando perdemos um ente querido, ficamos comovidos. Mas
quando nos admiramos de um grande espetáculo, ficamos naturalmente
emocionados. Ante um incêndio devastador, quem não fica comovido?
Mas ante uma bela mulher, que homem de bem não ficará naturalment e
emocionado?

NÀ NAO ERRE MAIS! 5 1 5
reboliço / rebuliço
Há quem confunda adjetivo (reboliço, que significa que rebola: CanI
iiiJlas tinha um andar reboliço) com substantivo (rebuliço = grande confusão).
Deste, saiu a abreviação rebu; daí por que fica difícil aos que raciocinam
trocar uma palavra pela outra.
Mas há. Há os que, ou não raciocinam, ou são dados mesmo a cometer
rebus. No site de uma revista: Das histórias envolvendo presidentes e
mulheres bonitas, nenhuma se iguala "a" de Itamar Franco. No carnaval
de 1994, o mineiro foi flagrado ao lado de Lilian Ramos. Até aí nada "demais".
O que causou "reboliço"foi o que a moça mostrou para os fotógrafos
debaixo do pequeno vestido...
Se a modelo causou rebuliço, naquela ocasião única e ímpar, que se
dirá de jornalista que causa rebuliço todos os dias em seu ofício?
Não perca a conta dos erros: "a", em vez de à; "demais" por de mais;
e "reboliço"por rebuliço.
Cabe, então, a pergunta: quem mais está nu? A modelo?!
penalizar / apenar
Há quem confunda o significado destes dois verbos. Penalizar é atormentar,
afligir. Quem não sabe que uma goleada do Palmeiras penaliza
qualquer corintiano ou que uma vitória maiúscula do Flamengo penaliza
todo vascaíno?
Mas há quem use penalizar por punir, castigar, que são justament e os
sinônimos de apenar. Todos sabemos que a inflação apena mais os pobres.
Os guardinhas de trânsito estão aí em todas as ruas das grandes cidades,
vestidos desta ou daquela cor (é marronzinho, é azulzinho, é roxinho,
etc.), para apenar todos os motoristas, justa ou injustamente. Afinal, hoje
se ganha por produtividade...
Sim, mas o assunto não é bem esse: o certo é que jornalistas que se
prezem não têm o direito de confundir penalizar com apenar. Mas confundem.
Repare nesta frase do site de uma revista: Modelo de reajustes
de tarifas de serviços públicos "penaliza" o consumidor e engessa ações
do governo.
Escreve um ex-secretário da Receita Federal: A idéia de monitoramento,
pela Receita, de gastos com cartões de crédito para combater a
sonegação é uma mudança de comportamento: pretende-se aumentar a
arrecadação em cima de quem não está pagando adequadamente em vez
de "penalizar" quem já paga corretamente.
Aqui, todavia, existe uma explicação até que meio convincente: o
Leão penaliza sempre...
governo Lula ou governo de Lula?
Tanto faz. Os jornalistas costumam não usar a preposição
uma questão de economia de espaço.
NÀ NAO ERRE MAIS!
talvez por
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"duas" milhões de pessoas
Grande bobagem. Se a palavra milhão é masculina (o milhão, um
milhão), não há como explicar esse feminino ("duas milhões"). Nunca vi
ninguém usar "uma milhão". Então, por que "duas milhões"?
Enquanto a resposta não vem, convém acostumar os ouvidos: Foram
vacinados dois milhões de crianças ontem. * * * Serão exportados duzentos
milhões de toneladas de soja.
Eis o que nos informa, todavia, um de nossos jornais: Depois de ultrapassar
a marca "das"20 milhões de cópias vendidas, o romance O Código
Da Vinci, de Dan Broivn, se vê envolvido numa polêmica com a Igreja
Católica.
"a" milhar do primeiro prêmio da loteria
Só existe de verdade o milhar do primeiro prêmio. Assim como milhão,
milhar é palavra masculina: o milhar, um milhar.
Veja estas frases: Dois milhares de maçãs foram perdidos durante a
viagem. *** Os milhares de mulheres que aqui estão têm filhos menores.
* * * Duzentos milhares de crianças sul-vietnamitas foram levados para os
Estados Unidos. * * * Esses milhares de crianças abandonadas do Brasil
serão exatamente o quê, amanhã?
No site de um jornal: Confira "as"milhares de ofertas dos classificados.
Convém?
No site do Terra: Os acessos à conturbada Quito foram bloqueados
hoje para impedir a entrada de simpatizantes do presidente do Equador,
Lúcio Gutiérrez, a fim de evitar confrontos com "as" milhares de pessoas
que exigem a renúncia do mandatário nas ruas do país.
Repare, agora, nestas frases da Veja, todas perfeitas: Cem pesquisadorres
passaram os últimos três anos confinados em laboratórios e escritórios,
analisando os milhares de informações coletados ate hoje sobre a
biodiversidade mundial. *** As Farc são apenas terroristas. Não lutam
para solucionar problemas sociais. Na verdade, com os atentados e os seqüestros,
criam mais pobreza. É muita hipocrisia alguém no exterior defender
a guerrilha e esquecer os milhares de vítimas dos guerrilheiros.
Milagres um dia acontecem...
mil
Mil é um caso diferente de milhar, porque se trata de numerai, e não
de substantivo. Adquire, por isso, o gênero do substantivo que se lhe segue:
duas mil pessoas, duzentas mil laranjas, dois mil pedidos, duzentos
mil pedaços, etc.
Um apresentador de um famoso telejornal nacional disse não faz muito
tempo: Cerca de "dois mil"pessoas participaram das manifestações.
Pouco tempo depois, no mesmo telejornal, do mesmo apresentador,
NÀ NAO ERRE MAIS! 1 1 5
ouviu-se isto: Mais de "dois mil" pessoas recebem seguro-desemprego
com um salário de R$10.000,00.
Isto é: o homem confundi u conhaque de alcatrão com catraca de
canhão...
"Benvindo" a São Paulo!
Boas-vindas se dão de modo diferente: Bem-vindo a São Paulo!
Frases de jornalistas: O PMDB e o PDC goianos encaram como
"benvindos" os votos dos fazendeiros. *** Fidel confirmou que o capital
estrangeiro continua sendo "benvindo". *** "Benvindo" ao passado,
Brasil...
Há certos lojistas que ostentam logo à entrada de seu estabelecimento
a sua própria identidade: "Benvindos".
Cuidado, ao entrar!
malvindo
É assim que se grafa esta palavra, a nosso ver o verdadeiro antônimo
de bem-vindo (um dicionário dá bem-ido). Ora, quem não é bem-vindo a
algum lugar, é naturalment e malvindo (ou seria bem-ido?)
Há jornalista que escreve "mal vindo": Já está ficando claro que a
reforma tributária vai atender a todos os interesses menos os do contribuinte,
portanto, ela é muito "mal vinda".
solidarizar-se
É simples: quem se solidariza, se solidariza com alguém. Há, porém,
quem prefira inventar.
No site de um jornal: Lula se solidariza "a" Genoino. Depois de levar
uma torta na cara, no Fórum Social de Porto Alegre, o presidente do PT
recebeu um telefonema do presidente, que está na Europa.
Quem levou a torta foi o deputado; quem se lambuzou todinho foi o
jornalista.
comparecer a "féretro"
Trata-se de ato não só desagradável, mas impossível: féretro é caixão.
Podemos dizer, sim, que o féretro saiu atrasado, que todo o mundo queria
carregar o féretro, mas não que alguém compareceu ao "féretro".
Autoridade, civil ou militar, comparece a funeral, que é a cerimônia
de sepultamento. Cuidado, portanto, com frases assim: Estive no "féretro"
de seu pai. * * * O "féretro " do prefeito tinha muita gente.
Dizem que isso costuma dar até cemitério...
prefiro "milhões de vezes do que"
O mundo está cheio de gente que prefere "mil vezes", que prefere
"milhões de vezes", que prefere "antes", que prefere "muito mais", etc. É
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desperdício: no prefixo (pre-) já existe a idéia de intensidade ou de anterioridade
desejada.
Quem prefere de verdade, simplesmente prefere alguma coisa a outra,
e não "do que" outra: Prefiro chuchu a jiló. *** Elisabete prefere escrever
a discursar. *** As crianças preferem praia a piscina, calor a frio.
*** Eles preferem comer arroz a comer macarrão.
Também não convém preferir uma coisa "em vez de" outra. Numa
revista: Pesquisas recentes revelaram que 41,8% dos consumidores preferem
hambúrguer congelado "em vez de"bife.
atenuante / agravante
São palavras femininas: a atenuante, a agravante.
Numa de nossas revistas semanais de informação: Paga-se aqui, em
termos médios, mais imposto que nos países desenvolvidos, com "o agravante"
de a carga de contribuição estar concentrada sobre os ombros de
uma única classe - a classe média.
sendo "que"
Não existe esta combinação em nossa língua, mas ela aparece muito
na mídia: Apenas 2 dos 348 estudantes que responderam aos questionários
disseram conhecer a tricuríase, "sendo que"ambos demonstraram ter
conhecimentos incorretos.
Nesta frase, "sendo que" poderia ser substituída por mas, porém, todavia,
etc.
Recentemente, ouvimos um metalúrgico reclamando: Recebi cinco
mil reais, "sendo que" boa parte foi retida pelo imposto de renda. Caberia
nessa frase a mesma substituição da primeira.
Não faz muito tempo, lemos a orientação de um advogado: Quando
o casal já está separado de fato judicialmente, o divórcio pode ser requerido
após um ano da decretação da separação. Não havendo ainda a separação
judicial, apenas a separação física, o divórcio pode ser efetivado,
"sendo que" há a necessidade do casal estar separado de fato há mais de
dois anos, o que deverá ser provado por testemunhas.
Também aqui cabe qualquer conjunção adversativa.
Num jornal: A maioria ganha mais de dez salários mínimos mensalmente,
"sendo que" 32% recebem entre dez e vinte salários.
Basta usar mas.
Em outro jornal: O saldo devedor financeiro das operações será
transferido e cedido ao governo do Estado, "sendo que" incidirão juros
de 3% ao ano.
Custaria usar masl
Finalmente, dados do Sebrae: A participação das "micro "e pequenas
empresas no total das empresas em 1994 foi de 96,04%, "sendo que" no
comércio foi de 96,76%, nos serviços 97,26% e na indústria 91,86%.
NÀ NAO ERRE MAIS! 1 1 5
'lYido, como se vê, pode ser perfeitament e substituído por um mas, um
/iorem, um todavia, palavras tão singelas!
Há casos em que a substituição se faz por palavra ainda menor: e.
Veja: Ele já escreveu muitos livros, "sendo que" muitos deles já foram
t raduzidos para vários idiomas.
Não querendo usar o e: Ele já escreveu muitos livros, sendo muitos
deles já traduzidos para vários idiomas.
caixa
Que é palavra feminina, todo o mundo sabe: a caixa de sapatos, a
caixa de papelão, a caixa registradora, etc. O que poucos sabem é que esta
palavra é masculina, quando usada na acepção de féria ou na de pessoa
que trabalha junto a uma caixa pagadora ou recebedora. Portanto: O comerciante
fez o caixa e verificou que o movimento tinha sido muito bom
naquele dia, mas de repente os assaltantes entraram e levaram tudo o que
havia na caixa. *** Os caixas do banco ficaram apavorados no momento
do assalto. *** Não há um só caixa livre no banco.
Usa-se também no masculino esta palavra, na acepção de dinheiro
arrecadado: A grande diferença entre os dois candidatos está no tamanho
do caixa de campanha.
Muito bem. Não faz muito, houve uma greve de metroviários em São
Paulo. A cidade virou um caos ao quadrado (porque caos é seu estado
permanente). Um comerciante, abatido, declara, então: As faxineiras chegaram
duas horas atrasadas, e "uma caixa"não chegou até agora.
É o caso de perguntar: Uma caixa de quê? De mangas? Ou de problemas?...

Quantias exigem o verbo no singular?
Depende: se a quantia for de um real, um dólar, etc., use o singular.
Mais que isso, use o plural: Ele disse que R$500,00 bastavam, mas não bastaram.
*** Não deram os R$200.000,00 que eu levei. *** Na minha caixa,
hoje, SÓ entraramR$10,00!
Eu "deito" cedo
Não. Quem se põe na cama para descansar ou para pegar no sono,
deita-se, assim como depois se levanta.
Por isso, eu me deito cedo e me levanto cedo; as crianças se deitam às
8h e se levantam às 7h; quando estamos em férias, nos deitamos tarde e nos
levantamos tarde.
No final de dezembro de 2003, o presidente, pelo rádio, deixou toda
a população brasileira profundament e esperançosa, ao dizer, profeticamente:
Que o povo vá "deitar"no dia 31 sabendo que, a partir do dia l.°o
Brasil será melhor.
Foi?
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NÀ NAO ERRE MAIS!
"indiscreçõo"
Se você vir alguma indiscrição em algum comentário aqui, esteja
certo de que não foi propositado. Afinal, quem prima pela discrição não
pode cometer indiscrições...
Não querendo enveredar pela indiscrição, mas já enveredando, eis o
que saiu num de nossos principais jornais: Os funcionários do Caesar Park
Hotel são de uma "discreção"padronizada, da roupa ao tom de voz.
E onde é que ficou a discrição? Fugiu pela porta dos fundos do hotel?

tchau / tcheco / Tchetchênia
Nenhuma dessas palavras é compatível com a índole da língua portuguesa,
que não agasalha formas iniciadas por t não apoiado em consoante.
Algumas destas formas, todavia, têm o amparo do Vocabulário
Oficial.
O som [tS] = tch é um alofone de [t] antes de vogai. Não há, contudo,
em nosso modo de ver nenhuma necessidade de representar tal som
por tch, assim como não se grafa "tchê", mas sim chê; assim como não se
escreve "Tchaco", mas Chaco; e ninguém grafa "tchiu", mas tio, exceto,
naturalmente, quando se trate de gírias ou de modismos, como "tchurma","pitchula","mintchura","tchan"
, etc., em que se deseja, por alguma
razão, dar ênfase ao alofone. Os chilenos pronunciam o nome do seu país
desta forma: "tchile", mas nem por isso escrevem "Tchile". Note, ainda,
que todos pronunciamos djins (jeans), mas não representamos esse som
inicial na escrita.
Portanto, as grafias, a nosso ver, rigorosamente corretas são chau,
checo, Checoslováquia, Chechênia, chê e Chaco.
Que coisa, "heim"?
Nossa língua admite duas grafias para esta interjeição: hem! (preferida)
e hein!, mas sempre há os que escolhem uma terceira, inexistente:
"heim!".
Frase de um famoso jornalista paulistano: Quem diria, "heim!" Enquanto
o autoritarismo comunista vai caindo de podre no mundo...
Quem diria, hem!
campanhas antifumo
A vida sem cigarro é, de fato, não só mais saudável, como também
muito mais inteligente e menos desagradável para quem está nas proximidades.
Fuma r é sempre um castigo.
Quando o prefixo anti- se junt a a um substantivo, na função de adjetivo,
fica invariável. Portanto: campanhas antifumo, drogas anticâncer,
pneus antiderrapagem, portas antifogo, manifestações antiguerra, medidas
anticrime; xampus anticaspa; cremes dentais anticárie. Tal combinação
é própria da língua inglesa; nós apenas imitamos.
NÀ NAO ERRE MAIS! 1 1 5
Aqueles que acharem isso um tanto antieufônico, optem, então, pela
construção rigorosament e portuguesa: campanhas contra o fumo, drogas
contra o câncer, manifestações contra a guerra, xampus contra a caspa,
cremes dentais contra a cárie, etc.
E saúde par a todos!
Amuleto "trás" boa sorte?
Só traz par a os espertos. A forma do verbo trazer é traz, e não "trás",
que, no portuguê s contemporâneo, só se graf a posposta a preposição: por
trás (ela veio por trás), para trás (deixar os amigos par a trás).
Certa vez, em Fortaleza, a fantástica , formidáve l e toda esburacada
capital do Ceará, uma cartomant e mando u afixar cartazes aos postes de
toda a cidade, convidando incautos para "consultas". Assim: Sara "trás"
seu amor de volta.
Nessa, seu dinheiro já se foi, e seu amor... adeus!
No site do Estado do Espírito Santo, em destaque s turísticos, viu-se:
Vitória - a ilha que "trás"no nome o motivo de sua existência.
Vitória?
No site de O Estado de S. Paulo escreve um colunista (também autor
de telenovelas): Hoje o carteiro é um mala. Oitenta por cento do que ele
"trás"são jogados imediatamente no lixo mais próximo.
cujo
É um pronome relativo que não admite artigo posposto. Portanto: O
homem, cujo pai morreu, está passando mal. *** O homem, cuja mãe morreu,
está passando bem. * * * O homem, cujos filhos morreram, está passando
bem. *** o homem, cujas filhas morreram, está passando bem.
Há quem insista em usar"cuj o o pai", "cuja a mãe" , "cujos os filhos",
"cujas as filhas". Atenção, advogados de todo o Brasil!
Não só os advogados. Escreve um jornalista : Um dos engenheiros em
cujo "o"velório o presidente chorou, pediu um adicional de periculosidade
de 30%, ganhou na Justiça depois de 11 anos, há 5 tem direito a ele e
morreu sem receber.
Escreve outro jornalista: Segundo reportagem da Fox News, o Banco
da América vendeu a dívida que tinha com Michael Jackson, no valor de
mais US$ 270 milhões, para o grupo Fortress Investments, cuja "a"sede
fica em Manhattan.
Quando cujo (ou uma de suas variações) se refere a dois ou mais
substantivos, não varia no plural, concordando sempre com o elemento
mais próximo. Atenção, advogados de todo o Brasil!
Numa peça advocatícia, leu-se, certa vez: Reclamou ter sido lesado
pela autora em "cujas"seriedade e probidade confiou.
No lugar do "cujas", os bons advogados usam cuja.
N À NAO ERRE MAIS! 11 5
"os" chitas
Eis aí um bicho que não existe. Ao menos na Terra. Chita é palavra
feminina em qualquer sentido.
Num documentário sobre animais selvagens, porém, o narrador televisivo
conseguiu "criar" uma espécie animal estranha, desconhecida dos
biólogos: "os chitas".
A apresentadora de um dos mais importantes telej ornais nacionais
anunciou certa feita: Como vivem "os chitas"na África - este será o assunto
do Globo Repórter de hoje.
A televisão brasileira tem gente extremamente criativa...
Também não "existe" lobisomens?
Não. Não existem lobisomens, assim como não existem "os chitas".
Pessoas que cometem asneiras, contudo, existem a mancheias. Cuidado
com elas, porque costumam atacar antes e depois da meia-noite! E não
só às sextas-feiras...
Certa vez, ouvimos isto de um ex-governador paulista: Acho normal
que "exista" reclamações do presidente, pois isso faz parte da
democracia.
Certíssimo: asnices também fazem parte da democracia...
gêmeas "xipófagas"
É outra coisa que não existe. Crianças que nascem unidas desde o
apêndice até o umbigo dizem-se xifópagas, e não "xipófagas", como quis
certa feita um apresentador de telejornal, que anunciou: As gêmeas "xipófagas"
que nasceram em Porto Alegre foram operadas e passam bem.
E houve quem começasse a passar mal...
"blasfemo"
Não. Blasfemo (ê) é que é sinônimo de blasfemador.
Numa produção televisiva, exibida recentemente, uma personagem
disse, referindo-se a Jesus: Prendam esse "blasfemo"!
Há dois pecados evidentes aí.
invasão "ao" Iraque
Não. Invasão se usa com de: invasão de domicílio, invasão de privacidade,
invasão de fazendas, invasão de propriedade, etc.
Frase de jornalista: A invasão "ao"Iraque é iminente e vai empobrecer
o mundo.
A invasão do Iraque, como se viu, não empobreceu o mundo; por aqui,
porém, empobreceu um pouco a língua.
NÀ NAO ERRE MAIS! 1 1 5
ambos
Kste numera i dual exige o artigo. Portanto, usaremos sempre: ambos
os carros, ambas as mulheres, etc., e não "ambos carros", "ambas
mulheres".
No site de um jornal: O motivo da briga entre "ambas equipes"foi a
invasão de campo da torcida catarinense.
"Fazem" muitos anos que saí da escola
Quem diz uma frase assim deveria voltar imediatamente. À escola,
naturalmente. Aí, então, vai aprender que o verbo fazer, em orações que
dão a idéia de tempo, não varia: Faz muitos anos que saí da escola. ***
Faz dois anos que enviuvei.
Aparecendo verbo auxiliar, este fica também invariável: Vai fazer catorze
anos que casei. *** Está fazendo cem anos que ela nasceu. *** Ia
fazer três meses que estávamos juntos. *** Costuma fazer noites frias no
Sul do Brasil.
Aprecio muito as composições do mineiro Ari Barroso. Mas não posso
desculpá-lo por enodoar a letra de uma de suas músicas (Já era tempo),
ao fazer esta concordância: Já "fazem" meses que você, meu bem, disse
adeus e partiu.
Falando assim, qualquer amor tem mesmo de dizer adeus e partir...
em mão
É esta a expressão que temos. Quando entregamos alguma coisa pessoalmente,
entregamo-la em mão.
Assim como ninguém lava roupa "a mãos", assim como ninguém faz
sapatos "a mãos", uma carta ou um volume qualquer só pode ser entregue
em mão.
Nunc a ouvi dizer que alguém fosse a algum lugar "a pés " nem que
pianista tocasse "de ouvidos", ainda que tenhamos todos - graças a
Deus - dois pés e dois ouvidos (que hoje se dizem, mais propriamente ,
orelhas).
Prefiro, por isso, levar qualquer documento importante em mão (cuja
abreviatura é E.M.) a confiar em qualquer outro portador.
Há um dicionário (aquele) que registra "em mãos" a par de em mão.
Normal.
embora + gerúndio
Conjunção (embora) não combina com gerúndio. Por isso, usa-se o
verbo no subjuntivo: Embora vivesse no Brasil, ela não era brasileira.
N À NAO ERRE MAIS! 11 5
(E não: Embora "vivendo"no Brasil, ela não era brasileira.) *** Embora
coma bastante, não engorda. (E não: Embora "comendo" bastante , não
engorda.) *** Embora estivesse cansado, fui acompanhá-la. (E não: Embora
"estando" cansado, fu i acompanhá-la.) *** Embora seja pobre, não
rouba. (E não: Embora "sendo" pobre, não rouba.)
O gerúndio se usa com mesmo, palavr a denotativa: Mesmo vivendo
no Brasil, ela não era brasileira. * * * Mesmo comendo bastante, não engorda.
*** Mesmo estando cansado, fui acompanhá-la. * * * Mesmo sendo
pobre, não rouba.
Por falar em roubar...
Por fala r em roubar, convém saber que este verbo não tem nenhuma
forma com o aberto. Durant e a conjugação, o ditongo ou soa fechado:
roubo, roubas, rouba , roubam; roube, roubes, roube, roubem.
O diabo é que todo dia há neste país gente que "róba", que é uma
barbaridade ! Por exemplo, o ex-ministro José Dirceu, assim que deixou a
Casa Civil e já deputado, ao discursar na câmara, avisa: "Este goverrrno
não róba e não deixa roubarrr". Rouba, deputado, rouba...
em detrimento "a" alguém
Esta expressão, em que detrimento é sinônimo de prejuízo, exige a
preposição de, e não a prep. "a". Portanto: em detrimento de alguém. O
governo não pode adota r uma política em detrimento do povo. É uma
verdade.
Eis, agora, a mentir a (de uma revista de automóveis, ed. 232, p. 104):
O único senão do Alfa Romeo 147 é o tempo da troca de marcha que poderia
ser menor, mesmo em detrimento "ao"conforto.
em nível de
É esta a locução que temos: Reunião em nível de diretoria. Ou seja:
só participarão da referida reunião diretores do mesmo nível.
Há, contudo, uma verdadeir a febr e de "a nível de"po r aí. De gente
sem nível, evidentemente . Iriam, esses, par a uma reunião "a" todos os
níveis?
O mais interessante é que certas pessoas usam a expressão "a nível
de"em qualque r caso: "A nível de" casamento, eu diria que estou fora. ***
"A nível de"besteiras, eu digo que sempre estou dentro...
Mesmo em referênci a ao nível do mar, preferimos o uso da preposição
em: Fortaleza está situada no nível do mar.
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Usa-se muito a preposição a neste caso, em razão de, na pergunta,
iparecer essa preposição. Por exemplo: São Paulo está situada a quantos
metros acima do nível do mar? A resposta a uma pergunta dessas, evidenI
emente, será: São Paulo está situada a 800m acima do nível do mar.
Essa preposição, contudo, só tem cabimento nos casos de cidades que
não estão no nível do mar, naturalmente. Sim, porque se perguntarem:
Fortaleza está a quantos metros acima do nível do mar?, a resposta deverá
ser dada desta forma: Fortaleza está no nível do mar.
É o mesmo que perguntarmos a um corredor de fórmula 1: - A quantos
quilômetros estás indo agora? E ele responder, simplesmente: - Estou
em casa, agora, não estou correndo ou viajando.
Fiz-me entender?
descobrir "primeiro"
Caro leitor, existe alguma dúvida? Quem descobre já não encontra ou
acha primeiro que outros? Pois é. Desde o meu tempo de menino é assim.
E, com certeza, bem antes disso...
Há, por aí, no entanto, alguns artistas da publicidade que, talvez por
não terem tido infância, querem mudar. Na propaganda de um modelo de
minivan, saiu o tal descobri "primeiro". Será que em alguma agência de
propaganda existem mesmo os que descobrem"depois"?...
novidade "inédita"
Toda novidade não tem de ser necessariamente inédita? Pois bem,
não para todos. Recentemente, pela televisão, anunciaram o lançamento
de um filme. O locutor, então, soltou, a pérola, com aquele vozeirão: Cenas
inéditas, "nunca vistas" no cinema! O caro leitor já viu alguma cena
inédita já vista no cinema?
voar "pelos ares"
Redundância sensível, já que ninguém ainda conseguiu voar pelas
águas... Nossos jornalistas, contudo, em vez de irem aos ares, continuam
voando "pelos ares": Um carro-bomba com várias toneladas de explosivos
fez voar "pelos ares " a sede da ONU em Bagdá. * * * No sábado de aleluia,
em dez minutos, bonecos da malhação voam "pelos ares". *** A vida de
José Carlos Pace, pontuada de algumas alegrias e obstáculos constantes,
voou "pelos ares" a bordo de um avião monomotor que se espatifou em
1977, quando ele ainda não havia completado 33 anos. *** Acionou um
dispositivo, uma bomba fortíssima abriu o asfalto e o carro do ex-primeiro-ministro
de Franco, Carrero Blanco, voou "pelos ares", subiu a mais de
30 metros, ultrapassou o muro alto de um colégio de freiras e se espatifou
lá dentro.
Agora, numa pergunta-enigma: O sujeito tinha um vizinho apaixoN
À NAO ERRE MAIS! 11 5
nado por galinhas. Mas, como faziam muito barulho, um dia resolveu
acabar com elas. Pegou um punhado de grãos de milho, adaptou uma
bomba em cada um deles e atirou-os sob o muro. Olga e Célia, as duas
filhas do vizinho, viram isso e correram para apanhar o milho. Só que, assim
que cada uma delas se abaixou para pegar o milho, tudo voou "pelos
ares". Qual o nome do filme?
Porcaria!
direito individual "de cada um"
Redundância visível. Na ânsia de apresentar emendas à reforma da
previdência, declara um parlamentar: A apresentação de emendas é um
direito individual "de cada um"dos parlamentares.
Bastaria retirar "de cada um" para que tudo ficasse perfeito. Todos
temos direitos, mas não podemos nos esquecer das nossas obrigações...
minha opinião "pessoal"
Visível redundância. Ora, se a opinião é minha, só pode ser pessoal.
Ou haverá uma opinião que seja minha, mas não seja pessoal?
Recentemente, um megaempresário (que até virou dramaturgo) declarou:
Na minha opinião "pessoal", ele não tem condições de ser presidente
da República.
Teve...
criar "novos"
Nova redundância. Os jornalistas vivem pedindo a criação de"novos"
empregos. E o governo não se cansa de criar "novos" impostos... Quem
paga a redundância? O povo. Sempre!
Eis o que escreveu um jornalista, logo após a posse de Lula: Lula poderia
anunciar, em seu primeiro discurso como presidente que, enquanto
não se criam empregos "novos ", deveria ficar proibido demitir.
E se fosse proibido cometer redundância? Não seria bom também?
Certa vez, o locutor de uma rede de televisão nos convidou a criar
"novos" caminhos. Seria o caso de perguntar se ele próprio já havia encontrado
o seu caminho.
elo "de ligação"
No mundo dos terráqueos, todo elo é obrigatoriamente de ligação,
assim como toda surpresa é inesperada, todo lançamento é novo, toda
criança é pequena, etc. Não obstante a evidência, há sempre os que têm
"surpresas inesperadas", os que são loucos por um "novo lançamento", e
os que preferem não sair de casa à noite, porque têm "criança pequena".
Veja: O presidente da Abeiva disse que o crescimento do setor de veículos
importados pode ser explicado pelo lançamento de "novos"produtos.
NÀ NAO ERRE MAIS! 93 1 5
Dá muita vontade de ter um ataque. Eis, agora, a frase de um repórter
esportivo que mais me forçou a essa vontade: O treinador precisa de um
jogador para ser um elo "de ligação"rápida entre a defesa e o ataque.
Ataque? Houve quem quase teve um...
Por falar em ataque, eis o que lemos no site de O Estado, num dos
momentos difíceis da humanidade: Os planos de guerra do presidente George
W. Bush contavam com o apoio dos iraquianos contrários a Saddam
Ilussein, principalmente os xiitas do sul do Iraque. Porém, a resistência
de milícias e do exército nas cidades de Umm Qasr, Basra e Nassíria,
principais elos "de ligação" com Bagdá, levaram as tropas de coalizão a
reveses militares que repercutiram na cotação internacional do petróleo
e nos índices das bolsas mundiais.
Veja, agora, que interessante, interessante mesmo, esta notícia de
uma folha paulistana: Os elefantes parecem ter a habilidade de imitar os
sons do ambiente em sua volta, a exemplo do que fazem os papagaios, de
acordo com os cientistas. Em um estudo publicado na revista científica
"Nature", pesquisadores relatam como um dos animais estudados chegou
a imitar o barulho feito por caminhões. Os pesquisadores acreditam que
a capacidade de reproduzir sons pode ter sido desenvolvida devido ã necessidade
de manter a coesão social das manadas. Os sons ajudariam a
manter um elo "de ligação " entre os vários indivíduos da manada, já que
eles se separam e voltam a se reunir.
E então, caro leitor, tudo isso não é digno de um ataque?
ocasião "favorável"
Outra tolice. Na palavra ocasião já está implícita a idéia de favorável.
Toda ocasião é algo favorável. Tanto é assim, que diz o aforismo popular:
A ocasião faz o ladrão. Ou seja: A circunstância favorável propicia
o surgimento do ladrão.
Certa feita, uma empresa fez anúncio em que mostrava um certo cidadão,
com ares professorais, definindo a palavra oportunidade. A definição
era capenga: oportunidade é ocasião "favorável". Ah, se não fosse!
Agora, só por mera curiosidade: recentemente, folheando um dicionário,
à pág. 2.159, encontrei a redundância. O mundo, realmente, está
ficando muito moderno. (Mas nada favorável...)
importar "ao Brasil"
Se isto não for redundância, o que será?
Alfa Romeo 147 - o compacto da mítica marca italiana, que recebeu um
facelift recentemente, começará a ser importado "ao Brasil" a partir do
começo do ano.
Ferrari F430 - o superesportivo italiano começará a ser importado "ao
N À NAO ERRE MAIS! 11 5
Brasil" somente no último mês desse ano. O modelo substituirá a Ferrari
360 Modena, que já mostra sinais de cansaço. Àqueles mais abastados,
comecem a preparar o bolso.
pico "culminante"
Visível redundância, mas nem por isso fora das nossas salas de aula
de Geografia nem dos livros da mesma matéria. O que é, afinal, um pico?
Nada mais que um topo agudo ou ponto mais elevado de uma montanha
ou cordilheira.
palma "das mãos" / planta "dos pés"
Visíveis redundâncias, mas muito empregadas. Ora, a palma só pode
ser das mãos; a planta só pode ser dos pés. Não existe palma "dos pés"
nem muito menos planta "das mãos".
outras redundâncias
Redundância nada mais é que a capacidade que as pessoas têm, ao
falarem ou ao escreverem, de chover no molhado. As redundâncias são
conhecidas também como pleonasmos viciosos.
Eis mais algumas delas: subir para cima, descer para baixo, mulher
de cocô na cabeça, mulher de coque na cabeça, acabamento final, metades
iguais, quantia de dinheiro, recuar para trás, avançar para a frente,
programar primeiro, seus respectivos lugares, safra agrícola, entrar para
dentro, sair para fora, se caso eu for, sorriso nos lábios, afastar para trás,
almirante da Marinha, general do Exército, brigadeiro da Aeronáutica,
breve menção, amanhecer o dia, anexar junto, árvore oca por dentro, aumentar
mais ou aumentar ainda mais, melhorar mais ou melhorar ainda
mais, piorar mais ou piorar ainda mais, emulsão de óleo, cair um tombo,
canja de galinha, coletivo para todos, individual para cada um, consenso
geral, conviver juntos, criança pequena, criar novos, destaque excepcional,
sintomas indicativos, detalhes minuciosos, livre escolha, superávit
positivo, déficit negativo, crise caótica, dar de graça, decapitar a cabeça
ou decapitação da cabeça, degenerar para pior, fato real, freqüentar
constantemente, empréstimo temporário, demente mental, desejar votos
de felicidades, desembolsar muito dinheiro do bolso, receber mensalmente
R$300,00 por mês, dois gêmeos, surpresa inesperada, completamente
vazio, engolir pela boca, defecar pelo ânus, erário público, planejar antecipadamente,
gritar bem alto, comparecer em pessoa, exportar para fora,
importar para dentro, expulsar para fora, exultar de alegria, filhote novo,
filhote pequeno, felicidade geral de todos, hemorragia de sangue, hepatite
do fígado, pancreatite do pâncreas, introduzir dentro, labaredas de fogo,
lugar incerto e não sabido, milênios de anos, na minha opinião pessoal,
mínimos detalhes, monopólio exclusivo, novo lançamento ou lançamento
novo, fazer planos para o futuro, projeto para o futuro, plebiscito popular,
pomar de frutas, abusar demais e preconceito intolerante.

NÀ NAO ERRE MAIS! 5 1 5
O presidente Lula foi, então, ao Vaticano, para participar das últimas
homenagens ao falecido Papa João Paulo II. Na sua comitiva levou os
ex-presidentes, que lá em Roma se encontraram com outro, então embaixador
na Itália, Itamar Franco. Depois do evento, declarou, num misto
de encanto e tristeza pela morte do Santo Padre: Em que momento da
história o Brasil conseguiu juntar quatro presidentes "juntos"?
Em nenhum, presidente, em nenhum mesmo. Parabéns!...
Quer dizer que o mundo está cheio de redundâncias?
O mundo de quem?
Há pessoas que ainda gostam muito de uma decapitação "da cabeça",
de uma hemorragia "de sangue", de uma hepatite "do fígado", de
desembolsar "do bolso", de anexar "junto" e tanta s outras chuvas no
molhado.
Não faz muito, ouvimos esta: Ele "autosuicidou-se".
Obra, naturalmente, de demente "mental"...
Certa feita, um jornalista saiu-se com esta: Você poupa mensalmente
R$500,00 "por mês"durante cinco anos.
Duro mesmo seria poupar mensalmente por ano...
Esta é de outro jornalista: Quércia estaria convencido de que, mais
do que nunca, cautela e canja "de galinha" não fazem mal a ninguém.
Quem encontrar, em algum restaurante, canja que não seja de galinha,
saia correndo: é veneno!
Houve outro que escreveu, ainda: Pomares "de fruta", terras cultiváveis,
uma casa e dez tapetes iranianos estão sendo oferecidos ao candidato
a assassino do escritor iraniano Salman Rushdie.
Eu ofereceria ao jornalista apenas um pomar "de legumes"...
Para encerrar, só mais esta, claro, de outro jornalista: Uma companhia
californiana anunciou que vai dar "de graça" 10 mil computadores.
No duro?!
Há redundância na sigla BICBANCO?
Enorme! Ora, se BIC significa Banco Industrial e Comercial, como
aceitar outra vez BANCO após a sigla?
Se a moda pegar, qualquer dia destes estaremos fazendo depósitos no
BCNBANCO, no BBBANCO e no UNIBANCOBANCO.
Outra redundância moderna é usar "sistema ABS". Ora, ABS é sigla
alemã de antiblockiersystem. Note: já há a palavra sistema.
A mim me parece
Trata-se, agora, de pleonasmo literário. A repetição do pronome oblíquo
configura um pleonasmo de grande efeito comunicativo. Repare nestes
exemplos, todos perfeitos: A mim me parece que o governo está querendo
mais impostos. *** A nós não nos parece justo esse imposto. * * * A vocês lhes
parece bom esse tipo de imposto? *** A mim vocês não me enganam não!
1 1 5
NÀ NAO ERRE MAIS!
O pleonasmo que se deve evitar é o vicioso, que não acrescenta coisa
nenhuma à comunicação.
sexy
Esta palavra inglesa não varia, quando usada no português. Portanto:
garotas sexy, poses sexy. Mas pornô, redução de pornográfico, assim
como retrô, equivalente de novo, inspirado em algo antigo, varia normalmente:
filmes pornôs, modelos retrós de automóvel.
Manchete de uma folha paulistana: Britânicos são punidos por acessar
sites "pornô"no trabalho.
É preciso deixar "claro" uma coisa: está difícil
Erro comum de concordância, próprio de gente que saiu da escola
sem ter noção de análise sintática. Se claro está em clara referência a um
nome feminino (coisa), como pode ficar no masculino?
Apesar de a coisa ser clara demais, eis como escrevem os jornalistas:
O PT mudou ao chegar ao poder, mas uma coisa precisamos deixar "claro":
ninguém apaga o passado.
Na verdade, estamos nos empenhando em apagar é o presente...
No site de A Gazeta Esportiva , todavia, uma bomba : A vitória de
6 a 0 sobre o São Raimundo deixou "claro" a superioridade técnica
são-paulina.
a expensas de
Esta locução sempre traz o a no singular, a exemplo da equivalente
à custa de: Mulher que vive a expensas do marido. *** Viajar a expensas
da firma. *** Formar-se a expensas da namorada. *** Concluí o curso a
minhas expensas. *** Vives a tuas expensas ou a expensas da mamãe?
N um edital do Tribunal de Justiça do Paraná: Os exames de saúde
que não forem passíveis de ser realizados no Tribunal de Justiça ficarão
"às" expensas do candidato. No mesmo edital: O candidato considerado
inabilitado terá acesso ao laudo médico, podendo requerer, "às" suas expensas,
outros exames.
Numa resolução do Tribunal de Justiça da Paraíba, porém, a surpresa
foi ainda maior: A celebração do Convênio, para que produza seus efeitos
legais, será objeto de publicação no Diário da Justiça, "sob às" expensas
do Poder Judiciário.
No projeto de lei de um deputado: Parágrafo único. As despesas decorrentes
da aquisição e da instalação do equipamento correrão "as " expensas
do consumidor.
Convém deixar claro: quem faz questão de usar "às" expensas de,
preferindo seguir registros de certos dicionários, inçados de erros e equívocos,
não pode deixar de usar, por coerência,"às custas de".
NÀ NAO ERRE MAIS! 1 1 5
tomos em cinco
Trata-se de um italianismo, como estes: Estávamos "em"seis no automóvel.
(Em português: Estávamos seis no automóvel.) *** íamos "em"
<!<••: pela estrada, conversando. (Em português: íamos dez pela estrada,
conversando.) *** Vínhamos "em" quinze na caminhonete. (Em português:
Vínhamos quinze na caminhonete.) *** Éramos "em"quatro no carro.
(Em português: Éramos quatro no carro.)
A exemplo de namorar com e de jogar de goleiro, é uma construção própria
do italiano, mas devidamente consagrada na nossa língua cotidiana.
continuação / continuidade
Continuação é prosseguimento; continuidade é sucessão ininterrupta.
Um árbitro pode dar continuação a um jogo até os 50m, se achar conveniente;
o novelista que não souber dar continuidade à trama, estará
irremediavelmente fora do ibope, porque não despertará interesse.
Na mídia: Docentes da Unicamp, da USP, da Unesp e da Unifesp decidiram
pela "continuidade" da greve contra a reforma da Previdência.
Na verdade, os professores decidiram pela continuação da greve.
Numa revista: O ministro da Defesa defende a "continuidade" do
programa espacial brasileiro.
Estou certo de que o ministro está a defender a continuação do programa
espacial brasileiro.
Eis, agora, o emprego correto da palavra continuidade, num artigo
publicado no Jornal da Tarde: O que mais se temia, em matéria de educação,
acabou acontecendo. Em vez de dar continuidade à política de avaliação
implementada pelo governo anterior, e cujo estrondoso sucesso foi
registrado pelo Censo Escolar de 2003, o governo do PT optou por desmontá-la
progressivamente.
V. maiores explicações no Dicionário de dúvidas, dificuldades e
curiosidades da língua portuguesa.
"cataclisma" / "aforismo"
Trata-se de cacografias que muito se vêem em todos os tipos de publicações.
Nove, entre dez brasileiros, escrevem errado estas duas palavras,
ou seja, "cataclisma", "aforisma", em vez de cataclismo, aforismo.
Tudo por influência de palavras mais conhecidas, como cinema, dilema,
problema, programa, telefonema, teorema, etc.
Numa folha paulistana: Cientistas russos relançaram o debate sobre
o misterioso "cataclisma" da Tunguska, na Sibéria, em 1908, afirmando
ter encontrado nos locais da catástrofe pedras suspeitas e fragmentos do
que teria sido uma nave "extra-terrestre", que teria se chocado com um
cometa.
Note: o cataclismo foi tão grande aí, que o jornalista não soube nem
mesmo escrever corretamente extraterrestre!
1 1 5
NÀ NAO ERRE MAIS!
No editorial de tradiciona l jorna l paulistano: Um conhecido "aforismo,
" diz que aqueles que esquecem a História estão condenados a
revivê-la.
E aqueles que desconhecem a própri a ortografi a estão condena -
dos a quê?
Pio X / século I / ano II / capítulo Dl
Na sucessão de papas, séculos, anos, capítulos, etc., de I a X lemos em
ordinal; de XI em diante, em cardinal. Portanto: século I (= século primeiro),
ano II (= ano segundo); capítulo III (= capítulo terceiro); Pio X (= Pio
décimo); século XI (= século onze), ano XII (= ano doze).
Não existe século "um", século "dois", século "três", século "quatro",
século "cinco", século "seis", século "sete", século "oito", século "nove"
nem século "dez". Mas é justamente desse modo que dizem todos os repórteres
e jornalistas. Alguns até fazem pior. Escrevem: Papa elogia combate
de Pio "10" ao modernismo. Dois barcos que datam do século "1"
foram descobertos...
Numa revista: Cientistas israelenses anunciaram a descoberta de
uma pedra com inscrições do século "9" a.C. que pode ter sido parte do
lendário Templo de Salomão, citado no Antigo Testamento. Ora, escrevendo
em cardinais, obrigam o leitor a ler erradamente.
Num grande telejornal se ouviu certa vez: Arquimedes viveu no século
"três"antes de Cristo.
Tudo mentira.
"um xerox"
Quem quiser uma cópia boa, sem rasuras, borrões e distorções, que
peça sempre uma xéroxl
Em português, todas as palavras dissílabas terminadas em -x são
paroxítonas: bórax, cóccix, dúplex, tríplex, Félix, fenix, gúmex, Index,
ônix, enfim, todas. Constituem exceções, evidentemente, as que se criam
com fins eminentemente comerciais, quase sempre ao sabor do arbítrio,
com o suposto sufixo ex, indicador do produto: Durex, Duratex, Mentex,
Pirex, etc. Nenhuma dessas formações pertence ao léxico português; nenhuma
possui história: nasceram ontem, aqui mesmo, talvez numa acanhada
sala de agência de propaganda.
Xérox nos vem do grego xéros, e, on, que significa seco, secura.
Tal radica l está presente em xeroftalmia, xerografia, filoxera, em que
a vogai da sílaba xe possui timbre aberto ( xeroftalmia , xerografia, filoxéra),
constituindo-s e em mais um fato comprobatório da prosódia
legítima xérox.
Em inglês, a palavra já é paroxítona. Só mesmo os "artistas "preferem
pronunciá-la como oxítona. E de "artistas" o Brasil está cheio! As vezes
até trabalham em empresas multinacionais...
Veja esta fras e de um jornalista , aliás,"artista" : "Os xerox"estão
1 1 8 NÃO ERRE MAIS!
pnrtl os livros como as fitas "piratas" estão para a indústria de cineniii
O discos.
Tivs erros numa pequena frase. E então? Não é um "artista"?
I o caso de te/ex?
Telex é abreviamento da expressão inglesa teleprinter exchange =
inlrivomunicaçâo impressora a distância. Foge, portanto, à norma desi
i ila no caso anterior.
Qual é o plural de fax?
E os fax. Palavras terminadas em -x com som de ks, mormente as
formadas recentemente, ou que entraram há pouco na língua, não variam
no plural. Estão no mesmo caso de fax: xerox, telex, dúplex e tórax, entre
muitas outras.
Aquelas que possuem variantes em -ce (caso de cálix, índex, etc.)
fazem o plural tendo por base a variante: cálices, índices, etc.
Mooca
Mooca, sempre Mooca, sem acento. Mooca é um antigo e simpático
bairro paulistano. Muita gente, no entanto, pensa que mora na "Moóca",
jura que mora na"Moóca" . Nunca morou!
banana
Não é obrigatório, mas a melhor pronúncia desta palavra é bãnâna, e
não"bánâna" .
Sempre que houver uma consoante nasal após uma vogai, esta é fechada.
Note que estamos falando em preferência de pronúncia, e não em
erro. A ressalva é necessária, porque sempre há uns e outros que, ansiosos
pela crítica, desejosos do nosso sangue, querem logo ir à veia, à jugula.
Recentemente, uma mulher foi a um programa de televisão de entrevistas
e cantou uma música da bossa nova, em cuja letra aparece várias
vezes a palavra banana. Foi "bánâna"par a cá,"bánâna"pr a lá, pra dar e
vender. Afeou a música.
"falámos" / "tratámos" / "conversámos"
Há quem queira diferençar o presente do pretérito, abrindo a vogai a
das formas pretéritas. Essa prática, no português do Brasil, é tolice. Tanto
a forma do presente quanto a do pretérito possuem uma única pronúncia
correta (ao menos por aqui, no Brasil): falámos, tratámos, conversámos.
"mâs"
Houve um presidente brasileiro (folclórico, de todos os pontos de vista)
que se notabilizou não só por dizer "senhora", mas também por pronunciar
a conjunção mas desta forma: "mâs", como, aliás, ainda dizem
NÃO ERRE MAIS! 12 3
alguns gaúchos. Ora, o que ocorre aqui é uma grande confusão: a vogai a
só se fecha quando antecede consoante nasal, nunca quando se pospõe a
ela. Não fosse assim, também teríamos de dizer "nâda","mâla" , etc.
serpente "não venenosa"
Eis aí algo que é difícil de aceitar. Por quê? Porque há uma diferença
entre cobra (qualquer ofídio, venenoso ou não) e serpente (cobra venenosa,
peçonhenta). Quando deparamos uma coral, dizemos que se trata de
uma cobra, porque ela pode ser peçonhenta ou não (existem as falsas).
Mas quando nos referimos à passagem bíblica, somos obrigados a dizer
que foi uma serpente que tentou Eva no Paraíso, e não uma cobra. Tinha,
naturalmente, de ser uma serpente... Cleópatra também morreu em conseqüência
da picada de uma serpente. Tinha de ser...
Eis que, todavia, ao ler uma de nossas principais revistas semanais de
informação, encontro as trevas: Um veterinário australiano, especialista
em cobras, foi chamado às pressas para retirar do telhado de uma casa
uma serpente de 7kg e 3m de comprimento. Missão cumprida, o vaidoso
veterinário posou para fotógrafos e cinegrafistas. Foi quando a cobra se
vingou e o atacou no rosto. Ele teve sorte: a serpente não era venenosa.
Tinha de ser uma serpente...
argüir "da" constitucionalidade de uma medida
É tolice: o verbo argüir não é transitivo indireto. Quem questiona,
discute, apresentando razões a favor ou contra, argúi alguma coisa, e não
"de" alguma coisa. Podemos, agora, argüir uma questão controversa: o
voto dos analfabetos.
Quando um ministro dos Esportes apresentou sua proposta de mudanças
na lei do passe, em 1996, um jornalista esportivo insistiu em afirmar
na televisão: Os cartolas estão querendo argüir "da"constitucionalidade
da proposta.
O homem comete tanto furo, que já o chamam de Zezinho Kfuro!
"duzentos" gramas de queijo "prata"
Eis aqui uma porção suficiente para causar aquela indigestão. Ao
menos aos seres humanos. Sim, porque duzentas gramas só os burros é
que costumam comer, já que grama (feminino) é capim.
E o queijo que costumamos comer em lanches é o prato. Até o momento
nenhum laticínio se empenhou em fazer o queijo "prata", naturalmente
porque o custo não devesse ser vantajoso...
Houve época em que os jornalistas da revista Veja defenderam com
unhas e dentes a expressão"uma grama de ouro". Que bom que os tempos
mudam!

NÀ NAO ERRE MAIS! 5 1 5
uma blitz, duas ...
blitze, já que em alemão, o plura l de blitz é blitze. Os nossos jorna -
listas, que até pouco tempo atrás usavam duas "blitz", já passam a usar
a forma certa. Repare nestes exemplos, para firma r conhecimento: Em
razão da onda de seqüestras, a polícia tem feito muitas blitze pela cidade
de São Paulo. *** Passei por várias blitze sem me pararem.
Mas sempre há exceções. No site de um provedor: Garotinhofaz ronda
para avaliar as 81 "blitzes".
Quem sabe sabe; quem não sabe, que se limite a bate r palmas!
Repare "as" pernas dela!
Quem repar a "as"pernas é mecânico, já que reparar (sem a preposição
em), na linguagem culta formal, significa consertar, reparar relógios,
reparar fechadura s e até reparar pernas, quando mecânicas.
Pessoas mais elegantes, de espírito mais sutil, reparam nas perna s de
uma garota, mas antes reparam nos seus bonitos olhos, nos seus lábios, no
seu jeito de anda r e de falar, no seu olhar, na sua boca, na textur a dos seus
lábios, enfim, reparam em tudo o que ela tenha de reparável e, sobretudo,
de irreparável.
Pode tratar-se de bandidos
Frase perfeita. O verbo poder, neste caso, é auxiliar de um verbo
transitivo indireto acompanhad o do pronome se, que indetermina o sujeito.
Por isso, pode abrir a porta: pode tratar-s e de amigos!
Antes de abrir a porta, porém, repare nestoutr a frase: Pode verificarem-se
protestos, se a polícia usar de violência.
Reparou? O verbo poder, em suma, em frase s desse tipo, eqüivale a é
possível.
aprendendo o bê-a-bá
Apesar de ser assim, veja como escreveu um jornalista: Tanto discutimos
a inflação e suas causas, durante estes anos todos, que acabamos
esquecendo o "beabá", o básico, o elementar.
Há pessoas que querem ser formadora s de opinião sem sequer terem
aprendido o bê-á-bá.
Mas há esperanças, há esperanças. Eis como escreveu outro jornalista,
talvez mais letrado (ou mais bem-alfabetizado): Ao criticar e
desafiar uma MP que está vigendo, o governo Lula está mostrando ser
analfabeto num ponto fundamental que é o bê-a-bá do Estado democrático
de Direito.
Digno de encômios...
N À NAO ERRE MAIS! 11 5
remontar "há"
O verbo remontar (ter sua origem ou princípio) é transitivo indireto
e se usa com a preposição a: A invenção da imprensa remonta a séculos.
* * * A informática remonta a poucos anos.
Num jornal: O Afeganistão é um mosaico étnico de antigas culturas,
cuja origem remonta "há"séculos de ocupação das estepes e montanhas
da Asia central.
O uso da preposição a e de há, do verbo haver, tem confundido muita
gente, mas já não deveria estar confundindo jornalistas.
por si só
A expressão por si só (= por si sozinho) varia normalmente: As declarações
do réu, por si sós, já bastam para condená-lo. *** Há publicações
que, por si sós, já nos causam arrepios.
Certa feita, uma fábrica de inseticida fez propaganda pela televisão,
na qual o apresentador, logo de início, saiu-se com esta: Existem coisas
que fazem mal por si "só".
De fato.
Peixe tem "espinho"?
Pelo menos nas águas do planeta Terra, não. O que peixe tem é espinha
dorsal. Mas uma repórter da Rede Globo não vacilou em afirmar,
certa feita, que os habitantes de Londrina preferem consumir peixe sem
"espinho".
Nós todos também, não é mesmo?...
a pé
Sempre sem acento no a: andar a pé.
Não se usa, ainda, "de a pé" por a pé: vou a pé, vim a pé (e não: vou
"de " a pé, vim "de" a pé).
Em algumas regiões do Nordeste se usa "de"pé por a pé. Ali, as pessoas
costumam ir "de"pé e vir "de"pé. Assim, quando um motorista paquerador
oferece uma carona a qualquer garota que vai passando pela
rua, esta reage quase sempre brava e desta forma: - Não, não preciso de
carona: eu vou "de"pé mesmo.
Ao chegar a casa, ela dá a notícia à mãe:
- Mããããe, mãinha! Um cara queria me dar carona, mas eu não aceitei:
vim "de pé"mesmo.
O mais interessante é que ela chegou...
de pé / a pé
Já que estamos com a mão na massa, não costuma estabelecer algumas
diferenças de significado existentes entre estas duas expressões:
1) ir a pé = ir usando os pés, por oposição a ir a cavalo, ir de carro, etc.:
Quando lhe ofereceram carona, ela recusou, dizendo que preferia ir a pé.
NÀ NAO ERRE MAIS! 1 1 5
1) ir de pé ou ir em pé = ir com o corpo todo ereto, com apoio apenas nos
I por oposição a ir sentado, ir deitado, etc.: Nos ônibus urbanos, muita
ftente vai de pé. Nos ônibus interurbanos, é proibido ir em pé.
it) estar a pé = estar já desperto e fora da cama, ter já se levantado: Na
ona rural, às 5h o pessoal já está a pé. (O povo usa, neste caso, "de" pé
ou "em"pé.)
serviço de "metereologia"
Não existe isto. O que temos é o Serviço de Meteorologia, palavra que
vem de meteoro. No entanto, o erro é comum. O adjetivo correspondente
é meteorológico.
No site do Terra: Saiba a melhor maneira de dirigir em situações
"metereológicas"adversas como: neblina, chuva, vento, lama e até gelo.
No site de um jornal: Um terremoto medindo 7,2 graus na escala Riicher
atingiu a região do Pacífico perto das ilhas Salomão e de Papua Nova
(luiné hoje, segundo um instituto "metereológico" dos Estados Unidos.
"sob" o ponto de visto
É um galicismo dispensável, já que temos do ponto de vista, aliás,
expressão muito mais elegante. De todos os pontos de vista...
Numa revista: O movimento de José Rainha é um anacronismo "sob "
qualquer ponto de vista pelo qual seja observado.
Repare não só no uso do galicismo, mas também na redundância, que
seria evitada, se a frase terminasse em ponto de vista.
"sob" esse aspecto
Esta preposição, em português elegante, deve ser substituída por em:
Nesse aspecto, posso dizer que a amo; mas noutro aspecto, não.
Numa revista: Deputados e senadores que elegemos nunca nos consultam
sobre coisa alguma. Eles nem sabem a quem representam, nem ao
menos têm os nossos e-mails. "Sob" esse aspecto, nem uma República de
fato somos.
o dois-pontos
O nome do sinal de pontuação tem hífen: dois-pontos (:), assim como
ponto-e-vírgula (;).
Poucos sabem usar o dois-pontos. Certa feita, a Toyota do Brasil fez
publicidade capenga. Acima da foto do Corolla se lia: Ótimo desempenho
c muita segurança. O que toda mulher procura num homem e todo homem
procura num carro.
A mensagem publicitária perfeita, no entanto, é esta: Ótimo desempenho
e muita segurança: o que toda mulher procura num homem, e todo
homem procura num carro.
N À NAO ERRE MAIS! 11 5
Repare neste trecho de jornalista : No Palmeiras, "todo mundo" reconhece.
Quando Marcinho não joga, a defesa fica muito mais exposta.
Note, agora, como ficaria em português: No Palmeiras, todo o mundo reconhece:
quando Marcinho não joga, a defesa fica muito mais exposta.
EM TEMPO - 1) Há quem use os dois pontos (os portuguese s o fazem),
sem hífen e sempre no plural. Para bom entendedor, dois pontos (os) são
isto: .., ou seja, um ponto atrás do outro; dois-pontos (o) é isto: :, ou seja,
sinal de pontuação.
2) Não se usa dois-pontos depois da abreviatur a de telefone nem depois
da abreviatur a de ramal.
zero "pontos"
Se 1 não exige nomes e verbos no plural, que se dirá de zero! Há,
todavia, quem consiga enxergar plural em zero. Repare nesta notícia de
A Gazeta Esportiva: O Oeste de Itápolis foi julgado nesta segunda-feira
pelo Tribunal de Justiça Desportiva da Federação Paulista de Futebol,
por atuar com três jogadores que estavam com suas documentações irregulares
e acabou punido com a perda de 12 pontos. A Federação não divulgou
se, após essa decisão, o Oeste, que possuía dois pontos em quatro
jogos e era o penúltimo no Grupo 2, passará a figurar com menos dez ou
com zero "pontos".
Não sabemos dizer se estamos mais com pena do Oeste do que do
Leste...
representação das horas e dos minutos
As horas e os minutos se representam assim, e só assim: 20h, 20hl5min,
15h02min, 18h, 12h38min.
Há os que usam o dois-pontos: "20:15". Há os que usam, além do
dois-pontos: "20:15hs.". Há de tudo, menos o correto.
Certa vez, fixaram um grande aviso à entrada do elevado Costa e
Silva, em São Paulo, conhecido popularment e por Minhocão: O elevado
estará interditado "das 0 HS às 5 HS".
Note que, além da representação gráfica errada das horas, o zero foi
considerado como nome do plural! Não seria mais econômico, mais sensato,
mais educativo elaborar um aviso assim: O elevado estará interditado
da Oh às 5h?
Recentemente, uma emissora de televisão, depois de encerrar suas
atividades, deixou esta mensagem na teia: Fim de transmissão. Horário
de programação: "de 08:00hs às 00:00hs.". Aqui, uma série de absurdos
ocorreu, como facilment e se nota. E saber que é tão fácil (e muito mais
econômico) escrever corretamente: das 8h à Oh!
abreviaturas de quilo e de quilômetro
As abreviatura s de quilo e de quilômetro, junto de números, se usam
assim, e só assim: 2kg, 50kg, lkm, 80km (note: não há s nem ponto, e a

NÀ NAO ERRE MAIS! 105 1 5
abreviatura segue imediatament e o algarismo, não havendo nenhum espaço
entre eles).
Portanto, o limite de velocidade nas principais rodovias brasileiras é
de 80km/h, e não de"80 KM/H" , como se vê comumente. Está aí a razão
por que os motorista s costumam exceder a velocidade máxima permitida:
falta de respeito...
abreviaturas de litro e de mililitro
Hoje devemos usar assim: L par a litro e mL par a mililitro. A mudança
de 1 par a L e de ml par a mL se deveu par a evitar confusão com
o algarismo 1. É a nova orientação da Associação Brasileira de Norma s
Técnicas (ABNT). Podemos, ainda, usar o €, minúsculo, como o escrevemos
manualmente , em vez da maiúscula: 1€.
sêde
O bom-senso mand a acentua r esta palavra, mas oVocabulário Oficial
não vê assim. Convém acentuar, para diferença r de sede (é), outro substantivo.
O acento serve par a evitar ambigüidade , que pode ocorrer em
frase s como esta: O candidato ainda não revelou se tem sede.
Outros casos de acentuação obrigatória, em nosso ver, são das homógrafa
s fechada s fôrma (substantivo) e vede (forma imperativa do verbo
ver). Sem o competente sinal, estas frase s ficam prejudicadas: Não encontrei
a forma da forma que tanto procuro. * * * O calçado tem forma que
não é da forma que eu escolhi. *** Vede tudo: está frio!
O caso do verbo ainda é passável, porque o contexto se encarrega de
nos informa r se se trat a do verbo ver ou do verbo vedar. Mas nos outros
casos, a exigência do acento é absoluta. Em nome do bom-senso.
Imaginemos um escritor que queira dar este título à sua obra: A forma
da forma. E agora?
Repare nesta frase: trata-se de um tipo de impressão que deixa na
superfície impressa apenas a marca da forma usada. (Fôrma ou forma?)
Repare também nestoutr a frase: trata-se de um tipo de impressão
que utiliza forma moldada. (Fôrma ou forma?)
E mais nesta: trata-se de um sistema de impressão que utilizaformas
em relevo. (Fôrma ou forma?)
Bom-senso, assim como beleza, é fundamental: fôrma, fôrmas. Mas o
Vocabulário Oficial não vê assim. Paciência!
Vimos aqui todos os dias para rezar
Frase perfeita: o present e do indicativo do verbo vir, na primeir a
pessoa do plural, é vimos. Portanto, em cartas: Vimos informar a Vossas
Senhorias que ... *** Vimos notando ultimamente uma queda nas vendas
dos nossos produtos.
ATENÇÃO - A fras e Viemos aqui para beber ou para conversar? é defensável,
desde que não se perca de vista o aspecto verbal. A idéia de consNÀ
NAO ERRE MAIS!
tância, de freqüência, traduz-se pelo presente: Vimos aqui para beber ou
para conversar? (Ou seja: Vimos aqui todos os dias para beber ou para
conversar?). Se o fato se dá apenas vez ou outra, cabe o emprego do pretérito:
Afinal, viemos aqui para beber ou para conversar?
Quando um fabricante de cerveja fez anúncio usando a frase, estava
clara a intenção de freqüência, de constância naquele hábito. Daí por que
censuramos a frase numa das edições anteriores.
"sentar na" mesa
É coisa de gente pouco civilizada. Gente educada, elegante, civilizada,
senta-se à mesa, quer para comer, quer para dialogar, discutir, debater,
assinar acordos. É melhor usar como pronominal, mas há dicionários que
já trazem este verbo como intransitivo. A última prefeita de São Paulo
queria sentar"na"mes a com os empresários de ônibus urbanos e"ter com
eles uma parceria". Será que os empresários aceitaram?!
"as" 5.° e 6.a
 séries
É tolice. Antes de palavras no singular (5.a
), não se usa o artigo no
plural, ainda que haj a uma seqüência delas: Dou aulas na 7.a
e 8.a
 séries.
*** Transcrevi o 2°, 3.°e 4.°parágrafos. *** Angulo formado pela 2.a
e 3.a
porções do duodeno. *** Eram pessoas indicadas para o 2.°e 3.°escalões
do governo. *** A 1." e 2." varas cíveis. *** Não concordo com o 4.° e 5."
itens desse documento.
A maioria dos jornalistas desconhece completamente o assunto. Repare
na frase de um deles: Após três meses de governo, continua a corrida
pelas vagas "nos"segundo e terceiro escalões.
Esta é de outro jornalista, cujo nome lembra um famoso presidente
norte-americano: Em viagem ao Senegal, Lula visitou a Casa dos Escravos,
na ilha de Goree, um dos pontos de partida dos negros que cruzavam
o oceano Atlântico rumo às Américas. Emocionado, pediu perdão
aos africanos pela escravidão que durou "dos séculos" 16 ao final do 19.
dizer "para" que
Quem diz, diz alguma coisa a alguém: O presidente disse aos ministros
que não renunciará, apesar dos sucessivos escândalos à volta do seu
governo.
Escreve o mesmo jornalista: A crise se agravando semanalmente e
Lula dizendo a jornalistas "para"que olhem para a sua cara e vejam seu
ar despreocupado.
Pra que o para?
eu quero me divertir
Há professores que condenam o uso de pronome oblíquo isolado entre
dois verbos, amparando-se na sintaxe do português lusitano. Convém
parar.

NÀ NAO ERRE MAIS! 5 1 5
Aliás, ainda há provas de exames vestibulares que exigem conhecimentos
da sintaxe de colocação usada meramente em Portugal, o que é
um acinte para qualquer brasileiro. Universidade ou faculdade que ainda
exige isso deveria ser cassada, a bem do serviço público...
No portuguê s do Brasil, o pronome oblíquo pode perfeitament e
vir isolado entre dois verbos. Não há nenhuma necessidade de usar o
hífen (Eu quero-me divertir). Deixemos os portuguese s com seus empregos;
fiquemos com os nossos! Ou temos de fala r portuguê s como
eles "tambáim" ?
proceder "um" sorteio
Não. Proceder a um sorteio, a um exame, a uma vistoria, a uma cobrança,
a investigações, a pesquisas, a diligências.
Num formulário de depósito bancário, leu-se, certa vez, esta advertência:
A disponibilidade do depósito em cheque ocorrerá após a respectiva
cobrança "que procederemos"por sua conta e risco.
Pois a cobrança a que procederemos é para sempre. E será maligna!...
olhar
Na acepção de levar em conta ou em consideração é transitivo indireto:
Quando ele vai a restaurantes, não olha a preços. *** Gosto de
Beatriz, porque ela não olha a meus defeitos.
Um jornal reproduz a entrevista com um ministro: Essa greve do judiciário
vai se voltar contra as instituições e será uma greve antipática.
* * * Uma greve por melhores condições da sua própria carreira, que não
olha "a"situação da totalidade do povo brasileiro.
Há quem olhe à situação do povo brasileiro?
Ela "mesmo" diz que merece a punição.
Mesmo e próprio variam em gênero e número, quando funcionam
como demonstrativos de caráter reforçativo: Ela mesma diz que merece
a punição. * * * Ela própria diz que deve ser punida. * * * Elas mesmas
lavam suas roupas. * * * Luísa, seja honesta consigo mesma!
Mesmo não varia somente quando eqüivale a de fato, realmente: Ela
veio mesmo aqui hoje? *** Suas filhas sabem mesmo cozinhar?
Num de nossos jornais apareceu certa vez esta frase: As montadoras
estão virando "no" avesso uma máxima que elas "mesmo" criaram: vender
barato para vender mais.
Viridiana é uma "soprana"? ,
Não. Soprano é termo que se aplica tanto ao cantor quanto à cantora.
A distinção de sexo se faz trocando o gênero do artigo ou de qualquer outro
determinante: o soprano, a soprano; aquele soprano, aquela soprano,
N À NAO ERRE MAIS! 11 5
etc.Trata-se, portanto, de um nome comum-de-dois, assim como dentista,
jovem, selvagem, motorista.
Certa feita, uma apresentadora de telejornal informou que a "soprana
"Aprile Millo chegaria ao Brasil.
E nem sequer ficou vermelha!
Alguém pode ter olhos "castanhos-escuros"?
Não. Num adjetivo composto, só o último elemento varia. Portanto,
só podemos ter olhos castanho-escuros, cabelos castanho-escuros, olhos
verde-claros, olhos azul-claros, equipamentos médico-hospitalares, política
econômico-flnanceira, tonalidades claro-azuladas, pessoas maníaco-
-depressivas, etc.
Num jornal: Os animais, como as pessoas e principalmente como as
crianças, merecem uma série de cuidados "higiênicos-dietéticos ", que abrangem,
além de limpeza e alimentação, os serviços "médicos-veterinários ".
Certas pessoas, assim como certos animais, merecem - de fato - uma
série de pequeninos cuidados...
"após ter"
Não é bom português o uso de após antes de formas nominais. Prefere-se
depois de: Depois de se levantar da cama, tome banho! *** Depois
de ocorrido o acidente, começou a chover. * * * Depois de ter marcado o
gol, o jogador foi até a galera.
Se o uso de formas nominais com a preposição após já é de todo condenável,
que se dirá, então, do seu emprego não só assim, mas junto de preposição?
Foi o que encontramos no rótulo de um molho de tomate. A patada
veio em forma de conselho: "Após de abrir" conservar em geladeira.
Não é uma fria? Quanto à falta da competente vírgula depois de
abrir, então, nem vamos comentar: é café-pequeno.
Após "ao" almoço, escove os dentes!
Após já é uma preposição; não tem sentido usar preposição com outra
preposição, como vimos no caso anterior. Assim, usaremos: após o jantar,
após as refeições, após as 18h, após o jogo, após o programa, após o
almoço, sempre sem a combinação ao ou sem a crase à.
De notar, ainda, que esse não é um caso rigorosamente correto do
emprego dessa preposição. Consulte o Dicionário de dúvidas, dificuldades
e curiosidades da língua portuguesa.
De vez em quando, no entanto, aparece um aviso correndo na parte
inferior da tela do nosso televisor: Após "ao" futebol, assista a um filme
inédito.
De quem é a culpa? Claro: do futebol!...
No site da Jovem Pan se leu: Romeiros: movimento na Dutra será
mais intenso após "às"16h do domingo.
NÀ NAO ERRE MAIS! 1 1 5
De quem é a culpa? Sem dúvida: dos romeiros.
bife a cavalo
Quem conhece este delicioso alimento sabe que aqui existe um para -
doxo: por que bife a cavalo, se é o ovo que vem por cima? Explica-se: esta
expressão é uma redução infeliz de outra, bem mais lógica, porém, pouco
usada: bif e com ovo a cavalo.
Se, porém, algum de nós chegar a um restaurant e e pedir um bife com
ovo a cavalo, o garçom talvez traga outra coisa...
arrepender-se
E verbo essencialmente pronominal. Certa feita, um apresentador de
programa esportivo pela televisão perguntou a um ex-treinador da seleção
brasileira de futebol: Você "arrependeu"de não ter convocado Romário
para as Olimpíadas?
A resposta veio tão capenga quanto a pergunta: Não, não "arrependi".
Pois então, arrependa-sel
Inicia-se período com algarismo?
Não convém. Já encontramos, todavia, períodos iniciados assim:
"1194"foi o ano de implantação do real. *** "5.°"Encontro de Secretários
da Saúde. Convém preferir: O ano de 1994 foi o da implantação do
real. * * * Quinto Encontro de Secretários da Saúde.
O número sete deve ter corte?
De preferência , não. Verifique em qualque r teclado: o 7 tem corte?
O corte nesse algarismo começou a aparecer para espanta r a confu -
são com o 1, ou mesmo com o 2. Convém saber, todavia: o corte é apenas
ratifieativo, e não absolutament e necessário.
Há uma explicação galhofeira para o corte no 7. Diz-se que, quando
Moisés desceu do mont e Sinai com a Tábua dos Dez Mandamentos, passou
a ler as leis de Deus para o povo. Chegando ao mandament o de número
7, ergueu um pouco mais a voz: Não cobiçar a mulher do próximo!
Ao que o povo protestou prontamente , gritando: Corta, corta!
"uma somatória"
E bobagem. A língua só tem um somatório: O país vivia um somatório
de crises. * * * Houve um somatório de equívocos nessa investigação.
* ** Ocorre um somatório de asnices nos exames vestibulares.
Sentença de um juiz: O réu foi imprudente, concorrendo com a imprudência
da vítima, "numa somatória" de culpas que deram causa à
morte do ciclista. A condenação do réu, pois, é de rigor.
NÀ NAO ERRE MAIS! 1 1 5
Só do réu?
Numa folha paulistana: O lucro de R$7,807 bilhões da Petrobras no
primeiro semestre deste ano supera "a somatória" do resultado dos sete
maiores bancos do Brasil. Na mesma folha: O movimento de reação contra
o imposto de renda resulta de "uma lamentável somatória" de má fé,
demagogia e oportunismo.
O que é mais lamentável?
pagamento em médio e longo "prazo"
Não. Quando o substantivo se refere a dois ou mais adjetivos, deve
estar no plural. Portanto: as administrações direta e indireta, as imprensas
falada, escrita e televisionada, as polícias civil e militar, os setores
público e privado.
Portanto, faça qualquer pagamento em médio e longo prazos. O importante
é fazê-lo.
minguar
Este verbo, assim como aguar, desaguar e enxaguar, nas formas rizotônicas,
tem tonicidade na primeira sílaba: mínguo, minguas, míngua,
minguam; míngüe, míngües, míngüe, míngüem; águo, águas, água,
águam; ágüe, ágües, ágüe, ágüem, etc.
Num jornal: Crédito "mingua"neste governo.
Conhecimentos de português, então, minguam diariamente...
"meu" óculos!
Óculos é palavra só usada no plural: os óculos. Quando precisar de
bons óculos, procure uma óptica! Antes, porém, não se esqueça de consultar
um bom oftalmologista, que lhe indicará os melhores óculos para o
seu caso.
Certa feita, noticiou um jornal, para grande surpresa nossa: A polícia
francesa anunciou ontem o roubo dos óculos usados por Napoleão
Bonaparte na histórica batalha de Austerlitz, de 1805, em que venceu os
exércitos austríaco e russo.
A hora é de festa, de alegria: exultemos!
Já durante a cerimônia de transferência de faixa presidencial, Fernando
Henrique Cardoso, ao retirar a faixa, deixou cair os óculos. A apresentadora
de uma emissora de televisão, todavia, que sabe falar fluentemente
o francê s e o inglês, não conseguiu dizer os óculos. Ficou mesmo
com "o " óculos. É a miopia sempre presente.
Deixe "eu" dormir sossegado!
Frase típica da língua falada. Preste atenção a estes seis verbos, nunca
mais os esqueça: deixar, mandar, fazer, ver, ouvir e sentir. Todos seis
exigem pronome reto antes de infinitivo, e não pronome oblíquo. RepaNÀ
NAO ERRE MAIS! 111 1 5
re nestas frases: Deixe-me dormir sossegado! *** Mandaram-me ficar
aqui. *** Fizeram-me beber todo o purgativo. *** Vi-o entrar. *** Ouvias
chorar. * * * Senti-a mexer-se.
Mas na língua falada , a do dia-a-dia, entre amigos, é comum encontrarmos
o pronome reto: Mandaram "eu"ficar aqui. *** Fizeram "eu"beber
todo o purgativo. *** Vi "ele"entrar. *** Ouvi "elas"chorar. *** Senti
"ela" mexer-se.
Qual das duas forma s de construção é compatível com você? Escolha
a sua!
Faça entrar as visitas!
Frase corretíssima. Lembra-s e dos seis verbos do caso anterior? Eles
estão presentes, novamente. Todos seis, quando usados com infinitivo
imediatament e posposto, dispensam a flexão do infinitivo, independente -
mente do número em que se encontra o sujeito. Ex.: Mande sair as crianças.
(O sujeito de sair é as crianças.) *** "Deixai vir a mim as criancinhas!".
(Sujeito de vir: as criancinhas.) *** Vi morrer os soldados. ***
Ouvi bater portas e janelas. *** Senti cairos meus óculos.
Se aparece um pronome oblíquo como sujeito, o infinitivo continua
invariável. Ex.: Faça-as entrar! (O sujeito de entrar é as.) *** Mande-as
sair! *** Deixa-as vir a mim! *** Vi-os morrer. *** Ouvi-as bater. ***
Senti-os cair.
Se, no lugar do pronome oblíquo, aparece um substantivo ou um pronome
substantivo, a flexão é facultativa ou opinativa. Ex.: Faça as visitas
entrar (ou entrarem)! *** Mande todos sair (ou saírem)!
A Goodyear lançou recentement e um pneu à prova d'água. Sua propaganda
começava com esta frase: Quando as águas chegarem, deixe as
águas rolarem. Perfeito. Mas se estivesse rolar, em vez de rolarem, a fras e
não só estaria perfeita , como castiça.
Os jornalistas, por sua vez, desconhecem por completo o assunto. Eis
um exemplo, dos milhare s que já encontramos em publicações de todos
os tipos: O ano de 1985 "viu passarem"pela área econômica três administrações
distintas.
A Veja, ed. 1.621, apresentou interessante reportagem sobre os ma -
mutes. E uma fras e assim: Corpo bem conservado de mamute morto há
23.000 anos faz cientistas sonharem recriar a espécie.
Extraordinariament e correto! Houve até quem ficasse extremament e
emocionado...
risco de vida / risco de morte
A expressão rigorosament e lógica, racional, é risco de morte (o elemento
final deve denotar sempre algo ruim), assim como se corre risco de
infecção num ambiente infecto; assim como se corre risco de contágio, se
se tem contato com alguém que sofre de mal contagioso, etc.
Nem sempre, porém, o que é racional, lógico, acaba a braços com a
N À NAO ERRE MAIS! 11 5
língua, que também agasalha risco de vida. Aliás, consta dos mais antigos
(e bons) dicionários.
perigo de vida / perigo de morte?
Eis aqui outro caso interessante, semelhante ao anterior. A língua
só possui perigo de vida. E note que a palavra perigo, logicamente, não
poderia nunc a pedir outra de significado meliorativo, mas sim de significado
ruim, desagradável, funesto. As pessoas que ganham a vida reme -
xendo lixões, correm perigo de doença; uma equipe não corre perigo de
"vitória", mas perigo de derrota, numa partida difícil. Então, por que
apenas perigo de vida? Não tenho, infelizmente, a resposta.
vitrô
Sempre condenei esta excrescência, preferind o vitral, mas estou sendo
obrigado a sucumbir a ela. Sim, porque vitrô, positivamente, não é o
mesmo que vitral. Daí por que não há outra saída, a não ser sair pelo vitrô
mesmo...
tigresa
Não convém usar tigresa como feminino de tigre, mas apenas como
sinônimo de mulher excepcionalmente linda, sedutora, atraente, assim
como Carolina Ferraz, por exemplo.
Quanto à fême a do tigre, continuemos a tratá-l a como bem merece: o
tigre fêmea. É mais ecológico.
quer...quer
As conjunçõe s correlativas alternativas não podem ter elementos diferentes.
Portanto, usamos sempre: quer...quer, ou...ou, seja...seja, etc.Volta
e meia, no entanto, encontramos frase s mais ou menos assim: Estamos
cansados de radicalismos, quer de esquerda "ou" de direita. *** Mulheres
e até homens se preocupam com a própria pele, seja no verão "ou" no
inverno.
Seja no verão, seja no inverno, a realidade é essa...
De boas intenções, o mund o realment e está cheio. Recentemente, um
abnegado se dispôs a comenta r os erros encontrados nos livros didáticos
do ensino fundamental. Sua primeir a frase, par a iniciar o comentário dos
erros, foi esta: Uma rápida folheada num livro, pretensamente didático,
destinado ao Ensino Fundamental, seja de Geografia "ou seja" de Ciências
demonstra, geralmente, um grande número de erros, de imperfeições,
de omissões e/ou de desatualizações na parte referente à Astronomia.
Ele continua : O mais grave dessa situação é que os livros são usados
tanto pelos alunos como pelos professores, sendo, muitas vezes, o
único livro de referência disponível. Assim, o professor aprende erraNÀ

NÀ NAO ERRE MAIS! 5 1 5
do, ensina errado, o aluno se torna professor e o ciclo da ignorância se
fecha e perpetua.
Não é que o autor tem razão!...
Esta saiu num jornal: Não se pode confiar nos homens públicos, seja
na Nova República "ou" na Velha.
Por fala r em Nova República e em Velha República, eis a declaração
de um famoso (e poderoso) senador baiano: Na Bahia, eu sou como o Senhor
do Bonfim: responsável por tudo o que acontece, seja de bom "ou"de
ruim.
Pois é...
Sobre o pode r desse político baiano, ouvi certa vez uma anedota digna
de ser reproduzida aqui. Uma vez no inferno, ele perturbava tanto
o diabo, que este um dia resolveu telefona r a São Pedro, par a oferecerlhe
aquela alma perturbadora . Depois de muita insistência do capeta, o
guardião do Céu resolveu aceitar a oferta. Passados três meses, o diabo
telefona ao Céu. Atende São Pedro. Pede o diabo: - Por favor, quero fala r
com Deus. Ao que São Pedro pergunta : - Qual deles?
Preciso de ajudantes , sejam mulheres, sejam homens.
Frase perfeita : sejam aí é verbo. Mas essa mesma fras e poderia estar
assim, com conjunção alternativa: Preciso de ajudantes, seja mulheres,
seja homens. = Preciso de ajudantes, ou mulheres, ou homens.
Outro exemplo: Estamos cansados de radicalismos, sejam (ou seja)
de esquerda, sejam (ou seja) de direita.
Portanto, perfeit a esta fras e da revista Veja, ed. 1.815, p. 57, sobre cuj a
correção nos enviaram consulta: Na hora do voto, o eleitorado americano
costuma rejeitar os candidatos extremistas - sejam de direita, sejam de
esquerda.
Poderia estar aí também, portanto, seja...seja.
"muito" embora
Combinação esdrúxula. Use-se apena s embora, já que esta palavra,
no portuguê s contemporâneo, só pode ser conjunçã o ou palavr a denota -
t.iva, mas nunca advérbio, como já o fora antanho.
Numa revista: Os gastos dos técnicos com viagens, por exemplo, subiram
40% em três anos, "muito" embora as crises financeiras tenham
sido raras no período.
Pergunt a de uma repórter a um galã do cinema: Há muitos anos que é
considerado um dos símbolos sexuais masculinos de Hollywood. "Muito"
embora esteja agora noivo de Jennifer Lopez, foi assediado por muitas
mulheres quando era solteiro?
Apesar de ser uma praga na mídia brasileira tal combinação, é no
|urnalismo esportivo que ela se fortalece. Veja trecho de um jornalist a
«•nportivo: Scolari será o primeiro a desejar saber das respostas a estas
NÀ NAO ERRE MAIS! 1 1 5
dúvidas, "muito"embora, cá para mim, experiente e seguro como é, Scolari
já deva ter, lá no íntimo, algumas convicções fortes que tanto poderá
querer provar abertamente, logo de início, como poderá testar, mais diplomaticamente,
ao longo do jogo.
suor
Pronuncia-se suor. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, no
entanto, certa vez num discurso quis parodiar Churchill. Mas fê-lo tão
mal, que seria melhor que se calasse. Numa daquelas crises por que passou
o seu governo, ele disse que só tinha a oferecer ao povo brasileiro
"suôr" e lágrimas. E voltou a usar a famigerada expressão "brasileiras e
brasileiros", que, aliás, já houvera empregado dias atrás, noutro de seus
discursos.
Não sei quem foi que me disse certa vez que sociologia fazia mal
às pessoas, que mexia muito com a cabeça. Estou já quase me convencendo...

os "pataxó"
É outra asneira, difundida por um grande jornal paulista, que já se
tornando famoso por suas invencionices na língua, para depois colocá-las
todas em seu manual de redação. As vítimas, naturalmente, são os compradores
do manual que buscam, ansiosos conhecimentos de português.
A invenção acima, no entanto, quase ia pegando, não fosse o bombardeio
cerrado que se realizou contra ela. Estavam querendo que todos os
nomes de nações indígenas não variassem e tivessem (ainda) iniciais maiúsculas!
Aí, então, teríamos "os Guarani", "os Tupi", a Rua "dos Tamoio",
a Ladeira "dos Tabajara" e o poema de Gonçalves Dias, naturalmente, iria
virar "Os Timbira".
Ou seja, falaríamos língua de índio. Felizmente, percebeu-se a tempo
a asnice que alguns beócios estavam querendo consolidar.
Entro no trabalho às 8h ou "de 8h"?
Quem é consciente, responsável, entra no trabalho às 8h. Sempre às
8h.
No Ceará, todavia, as pessoas não entram no trabalho às 8h nem
saem às 18h. Elas entram"d e 8"e saem"de 18". Certa vez, encontrando
uma conhecida funcionári a de uma farmácia , em Fortaleza, pergunteilhe:
Já está indo para o trabalho? A resposta veio assim: Não, hoje só
entro "de 4".
E ela ainda ficou sem entender por que ri tanto...
"inhoque" com frango
É um prato indigesto. Há restaurantes que oferecem isso; convém
comer só o frango, deixando a massa...
1 1 8
NÀ NAO ERRE MAIS!
Prato saudável, que deve constar em cardápio de restaurantes confiáveis
(e limpos) é só o nhoque com frango.
Nhoque é um aportuguesamento do italiano gnocchi. Note: nem na
língua de origem existe o"i"inicial, que muitos donos de restaurante fazem
a gente engolir, quer queira, quer não.
Foi "criado" uma CPI
Alguns jornalistas não conseguem distinguir tempo composto de voz
passiva e, assim, acabam colocando os pés pelas mãos.
No tempo composto, o particípio não varia: tenho visto, temos visto,
havemos encontrado, havíamos jogado.
Na voz passiva, ao contrário, o particípio varia normalmente: ela foi
vista, elas estavam eleitas, elas foram encontradas, estávamos jogados.
Com os verbos ter e haver se formam os tempos compostos; com ser e
estar, principalmente, forma-se a voz passiva.
Veja mais exemplos em que há voz passiva: É vedada a publicação de
revistas pornográficas. *** Será adotada uma atitude cautelosa. *** Foi
adotada uma fórmula para solucionar o impasse. *** Foi feita uma avaliação
do estado do jogador.
Todas essas frases foram ouvidas de repórteres, porém, com o particípio
absolutamente invariável, numa demonstração inequívoca de desconhecimento
do assunto. Aliás, até aqui, nenhuma novidade.
Se os sujeitos vierem no plural, a voz passiva os acompanhará: São
vetadas as publicações de revistas pornográficas. *** Serão adotadas atitudes
cautelosas. *** Foram encontradas fórmulas para solucionar o impasse.
* * * Foramfeitas avaliações do estado do jogador.
Vejamos, agora, frases de repórteres ou de jornalistas, assim como
elas vieram ao mundo, tanto de penas quanto de bocas: Foram "atingidas"
pelo decreto um total de 11 áreas nos municípios catarinenses. ***
As entregas são feitas a domicílio, ou é "cobrado" R$10,00 pelo serviço.
*** Nesse caso, é "cobrado" uma mensalidade de R$20,00. *** Só é
"permitido" a retirada de três livros de cada vez. *** Brevemente será
"incluído"na biblioteca circulante da loja coleções de Machado de Assis,
Humberto de Campos, Aloísio de Azevedo, Guilherme de Almeida, etc.
antílope
É nome masculino e epiceno: o antílope macho, o antílope fêmea.
Certa feita, um repórter de televisão nos informou que o zoológico
da cidade havia ganho "uma antílope" (em referência ao antílope
fêmea). Disse mais: que "a antílope" parecia um bode.
E o cheiro ficou até hoje...
pagar "a" longo prazo
Não convém. Prefira pagar em longo prazo. É a preposição em que se
ii:.. i neste caso: em longo prazo, em curto prazo, em médio prazo.
NÀ NAO ERRE MAIS! 1 1 5
Para ter certeza disso, repare neste sugestivo diálogo entre um encanador
e um cliente necessitado: - Em que prazo você me faz o serviço?
- Faço o serviço em três dias.
Observe qual foi a preposição usada. Esse mesmo diálogo seria impraticável
(ou não é praticado) com a preposição "a". O encanador poderia
dizer que faria o serviço em tempo mais longo (em vinte dias, por
exemplo; seria, então, um serviço em médio prazo); poderia pedir ainda
muito mais tempo para executar o trabalho (em seis meses, por exemplo;
seria, então, um trabalho em longo prazo).
As expressões "a longo prazo"," a médio prazo" e "a curto prazo" receberam
clara influência da locução adverbial de modo o prazo; no entanto,
quando se faz um serviço "a longo prazo" não se tem idéia de circunstância
de modo, mas sim de tempo.
Há jornalistas que acertam, ao usarem a expressão: Governar e fazer
política assim é absolutamente inviável pelo menos no médio e longo
"prazo". Acertou no emprego da preposição, mas deslizou na concordância,
já que o substantivo deveria estar no plural: prazos.
Ou seja: de vez em quando eles acertam, mas dão sempre uma no
cravo e a outra bem na ferradura...
cor-de-rosa
Não varia: camisas cor-de-rosa, meias cor-de-rosa, etc. Se se usar
apenas rosa, também não haverá variação: lenços rosa, camisas rosa,
meias rosa, etc.
A excelente cantora Rosa Passos, na bonita Dunas, fala em orquídeas
"cor-de-rosas", o que empanou um pouco o brilho da sua excelente interpretação.

ao encontro de = de encontro a?
Não. São exatamente locuções antônimas. Ao encontro de indica
situação favorável, conformidade; de encontro a indica contrariedade,
oposição, choque. Assim, uma filha que aguarda a chegada da mãe de
uma longa viagem, num aeroporto, está com saudade e, logo que a vê,
vai ao encontro dela; um aumento de salários vem sempre ao encontro
do desejo dos trabalhadores. Já uma carreta que colide com um muro vai
de encontro a ele; uma redução de salários vem sempre de encontro ao
desejo dos trabalhadores.
O Acre teve uma governadora que declarou: O congresso constituinte
deve ir "de encontro aos " anseios por mudanças da população do país.
Disse o que não queria, o que não devia, o que não podia.
"industrializar" testemunhas
É algo um tanto ou quanto difícil. O que se costuma fazer - e não se
trata de prática muito aconselhável - é industriar testemunhas, ou seja,
1 1 8 NÃO ERRE MAIS!
instruí-las ou orientá-las par a não entrarem em contradição no momento
do depoimento.
É crime industriar testemunhas. Os bons advogados usam sempre
assim. Já os outros preferem "industrializar " as testemunhas.
mesada semanal = incoerência?
Não. A noção de mês na palavra mesada se perdeu completamente.
I lá uma figura de linguagem que justifica todos esses empregos, considerados,
à primeir a vista, como de incoerência: é a catacrese (v. Gramática
contemporânea Sacconi).
tsunâmi
Esta palavra , de origem asiática, é masculina : o tsunâmi, um tsunâmi.
Os apresentadore s de telejornais brasileiros, tão afeitos a provoca r
muitos tsunâmis na língua, usaram-n a como feminina . Parec e haver
um certo gostinho de presta r desserviço à língua por part e desses profissionais.

Quanto ao acento, deve-se ao aportuguesamento, que fizemos por
nossa própri a conta. A Academia Brasileira de Letras ainda não se dignou
fazê-lo; daí por que certos dicionários ainda trazem tsunâmi.
festejar
Todo verbo terminado em -ejar (exceto invejar) mantém fechada a
vogai tônica, durant e a conjugação: festejo, festeja; festeje, festejem, etc.
K assim também com bocejar, calejar, despejar, farejar, gaguejar, gotejar,
latejar, pelejar, pestanejar, planejar, praguejar, rastejar, relampejar, velejar,
etc.
Um jornalist a esportivo, certa vez, preocupado com a não-convoca -
ção de Romário para a seleção brasileira de futebol de 2002, disse pela
televisão: Romário é um jogador que "faréja"o gol.
De outra feita, um jornalist a da TV Cultura (atente bem: TV Cultura)
disse, num programa noturno de entrevista, na ânsia de justifica r a apresentação
de certos programa s do mundo cão, que a televisão "despéja" o
programa que a população quer.
Há, no entanto, quem sempre acaba vendo e ouvindo o que não
<|uer.
idoneidade / espontaneidade
Apesar de serem estas as palavras corretas, o povo gosta muito de
i don iedade" e " espontaniedade" .
Repare ainda nestas palavras, com terminação semelhante: contemporuneidade,
homogeneidade, heterogeneidade, instantane idade, simulluneidade.

NÃO ERRE MAIS! 12 3
E se '"houverem" muitas dúvidas?
Se houver muitas dúvidas, vamos dirimi-las todas. Causa-me algum
mal-estar saber que no século XXI ainda haja pessoas que não aprenderam
a usar corretamente o verbo haver. Na televisão, a cada passo, aparecem
pessoas que exercem cargos e funções importantes, que soltam o
malsinado "haviam" e o malcheiroso "houveram". Não impõem respeito.
Assim como o verbo fazer, o verbo haver não se usa no plural, quando
sinônimo de existir, acontecer, realizar-se e fazer (tempo): Havia animais
na pista. (Jamais: "Haviam", porque haver, aí, eqüivale a existir.) *** Já
houve duas guerras mundiais. Haverá outras? (Jamais: "Houveram", porque
haver, aí, eqüivale a acontecer.) *** Quantas reuniões haverá hoje
aqui? (Jamais: "haverão", porque haver, aí, eqüivale a realizar-se.) ***
Não a vejo há séculos! (Jamais "hão", naturalmente, porque, aí, haver
eqüivale afazer.) *** Espero que haja ingressos à venda. (= existam) ***
Ninguém queria que houvesse greves. (= acontecessem) * * * Pode haver
mais guerras mundiais. *** Costuma haver reuniões todas as sextas-feiras.
*** Está havendo progressos nas negociações. *** Vai haver greves.
Note que o verbo auxiliar também não varia. Eis, porém, como diz
a reitora de uma importante universidade brasileira: As propostas são
boas, são proposições abertas para a discussão e "estão"havendo debates.
Mas, às vezes, a gente toma sustos, como os dois projetos que foram enviados
ao Congresso [de reservar 50% das vagas nas universidades federais
a alunos da rede pública e ocupar vagas no ensino superior privado
em troca de isenção fiscal]. A gente não participou da elaboração disso.
Já sobre a reforma universitária, o MEC nos ouviu em alguns pontos, mas
em nenhum momento sentamos "em"uma mesa para discutir as idéias - o
que deve acontecer em breve.
Repare que além do malsinado "estão", por está, a respeitável senhora
tem o mau hábito de sentar "em" mesa. O mais preocupante é saber
que foram justamente os professores da sua universidade que no MEC
avaliam as obras de língua portuguesa e os minidicionários, para adoção
nas nossas escolas públicas!
Permita-me, caro leitor, fazer aqui um comentário pertinente: há certos
educadores hoje que se consideram tão abalizados, tão conhecedores
dos problemas da Educação brasileira, que as crianças que seguem
seus métodos pedagógicos "ultramodernos"saem das nossas escolas sem
ao menos saberem ler com desenvoltura ou interpretarem um texto, fato
ignominioso, que certos organismos internacionais já detectaram e difundiram
ao mundo. Essa gente implantou uma linha filosófico-pedagógica
que nos levou a um ensino caótico, que aborta educandos incapazes
sequer de ler e escrever razoavelmente, mesmo depois de quatro anos
de freqüência escolar. Na 5.a
 ou na 6.a
 série, os alunos ainda lêem como
crianças da l.a
 série. O nível de analfabetismo diminui nas estatísticas
do governo, mas a escola brasileira, acatando as diretrizes desse tipo de
gente, está formando na verdade analfabetos funcionais. E os professo1
1 8 1 N ÃO ERRE MAIS!
ivs, que pouca ou nenhuma responsabilidade têm nesse resultado, continuam
ganhando miséria. O sistema educacional brasileiro, ao menos
c'ité agora, não percebeu que a virada começa justamente pelo professor,
promovendo reciclagens freqüentes, reconhecendo o seu trabalho,
fazendo-o viver condignamente. Nunca o ensino brasileiro esteve tão
pobre, tão miserável, tão assustador! A Academia Brasileira de Letras
entregou recentemente um documento ao ministro da Educação manifestando
sua insatisfação com o ensino de português nos níveis funda -
mental e médio. Segundo seu presidente, é preciso voltar a ensinar nas
escolas a norma culta, relegada a segundo plano no MEC, para cujos
educadores a norma culta é algo desprezível, algo de "somenas" importância.
No seu entender, o que vale mesmo é a fala popular, a verdadeira
língua. Ninguém põe em dúvida sua importância. Mas a norma culta
é a única que nos une como nação, é a única que une os diversos registros
de fala, é a única que nos garante atuar como bloco monolítico
em defesa da nossa cultura, da nossa soberania e de outros interesses
maiores do país. Em uma geração de educadores que faz a apologia do
"menas", da "mortandela", do "mendingo", da "questã", do "um pastéis"
e do "um chopes", no entanto, é difícil crer em responsabilidade.
"a" mapa
Qualquer aluno da primeira série sabe que mapa é substantivo masculino,
pois nenhum deles diz "a" mapa. Mas um minidicionário, distribuído
oficialmente nas escolas, aprovado pelo MEC, dá a palavra como
substantivo feminino: "a"mapa.
E não fica só por aí. Segundo esse mesmo dicionário, distribuído oficialmente
às nossas crianças, com aprovação do MEC, são palavras femininas:
brioche, rolimã, sistema, capacete, planeta, carma, ídolo, rocambole,
miasma, deságio, biriba, diapasão, sifão, guache, sorvedouro, clã e
ribamar.
Segundo o mesmo dicionário, são palavras masculinas: soja, manobra,
mecha, bólide, tribo, abusão e piracema.
Quem são as vítimas? Nossas crianças.
ignomínia
É esta a palavra que existe. Significa: 1. Estado de quem perdeu toda
a honra, por ter cometido uma ação infamante; grande desonra ou humilhação
pessoal: passar pela ignomínia de ter de renunciar por peculato.
'•'. Qualquer ação, palavra, dito, conduta ou papel vergonhoso, infame,
desonroso: não é ignomínia renunciar a um cargo; ignomínia é, sim, não
honrá-lo; cometer ou dizer ignomínias.
Quem usaria "ignomia" por ignomínia? Talvez uma criança. Talvez
um mau estudante. Talvez um iletrado. Talvez. Mas um dicionário regis11.11'
"ignomia"por ignomínia, é sem dúvida a mais forte das ignomínias.
I'uis um dicionário, aprovado com louvor pelo MEC, cometeu esse dislate.
i l'ol distribuído às nossas crianças.
NÃO ERRE MAIS! 12 3
Esse mesmo dicionário, aprovado com louvor pelo MEC, traz os verbetes
abade e abadia antes de abacate, como se num dicionário a ordem
alfabética não tivesse a mínima importância.
Esse mesmo dicionário, aprovado com louvor pelo MEC, define assim
clamar: gritar em voz alta. Como se se pudesse gritar em voz baixa...
E o que poderíamos dizer de um professor que ensinasse a seus alunos
que sultão não tem plural? Certamente, perderíamos a confiança em
seus ensinamentos. E o que poderíamos dizer de um dicionário que ensina
isso?
Quem são as vítimas? Sempre: nossas crianças.
Além desses absurdos, o dicionário traz tantos outros, que se fôssemos
tratar deles todos, iríamos aqui às mil páginas. Mas o MEC aprovar obras
desse tipo já não surpreende: afinal, os que cometem erros primários e gritantes
de português na elaboração de simples provas do Enem não podem
querer arvorar-se em autoridades, em juizes, embora posem como tais.
"Falta" dois minutos para as seis
O verbo faltar sempre tem sujeito (no caso, dois minutos). Se o sujeito
estiver no plural, o verbo não poderá estar no singular. Portanto: Faltam
dois minutos para as seis. * * * Faltavam quatro segundos para o término
do jogo. *** Quantos minutos faltam para as dez horas? *** Quando faltarem
cinco minutos para a uma, avise-me! * * * Faltam remédios para o
povo, faltam hospitais, falta tudo! * * * Não deviamfaltar nem dois segundos
para as 18h, quando chegamos. *** Estão faltando poucos minutos
para a meia-noite. *** Não podiamfaltarfrutas na casa dele, por causa
das crianças.
Note que, mesmo com verbo auxiliar, a regra não se altera.
O povo, contudo, diz: "Fazem" dois minutos que ela saiu, a par de:
"Houveram" muitas reclamações. Por outro lado, usa também: "Falta"
dois minutos para as seis.
Dá para entender?
"mordida" de mosquito
Não. Só morde o que tem dentes; como inseto nenhum ainda teve esse
privilégio, eles continuam picando.
Os que têm ferrãoferroam, dão ferroadas. Dolorosas à beça, mas sem
-aind a - "morderem".
Por falar em mosquito, cuidado com as picadas da dengue!
Certa vez, numa propaganda de repelente de insetos, lia-se bem em
cima do bumbum de uma linda e formosa garota: Em todo acampamento
sempre aparecem alguns sujeitinhos que vão lá só para "morder" os outros.
São os mosquitos, os borrachudos, os pernilongos e demais insetos
voadores. Essas criaturas escolhem as partes mais gordinhas e delicadas
das pessoas para se divertirem.
O visual e a situação exigiam picar no texto: muito mais pertinente...
1 1 8 NÃO ERRE MAIS!
Apresento "à" Vossa Excelência
Antes de pronome s de tratament o não se usa o acento da crase: Apresento
a Vossa Excelência meus cumprimentos.
Atenção: a abreviatura de Vossa Excelência é V. Ex.a
, e não"V. Excia.".
A cultura caminha passo "à" passo com o progresso?
Não: caminha passo a passo. Se outro for o passo, é torção na certa.
Locuções adverbiais com palavra s repetida s dispensam o acento,
mesmo que tais palavra s sejam femininas: passo a passo, minuto a minuto>,
segundo a segundo, ombro a ombro; cara a cara, frente a frente, face a
face, gota a gota, uma a uma, etc.
Refiro-me "à" exportações .
Também não. Não se usa o a com acento grave antes de palavra s no
plural, porque nesse caso não ocorre crase, basta usar a preposição a: Rejiro-me
a exportações. *** Existem animais que são imunes a picadas de
cobra.
O acento só terá sentido se no lugar do a aparecer as (neste caso, o
substantivo está determinado): Refiro-me às exportações. *** Existem
animais que são imunes às picadas de cobra.
Devo usar artigo antes de pronome possessivo?
Não, necessariamente. É facultativo o emprego do artigo antes de
pronomes possessivos. Por isso, usamos, indiferentemente : meu carro ou
o meu carro, minha cidade ou a minha cidade, seu nome ou o seu nome,
nosso quarto ou o nosso quarto.
Sendo assim, também facultativo é o uso do acento grave da crase
antes de pronome s possessivos femininos: estou a (ou à) sua disposição-,
ela ficou a (ou à) nossa espera por duas horas.
"à" respeito de
Está claro que antes de palavra masculina não se usa a com acento
grave, indicando a existência de crase. Porque é impossível haver crase
com palavra masculina.
Nos jornais, porém, se vê isto: É cedo para qualquer apreciação "à"
respeito do ministério de Luiz Inácio Lula da Silva.
Nunc a é tarde, porém, par a aprender...
Enquanto católico, não aceito o | aborto
Frase corretíssima, tanto na estrutur a quanto no teor. Enquanto
i'(|iiivale, nesse caso, a no papel de, na qualidade de, como.
Kis outros exemplos: Enquanto brasileiro, sinto vergonha de viver
num país onde campeia a violência, onde campeia a impunidade, onde
NÃO ERRE MAIS! 12 3
campeia a corrupção. * * * Enquanto rubro-negro, ele quer que os vascaínos
desapareçam da face da Terra, e estes desejam o mesmo aos rubro-
-negros. *** O presidente prestará depoimento tão-somente enquanto
testemunha. * * * Como agir enquanto professor, quando descubro que um
adolescente é usuário de maconha?
Eis, agora, um exemplo excelente, muito bom mesmo, retirado de um
editorial de jornal: A teoria na prática costuma ser outra, especialmente
na política. Enquanto oposição, o PT deitava falação contra as prorrogações
da CPMF. Agora que assumiu o poder, o Partido dos Trabalhadores
mudou de opinião: quer transformar em definitiva a contribuição provisória
que em nada melhorou a saúde pública no país.
Na prática, a teoria é quase igual...
Convém não confundir esse uso correto de enquanto, com este, incorreto,
que se substitui por quanto: "Enquanto"a mim, estou tranqüilo.
0 dinheiro sumiu
É assim que o povo diz. É assim que está ficando. No português castiço,
todavia, tudo o que desaparece, some-se. O pronome do verbo sumir-se
está sumindo na língua cotidiana, a exemplo do que já ocorre com secarse
e vencer-se. Por isso, há muita gente por aí que já canta: A fonte secou,
quero dizer que entre nós tudo acabou!
E a duplicata que vence amanhã? Bem... isso é só amanhã.
um dos que
Esta expressão leva o verbo obrigatoriamente ao plural, no português
contemporâneo: Sou um dos que mais trabalham aqui. *** Você é
um dos que mais reclamam, porém, um dos que menos ajudam. * * * Manuel
foi um dos que mais me incentivaram.
A mídia brasileira ainda não tomou conhecimento do assunto. Tanto
é que só usa o singular com tal expressão. No site do Terra: Depois de
1994, o Brasil viu-se invadido por montadoras do mundo inteiro. A francesa
Renault foi uma das que "chegou" e "conseguiu" se firmar.
Todo o mundo consegue se firmar no Brasil. Menos a imprensa brasileira.
É impressionante!
Veja, agora, esta pérola, em manchete: Cardeal brasileiro é um dos mais
"cotado"para suceder João Paulo II. Só mesmo dizendo: Meu Deus!!!
"guspir"
Não é coisa que se fale nem se escreva. Se cuspir já não é um gesto
recomendável, que se dirá, então, de alguém que"gospe"!
Em português existe apenas cuspir, cuspo, cuspida, admitindo-se
ainda a variante cuspe Fora daí, tudo é muita falta de educação.
Há dentistas que pedem a seus clientes, na cadeira de "tortura":
Pode "guspir"! Há quem resista...
1 1 8 1 NÃO ERRE MAIS!
a partir "da" meio-dia
E inacreditável, mas há profissional de televisão, tanto no esporte
i|uanto fora dele, que diz isso. Um famoso político declarou, recentemente,
logo após ser eleito: Amanhã, a partir "da" meio-dia eu darei uma
entrevista coletiva.
Pois é...
chuva de "granito"
A chuva ou a queda de granizo é menos devastadora.
Quando da posse do novo presidente, em 2003, havia previsão de
chuva justamente para o momento do evento. Aguardando por aquele
instante há mais de uma década, o presidente eleito declarou, então, às
vésperas do acontecimento: Amanhã eu subo a rampa, mesmo que seja
sob tempestade de granizo.
É assim que se diz...
"vez que"
Não existe esta locução em nossa língua, que se substitui por já que,
porque, uma vez que: Ele é o assassino, uma vez que confessou o crime.
Frase de um juiz da Justiça Federal de Brasília, colhida num site
de um grande jornal baiano: Os dois denunciados encontravam-se momentaneamente
sem foro especial por prerrogativa de função, "vez que"
renunciaram aos seus mandatos eletivos.
É assim que não se escreve...
"um" de fevereiro / "um" de março
Não existe nada disso. O primeiro dia do mês é sempre primeiro.
Quem é que viu alguém pregar "um" de abril em alguém? Quem já comemorou
o "um" de Maio? Qual foi o ano que teve início em "um" de janeiro?
No meu mundo, nenhum.
Não tem ninguém em casa
Há quem condene esta frase, em que o verbo ter está usado impesson!mente,
por haver. Na fala descontraída, do dia-a-dia, admite-se o seu
emprego. Por exemplo: à porta do banheiro, só se pergunta mesmo: Tem
yciite ai? (Repare: à porta do banheiro.)
Na linguagem formal, contudo, convém observar o rigor gramatical,
iiltida que tenha havido famoso poeta que usou ter por haver, por licença
poética.
NÃO ERRE MAIS! 12 3
Um jornalista, por exemplo, deve usar sempre a norma culta, em sinal
de respeito não só ao leitor, mas à própria língua, seu instrumento de
trabalho. Ocorre que nem sempre eles conhecem a norma culta. Então,
escrevem: "Tem" carioca achando que mora em Jerusalém ou Bagdá, tamanha
a onda de violência no Rio de Janeiro.
É do mesmo jornalista: Vai sair faísca quando a direção nacional do
PT reunir a bancada do partido na Câmara dos Deputados. Já "tem"gente
avisando que não poderá comparecer.
É do mesmo jornalista: Nem bem Lula começou e já "tem" gente falando
em reeleição.
Ainda do mesmo jornalista: Como "tem" gente que finge não ver a
realidade!
No outro dia, é o mesmo jornalista quem nos faz uma revelação fantástica,
inédita, em absoluta primeira mão: "Tem" cada coisa tão engraçada
na política!!!
Há cada coisa tão engraçada no jornalismo brasileiro!!!
Um presidente da República (é outro exemplo) deve também sempre
fazer uso da norma culta, a não ser em casos especialíssimos. Em seus
discursos, a norma culta é de rigor tanto quanto nos periódicos. Em sinal
de respeito não só aos valores nacionais, como também aos cidadãos e ao
cargo.
Recentemente, o presidente Lula declarou: "Tem" jogador que pega
a bola, não olha pro lado, dá uma bicuda e não marca o gol. "Tem" outro
que olha pro lado, vê um companheiro livre, passa a bola e marca o gol.
Nós não temos tempo para dar bicuda.
E já não deu?!
É também do mesmo presidente: Não "tem"chuva, não "tem"geada,
não "tem" terremoto, não "tem" cara feia, não "tem" congresso nem poder
judiciário. Só Deus será capaz de impedir que a gente faça este país ocupar
seu lugar de destaque.
É também do mesmo presidente (em visita a Portugal): Se "tem"uma
coisa que admiro nos Estados Unidos é que primeiro eles pensam neles,
em segundo neles e em terceiro neles também. Se sobrar tempo, pensam
um pouco neles outra vez.
A ver-se como fala, o lugar de destaque reservado ao Brasil é
ótimo!...
Recentement e ainda, o governo federa l fez propagand a par a nos
informa r isto: No Brasil não "tem" maremotos, vulcões, terremotos,
furacões.
Certo. E precisa?
1 1 8 NÃO ERRE MAIS!
pirâmide de Quéops
Perfeito. Este nome é paroxítono, assim como são paroxítonos todos
os nomes terminados em ps: bíceps, fórceps, etc.
Quéops (2590-2567 a.C.) foi um dos mais notáveis faraós. Repare:
muitos anos antes de Cristo. Construiu a maior de todas as pirâmides, em
(Jizé, encontrada em 1954. Note mais uma vez: o rei egípcio viveu há mais
de 4.500 anos.
Pois uma famos a emissora de televisão, certa vez, apresentou um
programa sobre o referido faraó, e o apresentador só dizia "Queóps". Era
"Queóps"pr a cá, "Queóps" pra lá. O programa todo. Uma tortura ! Principalmente
par a os estudante s da quinta série do ensino médio. Que já
ouviram fala r em Quéops várias vezes.
recorde
Pronuncia-s e exatament e como se escreve: recorde. Muita gente, no
entanto, tem batido o "récorde" por aí, imitando a prosódia inglesa. Mas
(piem é que diz Rede"Récord" ? E veja que, neste caso, o vocábulo é rigorosamente
inglês: Record. Nem por isso existe a Rede"Récord" .
Há uma famos a rede de televisão que só bate o "récorde". Bem, quem
já divulgou a pronúncia"Queóps" e quem insiste em divulgar a pronúnci a
de índio "Roráima" merece toda a nossa compreensão.
Nada contra os índios...
os requebros de uma garota
Como se pronunci a corretament e a palavr a requebro? Com e tônico
fechado: requebro. Também assim no plural: requêbros.
Certa vez um repórter de uma famos a rede de televisão saiu-se com
esta: Os "requêbros" de Michael Jackson chamam a atenção de todo o
inundo.
Para quem, também, só diz "Roráima" (pronúncia de índio) e um dia
j.í disse "Queóps", a fras e está perfeita!
"nenhuma" cócegas
Nenhum varia normalmente . Não há nenhuns motivos para que não
varie: Não sinto nenhumas cócegas. *** Vocês não são nenhuns coitadinhos,
nenhuns joões-ninguém. *** Não se perceberam nela nenhuns sinais
de remorso.
Nenhuns e nenhumas, contudo, só se usam antes do substantivo, nun -
i a depois dele. As forma s do singular é que se empregam em qualquer
l M isiçao. Exemplos: Estou sem nenhuns trocados. (E não: Estou sem tro-
• mios nenhuns".) *** Ninguém toma nenhumas providências. (E não:
Ninguém toma providências "nenhumas".) *** Não vi nenhuns óculos
mi mesa. (E não: Não vi óculos "nenhum"na mesa.)
i Vi l,a vez declarou com certo ar de autoridade um empresário na -
NÃO ERRE MAIS! 12 3
cional: O país está sem condições "nenhuma" de congelar novamente os
preços.
U ma grand e e tradiciona l loj a de departamento s anuncio u certa
vez pel a televisão a vend a de todo o seu estoque , em três vezes, sem
juros "nenhum".
Quem acreditou?
pedir vista de um processo
Frase perfeita . Vista, aqui, significa ato pelo qual o interessado num
processo recebe os autos para tomar conhecimento de tudo o que nele
contém e se pronunciar como lhe aprouver. Não há nenhuma necessidade
do uso de "vistas" neste caso.
cair "de" sábado
Nad a cai "de" algum dia da semana, mas em um dia da semana. Portanto:
Neste ano, meu aniversário vai cair num sábado. *** O Natal, este
ano, vai cair num domingo.
apêndice supurado
É este o apêndice que causa sérios problema s de saúde e exige cirurgia
imediata. Já o popula r apêndice "estuporado " que muito se ouve,
principalment e no interior do país, causa problema s na língua...
Certa vez nos perguntaram: O senhor já foi operado da "pênis" ou da
"prosta"?
Que resposta poderíamos ter dado?
Lula vai dar um jeito "nesse" país
O pronome demonstrativo correto par a indicar tudo aquilo que nos
abrange fisicamente é este, e não "esse". Repar e nestes exemplos: Este
país passa pelo momento mais crítico de toda a sua história. *** Lula vai
dar um jeito neste país. * * * Este planeta é azul.
Fala o presidente Lula: O Brasil estava quebrado, e alguém vai ter de
salvar "esse"país. Nossa responsabilidade é infinitamente maior que a de
qualquer outro presidente na história "desse"país.
A responsabilidade é mesmo enorme!...
passar de ano
Em portuguê s legítimo não se usa a preposição de nesta expressão,
nem em repetir de ano. Esse "de" é italiano. Mas que estudant e brasileiro
não passa de ano ou não repete de ano?
Não temos nada contra os estrangeirismos. Quem tiver que, então,
nunc a mais use bar (use botequim); que nunc a mais use bidê (use semicúpio);
que nunc a mais use detalhe (use pormenor, minúcia , ou, então, minudência);
que nunc a mais use vitrina (use escaparate); que nunc a mais
1 1 8 NÃO ERRE MAIS!
•TI rocha (que é galicismo); que nunc a mais use soldado (que é italianis1110),
que nunc a mais tenha saldo bancário (porque saldo é um italianisino),
etc. Não resta dúvida de que, assim, a vida ficará bem mais difícil...
Jogos "Panamericanos "
Não existem estes jogos. O prefixopan- exige hífen antes de palavra s
iniciadas por h e vogai. Assim, devemos grafar: pan-americano, pan-africanismo,
pan-arabismo, pan-helênico, etc.
Antigamente, havia uma rádio em São Paulo chamada " Panamerica -
nu". Como a audiência andava baixa, talvez por causa da gafe, mudaram
0 nome da emissora par a Jovem Pan.
Recentemente, no site de um jorna l se leu: O pacto de defesa "panárabe"obriga
todos os estados árabes a ajudar qualquer outro membro do
grupo que seja vítima de uma agressão.
cheque pré-datado e cheque pós-datado
Há grande diferença entre um e outro. O cheque pré-datado é aquele
<|ue se preenche antes do dia em que se quer vê-lo descontado; o cheque
pós-datado é o que se preenche depois do dia em que deveria ter sido
descontado.
preenchimento de formulário pessoal
Quando se preenche formulário de dados pessoais, no item nacionalidade,
use (se for homem) brasileiro, ou brasileira (se for mulher).
Muitos homens preenchem com "brasileira" , atendo-se ao gênero da
palavra nacionalidade. Não. Se assim fosse, no item estado civil, as mulheres
teriam, então, de escrever "casado".
Se no formulário, porém, além da nacionalidade e do estado civil,
exigissem que se indicasse o estado de saúde ou o estado mental, o homem
deveria preencher com bom (ou com precário); se fosse mulher, a
mesma coisa. Nesse caso, a concordância tem de ser feita com a palavra
constante do item, porque, ao perguntarmo s a qualque r pessoa (homem,
mulher, velho ou criança) Como vai o seu estado de saúde?, a resposta
será sempre: Bom (ou Precário).
Por outro lado, quando perguntamos a uma senhorita: Qual é o seu
estado civil?, ouvimos a resposta sempre desta forma: solteira.
Se a resposta vier "solteiro", olhe bem fixo par a ela!...
país não comunista
Perfeito. Não há hífen entre as duas últimas palavras, como usam
muitos. Por quê? Porque se trat a de um adjetivo. Só os substantivos é que
1 ra/.em o hífen. Repare na diferença: produto não perecível (adjetivo), o
não-pagamento da dívida (substantivo); amor não correspondido (adjetivo),
a não-variação de uma palavra (substantivo).
NÃO ERRE MAIS! 12 3
Há gigantes que adormecem e "que" não acordam.
Este que (pronome relativo) é maroto. Por que maroto? Porque não
exerce nenhuma função na frase. Se o retirarmos, a frase ficará perfeita.
O que coordenado só é correto quando exerce a função de conjunção
integrante. Assim, por exemplo: Eu disse que ela era francesa e que gostava
de namorar. * * * Ela afirmou que não gosta do rapaz e que não quer
mais vê-lo. *** Você acha que é esperto e que sempre vai levar vantagem
em tudo?
Mas não assim: Há coisas que a gente vê e "que" já não aceita. ***
Existem rios que são poluídos e "que"por isso não têm peixes.
Retirado o "que" maroto e intruso, faz-se a luz.
ídolo
É sempre nome masculino, ainda que se refira a mulher: Meu ídolo
é Carolina Ferraz. * * * Paula era o ídolo de boa parte dos aficionados ao
basquete.
Há quem, por mera brincadeira , usa "ídola". Mas é só por brinca -
deira.
gênio
É outro nome sempre masculino: Onde está aquele gênio de sua irmã,
que deixou a televisão ligada a noite inteira? * * * Essa cientista, um gênio,
recebeu o Prêmio Nobel de Física. *** Susana era o gênio da classe.
Muito bem. Está claro que não existe "gênia", forma que só se admite
mesmo em programas humorísticos de mau-gosto da televisão e em brincadeirinhas
do recesso do lar. Fora daí, jamais.
Eis, porém, que surge uma apresentadora de televisão que, do alto do
seu l,85m, declara, até que meio aborrecida: Estão dizendo que faço dos
meus erros de português um marketing. Que tipo de "gênia"sou eu, para
falar errado e achar que é marketing?
De fato, de nenhum tipo...
indivíduo
É, igualmente, outro nome sempre masculino: Camila, esse indivíduo
maravilhoso, fará parte do elenco da novela das 7h. *** Carolina é o tipo
de indivíduo que costuma aparecer na Terra só de cem em cem anos.
Há quem, por brincadeira, também use "indivídua". É preciso, no
entanto, nunca esquecer que brincadeira (de qualquer tipo) sempre tem
hora.
traste
É também sempre nome masculino: Viridiana é um traste. * * * Essa
menina virou um traste.
1 1 8 1 NÃO ERRE MAIS!
Minha vizinha é mesmo "uma sujeitinha" à-toa.
Sujeitinho à-toa realment e existe, em todos os lugares; já"sujeitinha "
não existe em lugar nenhum. Mulher, homem, criança, é sempre sujeito
(nome sobrecomum), a exemplo de ídolo, gênio, indivíduo, traste, etc.
Por isso é que suas amigas são - todas elas - uns sujeitinhos falsos.
mais pequeno
É expressão corretíssima. Pode usar sem receio. O que não se deve é
empregar "mais grande" (legítima no espanhol).
É expressã o legítima também no português, ma s soment e quand o
comparamo s qualidade s de um mesmo ser. Assim, por exemplo : Sua
filha é mais grande que pequena. *** Esse rapaz é mais grande que
inteligente.
14 de julho
É uma data histórica, não só para a França, mas para o mundo. E,
ngora, também par a determinada rede de televisão.
Pois bem. O numera i 14, que se escreve por extenso quatorze ou calorze,
lê-se, todavia, de uma só forma: catorze. Nunca: "kuatorze" .
A apresentador a de esportes dessa rede de televisão nos comunica,
fodavia, entre sorridente e eufórica: No dia "kuatorze" de julho, o Globo
Ksporte faz 25 anos.
A ocasião não seria de parabéns ?
Clandestinos são pegos nos Estados Unidos
O verbo pegar não é abundante , mas já se está tornando abundante ,
com o uso tanto de pegado (com ter e haver) quanto de pego (com ser e
estar). Assim, podemos usar, sem problemas: Tenho pegado muito resfriailo
ultimamente. *** O ladrão foi pego em flagrante.
Daí a concluir, no entanto, que também é correto usar "chego", "trago"
e "falo" vai boa distância. Por enquanto, só use: chegado, trazido e
falado.
bóia-fria
Todo o mundo sabe o que é bóia-fria: pessoa que trabalha no meio
rural, sem vínculo empregatício, geralmente no corte de cana-de-açúcar.
Pouca gente sabe que o plura l é bóias-frias (ambos os elementos varium,
porque se trata de um substantivo e de um adjetivo).
Notíci a num site: Acidente com ônibus de "bóia-frias": 12 feridos.
Ihn acidente envolvendo um ônibus de "bóia-frias" e um Corsa no final da
tarde, "deste sábado" deixou 12 pessoas feridas.
O jornalista errou duas vezes no plural e ainda usou"dest e sábado" ,
• mi mvt. de ontem (a notícia foi divulgada no domingo). Ou seja: saiu ferido
'in estar no ônibus...
NÃO ERRE MAIS! 12 3
a norte / a sul / a íeste / a oeste
Todo o mundo usa ao norte e ao sul, mas com os outros dois pontos
cardeais ninguém vacila em grafa r apenas: a leste, a oeste. Como coerência
é importante, sugiro que se use apenas a norte, a sul, a leste e a oeste.
Ou apenas: ao norte, ao sul, ao leste e ao oeste.
O mal está na mistura das coisas. Mas o que se vê, justamente, é isto:
A Venezuela fica ao norte do Brasil; o Uruguai, ao sul; o Peru a oeste; o
oceano Atlântico a leste.
Observe como a revista Veja é perfeita, neste seu texto: Uma imagem
captada em agosto do ano passado pelo telescópio espacial Hubble deixou
os cientistas intrigados. Prometeu, uma das cerca de vinte luas de
Saturno, estava fora do lugar. Alguma força descomunal havia empurrado
o satélite, de 140km de diâmetro, para uma posição 20 graus além de
onde deveria estar. E como se, vista da Terra, a Lua num determinado dia
começasse a nascer um pouco mais ao norte e não ao leste, como tem feito
há bilhões de anos.
Milagres, volta e meia, acontecem...
o Sul do Brasil
Os nomes dos pontos cardeais e colaterais, quando designam regiões,
grafam-se com inicial maiúscula. Portanto: Há previsão de geada para o
Sul do Brasil. * * * Conheci todo o Sudeste da Itália. * * * O narrador esportivo
disse que conhecia o Norte do Brasil, mas só até o Maranhão...
Há certa tendência de as pessoas confundirem a Região Norte com
a Região Nordeste. Dizem, então, que os brasileiros precisam conhecer o
Norte do Brasil e citam Natal, Fortaleza e São Luís, capitais de Estados
do Nordeste.
Recentemente, um narrador de esportes, notório por suas asneiras
(embora os colegas o consideram o melhor do Brasil, o que não é nenhuma
vantagem), afirmou: Vocês precisam conhecer o "Norte"do Brasil:
Natal e Fortaleza são uma maravilha!
E ele mora em Porto de Galinhas, em Pernambuco, Nordest e do
Brasil!
aleitamento materno
É bobagem. Aleitamento é ato ou efeito de aleitar, ou seja, de dar de
mamar a, usando a mamadeira; amamentação é que é ato ou efeito de dar
de mamar a, usando as mamas. Assim, uma veterinária pode aleitar um
filhote de golfinho, de chimpanzé, etc., mas não será imprudente a ponto
de amamentá-los, com certeza.
Os médicos deveriam sempre aconselhar a amamentação, e não "o
aleitamento materno".
Recentemente, uma de nossas revistas semanais de informação deu
esta notícia: Recentes pesquisas comprovam que, quanto maior o tempo
de "aleitamento materno", maior a inteligência do indivíduo na vida
N NÃO ERRE MAIS! 1 59
adulta. A composição do leite materno é vital para o desenvolvimento
neurológico da criança.
Teria o jornalist a sido amamentado?...
dar de mamar à filhinha "nas" mamas
É algo que se pode evitar. A relação de proximidade é representada ,
em portuguê s castiço, pela preposição a, e não pela preposição "em". Note
que falamos ao telefone (bem mais confortável que falar "no" telefone),
que vivemos ao volante (bem melhor que viver "no" volante).
Convém ressaltar, todavia, que o brasileiro gosta muito da preposição
em. Adora! O portuguê s nem tanto.
crianças de "0" a dois anos de idade
É uma das grandes tolices dos adultos. Existirá a criança de 0 ano?
Está claro que não. Como, então, podem ser vacinada s crianças de"0" a 6
anos, conforme dizem todos os dias os repórteres de televisão? Não seria
mais coerente, mais conseqüente, mais aceitável dizer que todas as crianças
de até dois anos foram vacinadas?
Mais cruel ainda é aquele que vê no zero uma palavr a indicativa de
plural. Escreveu um jornalista : São histórias sem nexo. Para crianças e
adultos "dos 0" aos 80 anos.
No site da Abrelivros, entidade dos principais editores do Brasil:
Existem 22 milhões crianças de "0"a 6 anos no Brasil. Se a questão fosse
quantitativa, a educação infantil deveria ser uma das prioridades das políticas
públicas para o setor. Mas não é isso que acontece desde a criação
do Fundef em 1996, quando os recursos públicos da área foram concentrados
no ensino fundamental, relegando ao segundo plano a educação
das crianças. Segundo dados do IBGE, na faixa etária de "0" a 3 anos, a
taxa de freqüência à escola ou à creche é de apenas 10,6%.
Criança de 0 ano já nasceu?!
vir "còm" o avião
Quem vem"com" o avião, normalmente , é o Super-Homem...
Só homens voadores podem vir com um avião, isto é, na companhi a
dele. Seres humanos menos pretensiosos preferem ir, vir, chegar, voltar no
avião, pelo avião. Ou ir, vir, chegar, voltar no (ou pelo) trem das onze.
Certa época ficou marcada por uma propagand a assim: Voe "com " a
TAP Os portugueses voavam mesmo é pela TAP, empresa que até mudou
de nome, mas não se sabe dizer se foi pelo fracasso do convite...
"mulher bispo" / "a soldado"
Qualque r aluno da quint a série sabe que o feminin o de bispo é
episcopisa.
N um important e jorna l paulista : Bárbara, a primeira "mulher
bispo".
N NÃO ERRE MAIS! 1 133
Ora,"mulher bispo"!... Resta saber, agora, quando é que o jornal vai
nos apresentar a "mulher frade " e a "mulher padre" , como, aliás, já deu
em manchete certo telejornal. Esse mesmo telejornal, em vez de referirse
à militar como a soldada, saiu-se com mais uma pérola recentemente,
falando em "mulher soldado" e em "a soldado".
Repare, agora, nesta notícia de jornal: A pretensão do novo governo
de consolidar a liderança do Brasil na América do Sul não causou
estranheza em Washington. Ao contrário, foi bem recebida. Mas levou a
atual "embaixador" americana em Brasília, Donna Hrinak, a advertir,
em junho passado, que liderar significa também tornar-se alvo de críticas
dentro e fora do País.
"A embaixador " é mesmo coisa que só se tem na cabeça de jorna -
lista.
"inobstante"
É tolice. Alguns advogados criaram a maravilha. Para esses, certas
"criações" lhes conferem autoridade, sapiência, excentricidade. Repare
em frases comumente vistas em suas peças: O locatário foi insultado,
"inobstante"haver pago pontualmente seu aluguer. *** O réu tinha bons
antecedentes, "inobstante"o crime que cometera.
Advogados sérios, competentes, dignos de confiança, usam o que a
língua lhes oferece: não obstante. Os juizes também agradecem.
notícia "vinculada" pela imprensa
Nova tolice. Notícia só pode ser veiculada pela imprensa.
Um famoso treinador de futebol, porém, disse certa vez que os repórteres
não podiam "vincular"tantas mentiras.
Soou-nos como autêntica novidade: quer dizer, então, que além de
escreverem errado, eles também "vinculam" mentiras?!
Será que em Luxemburgo também é assim?...
"Que" horas começa o jogo?
Quem sabe das coisas pergunta diferente: A que horas começa o jogo?
O jogo começa às 21h. *** A que horas chegaremos a Salvador? Chegaremos
a Salvador à meia-noite. * * * A que horas você costuma se levantar?
Costumo me levantar às 6h.
responde r "o " questionário
Não. Responde-se a questionário, a perguntas, a processo, a inquérito,
a cartas, a tudo o que merece resposta.
No sentido de retrucar malcriadamente é que se usa apenas responder:
responder os pais, os professores, os mais velhos, etc.
Manchete de jornal: Israel vai responder ataques de palestinos.
N NÃO ERRE MAIS! 1 133
A Secretaria de Estado da Educação de São Paulo (observe bem: da
Kducação) promoveu, certa feita, um concurso público par a provimento
de cargo de escriturário. Na primeira folha da prova (de Português, atente
bem!), no item Instruções, lia-se: Você deve procurar, na folha de respostas,
o número da questão "que"você está respondendo. Logo a seguir,
vinha: Responda "todas "as questões.
Alguém que fosse realmente competente - e responsável - de um
governo também competente e responsável, escreveria: Você deve procurar,
na folha de respostas, o número da questão a que está respondendo.
(Repetir o "você"pra quê?) Responda a todas as questões!
A última advertência repetia o erro grotesco: Você terá 3 horas para
responder "todas"as questões.
Se nem mesmo eles sabem coisa nenhuma , com que autoridade exigem
alguma coisa de outrem? Que educação é essa?
lá de cima
Muitos usam indevidament e a preposição "de" antes das expressões
lá de cima, lá de baixo, lá do alto, lá de casa, lá de dentro, lá de fora; aqui
de cima, aqui de baixo, aqui do alto, aqui de casa, aqui de dentro, aqui de
fora, etc.
Repare nestes exemplos: A cusparada veio lá do alto. (E não: "de"
lá do alto.) *** Os papéis picados vinham lá de cima. (E não: "de" lá de
cima.) *** As crianças já vieram lá de baixo? (E não: "de"lá de baixo.)
Antes do trágico acidente com a nave espacial Colúmbia, em fevereiro
de 2003, uma astronaut a enviou aos amigos do planeta um e-mail,
que os jornalistas da Folha de S. Paulo traduziram assim: Olá, "daqui"de
cima do nosso magnífico planeta Terra, a perspectiva é verdadeiramente
inspiradora.
Lá de cima, de fato, a perspectiva podia ser de fato inspiradora, mas...
e aqui de baixo?
Certa feita, uma grande editora de revistas afixou cartazes às bancas
de jornal, com estes dizeres, ao lado da foto de uma linda garota: Beleza
vem "daqui"de dentro.
Sim, e "de" lá de fora vem o quê?
Você é "daqui" de São Paulo?
Não, não se pergunt a assim. A preposição "de" combinada com aqui
ou com aí, em frase s como esta, também é dispensável: Você é aqui de São
Paulo? Sim, sou aqui de São Paulo. *** Vocês gostaram aqui de casa?
Sim, todos gostamos aí de sua casa. * * * A que horas as crianças saíram
aí da sua casa? As crianças saíram aqui de casa às 8h.
Uma caneta como "esta daqui" custa caro
Também não existe "esta daqui "nem "essa daí"e suas variações, embora
sejam expressões comuns na boca do povo. Também aqui a preposiN
NÃO ERRE MAIS! 1 135
ção de está de mais. Portanto: Uma caneta como esta aqui custa caro. ***
Um país como este aqui não pode passar por tantas crises. * * * Garotas
tão lindas e ousadas quanto essas aí do Rio de Janeiro não há.
em via de
É esta a locução prepositiva correta, equivalente de na iminência de,
prestes a: Ela está em via de casar. *** O bicho-preguiça está em via de
extinção. *** Nossas minas estão exauridas ou em via de esgotamento.
*** Países em via de desenvolvimento.
Nossos jornais só usam, no entanto, "em vias de", talvez calcados
num dicionário (aquele) que abona a locução aqui impugnada.
Título de um deles: A Internet está "em vias de"se tornar adulta.
Possuo poucos bens, "qual seja" um carro e um terreno.
Qual deve concordar com o antecedente (no caso, bens), e o verbo
deve concordar normalmente com o seu sujeito (um carro e um terreno).
Eis outros exemplos: Possuo uma propriedade, qual seja um apartamento.
* * * Ela possui dois carros, quais sejam um importado e uma carroça.
* * * Nós temos alguns bens, quais sejam dois apartamentos e uma
moto.
No lugar de qual seja podemos usar também como seja.
Quando "munto" a cavalo, eu "sôo" feito uma bica!
Frase dolorosa! Primeiro, porque o verbo montar tem a forma monto
no presente do indicativo (eu); segundo, o verbo suar tem a forma suo no
mesmo tempo, modo, número e pessoa.
Já ouvi muita gente dizer, ainda: Ela "soa" como uma bica!
É sua vez, caro leitor, de comentar...
neologismos
Nossa língua está, nos tempos atuais, sujeita a neologismos de todos
os tipos e matizes, assim como a Terra anda sujeita a todos os tipos de asteróides.
É um bombardeio incessante. Alguns, temos de assimilar; outros
explodem na língua e causam crateras imensas!
Eis alguns dentre os que já se vão firmando: acessar, acidentalizar,
aidético (mas o melhor é sidético), alavancar, biodiversidade, biônico, celetista,
clonagem, dedetizar, deletar, desassonalizar, disponibilizar, ecologia,
elencar, estiletar, fax, flexibilização, formatar, futessal, futevôlei,
ideologizar, impactar, importantizar, informatizar, insumo, megassena,
narcotráfico, oportunizar, parametrizar, pedagiar, performar, pivete, precificar,
priorizar, relativizar, resetar, roteirizar, tablitar, tematizar, unitar,
urgenciar e xérox.
Aniversariar, dedetizar e parabenizar também são neologismos, antes
muito criticados pelos puristas; hoje quem não aniversarial Quem não
dedetiza a casa, para afugenta r a dengue e os pernilongos? Quem não paN
NÃO ERRE MAIS! 1 135
rabeniza o governo pelo excelente trabalho que vem fazendo na Educa -
ção, na Saúde, na Seguranç a Pública e sobretudo na Receita Federal?...
Erros se fazem ou se cometem?
Erros mais se cometem. Os jornalistas, por exemplo, da melhor revista
do Brasil, a Veja, estão corrigindo-se a cada edição e já não cometem
tantos erros primários quanto antigamente . Já não se vê na revista
"duas"milhões de pessoas nem "os"um milhão de adeptos; já não se lê na
revista "a diabete"; já não se encontr a na revista "uma"grama de cocaína
nem dar "a" luz "a" bebê, nem mesmo "no"Marrocos, entre outros de seus
antigos tradicionais deslizes.
Não obstante, a revista continua trazendo "dona-de-casa" , "todo
mundo" , os "sem-terra" e insiste em não pluraliza r os nomes próprios (os
"Bórgia", p. ex.).
Um dia ela chegará lá...
vencer "em" primeiro turno / votação "em" primeiro turno
Não. Os numerais ordinais só não vêm antecedidos de artigo nas locuções
adverbiais e nas definições. Daí por que todos já passamos pela
primeira série escolar, todos moramos no primeiro andar, sempre fomos
o primeiro país do mundo (princ. na quantidad e de impostos), etc. Portanto,
qualque r candidato pode vencer no primeiro turno, desde que seja
razoável.
No site de um jornal: O líder do governo na Câmara, deputado Aldo
Rebelo, afirmou hoje que a base governista tentará concluir a votação
"em"primeiro turno da reforma da Previdência.
Numa revista: Álvaro Uribe foi eleito presidente da Colômbia "em"
primeiro turno.
No editorial da mesma edição, logo na primeir a linha: "Veja" é a
maior e a mais influente revista do Brasil.
AVej a é. Ninguém duvida disso. Mas podia ser melhor.
tampouco / tão pouco
Convém não confundir. Tampouco eqüivale a também não, nem sequer:
Elisa não me cumprimentou nem eu tampouco a ela. * * * O pessoal
não veio tampouco avisou que não vinha.
Tão pouco eqüivale a muito pouco, de tal forma pouco: Dormi tão
pouco hoje, que nem tive tempo de sonhar. *** Ganho tão pouco, que mal
consigo sobreviver.
Usa-se também tão pouco por tão pouca gente e, se no plural, por tão
poucas pessoas: Nunca tantos enganaram tão pouco. *** Nunca tantos
enganaram tão poucos.
No site do provedor Terra: O presidente da Claro afirmou à Reuters
N NÃO ERRE MAIS! 1 137
"nesta sexta-feira" que a participação acionária da Telemar seria minoritária
na BCP, mas evitou dizer qual seria o percentual. "Tão pouco"
confirmou se a Telemar deicidiu exercer a opção.
Não escreveu tampouco no lugar de "tão pouco" nem tampouco usou
hoje no lugar de "nesta sexta-feira" . Aliás, tampouco correto está o uso
do ponto, que deveria ser substituído pela vírgula. (A cacofonia em destaque
é propositada... )
extorquir
É verbo defectivo. Conjuga-se por abolir; portanto, não possui a primeira
pessoa do presente do indicativo e, conseqüentemente, todo o presente
do subjuntivo, além de formas do imperativo.
Está correta, pois, a frase lida na Veja, mas questionada por alguns
leitores: Os membros das Farc extorquem desde os camponeses até os
empresários.
Marinho, Exército e Aeronáutica
Segundo a hierarquia das Forças Armadas, é esta a seqüência correta,
quando nos referimos às três armas. A Marinha tem precedência sobre
o Exército, e o Exército sobre a Aeronáutica, pois esta foi criada somente
na década de 1940, é a última das três. É por isso que nos desfiles militares
a Marinha sempre se posiciona à frente das demais armas. Portanto:
chefes do Estado-Maior da Marinha, Exército e Aeronáutica.
Escreve, porém, um jornalista: É inconcebível imaginar "Exército,
Marinha e Aeronáutica"combatendo o narcotráfico no Rio de Janeiro.
Há muito mais coisas inconcebíveis entre o céu e a terra do que supõe
a vossa vã filosofia...
"lembro de" tudo
Mas se esquece de que o verbo lembrar só aceita a preposição de
quando é pronominal, ou quando antecede infinitivo: Lembro-me de tudo.
*** Não (me) lembro de ter feito isso.
Os jornalistas estão longe de se lembrar disso. E escrevem: Seria bom
que os poderes no Brasil lembrassem de um velho ditado: Cada macaco
no seu galho.
Certinho...
"implantar" uma grande reforma no judiciário
É tolice. Implementar é que significa executar (plano, projeto, medida,
reforma, programa, etc.); implantar é introduzir. Por isso, podemos implementar
uma nova política, para implantarmos um novo regime no país.
N NÃO ERRE MAIS! 1 137
Há gente, todavia, que gosta de "implantar" não só projetos, mas medidas,
reformas, etc. Como há de tudo por aí, a gente entende. Mas não
perdoa.
parecer
Este verbo pode ser auxiliar (as crianças parecem estar com sono) e
intransitivo (as crianças parece estarem com sono ou as crianças parece
que estão com sono).
À primeira vista, pode parecer que haj a erro de concordância nos
exemplos do verbo intransitivo. Ocorre que as frases não têm aí seus termos
na ordem normal. Repare agora como fica tudo mais claro: parece
estarem com sono as crianças; parece que as crianças estão com sono.
Observe ainda estas frases, perfeitamente corretas, pela mesma razão
(inversão dos termos): Quando eu estava com ela, as horas parecia
que voavam! *** Os meninos parecia que brincavam, mas na verdade brigavam.
* * * Nós parecia que estávamos tranqüilos, mas não estávamos.
Um jornalista esportivo ignorou tudo isso e escreveu: Nos últimos 25
minutos, os dois times "pareciam"que não estavam tão preocupados com
goleada, tanto que se abriram e buscaram o gol.
E ainda há por aí gente que sustenta ser supérfluo conhecer análise
sintática! Ah, escola antiga, que saudade!
"um delicioso" musse de chocolate
Pode causar indigestão este doce de chocolate.
É indiscutível que todas as coisas verdadeiramente deliciosas são,
geralmente, femininas: a musse é uma delas. Eis outras: a alface, a libido,
a micareta, a poncã, a própolis, a puxa-puxa e tantas mais, que não vem
ao caso citar aqui.
Certa vez, uma jornalista especializada em economia aconselhava
pela televisão: Se "o"alface está caro, vamos substituir "o"alface por outra
verdura mais barata!
Vamos substituir, sim: pela alface, por exemplo, que é bem mais barata
e não causa tanta azia nem tamanha dor de cabeça.
Conversas que não vem (ou "vêm") ao caso citar aqui?
Conversas que não vem ao caso citar aqui. O sujeito do verbo citar é
uma oração: que não vem ao caso; daí não ter cabimento o uso do plural.
O uso do plural, neste caso, é um erro comum, principalmente na
boca ou na pena de quem nunca aprendeu a fazer análise sintática.
Na frase Essas coisas nem vale a pena lembrar, corretíssima, o sujeito
do verbo valer não é "essas coisas",:como parece à primeira vista ou aos
olhos dos que não têm noção da estrutura da nossa língua. O sujeito do
verbo valer é o infLnitivo lembrar. Afinal, o que nem vale a pena? Lembrar
(eis o sujeito). Sendo assim, a frase eqüivale a esta: Lembrar essas coisas
nem vale a pena.
N NÃO ERRE MAIS! 1 139
Eis outros exemplos, em que a concordância está correta: São casos
que se torna necessário elucidar. *** /Is crianças só faltou comer terra. (E
não: As crianças só "faltaram" comer terra.) *** Estas são providências
que nos compete tomar. *** As crianças parece que estão chorando. (E
não: As crianças "parecem"que estão chorando.)
Em Macbeth, de Shakespeare, lê-se: Às coisas sem nenhum remédio
não adianta olhar. O que está feito, está feito.
O verbo faltar é a maior "vítima" dos que não têm idéia da asneira
que cometem. Num jornal: Na Colômbia, um país onde os traficantes de
drogas só "faltam"assumir a presidência... Grave.
Noutro jornal: O ministro escolhe seus assessores. Mas "faltam" definir
muitos nomes. Noutra página, mais amena, de esportes: O jogador
botafóguense disse que a sua negociação está quase definida. "Faltam"
apenas definir alguns detalhes sobre a duração do contrato.
Uma de nossas revistas semanais de informação publicou, na ed.
1.569, na pág. 89, uma matéria sobre os eletrodomésticos futuristas. Encimou-a
um título pouco futurista: Só "faltam"falar.
E pensarmos que ainda existem educadores e pedagogos visceralmente
contrários ao aprendizado de análise sintática em nossas escolas!
Talvez porque eles próprios nunca tivessem conseguido aprendê-la.
A competência da atual pedagogia ou filosofia da educação adotada em
nosso país pode ser medida todos os anos, nos exames vestibulares, entre os
que fazem as provas de redação. Segundo a Unesco, estamos entre os piores
países do mundo em relação ao aprendizado. Nossas crianças não conseguem
entender o que lêem. Segundo declaração do próprio presidente da
República, por ocasião da abertura da XVIII Bienal do Livro, 52% dos alunos
das escolas públicas não conseguem interpretar um texto lido. Culpa de
quem? Das nossas crianças? Não, absolutamente. Culpa da nossa pedagogia
incompetente, falida (embora haj a pedagogos que a considerem uma maravilha).
Veja, agora, caro leitor, o que escreve um articulista da Folha de S.
Paulo, em 24/5/2005: Está crescendo o número de queixas contra médicos
nos Conselhos Regionais de Medicina. Há unanimidade na explicação de
pelo menos uma das causas desse crescimento: a formação ruim dos estudantes.
Ou seja, gente despreparada está sendo liberada, sem maiores critérios,
para cuidar da saúde das pessoas. Ou seja: a sociedade está experimentando
só agora os profissionais que se formaram fazendo cruzinhas nas
provas, critério esse criado pelos nossos maravilhosos pedagogos modernos.
Por que os alunos, principalmente das nossas escolas públicas, depois de
onze anos assistindo a aulas de Português, saem de nossas escolas sem saber
português? A maioria sai sem saber distinguir sujeito de objeto direto, daí
por que dizem e escrevem: "Acabou"as aulas, "começou"as férias.
A escola antiga não abortava analfabetos funcionais. A escola antiga
não produzia "gênios" com suas monumentais patadas nos exames vestibulares.
A escola antiga ensinava a escrever, ensinava a pensar, ensinava
a entender melhor os textos lidos, ensinava a ter mais respeito pela língua
e também pelo professor. A escola antiga tinha professores que recebiam
um salário digno e eram respeitados pelos alunos. Aqui, antiga bem po1
139 NÃO ERRE MAIS!
deria ser substituída por eficiente. E a escola de hoje? A escola de hoje é
um verdadeiro desastre pedagógico e disciplinar. Mas tem defensores intransigentes.
É natural: foram abortados por ela! A gente entende. Aliás,
a gente sempre entende. Mas não perdoa.
O Brasil possui cerca de 79 milhões de pessoas, entre 16 e 64 anos,
que são analfabetos numéricos, ou seja, sabem o que é um número, mas
não conseguem desenvolver operações simples de soma ou subtração. Além
disso, 42 milhões nessa mesma faixa etária estão em estado crítico de leitura,
ou seja, conseguem ler uma palavra ou outra, mas não entendem o
conteúdo do texto. De maneira geral, 86 milhões de brasileiros são analfabetos
funcionais, pois não dominam habilidades nem de português nem
de matemática. Os dados foram apresentados por Suely Druck, presidente
da Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), durante a conferência Produção
de Analfabetos no Brasil, em julho de 2005, na 57.- Reunião Anual
da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Fortaleza.
Certos professores se empenham em ensinar teorias de Barthes, Lacan e
Chomsky, e nossos alunos não conseguem distinguir uma preposição de
uma conjunção nem muito menos um sujeito de um predicado. Alguns deles
têm o desplante de afirmar aos quatro cantos do mundo que falar e escrever
de acordo com a gramática normativa é uma aspiração reacionária,
própria de gente conservadora, o que, já de per si, define-os como enganadores,
pseudoprofessores. Daí por que a carência educacional no Brasil
é tão avassaladora! Tão avassaladora, que boa parte dos brasileiros não
consegue nem mesmo traduzir uma realidade: como pode alguém ser ainda
tão popular, em meio a tantos escândalos de corrupção? Se não reagirmos
urgentemente, não há como fugirmos à justa pecha das gerações futuras de
que somos todos irresponsáveis, incompetentes e enganadores. A educação
é fundamenta l para qualquer país. Mas com educadores e pedagogos realmente
preparados. A realidade brasileira mostra que estamos longe disso.
Como se tudo isso não bastasse, aparece-nos um presidente da República
que parece gabar-se de ter chegado aonde chegou sem estudar,
passando a impressão de que o segredo do sucesso é não ir à escola, é não
estudar. Se esse não é o fim do poço, qual será?
"por conta de"
Há muita gente por aí usando a língua por conta própria; acham-se
no direito de criar. E esta é mais uma das criações modernas: Os hortifrutigranjeiros
sofreram majoração de preço "por conta da" inundação
na Ceagesp. A língua possui inúmeras locuções que a substituem com
vantagem: por causa de, graças a, devido a, à mercê de, em razão de, etc.
Mas vem o criador e rejeita-as todas. Quando, todavia, há idéia de responsabilidade
ou encargo, a expressão é correta: Os preços são baixos,
mas o transporte das mercadorias fica por conta do cliente.
Eis, no entanto, declaração de alguém muito preocupado com a educação
moderna: Há uma grande ansiedade "por conta do "futuro da Educação
neste país.
A ansiedade é enorme!...
N NÃO ERRE MAIS! 1 141
informamos-lhes
Correto. O pronome lhe(s) não suprime o s de nenhuma forma verbal.
Portanto, usamos corretamente: Informamos-lhes que não há vaga. (E
não: "Informamo-lhes" que...) *** Comunicamos-lhes a data do exame.
(E não: "Comunicamo-lhes" a data...) *** Enviamos-lhes toda a documentação
pedida. (E não: "Enviamo-lhes"toda a...) *** Demos-lhes total
apoio. (E não: "Demo-lhes"total...) *** Solicitamos-lhes pronta resposta
a nossa reivindicação. (E não: "Solicitamo-lhes "pronta...)
O s final só deixa de aparecer nas formas da primeira pessoa do plural,
nos verbos pronominais essenciais. Assim, por exemplo: Queixamonos
de tudo, menos disso. *** Arrependamo-nos dos nossos pecados enquanto
é tempo! *** Informamo-nos do preço da passagem.
Se o pronome átono exerce função objetiva, a forma verbal só perde
o s final quando o pronome o (e variações) se transforma em lo (e variações).
Ex.: Informamo-lo de que... *** Certificamo-los de que... *** Comunicamo-las
de que...
retado / arretado
São formas variantes, a primeira usada na Bahia; a segunda, em Pernambuco.
Pode exprimir inúmeras idéias meliorativas, de acordo com o
contexto, ou seja, pode significar bonito, formoso, legal, excelente, vistoso,
etc.: carro retado, garota arretada, penteado retado, dia arretado, bom
para praia; camisa retada.
Os dois Estados, a Bahia e Pernambuco, são rivais, principalmente
em futebol e na música.
Os baianos dizem que música é com eles mesmos: começam citando
João Gilberto, o pai da bossa nova, e vão até Cláudia Leite, a nova musa
da a xé-music .
Os pernambucanos enumeram de Luís Gonzaga a Alceu Valença.
No futebol, os baianos botam as manguinhas de fora: vão logo citando
o primeiro campeonato brasileiro de futebol conquistado pelo Bahia
(1959) e as derrotas que sua equipe infligiu ao poderoso Santos de Pele,
nessa mesma época. Os pernambucanos não deixam por menos: vão logo
falando no íbis, time conhecido no mundo inteiro como o pior de toda a
história do futebol mundial. Falam também no Sport Club Recife, legítimo
campeão brasileiro de 1987.
Mas não há coisa que deixe o baiano mais retado que alguém dizer
que ele ficou"arretado", porque isto é coisa de pernambucano.
A ed. 1.817, da Veja, conseguiu a proeza, ao trazer, na pág. 95, a foto
de uma bela baiana, encimada por um título que, certamente, deixou os
baianos profundament e retados: Uma baianinha "arretada".
pedir "se"
Não se usa a conjunção "se" com o verbo pedir, mas sim com perguntar.
Portanto: Pergunte a sua mãe se ela deixa você ir comigo. (E não:
N NÃO ERRE MAIS! 1 141
"Peça" a sua mãe...) *** Perguntei ao pai dela se permitia o casamento.
(E não: "Pedi"ao pai dela...)
pedir para
Só se admite esta combinação, quando a palavra licença ou permissão
estiver clara ou subentendida: O aluno pediu para ir ao banheiro.
(Isto é: O aluno pediu licença para ir ao banheiro.)
Se não for possível tal subentendimento, usa-se apenas que, e nunca
"para que": Pedi que me trouxessem um copo dágua. *** O último presidente
militar, ao deixar o cargo, pediu que o esquecessem.
Os jornalistas da revista Veja evoluem dia a dia. Repare como eles
já estão escrevendo: Jejferson pede que o PTB entregue cargos. Afinal, a
vida existe para que os seres humanos evoluam, não é mesmo?
Por outro lado, no site de um jornal: Ceará e Vesgo pediram "para"
Silvio Santos assinar um documento autorizando o Pânico a continuar
imitando o apresentador.
Se pedissem que ele assinasse, seria bem melhor.
No site do mesmo jornal: O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu
hoje aos seus ministros "para" que apressem a liberação de recursos
para programas que já foram anunciados, mas que sofreram atrasos por
causa da burocracia.
No site do mesmo jornal: O presidente venezuelano, Hugo Chávez,
pediu "para" que seus opositores respeitem os resultados do referendo
que ratificou sua permanência no poder do país. (Aqui foi usada a preposição
para quê?)
No site do Terra: O presidente Lula falou sobre a pobreza mundial na
abertura da Conferência de Xangai, na China, e foi muito aplaudido. Ele
pediu "para " que se preste mais atenção aos povos desfavorecidos.
Manchete de jornal: Cúpula islâmica pede aos EUA "para" sair do
Iraque.
Convenhamos: este não seria bem o caso de pedir licença...
posto que
Esta locução só existe em português como equivalente de embora, e
não como sinônima de "porque". Eis frases com seu uso correto: Viajou,
posto que não estivesse disposto. *** Comeu, posto que não estivesse com
fome.
Certos advogados, no entanto, preferem usá-la desta forma, erroneamente:
O réu foi absolvido, "posto que" não havia provas contra ele.
Na mídia: O preço da gasolina subiu, "posto que" o preço do barril
de petróleo aumentou. *** "Posto que"o pensamento se situa numa zona
invisível para os olhos humanos, muitos supõem que podem pensar o que
N NÃO ERRE MAIS! 1 142
quiserem sem que tenham que arcar com as conseqüências. *** A vida
moderna tem arrastado as mulheres para um comportamento equiparado
ao homem, isto é, a luta pela vida tem levado as mulheres a buscarem
uma equiparação aos homens, "posto que"no passado foram discriminadas
e marginalizadas.
A bem da verdade, o último texto tem outros inconvenientes e deveria
estar assim: A vida moderna tem arrastado as mulheres para um comportamento
equiparado ao do homem, isto é, a luta pela vida tem levado
as mulheres a buscar uma equiparação aos homens, porque no passado
foram discriminadas e marginalizadas.
um "chopes" / um "pastéis"
Se um dia alguém convidá-lo para tomar "um chopes" e comer "um
pastéis", caro leitor, desconfie! Ou o chope está choco, ou o pastel está
vazio...
um "parênteses"
É outra tolice. São dois os parênteses, um que abre, e o outro que fecha:
(). Cada um desses sinais é um parêntese. Sendo assim, como alguém
pode querer abrir ou fechar "um parênteses"? É coisa própria de quem
gosta de tomar "um chopes" e de comer "um pastéis".
Na mídia: A França, considerada terra de asilo e capital mundial
dos Direitos do Homem, está abrindo "um parênteses" em tudo isso.
*** "Um parênteses": é uma vergonha para a sociedade brasileira que
as creches públicas existentes no país sejam os programas infantis das
redes de televisão.
Há coisas bem mais vergonhosas...
um "dropes"
Outra tolice. E ainda há os que escrevem "drop","drops" , copiando o
inglês.
No tubinho vêm geralmente dez balinhas, ou seja, dez dropes. Cada
uma delas, portanto, é um drope.
Quem não se lembra dos dropes Dulcora?
Num jornal: "O dropes "Dulcora foi lançado no final dos anos 50. Foi
"o primeiro dropes"quadradinho e embrulhado um a um.
Para o referido jornalista, naturalmente, o drope descia quadrado...
"um" picles
Aqui o caso se inverte. Picles é palavra só usada no plural. Sendo
assim, todos os determinantes devem estar também nesse número. Ex.:
Gosto desses picles. *** Recebi uns picles importados.
Mas sempre aparece aquele que usa "o" picles, "um" picles, etc. Veja
como um jornal forneceu uma receita às donas de casa de todo o Brasil:
"O"picles de cebola "caseiro"vai bem com qualquer prato.
N NÃO ERRE MAIS! 1 143
um "frios"
Frios (produtos de carne de porco, como mortadela, salame, presunto,
etc.) também é palavra só usada no plural: os frios, uns frios.
Um consulente me escreve, afirmando: Há pouco vi no cardápio de
um restaurante: escolha "um frios " e monte o seu sanduíche.
Ele próprio finaliza, perguntando: O senhor aceitaria o meu convite
para comer "um pastéis"e "um frios"?
Minha resposta foi singela.
"o" brócolis
Brócolis é palavra só usada no plural: os brócolis. Portanto, construímos:
Os brócolis fazem muito bem à saúde. *** Não gosto de brócolis. ***
O preço dos brócolis não anda convidativo.
Os portugueses preferem a forma brócolos, que não corre entre nós.
Recentemente, uma repórter de televisão anunciou que, em razão das
fortes chuvas em Teresópolis, o mercado de legumes e hortaliças do Rio
de Janeiro tinha sido afetado. E completou: "O" brócolis e a alface foram
os itens que mais tiveram seus preços elevados.
sentir "muito ciúmes" de alguém
É perigoso. Quem sente "muito ciúmes" está pronto para comer "um
pastéis"...
Podemos usar ciúme (no singular) ou ciúmes (no plural), mas não devemos
misturar singular (muito) com plural (ciúmes). Repare: Você sente
muitos ciúmes do seu namorado? (Ou: muito ciúme.) *** Ela tem uns ciúmes
do marido! (Ou: um ciúme.) *** Os ciúmes de minha namorada são
exagerados. (Ou: O ciúme de minha namorada é exagerado.)
Na revista Veja, ed. 1.791, pág. 84, aparece publicidade de uma revistinha
da própria Editora Abril. Nestes termos: A sua TV vai chiar de
"tanto ciúmes".
De um locutor de televisão: Saiba como lidar com "o ciúmes" das
crianças!
De um ex-prefeito e ex-governador paulista: Ciúmes de homem "é
pior" que ciúmes de mulher.
Sem dúvida.
um "patins"
Nas lojas se vende par de patins, assim como par de chinelos, par
de sapatos, par de meias, etc. Não me consta que, por isso, alguém tenha
usado, até hoje,"um chinelos","um sapatos","uma meias".
Comprar "um patins", mesmo em promoção, é coisa de gente que não
sabe ainda nem andar. Que se dirá, então, de patinar!
Certa vez uma repórter perguntou a uma entrevistada: E hoje? Você
ainda usa "o patins"?
O mundo tem gente assim...
N NÃO ERRE MAIS! 1 145
ver tudo "sob" outro prisma
É ver torto ou embaçado. A luz se decompõe passando pelo prisma
ou através do prisma, mas nunca "sob"o prisma. Sendo assim, vê-se tudo
por um prisma ou através de outro prisma.
Mário Gonçalves escreveu: Cada homem vê a existência através de
um prisma especial. Assim também acontece às sociedades, tanto no espaço
como no tempo.
Um jornalista escreveu: Na Bahia todos os santos, os jornais e emissoras
de TV às vezes operam milagres com a notícia. Vinculados a grupos
políticos rivais, os principais veículos de comunicação do Estado chegam
a oferecer ao público versões conflitantes para o mesmo acontecimento,
"sob"o prisma que interessa ao grupo.
E ainda há os que querem que vejamos os nossos nobres jornalistas
por outro prisma, através de um prisma agradável.
"tim-tim por tim-tim"
Já houve um grande jornal de São Paulo que estampou esta maravilha
na primeira página! Coisa de cinema! E saber que é tão fácil: tintim
por tintim.
foi um deus-nos-acuda
Ou seja, foi uma confusão, uma balbúrdia: Quando as misses chegaram,
foi um deus-nos-acuda.
Na mídia: Perdendo El Alamein, os aliados certamente perderiam o
controle do Canal de Suez, e aí seria um "Deus nos acuda", pois os alemães
teriam acesso direto ao petróleo do Oriente Médio. *** Mais uma
vez os bispos da CNBB se reúnem em Itaici. Agora de olho nas eleições,
os bispos abandonam os fiéis. É um "Deus nos acuda"...
Que Deus nos acuda!...
oficiala
Feminino de oficial. Anote mais estes femininos: adida, alfaiata, bacharela,
bugra, comandanta, comedianta, coronela, fariséia, filhota, generala,
marechala, mecânica, música, oficiala-generala, paraninfa, perita,
pilota, política, primeira-ministra, primeira-sargenta, sargenta, soldada,
suboficiala, técnica e tribuna.
Use-os sem receio! Se der cadeia, procure-me!...
A força feminina é grande, mas alguns de nossos jornalistas parecem
desconhecê-la. Veja como eles tratam as mulheres: Sete mulheres,
membros da Força Aérea dos EUA - inclusive "uma piloto"e "quatro co-
-pilotos"-serviram a bordo de aviões de abastecimento aéreo que deram
apoio ao ataque contra a Líbia. *** Débora Rodrigues: "piloto"dejamantas.
*** ..."a primeiro-tenente" da PM mineira, Fabiana Norovele.
N NÃO ERRE MAIS! 1 145
Será que a primeira-tenente gostou?
A fórmula 1 está prestes a ter uma mulher entre os pilotos. Eles já a
estão tratando de "homem": é a"piloto"pr a cá, essa "piloto" pra lá.
Numa revista, um milagre: Pela primeira vez na história, a Academia
da Força Aérea Brasileira abriu uma turma feminina para formar pilotas.
Devagarzinho, devagarzinho, eles acabam chegando lá...
Quando surgiu a palavra primeiro-ministro, era um deus-nos-acuda
para a formação do seu feminino. Alguns jornalistas usavam "a primeiroministra",
outros "a primeiro-ministro" e os mais corajosos optavam por
"a primeira-ministro" . Nenhum enxergava o óbvio: a primeira-ministra.
Até que, num passe de mágica, fez-se a luz, e eles passaram, todos, a empregar
o feminino correto.
Há certas coisas incompreensíveis na mídia brasileira. Que os extraterrestres,
naturalmente, haverão de explicar tintim por tintim, quando
aqui aportarem...
corre um "buxixo" por aí
Andam correndo mal muitos bochichos por aí. A forma rigorosamente
correta é bochinche (pouco usada entre nós), cujas variantes são três:
bochicho, bochincho e até bachinche.
dizer "de" que
Só os que não têm nenhuma noção da língua costumam usar "de que"
a torto e a direito. E como os há, caro leitor, como os há! É um tal de comentei
"de" que, disse "de" que, queremos "de" que, creio "de" que, pensei
"de" que, etc.
O raciocínio é simples demais: quem diz, diz alguma coisa; quem
comenta, comenta alguma coisa; quem crê, crê em alguma coisa; quem
pensa, pensa em alguma coisa.
Onde apareceu o de? Em lugar nenhum! Então, por que usar uma
preposição que o verbo não pede?
Usemos de que quando o verbo ou o nome pedem tais palavras. Assim,
por exemplo: Lembre-se de que amanhã é dia útil! (Quem se lembra, se
lembra de alguma coisa.) *** Tenho a impressão de que vai chover. (Quem
tem a impressão, tem a impressão de alguma coisa.) *** Estou certo de que
ela me telefonará. (Quem está certo, está certo de alguma coisa.)
Fora daí,"de que" pra quê?
dar uma pensada / dar uma verificada
Só porque podemos dar uma olhada, dar uma chamada e também
dar uma passada, muitos acham que também podem dar uma "pensada"
ou dar uma "verificada". Na fala diária, podemos até usar quase sem
muito problema Vou dar uma pensada no assunto ou Vou dar uma verificada
no documento. Convém evitar esse emprego, contudo, na escrita ou
em momentos em que os registros da língua popular não são muito aconN
NÃO ERRE MAIS! 1 1 47
selháveis (como num julgamento ou até mesmo numa entrevista). Prefira
usar Vou pensar, Vou verificar. Não é mais simples?
"uma" matiz diferente
Matiz é palavra masculina: o matiz, um matiz. Há quem confund a
matiz com matriz. Daí vermos frases assim, nos jornais: Isso trouxe ao
debate público, com "todas as" matizes indispensáveis a uma campanha
eleitoral, o nome de alguém que é considerado apto ao exercício da função
presidencial. * * * Os arquivos do SNI contêm as fichas de milhares de
brasileiros, catalogados em função de "sua matiz ideológica" e ligações
atuais ou pregressas.
Esta última frase foi retirada do editorial de um importante jornal
de São Paulo, considerado o maior do Brasil.
Um ex-governador de São Paulo saiu-se com esta frase, certa feita,
estampada num jornal: É preciso que, acima de divergências partidárias
e de matizes "ideológicas", os povos da América Latina e suas lideranças
se unam na luta comum pela democracia.
Matiz tem como sinônimo nuance (de var. nuança), que é, esta sim,
palavra feminina.
obrigar as crianças a "comerem"
O infinitivo fica invariável quando não há nenhuma dúvida acerca
do seu sujeito. Na frase em epígrafe, não há nenhuma dúvida de que o
sujeito de comer é as crianças; portanto, desnecessária é sua flexão.
Outros exemplos: O tiroteio obrigou os motoristas a retornar. ***
Convidei os turistas a ir à praia. * * * Os policiais forçaram os manifestantes
a recuar. *** Os jogadores foram acusados de boicotar o treinador. ***
As pessoas eram obrigadas a aguardar em fila. *** Vocês têm razão de
falar duro com seus filhos. * * * Nada nos permite chegar a essa conclusão.
* * * Era impossível aos passageiros sair do avião.
fora-da-lei
Não varia no plural: o fora-da-lei, os fora-da-lei.
Num editorial de jornal: Para evitar complicações, Requião preferiu
recuar da intervenção, assim que conseguiu da Assembléia, na qual dispõe
de maioria, autorização para encampar os pedágios, um evidente instrumento
de pressão para forçar os concessionários a baixarem as tarifas,
repetimos, na marra. Fica de qualquer forma no ar o risco representado
pelo fato de uma autoridade, encarregada de fazer valer a ordem jurídica,
manobrar com "foras-da-lei" assumidos para impor sua vontade.
E não havia nenhuma necessidade de flexionar o infinitivo baixar.
N
NAO ERRE MAIS! 1 59
salário de mil "e" duzentos e cinqüenta reais
Não se usa "e" depois de mil seguido de centena. Nem muito menos
vírgula, como faz muita gente, no preenchimento de cheques. Esquecendo
o intruso (e desnecessário) "e"e a indevida vírgula, temos: Salário de mil
duzentos e cinqüenta reais. *** Gastei mil quinhentos e quinze reais. ***
Estávamos em mil novecentos e noventa e oito. *** A despesa foi de mil
oitocentos e um reais.
O Brasil foi descoberto em "mil quinhentos"
Não é verdade. Quando a centena termina por dois zeros (1500, por
exemplo) ou começa por zero (1015, p. ex.), o uso do e é de rigor. Veja:
Gastei mil e quinze reais, mas só ganho mil e dez.
As centenas devem sempre ser unidas às dezenas e unidades por e:
Gastei mil quinhentos e quinze reais. *** A despesa foi de mil oitocentos
e um reais. Note: em nenhum caso se usa a vírgula.
Com milhão, bilhão, trilhão, etc., o uso do e também é obrigatório.
Ex.: Um milhão e duzentos mil reais. *** Dois trilhões e quatrocentos e
cinqüenta bilhões e setecentos e trinta milhões de reais.
ter que / ter de
É indiferente, no português contemporâneo, o uso de ter que e de ter
de. Tenho que (ou de) ir amanhã a Salvador. *** Vocês têm de (ou que)
sair já daí!
Aos que não aceitam o emprego de ter que, tenho uma sugestão: leiam
Fernando Pessoa!
prazeroso / prazerosamente
É assim que se escrevem tais palavras. Mas sempre há os que acham
"prazeiroso"escrever"prazeirosamente". Eis como se leu no site do Terra,
recentemente: Para conhecer bem o BMW 745IA, serão necessárias algumas
"prazeirosas"semanas de uso. E nós só tivemos uma...
É prazeroso ler assim?
entre...e / de...a / desde...até
Assim como a vida nos faculta escolher as companhias que melhor
nos aprazem, na língua também certas preposições escolhem seus parceiros.
Não pode, aqui, haver troca de parceiros, sob pena da deselegância.
Portanto, construímos: A idade das crianças variava entre 5 e 8 anos. ** *
A idade das crianças variava de 5 a 8 anos. *** A idade das crianças variava
desde 5 até 8 anos. *** Aguardei-a entre o meio-dia e a uma hora.
*** Aguardei-a do meio-dia à uma hora. * * * Aguardei-a desde o meio dia
até a uma hora.
Foi com enorme satisfação que lemos, certa vez, num jornal: O ganso
sinaleiro chinês tem plumagem farta, costuma pesar entre 2,5kg e 4,5kg e
medir de 75cm a 89cm. Extraordinariament e perfeito!
N NÃO ERRE MAIS!
1 59
Foi com enorme desgosto que lemos, certa vez, noutro jornal: Os
ladrões roubam os veículos em São Paulo e vendem no Paraguai. A
maioria dos carros é vendida por preços que variam entre dez "a" quinze
mil reais.
O desgosto foi ainda maior, ao lermos esta notícia, também num jornal:
Das festas, às segundas-feiras, participariam pelo menos quatro adolescentes,
com idades entre 12 "a" 15 anos, que teriam recebido drogas e
bebidas alcoólicas para manter relações sexuais com os suspeitos.
Foi num misto de insatisfação e desgosto que lemos certa feita isto,
escrito por um ex-ministro da Justiça do Sr. Fernando Henrique Cardoso:
Promete-se dar tudo às crianças, desde a instrução "à"alimentação e "à"
saúde.
Existem gramáticos, no entanto, que estão com o ex-ministro. Suponhamos
esta frase: Dormi desde o ponto inicial do ônibus até chegar ao
trabalho. Ou esta: Ela chorou desde lá até aqui. Como usar a preposição
"a"no lugar de até?
Um dicionário recém-publicado traz este exemplo no verbete desde:
A multidão se estendia desde o centro à periferia da cidade.
Nele, porém, tudo é normal! Absolutamente normal!
"acabou" as férias / "começou" as aulas
Só fala ou escreve assim o que não tem a mínima noção de análise
sintática. Ou seja: aquele que confunde sujeito com objeto direto. Se férias
e aulas exercem a função de sujeito, não há como deixar de levar o
verbo ao plural. Pronto: acabaram as férias, começaram as aulas. Já era
tempo...
subir no ônibus errado
No Brasil, todo o mundo costuma subir no ônibus, mas em Portugal,
todos sobem não só para o ônibus, mas também para o trem, para o avião,
para o automóvel, etc.
Aliás, no Brasil também costumamos subir no telhado e nas árvores.
Em Portugal, porém, sobe-se ao telhado e às árvores.
Os brasileiros trepamos nas árvores, nos muros; os portugueses preferem
trepar às árvores, aos muros.
Tanto nós quanto eles conseguimos chegar lá, sem problema nenhum...

as "micro", pequenas e médias empresas
Toda e qualquer palavra substantivada varia normalmente: o pró, os
prós; o contra, os contras; um não, dois nãos; uma mini, duas mínis; um
híper, dois híperes; a micro, as micros; a macro, as macros, etc.
A regra, todavia, não foi suficiente para evitar a realização em BrasíN
NÃO ERRE MAIS! 1 149
lia, certa vez, de um Congresso Brasileiro das "Micro" e Pequenas Empresas.
Ou seja: foram micros até na comunicação.
Os jornalistas também costumam escrever: As "micro", pequenas e
médias empresas que operam no Brasil não passariam num teste elementar
de modernidade industrial.
O jornalista passaria num teste de português?
Esta foi de um repórter de televisão: "As"mais de 4 milhões de "micro"e
médias empresas pedem socorro. (Repare: para o repórter, milhão é
palavra feminina!)
A Serasa fez festa, ao comemorar 35 anos de fundação. No anúncio
da festa, a frase: Boa parte do nosso crescimento deve-se à estratégia de
apoio às "micro", pequenas e médias empresas, as maiores empregadoras
do país.
Será que, por serem tão pequenas, tão humildes, as micros não merecem
nem mesmo o s do plural?...
relê
É esta a palavra que define o aparelho usado para abrir ou fechar um
circuito elétrico. Há os que dizem e escrevem "relê", como foi o caso de
um jornalista, certa feita: Foram aperfeiçoados todos os circuitos, "relês"
e conectores dos automóveis Ford.
ser atingido por um "relâmpago"
É um pouco difícil: relâmpago é o clarão instantâneo produzido por
descarga elétrica entre duas nuvens ou entre uma nuvem e o solo, é a luz
rápida e intensa que precede ou acompanha um trovão.
Raio é a descarga elétrica entre uma nuvem e o solo, acompanhada
de relâmpago e trovão. Daí por que existem os pára-raios, e não os "pára-
-relâmpagos".
Não obstante a evidência, a apresentadora de um telejornal nos informou
certa vez que um atleta havia sido atingido por um "relâmpago",
num campo de futebol. Só ela mesma é que morreu...
adrede
Adrede é um advérbio que significa de propósito, de caso pensado,
intencionalmente. Pronuncia-se adrede, embora só se ouça "adréde".
Eis exemplos em que entra essa palavra: Foi um crime adrede preparado.
*** Um colegiado adrede escolhido pelo presidente irá estudar o
caso e propor soluções.
Há os que, não conhecendo a função adverbial desta palavra, usam
"adredemente". E ainda pronunciam "adrédemente"! Lembram quem?
A famosa personagem Odorico Paraguaçu, que usava sem pejo"apenasmente","somentemente","de
repentemente","conformemente" , etc.
Tudo isso, naturalmente, é brincadeira. Quando se trata de um dicionário,
contudo, qualquer tipo de brincadeira fica afastada, porque diN
NÃO ERRE MAIS!
1 59
cionário é coisa séria. Pois não é que agora também um dicionário traz
"adredemente"! Nele, porém, tudo é absolutamente normal.
"deverasmente"
É incrível, mas aconteceu. O advérbio deveras recebeu o prefixo
-mente, assim como Odorico Paraguaçu fazia com tantos outros advérbios.
Foi um delegado da Polícia Federal. Encarregado de verificar as
contas clandestinas de brasileiros nos Estados Unidos (caso Banestado),
ele declarou ao repórter: Fiquei "deverasmente" atordoado, quando vi o
nome de tanta gente poderosa!
Quem não ficará deveras embasbacado?
Quem nasce em Bagdá é...
...bagdali (a palavra é oxítona). Eis, porém, como se leu no site da
Folha de S. Paulo, recentemente: Os EUA anunciam ter isolado Bagdá e
controlado as principais vias de acesso à capital. A cidade segue sob intenso
bombardeio. Intensas explosões são ouvidas nesta segunda. Os invasores
não têm apoio da população "bagdali" e vêm sofrendo forte oposição:
iraquianos abriram fogo de praticamente todas as direções contra
soldados dos EUA.
Mas nenhum deles matou a língua...
acenar
Quem acena, acena com alguma coisa a (ou para) alguém: Acenei
com a mão a (oupara) todos os que ficavam. *** O motorista acenou com
o braço às (ou para as) crianças. * * * O rapaz acenou-nos com a cabeça.
* * * Os que ficavam acenavam com ambas as mãos aos (ou para os) que
partiam. *** Duas garotas acenaram-me com o braço, pedindo carona.
Há, contudo, quem acene "a mão", quem acene "o braço" , quem acene "a
cabeça", etc., coisa não recomendável.
Em sentido figurado, só admite a...com ou apenas com: O presidente
acenava ao congresso com a possibilidade de novas cassações.
O presidente acena com a possibilidade de novas emissões de medidas
provisórias.
Na mídia: Os magistrados seguem reunidos em Brasília e ainda
não se pronunciaram oficialmente sobre a greve. Pela manhã, acenaram
"para " a possibilidade de fixar prazo de até o dia 4 de agosto para iniciarem
paralisação.
"primeiroanista" de Medicina
Os que freqüentam o curso de Medicina em seu primeiro ano é primeiranista
de Medicina; os que freqüentam o segundo ano é segundanista;
o terceiro ano, terceiranista\ o quarto ano, quartanista; o quinto ano,
N NÃO ERRE MAIS! 1 151
quintanista-, o sexto ano, sextanista-, o sétimo ano, setimanista e o último
ano, ultimanista.
ao invés de = em vez de?
Não. Ao invés de indica oposição, situação antônima, contrária: O
dólar, ao invés de baixar, sobe. * * * Teresinha chora, ao invés de sorrir. * * *
O custo de vida sobe, ao invés de baixar. * * * O mundo, ao invés de melhorar,
piora!
Há quem use "ao envez de", o que piora o quadro.
Em vez de indica mera substituição, simples troca: Em vez de ir ao
cinema, fui ao teatro. (- No lugar de ir ao cinema, fui ao teatro.) *** Teresinha,
em vez de ir ao quarto, foi à cozinha. * * * Em vez de almoçar, ele
come sanduíche.
Uma construtora paulista lançou certa vez promoção de vendas de
um edifício. O anúncio começava assim: "Ao invés de"um grande passo
na via, dê logo um salto.
Para onde? Para o abismo?!
Um de nossos jornais fez certa vez propaganda assim: "Ao invés de"
falar de renovação de assinatura, que tal falarmos sobre esportes, economia,
lazer ou cultura?
Em vez disso, que tal aquilo?
dois "CD's" / dois "DVD's"
O plural das siglas se faz mediante o simples acréscimo de um s imediatamente
após a última maiuscula: CDs, DVDs, FMs, PMs, IOFs, IPTUs,
IPVAs, HPs, ETs, etc.
Recentemente, num informe publicitário da Associação dos Magistrados
Brasileiros (AMB), viu-se duas vezes "CPI's", em vez de CPIs;
usou-se "MP's" (medidas provisórias), em vez de MPs e também "ao invés
de"por em vez de.
o moral
Moral, palavra masculina, entre outras coisas, significa estado de espírito
ou espírito de luta de pessoa ou grupo, movido por confiança, entusiasmo,
etc.; ânimo. Por isso, usamos: o moral, moral alto, moral baixo,
muito moral, etc.
Moral, palava feminina (a moral), significa, entre outras coisas, conjunto
de valores éticos que norteiam as relações sociais e o comportamento
humano; é, enfim, ética.
Eis algumas frases em que se usa corretamente a palavra masculina:
Naquela época os palmeirenses estavam com o moral baixo. E hoje? ***
E preciso reerguer o moral dessa gente. *** O ânimo excita o moral das
pessoas.
N NÃO ERRE MAIS! 1 59
Um médico, certa vez, após uma fracassada tentativa de salvar seu
paciente, declarou: Quando o médico perde a sua esperança, ele perde
realmente "toda a moral"para tratar de seu enfermo.
Médico nenhum no mundo perde a moral, a não ser que seja um libertino,
um devasso, um pedófilo - e não era o caso.
Recentemente, escreveu um jornalista, de Nova Iorque: Os nova-iorquinos
reproduziram em luz as torres do World Trade Center, que foram
postas abaixo. É um projeto de um grupo de artistas e arquitetos para
levantar "a moral "da cidade.
Ou seja, é o tipo de jornalista que não consegue levantar o moral de
ninguém.
No site de um jornal de esportes: Robinho, com moral "alta", promete
pedalar na frente de Narciso. *** O Botafogo quer levantar "a moral" da
torcida no campeonato carioca, para reconquistar o apoio dos alvinegros.
Frases como essas não conquistam o apoio de ninguém.
"Aluga-se" apartamentos
Trata-se de uma concordância gramaticalmente correta, mas bastante
discutível. Por enquanto, convém considerar, nesse caso, apartamentos
como sujeito, que é a orientação gramatical tradicional. Assim, temos:
Alugam-se apartamentos. *** Vendem-se casas.
Eis outros exemplos similares: Não se apresentaram todas as provas
necessárias. * * * O povo espera que se consolidem as instituições democráticas
no país. * * * Podem-se levar em consideração duas sugestões
apenas. *** Devem-se considerar todas as hipóteses. *** Dão-se aulas
particulares de português. *** Exigem-se referências. *** Cobrem-se botões.
*** Já não se fazem máquinas tão boas quanto antigamente. ***
Queremos que se considerem todas as hipóteses possíveis.
Para que ocorra essa concordância, é fundamenta l que o verbo seja
transitivo direto e que o elemento que seria objeto direto esteja no plural,
representando coisa. Quando representa pessoa, ou mesmo ser animado
ou considerado como animado, para evitar ambigüidade, convém apelar
para o objeto direto preposicionado. Por exemplo: Puniu-se aos infratores.
(A frase Puniram-se os infratores dá a entender que eles se puniram
a si próprios.) *** Ama-se aos irmãos. (A frase Amam-se os irmãos pode
dar idéia de reciprocidade.) *** Encontrou-se aos desaparecidos. (A fra -
se Encontraram-se os desaparecidos dá duplo sentido.) *** Feriu-se aos
cães. (A frase Feriram-se os cães é ambígua.) *** Movimenta-se aos galhos
da árvore para a queda dos frutos. (A frase Movimentam-se os galhos
da árvore é ambígua.)
Este é, todavia, um caso controvertido da nossa gramática. Há uma
forte corrente (à qual somos simpático) que prefere considerar o pronome
se, nesses exemplos todos, um mero índice de indeterminação do sujeito.
Visto assim, o verbo ficaria sempre no singular. Mas, por enquanto, a gramática
tradicional é que deve prevalecer.
N
N NÃO ERRE MAIS! 1 153
"Precisam-se" de empregados
Aqui, já é caso bem diferente. Trata-se de um verbo transitivo indireto.
Neste caso, o singular sempre foi de rigor. Outros exemplos: Gosta-se
de doces. *** Acredita-se em milagres. *** Assiste-se a filmes nesse canal.
* * * Chegaram os turistas. Trata-se de ingleses. * * * É preciso paciência
com as crianças, porque se trata de seres incapazes de compreender muita
coisa.
Não são poucos os que usam o plural, neste caso, mormente quando
o verbo é tratar.
A criança ora gritava, "e" ora chorava
Não. A conjunção alternativa ora não admite, na correlação, a inclusão
de um e anteposto. Empregamos sempre ora...ora, quer...quer, ou...ou,
etc.
Do artigo de um ex-militar, aliás muito culto, publicado no Correio
Braziliense, colhemos isto: Freqüente é julgar-se o militar, entre nós, ora
como casta "e"ora como desfrutador de privilégios.
de "uma" maneira geral
Não há nenhuma necessidade do emprego do artigo nesta expressão,
assim como nestas: de forma geral, de modo geral. Portanto: De maneira
geral, as mulheres têm verdadeiro horror a baratas.
Certa feita, num de nossos jornais, encontramos uma pérola puríssima:
"de um modo em geral".
ir "em" estádio
No registro da norma culta, usa-se a com verbos de movimento. Claro
está que no registro coloquial, podemos usar a preposição em, preferida
dos brasileiros.
Há certas construções, contudo, nas quais não parece caber essa preposição.
Repare nestas frases: Os dias de progresso chegaram "no" fim.
*,** o boxeador foi "na" lona. *** Devagar se vai "no"longe. *** Não vá
com muita sede "no"pote! *** O rei foi "na" caça. *** O programa vai
"no"ar todos os domingos.
Quem usa ou já usou assim? Poucos, muito poucos: a deselegância é
notória.
E quem poderia imaginar uma fábrica de cigarros que pedisse a seus
consumidores que fossem "no" sucesso?
cambiar
É um verbo que se conjuga normalmente: cambio, cambias, cambia,
etc. Estão no mesmo caso: cadenciar, comerciar, diligenciar, distanciar,
evidenciar, influenciar, negociar, obsequiar, penitenciar, premiar, presenciar,
providenciar, reverenciar, sentenciar, silenciar e variar. Portanto, não
existem formas como "cambeio", "vareia", "negoceia", etc. Em Portugal,
contudo, se conjuga premeio, premeias, premeia, etc.
N NÃO ERRE MAIS! 1 59
Só cinco verbos terminados em -iar se conjugam com um -e- antes do
-/-, nas formas rizotônicas: mediar, ansiar, remediar, incendiar e odiar.
Apesar de tudo, escreveu um jornalista de uma importante folha de
São Paulo: Chile quer que o papa "medie" litígio na Bolívia.
intermediar
Trata-se de um verbo derivado de mediar, sendo assim, por este se
conjuga: intermedeio, intermedeias, intermedeiam, intermedeiam, etc.
Os jornalistas ignoram totalmente a conjugação correta deste verbo,
a ver-se como escrevem: Com as proximidades das férias escolares,
aumenta a procura pelas agências que "intermediam" viagens turísticas.
*** Essa é uma empresa que "intermedia"a liberação de verbas do governo
para as prefeituras.
Certa vez, uma famosa rede de televisão tratou da prostituição infanto-juvenil.
O repórter nos informou, então, que certos motoristas de
táxi "intermediam" os encontros entre menores e turistas estrangeiros.
A verdade é outra.
eu "se" enganei
E como! Eu não combina com se, são de pessoas diferentes (1.- e 3.-,
respectivamente). Mas volta e meia estamos ouvindo frases assim: Confesso
que eu "se" perdi inteiramente. *** Eu "se" esforcei demais nesse
jogo, mas não adiantou. *** Pode deixar, que eu "se"viro! *** Nós "se"
poupamos no segundo tempo. *** Deixe, que eu "se"entendo com ojogador!
*** Nós "se"preocupamos muito com o futuro do Brasil.
Mesmo?
Em São Paulo já houve um saudoso presidente de clube que declarou,
sem pejo nem complexo de culpa: Eu "se"fiz por "si"mesmo.
Há quem ria. Mas muitos choram...
Na atualidade, existe um apresentador de televisão que vive dizendo:
Você, que está chegando do trabalho! Você, que está chegando do colégio. Vamos
rir! Vamos "se"divertir! Pegadinha inédita! A vítima somos nós todos...
fiquei fora de "si"
E caso semelhante ao anterior. Si é da 3.- pessoa; fiquei, da 1.-, daí por
que não há como conciliarmos uma e outra.
Repare nestas frases, todas corretas: Ela ficou fora de si. (Ela e si = 3.-
pessoa.) *** Ficamos fora de nós por alguns minutos. (Ficamos e nós = 1.-
pessoa.) *** Aquilo me deixou fora de mim. (Me e mim = 1.- pessoa.)
Certa vez, pela televisão, porém, veio esta declaração: Quando eu me
"di"por "si", já tinha sido roubada.
"Di"por dei e "w"por mim\ Ou seja, não restou absolutamente mais
nada: roubaram-lhe tudo...
Agora, para encerrar, eis a declaração de um jogador de futebol que
1 155 NÃO ERRE MAIS!
no Velho Mundo ganha cerca de quinhentos mil dólares por mês: Amanhã
nós vamos dar tudo de "si "para conquistar mais uma vitória.
Seus pés valem ouro. E a língua?
"imparciabil idade"
Esta palavra já seria reprovável na boca ou na pena do comum dos
mortais. Que se dirá, então, se figurasse num dicionário? Pois é: no dicionário
do entulho aparece a pérola no verbete equidade.
"calcóreo"
Esta palavra também já seria reprovável na boca ou na pena do comum
dos mortais. Que se dirá, então, se figurasse num dicionário? Pois é:
no dicionário do entulho ela figura, soberana, no verbete bezoar.
"rabujento"
Esta palavra também já seria reprovável na pena do comum dos mortais.
Que se dirá, então, se figurasse num dicionário? Pois é: no dicionário
do entulho ela aparece no verbete coroca.
"aterrizar"
A maioria das pessoas sabe que um avião, quando pousa, aterra ou
aterrissa. Seus substantivos correspondentes são, respectivamente, aterragem
e aterrissagem.
Aterrar e aterragem são formas legitimamente portuguesas; aterrissar
e aterrissagem são formas copiadas ao francês, portanto, trata-se de
galicismos.
Muito bem. O povo, no entanto, ignora muitas vezes ambas essas formas
e usa quase sempre "aterrizar" e "aterrizagem", que em verdade são
meros brasileirismos.
O dicionário do entulho registra "aterrizar", mas não "aterrizagem".
Qual seria a razão?
"antisséptico" ou anti-séptico?
A forma coerente é anti-séptico. Há dicionários, porém, que registram
ambas as formas, o que só vem confundir. Faz lembrar um velho apresentador
de programa de auditório da televisão. Dicionários, ao contrário,
não se publicam para confundir, mas para explicar, elucidar, esclarecer.
Se a regra diz que o prefixo anti- exige hífen antes de palavras iniciadas
por h, r ou s, por que criar uma exceção desnecessária?
"Fenômeno"semelhante ocorre com a palavra arqui-seguro. Segundo
a regra dos prefixos, arqui- exige hífen antes de h, r ou s. Se assim é, por
que dicionários trazem "arquisseguro"? E um mistério.
Outro caso interessante é o da palavra planocilíndrico: certos dicionários
trazem o verbete corretamente, ou seja, sem hífen. Mas quando a
N ÃO ERRE MAIS! 1 15 7
palavra aparece no miolo do dicionário, eis novament e a confusão: usa-se
a palavra justament e com o hífen: "plano-cilíndrico" .
O dicionário do entulho estabelece a confusão justament e no verbete
mesa, subverbete mesa de tintagem. O dicionário secular também gosta
da confusão e a abona à pág. 1.322.
Se isso tudo não é seguir rigorosamente a filosofia do Velho Guerreiro,
que será, então?
coma alcoólico
Correto. Como a palavra coma é masculina, só pode haver coma alcoólico,
e não "coma alcoólica", como se ouve em nossas telenovelas.
Os jornais também não ficam atrás. Veja o que trouxe um deles: A
meningite caracteriza-se pelo início súbito, com febre alta, náuseas, vômitos
e rigidez na nuca. O delírio e "a coma"são freqüentes.
Um dicionário traz a palavr a coma como palavra masculina ou feminina,
indiferentemente . Em edições anteriores, porém, registrava a mesma
palavr a tão-soment e como feminina, em todas as acepções.
"elegantérrimo"
Evite usar formas superlativas criadas pelo vulgo, como esta ou"ele -
gantésimo" , "finérrimo" , "finésimo", "chiquérrimo" , "chiquésimo". Só
pessoas pedantes, normalment e de baixa escolaridade, usam adjetivos
assim.
"magérrimo"
A forma superlativa sintética da norma culta de magro é macérrimo
(do latim macer + sufixo -rimo), e não "magérrimo" , cujo g tem origem em
magro. Trata-se de um registro da língua coloquial.
Xavier Fernandes, em suas Questões de língua pátria, considera "magérrimo"
um despautério que não se justifica. É assim pouco mais ou menos
como "advogacia","gabina","degote","guspir" .
AVeja, revista que deveria só levar em conta o registro culto, trouxe
(ed. 978, pág. 67): Neste momento de crise e de vacas "magérrimas" nos
cofres estaduais, não se pode a rigor...
Seus jornalistas parece não abrirem mão de "magérrimo" , forma que
aparece constantement e em suas páginas.
Podem contrapor alguns: Ah, mas consta em dicionário.
Isso é tudo? Há dicionários por aí que só lhes falt a mesmo trazer
"menas "," mendingo "," mortandel a " e "questã ".
e nem
Só se usa e nem quando pudermos pospor sequer: Eles chegaram e
nem me telefonaram. = Eles chegaram e nem sequer me telefonaram. ***
A criança se divertia e nem percebia a presença do tio. = A criança se
divertia e nem sequer percebia a presença do tio.
N
N NÃO ERRE MAIS! 1 157
Não havendo essa possibilidade, basta retirar o "e", para que tudo fique
perfeito: Ela não come nem bebe. (E não: Ela não come "e"nem bebe.)
*** As crianças não almoçaram nem jantaram. (E não: As crianças não
almoçaram "e" nem jantaram.)
No site de um jornal: No lançamento do Fome Zero, o presidente disse
que a fome não será vencida da noite para o dia, "e" nem apenas com
algumas medidas isoladas do governo.
No site de outro jornal, a declaração de uma senadora alagoana:
Pela minha origem, eu não posso votar em alguém (Sarney) que represente
uma oligarquia nordestina "e"nem em quem prestou serviços "à"
ela.
A senadora escorregou, mas quem caiu no abismo foi o jornalista que
reproduziu a declaração: usar à antes de pronome pessoal é de lascar!
Por fim, repare nesta declaração triste de um ex-presidente do PT, ao
renunciar a seu cargo: Nós do PT não praticamos irregularidades. O PT
não compra "e" nem paga deputados.
Pois é...
"impassividade"
Isto não existe, mas muitos querem que exista. Não faz muito um
famoso jornalista esportivo escreveu: Todos notaram a fúria do jogador e
a "impassividade"do árbitro.
É própria dos jornalistas esportivos a invenção, a criação. Eles são
realmente admiráveis. Muito mais admiráveis que a impassibilidade do
povo inglês.
Tão admiráveis eles são, que um deles escreveu em sua coluna, no site
de A Gazeta Esportiva: As jogadas de Robinho estão manjadas demais.
"Fácil"de serem neutralizadas, não é mesmo?
Fácil é saber quem é o autor da pérola, não é mesmo?
Tão admiráveis eles são, que um ex-repórter da TV Bandeirantes
chegou a declarar recentemente: Eu gostaria muito de trabalhar como
manager no Palmeiras. Seria bom até para provar que jornalista esportivo
não é imbecil.
Pois é...
O dono desse carro "é" eu
Não se diz nem se escreve assim. O verbo ser concorda sempre com
o pronome reto: O culpado és tu, o responsável somos nós. *** Quem fez
isso fui eu ou fomos nós?
Redobrada atenção devemos ter com as locuções verbais: Não vou ser
N ÃO ERRE MAIS! 1 59
eu o escolhido, tenho certeza. (E não: Não "vai"ser eu...) *** Devo ser eu
o responsável por isso? (E não: "Deve"ser eu...)
Antioquia
Cidade histórica da Turquia. Pronuncia-se antiokia, e não "antiókia".

Eis, porém, como um jornal paulistano nos conta sobre o primeiro
papa da história: São Pedro: pontificou 34 ou 37 anos. Considerado o
primeiro papa, de acordo com os historiadores, o período de início e de
fim de seu papado é desconhecido. Segundo a tradição, seus últimos 25
anos como papa foram passados em Roma. Os outros ele teria vivido "na
Antióquia".
Note que o jornalista ainda usou artigo antes do nome da cidade, ou
seja, cometeu dois erros em duas palavras. índice respeitável...
conseguimos nos "mantermos" em pé
Nas locuções verbais, só varia o primeiro verbo, ou seja, o auxiliar, ficando
invariável o verbo principal. Portanto: Não podes entrar sem seres
anunciado. (E não: Não "podes entrares"...) *** Vocês querem tomar um
copo de leite? (E não: Vocês "querem tomarem" um copo de leite?)
Repare que o sujeito de ambos os verbos é rigorosamente o mesmo,
daí a não-ílexão: nós (de conseguimos e de manter)-, tu (de podes e de entrar);
vocês (de querem e de tomar).
Numa revista: Militares liderados pelos Estados Unidos no Iraque
afirmaram "terem" matado seis pessoas e prendido outras 54 "neste domingo",
durante uma incursão à procura de insurgentes na cidade de al
Oaim, próxima da fronteira com a Síria.
Repare que além de mostrar que não sabe usar o infinitivo, o jornalista
ainda usou "neste domingo", vício exaustivamente comentado aqui.
As vezes, o verbo auxiliar vem separado do verbo principal: Podem
as autoridades estaduais resolver esse problema. *** Devem os
estrangeiros comparecer à delegacia da Polícia Federal, para fazerem
o recadastramento.
em que pese "o"
E asneira. Em português toda locução prepositiva termina por preposição:
apesar de, diante de, em frente a, em frente de e, naturalmente,
em que pese a. Portanto: Em que pese ao mau tempo, chegamos bem. ***
O Palmeiras venceu, em que pese ao árbitro. *** Em que pese ao presidente
ter feito essa declaração, poucos acreditaram. *** Em que pese à
tempestade, chegamos bem.
Nossos jornalistas conseguem usar uma locução prepositiva sem preposição.
Veja: "Em que pesem as" críticas atuais, a dívida externa contribui
para o progresso do país.
Não só eles. Um presidente da OAB-SP certa vez escreveu isto: "Em
1 160 NÃO ERRE MAIS!
que pesem os"defeitos e pecados remanescentes, a imprensa brasileira já
atingiu sua maioridade.
Doutor, só os "adevogados" escrevem assim.
EM TEMPO - Num desses manuais de redação de jornal, comete-se no
mínimo grande equívoco, quando se trata da expressão em que pese a.
O autor afirma que devemos usá-la quando a referência for a pessoa e
apenas "em que pese" quando a referência for a coisa. Ao ler isso, houve
quem ficasse mortalmente impressionado...
na medida em que
Trata-se de um modismo dispensável, mas acabou vingando no português
do Brasil. Emprega-se como equivalente de se ou de caso. Ex.:
Só é possível usar-se a inteligência na medida em que ela exista. ***
Aprender línguas estrangeiras é útil na medida em que possamos praticá-las
constantemente.
Muitos a empregam por à medida que: "Na"exata "medida em que"
empobrece, a classe média perde noção de deveres e direitos.
Num editorial de importante jornal paulista se leu certa vez a locução
na medida em que usada com valor causai, o que a língua desconhece
inteiramente: No Brasil, de tempos em tempos, aparece um guru
aceito por muitos. Em plantão permanente, esse guru oferece soluções
geniais para alguns dos graves problemas nacionais. "Na medida em que"
há muito tempo que a questão Educação não é levada a sério neste país,
a lista de gurus eleitos para o setor cresceu muito.
De fato, há muito tempo a questão Educação não é levada a sério
neste país.
ficar de olho em alguém
E assim que todos usamos. Desde o tempo de César. De repente, aparece
um ex-árbitro de futebol, pela televisão, fazendo comentários de arbitragem.
E ele quem comenta, num lance do jogo: Esse jogador é malandro:
o "juiz"precisa ficar de olho "com ele".
Não é brincadeira?
veredicto
Apesar de ser esta a forma correta, com ct, há os que insistem em
dizer e escrever "veredito". Até uma editora chegou a publicar uma obra
com este nome: O "veredito", de Franz Kafka . Não é grave?Veja, ainda, o
que apareceu no site de um grande jornal: Sorvete sem gordura e lactose.
Nós testamos. Repórteres do Globo Online experimentam os novos sorvetes
light e diet do mercado e dão o "veredito". Os sorvetes até podem ser
muito bons e saudáveis. Mas... e o jornalista? Manchete de uma folha de
São Paulo: "Veredito"que suspende processo contra Pinochet é impugnado.
Na mesma folha: Omar e seus três cúmplices não demonstraram neN
NÃO ERRE MAIS!
1 59
nhuma emoção ao conhecer o "veredito". Na mesma folha: O Wall Street
Journal emitiu uma breve nota em que diz que os colegas dele continuam
velando por sua memória e que o "veredito" é um passo na direção da
punição aos culpados. Que mal lhe pergunte, caro leitor: e os manuais de
redação, hem?
"metades iguais" / "duas metades"
Redundâncias. Certa vez, a apresentadora de um programa de televisão
saiu-se com esta: A linha do equador divide a Terra em "duas metades".
Bastaria dizer metades.
Ganhar e perder são do esporte
Correto: infinitivos antônimos exigem o verbo no plural. Eis outros
exemplos: Amar e odiar são próprios do ser humano. *** Nascer
e em seguida morrer são apanágio de crianças de alguns países subdesenvolvidos.

Não sendo antônimos os infinitivos, o verbo ficará no singular: Beber
e comer não é apanágio do ser humano. *** Fumar e beber cachaça faz
mal à saúde. *** Passear em parques e tomar banhos de sol em piscinas
ou praias é indicado para a saúde da criança.
Certa feita, um jornalista esportivo, tido pelos colegas injustificadamente
por profundo conhecedor da língua portuguesa, escreveu: Ganhar
e perder "é" do esporte. O fato de colegas lhe devotarem respeito por um
conhecimento que absolutamente ele não tem não significa absolutamente
coisa nenhuma: em terra de cego, quem tem meio olho é Deus.
Desde "de" manhã está chovendo
É tolice. A preposição desde rejeita "de": Desde manhã está chovendo.
*** Desde 1960 não ocorrem terremotos por aqui. *** Trabalhamos
desde manhã até altas horas da noite.
Na mídia: Desde "de" 1945, a Corrida Internacional de São Silvestre
vem atraindo a atenção dos meios de comunicação de todo o mundo.
*** O deputado disse que desde "de" menino tem fascínio pela Academia
Brasileira de Letras. *** Desde "de" 1985, o São Paulo não chegava àfase
final do campeonato paulista. *** Desde "de"janeiro de 1994, criança
nascida na França não é automaticamente francesa. * * * A equipe do São
Paulo não consegue uma vaga na Libertadores desde "de" 1994. *** Dados
da Unicamp indicam que o índice de chuvas só nesta segunda-feira,
de 113,2mm, é o maior registrado no mês de fevereiro desde "de" 1926.
*** Desde "de" quinta-feira dez ônibus foram incendiados por homens
encapuzados na região de Vitória.
Certa feita, ouvimos de um garoto sem escola: Estou aqui desde "das"
seis horas da manhã.
Alguns jornalistas estão na mesma trilha...
N
NAO ERRE MAIS! 1 59
"todos" foram "unânimes"
A combinação "todos unânimes " constitui redundância, pois unânime,
por si só, já significa relativo a todos. Portanto: Todos foram concordes
com essa opinião. Ou, então: Houve unanimidade nessa opinião.
Num jornal: "Todos"são "unânimes"em afirmar que a reforma tributária
aumentará a carga de impostos.
Eis aí uma verdade. Vestida de mentira...
para "chegar" aqui, gastamos duas horas
A regra é clara: no início da frase, o infinitivo antecedido de preposição
ou de locução prepositiva varia obrigatoriamente. Portanto: Para
chegarmos aqui, gastamos duas horas. * * * Por terem chegado tarde, ficarão
de castigo. *** Em vez de irem ao cinema, eles foram ao teatro. ***
Apesar de ficares calado, conhecemos tua opinião.
Num jornal: Apesar de "possuir" hábitos diferentes, os pirilampos e
vaga-lumes têm características diferentes.
Noutro jornal: Para "evitar" as invasões, os fazendeiros começam a
se armar.
A revista Veja trouxe na ed. 1.808 uma matéria sobre casamento homossexual.
Abriu-a assim: Até algum tempo atrás, para "encontrar"amigos
e "namorar"sem ser molestados, os gays se isolavam em guetos.
No meio da matéria ainda se leu: Em vez de "manter" o confinamento
como técnica de defesa, os gays começam a se expor, a se exibir, a emergir.
Na edição 1.818 da mesma revista, escreve um de seus colaboradores:
Antes de "chegar"ao poder, os parlamentares lulistas criticavam a participação
brasileira na Estação Espacial Internacional. Agora mudaram de
idéia.
Todos nós, um dia mudamos...
Noutra de suas edições, trouxe: Antes de "condenar" os brasileiros
que tentam realizar seu sonho de obter um curso superior fora do país,
precisamos entender o porquê dessa escolha.
O infinitivo só não varia, quando aparece depois do verbo principal.
Por exemplo: Gastamos duas horas para chegar (ou chegarmos) aqui. ***
Eles ficarão de castigo, por ter (ou terem) chegado tarde. * * * Eles foram
ao teatro, em vez de ir (ou irem) ao cinema. * * * Conhecemos tua opinião,
apesar de ficar (ou ficares) calado.
Mesmo em tal situação, o infinitivo varia obrigatoriamente, se for
pronominal ou se exprimir reciprocidade ou reflexibilidade de ação:
Gastamos duas horas para nos dirigirmos até lá. * * * Eles relutaram muito
para se cumprimentarem. *** Foram até um canto da sala, a fim de se
pentearem.
Eis, porém, como escreveu um jornalista: Daqui a pouco vão demonizar
o direito de as pessoas "se apaixonar".
Tenho especial admiração por Diogo Mainardi. Sobretudo porque ele
não tem papas na pena. Nem na língua (para quem assiste a Manhattan
N NÃO ERRE MAIS! 1 59
Connection). Mas há um senãozinho neste seu texto, que não posso deixar
de registrar: Houellebecq definiu o Brasil como uma porcaria de país. Foi
antes das comemorações do Ano do Brasil na França. Imagino que agora,
depois de nos "conhecer" melhor, todos os franceses compartilhem essa
opinião.
Depois de nos conhecerem melhor, Diogo, todos os povos vão aprende r
com quantos paus se faz uma corrupção.
células-tronco
Os substantivos compostos formados por dois substantivos, quaisquer
que sejam eles, fazem o plural, no portuguê s contemporâneo, de
preferência, com variação dos dois elementos. Portanto: bananas-maçãs,
pombos-correios, decretos-leis, cafés-concertos, amigos-ursos, canetas-
-tinteiros, horas-aulas, papéis-moedas, salários-famílias, vales-transportes
e, naturalmente , células-troncos. Mas absolutament e não há erro nos
plurais com variação apenas do primeiro elemento. Em relação a célula-
-tronco, parece que o plura l preferido entre nós é o que varia apenas o
primeiro elemento.
EM TEMPO - Quando se trata de um determinado decreto-lei, de um decreto-lei
específico, usa-se com iniciais maiúsculas: Decreto-Lei n.° 3961.
Dó gosto de ver esse time jogar!
Frase de cunho eminentement e popular, a exemplo de Agora ela inventou
de ser tribalista! A norma culta prefer e frase s assim: Dá gosto ver
esse time jogar! *** Deu gosto assistir àquele jogo! *** Dá gosto viver
num país como aquele!
A inclusão da preposição de nesses casos, sem dúvida, realça a comunicação.

A cena se passa em 1964
Para nós, brasileiros, sempre será preferível a próclise, ou seja, a colocação
antes do verbo. Nós temos especial predileção por tal colocação.
Por isso, se passa prevalece sobre passa-se, que é a colocação preferida
dos portugueses.
Eis outros exemplos: As crianças se acostumaram aqui. (Português
do Brasil.) *** As crianças acostumaram-se aqui. (Português luso.) ***
O rapaz se perdeu. (Português brasileiro.) *** O rapaz perdeu-se. (Português
de Portugal.) *** O carro se atolou. (Português do Brasil.) *** O
carro atolou-se. (Português de Portugal.)
Qualque r das colocações é absolutament e correta, o problema aí é só
de conforto. Ou de hábito, preferência .
mulher que "apaixonou-se" por mim
No caso anterior dissemos que o brasileiro prefer e a próclise. É de
todos sabido, ademais, que a palavra que - em qualque r funçã o - atrai o
N NÃO ERRE MAIS! 1 163
pronome oblíquo, ou seja, exige a próclise. O assunto se aprende lá pela
sétima série do ensino fundamental. Mas ainda há os que não aprenderam.
Ou não conseguiram passar para a oitava. Numa publicação distribuída
por uma folha de São Paulo, leu-se no verbete resina: polímero
natural ou sintético que "torna-se"viscoso ao ser submetido ao calor.
"pixote"
Foi uma grande pexotada de um cineasta argentino quando rodou
um filme com este nome. Sim, porque em português, a grafia é pexote (da
locução chinesa pe xot = não sei). Certos dicionários registram "pixote",
mas isso não faz nenhuma diferença: uma pexotada a mais, uma pexotada
a menos, não vai alterar muita coisa. O cineasta deve ter consultado
esses dicionários antes de colocar nome no seu filme. A pexotada começou
justamente aí.
EM TEMPO - Convém ressaltar que, embora devamos escrever pexote, a
pronúncia pode ser pixote, da mesma forma que estamos autorizados a
dizer também minínu, mixirica, marcineiro, etc.: a vogai e pretônica ou
postônica normalmente se reduz, ou seja, soa i.
encarar "de frente" os problemas
Seria interessante se encarasse os problemas "por trás" ou "de
lado"...
A cara de pessoas e animais fica - por enquanto - na frente. Ou
não? E há, ainda, os que usam enfrenta r "de frente" !
Os jornalistas que já estão no futuro escrevem: Metido numa crise
econômica sem precedentes, o país não conseguirá adiar indefinidamente
a hora de encarar "de frente" os problemas que hoje estão postos "à"
mesa.
Vamos encarar a frase do jornalista com bastante isenção de ânimo:
quando as autoridades se reúnem, elas põem os problemas na mesa, e não
"à"mesa. As pessoas, sim, é que ficam à mesa, isto é, próximos dela.
pretérito imperfeito pelo futuro do pretérito
Esse é um uso comum, na língua falad a despretensios a (registro
coloquial).
Não se usa, todavia, o futuro do pretérito pelo pretérito imperfeito
do subjuntivo, como se viu no editorial de importante revista semanal de
informação, ed. 1.626: A confusão em torno da reforma tributária trouxe
uma revelação assombrosa. Em nenhum momento o governo empenhouse
genuinamente na produção de um texto de reforma eficaz, que "permitiria"
desonerar a produção industrial e modernizar o atual sistema de
tributos.
Se o redator usasse dois-pontos no lugar do primeiro ponto; se o redator
empregasse permitisse, em vez de "permitiria"; se o redator usasse,
de preferência, a próclise, como é do feitio do português do Brasil (se emN
NÃO ERRE MAIS! 1 59
penhou), talvez o editorial fosse mais palatável.
Sobre o emprego dos tempos, modos e forma s nominais, consulte
Nossa gramática contemporânea, da Escala Educacional.
a estas horas
A expressão é a estas horas, e não "as estas horas" , como quis certa
feita um jornalist a esportivo, que escreveu: Os dirigentes corintianos devem
estar dando sonoras gargalhadas "as "estas horas.
Há quem costuma dar sonoras gargalhada s justament e quand o lê
jornais...
"Bixiga"
Cacografia. Em São Paulo existe um bairro cujo nome é Bexiga (que
os jornalista s chamam "Bixiga"). Além desta cacografia, os jornalista s
cometem outras. Por exemplo: "Wenceslau Braz","Bra z Cubas" , "Casemiro
de Abreu","Campo s Elíseos"e outros milhares delas, em vez de Venceslau
Brás, Brás Cubas, Casimiro de Abreu, Campos Elísios.
Um terço / dois terços
Os números fracionários exigem concordância normal, ou seja: Um terço
dos nossos bens ficou com o advogado. * * * Dois terços dessas propriedades
serão leiloados. *** Somente um quarto das nossas terras éfértil. ***
Dois quartos da lavoura foram dizimados pela nuvem de gafanhotos.
Na mídia: Dois terços da população brasileira "passa"fome. *** São
Paulo está tomada por vendedores ambulantes: só no centro "estão" um
quarto deles. *** Somente um quarto dos votantes "compareceram"às urnas.
*** Menos de um quarto dos interrogados (24%) "disseram"que confiam
mais em Bush, enquanto 63% afirmaram sua preferência por Powell.
Eis, agora, como escreve um economista, ao concluir uma pesquis a
sobre a economia do livro no Brasil, encomendada pelo BNDES: Pelo
menos um terço das compras de livros de qualquer biblioteca deveria ser
"feitas " em livrarias regionais, do próprio estado, para fortalecer o varejo
local. Ou seja: acertou no cravo, mas se afundo u na ferradura...
Por fim, no editorial de um jornal: Cerca de um quarto dos brasileiros
"são analfabetos".
Vê-se...
"elefoa"
Há muit a criança que na escola aprende que o feminino de elefante é
"elefoa". O feminino de elefante é um só: elefanta. E mais nenhum outro.
Quem usa aliá também se equivoca.
Não obstante, continuam existindo professore s por este Brasil afor a
que ensinam a seus alunos que o feminino de elefante é elefoa ou aliá.
Também já ouvi professor ensinar que o feminino de sapo é"rã" . Deixe a
sapa saber disso...
N NÃO ERRE MAIS! 1 165
sentinela
Sentinela é nome sobrecomum, a exemplo de pessoa, criança, etc., ou
seja, usa-se a sentinela sempre, tanto para o homem quanto para a mulher:
A sentinela se chamava Ivã. *** Hersílio era a sentinela mais atenta
de todas.
Num jornal: Era noite. Na entrada, só "um"sentinela. Manuel Fernandes
reduziu a marcha, se aproximou devagar e gritou: - Viva a Fidel
Castro! Entediado, "o"sentinela respondeu, em voz baixa: - Viva!
Ainda chegará o dia em que leremos nos jornais: "um pessoa", "um
criança". É só uma questão de tempo.
EM TEMPO - Até a saudação estava errada. Em vez de Viva "a" Fidel
Castro! deveria estar: Viva Fidel Castro!
Dois "Corso" e três "Fiesto"
É assim que sai nos jornais. Alguns jornalistas acham que nomes de
automóvel não se pluralizam. Achar não ofende (mas o que incomoda não
é brincadeira)...
Só os nomes de fábrica é que não sofrem variação no plural. Ex.: veículos
Ford, automóveis Toyota, carros Fiat, dropes Dulcora, tintas Coral,
tintas Suvinil.
Substantivados, os nomes de veículo sofrem flexão normalmente: os
Corsas, os Fiestas, os Gols, os Astras, os Golfs, os Clios, os Pólos, etc. Mas
não sofrem variação quando aparecem assim: os automóveis Corsa, os
veículos Fiesta, os carros Gol, os aviões Brasília. Por quê? Porque a flexão
numérica já foi satisfeita no substantivo anterior.
Recentemente foi exibido um filme com este nome: Os irmãos Carade-Pau.
Se fosse omitida a palavra irmãos, esse mesmo filme teria este
nome: Os caras-de-pau. O princípio é o mesmo, quando se trata de nomes
de veículo. Só resta nortearem-se por ele. Creio que não é tão difícil.
Uma revista especializada em automóveis traz isto, ao analisar o
novo modelo BMW, série 5: Na Alemanha, nos trechos com velocidade liberada
foi possível chegar aos 200km/h. Mas, assim como surgiam "Porsche"
para nos empurrar, vez ou outra apareciam "Astra" nos forçando a
desacelerações fortes, nas estradas.
São jornalistas, naturalmente, que estão mais para Astras que para
Porsches...
mico
Esta palavra não varia, quando usada como adjetivo, por desagradável
ou que impressiona mal. Quando vamos a uma concessionária de automóveis,
vêem-se veículos de todas as cores, das discretas às mais ousadas. A
verdade é que estas, anos mais tarde, acabam dando alguma dor de cabeça
ao dono do carro, que sente dificuldade em revender seu veículo.
Um carro que tenha a cor de mostarda, por exemplo, quando novo,
parece o céu! Na hora de vender, é o inferno!
N NÃO ERRE MAIS!
1 59
Numa revista especializada em automóveis: O Classe A vende bem
em cores sóbrias, como prata, cinza e preto, mas encalha nas três cores
"micos ": verde tropical, vermelho vulcânico e azul marítimo.
Mas, afinal, quem é que está pagando o maior mico?
Que "tal" meus filhos? Não são lindos?
Não. Tal varia nesse caso: que tais meus filhos?, que tais meus planos?;
que tais meus novos óculos, Esteia?
Machado de Assis, o maior nome da literatura brasileira, fornece-nos
um exemplo em Quincas Borba: D. Tônica confessava-lhe que tinha muita
vontade de ver Minas, principalmente Barbacena. Que tais eram os ares?
Houve uma época em que uma escola de São Paulo anunciava assim:
Colegial tradicional? Colegial técnico? Que "tal"os 2 juntos?
Que tais os dois, mas em outra escola?
Tempos depois, a escola faliu. Não foi sem justiça.
os "Kennedy"
É o chamado plural à jornalista brasileiro, que, em vez de atentar
para as regras da língua portuguesa, prefere copiar o que existe na língua
francesa. Em francês é que os nomes próprios não vão ao plural; em
português não. Mas os jornalistas brasileiros apreciam muito escrever
justamente em outra língua.
Certa vez, uma famosa rede de televisão levou ao ar um programa a
que deu este nome: Os "Kennedy"não choram. Os Kennedys podem não
chorar, mas não faltou gente que chorasse durante o programa inteiro...
Uma revista semanal de informação, pertencente à mesma organização,
trouxe na capa da sua ed. 58: Os "Matarazzo"- ascensão e queda de
um império.
Toda revista tem também sua ascensão e queda.
Outra revista de informação, mais antiga, trouxe: Uma tragédia atingiu
o clã dos "Safra"na semana passada.
Tragédia na língua, ali, é semanal.
Na mesma revista: A saga dos "Matarazzo".
No caderno especial de uma folha paulistana: O Museu de Arte Moderna
(MAM) foi criado pelos "Matarazzo", "arquirrivais" de Chateaubriand.

E se fosse arqui-rivais? Não seria um pouquinho melhor?
Nomes e sobrenomes portugueses vão ao plural normalmente; os estrangeiros
ganham apenas um s, mas jamais devem ficar absolutamente
invariáveis (e gramático que advoga a não-variação, neste caso, se equivoca
em grande estilo). Portanto: os Josés, as Luísas, os Joões, as Raquéis,
as Esteres, os Ademires, os Rauis, os Aníbais, os Machados, os Matarazzos,
os Rangéis, os Amarais, os Vidais, os Kennedys, os Bushs, os Bopps,
os Chopins, os Disneys, etc.
N
N NÃO ERRE MAIS! 1 167
Eça de Queirós (os jornalistas conhecem?) é autor de Os Maias, e não
de "Os Maia"; em São Paulo existe a Rua dos Gusmões e a Rua dos Andradas.
Ou os jornalistas passam pela Rua dos "Gusmão" e pela Rua dos
"Andrada"? A verdade é que os jornalistas de hoje, além de absolutamente
incoerentes, não têm capacidade de cotejar. Não espere deles o que se
lhes afigura impossível de darem.
O mais curioso disso tudo é que esses mesmos jornalistas que estupidamente
se recusam a flexionar nomes próprios e sobrenomes, escrevem:
Os Simpsons estão de volta.
Se o nome ou o sobrenome já termina em -s ou em -z, fica invariável,
com exceção de Luís, que faz no plural Luíses: os Quadros, os Rodrigues,
os Vaz, os Moniz.
Nossos jornais trazem, todavia, diariamente: "os Sampaio","os Toledo","os
Matarazzo","os Suplicy", etc. Certa vez, leu-se num deles: Muitas
"Maria" e muitos "João" vivem pelos cantos, pelas escadas ou corredores
das repartições públicas lamentando-se dos baixos salários.
Tudo isso é muito lamentável...
No site do Correio Braziliense: "Os Silva" vêm aí. Tios e primos do
presidente petista viajarão 36 horas, entre Caetés (PE) e Brasília, para
assistir "o"parente ilustre receber a faixa presidencial.
Dois erros primários em três linhas. Mas eles continuam publicando
seus manuais de redação, arrogando-se o direito de legislar em língua
portuguesa! E esse mesmo jornal ainda divulga, de tempos em tempos,
pérolas de jornalistas pelo seu site. Que tais as suas próprias?
Beijar recém-nascido provoca "sapinho"?
Não, provoca sapinhos, coisa bem diferent e de sapinho (sapo pequeno).

Sapinhos são afta s que costumam aparece r na mucosa bucal dos
bebês.
Certa feita, um de nossos jornais apresentou uma reportagem que
recebeu o singelo título de Magia do beijo. Esta foi a afirmação da garota
entrevistada: O beijo é uma troca de amor, depende de onde, quem e
como se está beijando. Tive beijos envolventes e revoltantes. O envolvente
aconteceu aos onze anos. Estávamos lendo gibi no quarto. De repente nos
olhamos e nos beijamos, foi muito para minha cabeça. Depois, beijei um
garoto que eu não gostava, mas que beijava muito bem. E o revoltante
aconteceu com o Filipe. Foi dramático, me deu até "sapinho".
Dramático MESMO! Depois desse beijo, tudo deve ter ido pro brejo...
Palácio "do" Alvorada
É incrível, mas ainda existe jornalista brasileiro que não sabe sequer
o nome correto da residência oficial do presidente da República. Dia
desses, um deles disse pela televisão Palácio "do" Alvorada, em vez de
Palácio da Alvorada.
N NÃO ERRE MAIS!
1 59
Está certo que com o novo governo, do PT, o Brasil acordou para um
novo amanhã. Mas nem tanto, não é mesmo?...
"A" Fonte Novo
O nome do estádio de futebol em Salvador, Bahia, chama-se Fonte
Nova. Ora, estádio é nome masculino. Sendo assim, como entender que
alguém jogue "na" Fonte Nova, fazendo a concordância com fonte, que
nada tem que ver com estádio?
Note que todos usamos: O jogo foi no estádio da Fonte Nova. Se
retirarmos a palavra estádio, essa frase fica assim: O jogo foi no Fonte
Nova.
Se ainda tem dúvida, caro leitor, eis exemplos semelhantes, que confirmam
essa nossa afirmação: Moro na Avenida Vieira Souto. = Moro na
Vieira Souto. *** Viajei no iate Marina. = Viajei no Marina. (Você viajari a
"na" Marina?) *** O presidente despacha no Palácio da Alvorada. = O
presidente despacha no Alvorada hoje. (Ou despacharia "na "Alvorada?)
Como se vê, a coisa é simples. Mas sempre há os que complicam.
Em Goiânia (GO) há um grande estádio de nome Serra Dourada. Até
hoje não apareceu nenhum jornalista esportivo dizendo ou escrevendo
"a" Serra Dourada. Por quê? Porque, sem embargo de estarem próximos,
ainda não chegaram ao estádio da loucura... Mas continuam insistindo
"na" Fonte Nova. Existe gente assim.
Suponhamos que exista um estádio com o nome de Princesa Isabel.
Chamá-lo-íamos, então de "a Princesa Isabel"? Os jogos seriam realizados
"na Princesa Isabel"?
Senhores jornalistas esportivos, por favor, raciocínio não dói.
Agora, caro leitor, veja a que ponto chega a "verve" dos jornalistas
brasileiros! Repare na manchete deste diário de São Paulo: Fogo no Buraco
Quente. Um incêndio ontem à tarde espalhou medo e destruição na
Favela do Buraco Quente, na Avenida Washington Luís, próximo ao Aeroporto
de Congonhas, na Zona Sul.
Ora, se se tratava do nome de uma favela, o fogo só poderia ser na
Buraco Quente.
"reverter" o quadro
É a frase da moda. Estará correta?
Médicos, economistas e tecnocratas de todas as áreas estão a inventar
uma língua própria: a asinina. Entre tantas asnices que se notam em
seu linguajar, salienta-se o emprego do verbo reverter por inverter. É
preciso "reverter"o quadro da economia brasileira. (Em vez de: E preciso
inverter o quadro da economia brasileira.) *** O governador não soube
"reverter" o escândalo a seu favor. (Em vez de: O governador não soube
inverter o escândalo a seu favor.) *** A "reversão" desse quadro é difícil.
(Em vez de: A inversão desse quadro é difícil.)
N NÃO ERRE MAIS! 1 169
"Independente" do salário, o Palmeiras descarta Edmundo
Esta foi a manchete de A Gazeta Esportiva recentemente.
O manchetista provou desconhecer que não se usa "independente"
(adjetivo) por independentemente (advérbio).
Observe estas frases: Somos um país independente. (Frase correta,
porque independente aqui é adjetivo.) *** Independentemente da vontade
dos pais, ela casou. (Aqui temos um advérbio.) *** Independentemente
do salário, o Palmeiras descarta Edmundo. (Eis a manchete que deveríamos
ter lido.)
Leu-se noutro jornal: Preservar o ambiente é dever do agricultor,
"independente"da pregação de demagogos e da ação do Estado.
E qual é o dever de todo aquele que escreve em jornais?
Numa de nossas revistas semanais, lemos esta declaração de um diretor
de escola carioca: Um bom professor é aquele que serve de exemplo,
"independente" da matéria que leciona.
Ele próprio seria, sim, um exemplo...
Um jornalista carioca sediado em Brasília escreve: Governadores,
"independente" de filiação partidária, vivem um drama: precisam apoiar
o governo federal.
Não são apenas os governadores que vivem lá seus dramas...
Um desses professores eletrônicos que pululam por aí, em resposta
à dúvida de uma consulente sobre a acentuação nos nomes próprios,
escreve: O acento não é levado em conta na caracterização do nome do
indivíduo; por isso, o melhor é sempre acentuar de acordo com a regra de
acentuação que estiver vigorando, "independente" do registro civil.
Em cada canto da rede se encontra um professor que "tira as suas
dúvidas". E deixa quantas?
"há" muito tempo "atrás"
Frase redundante. O uso da forma verbal há já indica fato passado.
Usa-se, portanto, apenas o há, ou apenas o atrás, mas não ambos na
mesma frase: Há cinqüenta anos tudo era muito diferente. *** Cinqüenta
anos atrás tudo era muito diferente.
Anuncia um grande banco nacional: Há 10 anos "atrás" todo "o"dinheiro
era de papel.
Além da redundância , usou-s e "todo o" por todo. Dinheiro traz
felicidade?
"Chove" besteiras por aí
Seria uma verdade por inteiro, não fosse o erro de concordância. O verbo
chover, usado em sentido figurado, varia normalmente: Chovem besteiN
NÃO ERRE MAIS! 1 59
ras por aí. *** Choveram asneiras nas provas de Português. *** Choverão
papeizinhos picados dos edifícios, na passagem do ano. * * * Estão chovendo
cães e gatos! *** Começam a chover gatos e lagartos! *** Vão chover propostas
para você. *** Daqui a pouco choverão telefonemas para cá.
Alguém pela televisão anunciou certa vez: "Está chovendo"bons goleiros
no Parque Antártica.
Numa revista: "Chove"pedidos dos romeiros para a santa da janela,
em Ferraz de Vasconcelos.
Na letra de uma música, ouviu-se: "Vai chover"pingos de amor.
Qualquer dia destes vão chover pingos de raiva!
A doença de Chagas é transmitida por um "mosquito"?
Não, por um percevejo, conhecido popularment e por barbeiro.
correr atrás do "prejuízo"
É outra grande criação do jornalismo esportivo brasileiro.
Quando uma equipe está perdendo o jogo, diz-se que os jogadores
têm de correr atrás do "prejuízo ".
Só derrotados podem correr atrás do "prejuízo"; vencedores prefe -
rem correr atrás da vantagem ou do lucro. Creio serem mais inteligentes.
Se se deseja usar a palavra prejuízo, sugiro inverter o prejuízo: O
time tomou três gols em dez minutos e agora terá de inverter o prejuízo.
antes "de" que
Não existe em português "antes de que", mas sim antes que, da mesma
forma que não existe "depois de que", mas apenas depois que: Antes que
me esqueça: venha visitar-me! * * * Depois que ele chegou, foi dormir.
N um jornal: Irritar-se é um direito dos militares como de qualquer
outro cidadão. Mas, "antes de que"pensem na tal de última saída, convém
uma ajuda-memória.
Irritar-se é, de fato, um direito de qualquer cidadão.
confessar-se perante "a" Deus
A preposição perante dispensa a companhi a de outra preposição:
Confessar-se perante Deus. *** Perante o juiz, confessou tudo. (E não:
Perante "ao" juiz... ) *** Perante Deus, estou em paz. (E não: Perante "a"
Deus... )
No site do Jornal do Brasil se leu logo no primeiro dia do ano, que é
par a ir já se acostumando: Lula tomou posse efez juramento perante "à"
Constituição.
mediante "ao" documento apresentado
Caso idêntico ao anterior. O uso de mediante dispensa a presença de
outra preposição: Mediante o documento apresentado, pude entrar. Mediante
a nota fiscal na mão, pude lacrar o veículo.
1 171 NÃO ERRE MAIS!
Numa revista de automóveis, um leitor escreve aborrecido: Não havia
peças para solucionar o problema do meu carro. Imediatamente foi feito
um pedido de urgência à fábrica. Mediante "a"isso, recorri à agência...
Mediante isso, temos uma sugestão ao leitor: recorra a uma boa
gramática !
"uma" jacaré fêmea
É bicho que não existe. Ao menos na Terra.
Jacaré é nome epiceno, ou seja, não tem seu gênero alterado para indicar
mudança de sexo; basta o acréscimo das palavras macho ou fêmea.
Portanto: o jacaré macho, o jacaré fêmea.
Da mesma forma: o leopardo macho, o leopardo fêmea; a pantera
macho, a pantera fêmea; um crocodilo macho, um crocodilo fêmea; uma
águia macho, uma águia fêmea.
"uma" gorila
É outro bicho que não temos. Gorila também é nome epiceno; sendo
assim, usamos: o gorila macho, o gorila fêmea; um gorila macho, um gorila
fêmea.
Certa feita, anunciou-se num telejornal: Koko, "uma"gorila, aprendeu
a linguagem dos surdos-mudos.
Pois é. Até um gorila fêmea aprende...
nenê / neném
As duas formas existem. Ambas são masculinas. Ou seja: mesmo que
se trate de uma menina, é o nenê ou o neném.
É nome sobrecomum, a exemplo de indivíduo e ídolo: Meu neném
não é lindo? O nome dele é Isadora. *** Como se chama seu lindo nenê:
Susana? *** Então, é menina o nenê que acaba de nascer?
Se usarmos o diminutivo, teremos nenezinho: Meu nenezinho não é
lindo? O nome dele é Isadora. *** Como se chama seu lindo nenezinho:
Susana? * * * Então, é menina o nenezinho que acaba de nascer?
Certa feita, uma empresa multinacional lançou anúncio pela televisão
no qual falava em "a"nenê.
Coincidência ou não, pouco tempo depois acabou falindo!
bebê
Também é nome sobrecomum: usa-se o bebê tanto para o menino
quanto para a menina: Lurdes era um bebê bonito. * * * Como é o nome do
seu bebê: Cassilda ou Jeni? *** Então, é menina esse seu lindo bebê?
Se usarmos o diminutivo, teremos sempre bebezinho (e nunc a
"bebezinha").
Certa feita, uma grande fábrica de brinquedos nacional lançou uma
boneca e lhe deu o nome de "Bebezinha".
Já nasceu com uma estrela ruim!...
N NÃO ERRE MAIS! 1 59
plural de meia-noite
É meias-noites, assim como o plura l de meio-fio é meios-fios.
O apresentador de um famoso telejorna l disse, certa vez: Sexta-feira
13: um dia de vinte e cinco horas e duas "meia-noites" marca o fim do
horário de verão.
Quando se fal a em sexta-feira , 13, e ainda em meia-noite, só pode
mesmo haver turbulências.
judaico = judeu?
Não. Judaico se aplica às coisas judias: religião judaica, literatura
judaica, história judaica, arte judaica.
Judeu, de feminino judia, se aplica a pessoas: governo judeu, cidadão
judeu, estudante judeu, mulher judia.
Recentemente, uma repórte r de televisão falou em "tanque judeu" .
Ou seja, o que ela quer é guerr a mesmo...
lâmpada "florescente"
Não existe este tipo de lâmpada. O que temos à disposição é a lâmpada
fluorescente, a que muitos também chamam "fosforescente" , sem sê-lo.
Petrobras
Sem acento gráfico, porque as siglas não necessitam dele: Petrobras,
Telebras, Radiobras, Eletrobras, Proalcool, Sesi, etc. Alguma s empresas
contrariam essa norma e usam o acento. Desnecessariamente .
como "sendo"
Não existe esta combinação em nossa língua, na qual "sendo" apare -
ce sem nenhuma necessidade.
Frases de jornalistas: Os invasores alemães derrotaram o glorioso
exército francês, considerado "como sendo" o mais forte do mundo. ***
Todas as pesquisas de opinião indicavam Ciro Gomes "como sendo" o
adversário mais difícil na campanha. *** Eu vejo o fato "como sendo" importante
para o país. *** Roberta foi criada "como sendo "uma das filhas
de Vilma. *** A vítima foi identificada "como sendo" um mascate conhecido
na região. *** A foto da cobra exibida "como senão" uma jibóia é,
na verdade, uma salamanta-do-sudeste. *** Não são poucos aqueles que
encaram a cegueira "como sendo" uma condição limitadora, ou mesmo
incapacitadora.
Sendo tão ruins assim, como lê-los?
chamar-se
É pronomina l (ter por nome): Eu me chamo Luís, ela se chama Beatriz,
nós nos chamamos Manuel.
Há um famoso, antigo e já cansado animador de televisão que só pergNu
nta: Como você "chama"?
N NÃO ERRE MAIS! 1 173
pé de "jabuticabeira"
Jabuticaba , morment e a cultivar sabará, é uma frut a muito gostosa,
principalment e quando saboreada no pomar. Ao pé de jabuticaba . Ou,
então, à jabuticabeira . Já ao pé da "jabuticabeira" , a frut a me parece
meio azeda...
Os quintais saudáveis costumam ter pé de manga, pé de abacate, pé
de laranja, etc. Ou, então, mangueira, abacateiro, laranjeira, etc. Quem
tem pé de "mangueira", pé de "abacateiro" ou pé de "laranjeira", que não
dê muda s pra ninguém!...
Esse menino é o pai, cuspido e escarrado1
.
Esta é a frase popular, mas a original é outra: esculpido e encarnado.
O povo, contudo, que nada ou pouco entende de escultura e encarna -
ção, mudou a expressão a seu bel-prazer, par a cuspido e escarrado, que
até acabou vingando. Há os mais corajosos que dizem "guspido e escarrado"
. Os radicais, todavia, preferem "guspido e cagado" , o que complica
muito o quadro.
Não faz muito, ouvi uma maldade: Quando criança, essa menina era
a tia, "cuspida e escarrada"; agora é o tio "guspida e cagada".
Percebeu a maldade, caro leitor?
Ao longo da vida, a par de "guspido e cagado" tenho ouvido muita s
outras pérolas, entre as quais atestado de "órbita"(em vez de atestado de
óbito); poço "cartesiano" (em vez de poço artesiano); antena "paranóica"
(em lugar de antena parabólica); "assustar" o cheque (em vez de sustar
o cheque); aos "troncos" e "barroncos" (em vez de aos trancos e barran -
cos); bebê de "trombeta" (em vez de bebê de proveta); ficar em estado de
"cômoda" (em vez de ficar em estado de coma); professor "jipe" (em vez
de professor hippie); levar a filha ao "pediatra", para ver o que tem no pé
(em vez de levar afilha ao ortopedista); estar com "a pênis estuporada"
(em vez de estar com o apêndice supurado); a situação está "periquitante"
(em vez de periclitante), dos males, o "melhor" (em vez de dos males, o
menor) e ainda há pouco, de um presidente da câmara: A esperança é a
única que morre.
A última foi esta, dia desses: Ela me ofendeu com palavras de baixo
"escalão ".
acne
Ninguém duvida de que essa palavra é feminina: a acne, as acnes,
uma acne, umas acnes, duas acnes. Todo adolescente sabe quanto incomodam,
física e espiritualmente , as acnes.
Na Folha de S. Paulo, todavia, uma leitora quer saber o que é exata -
ment e acne. Um professor da Faculdade de Medicina da USP responde:
"O"acne é uma enfermidade cutânea do folículo "pilo-sebáceo"freqüente
na adolescência, podendo ocorrer também em outras faixas etárias. "O"
acne vulgar tem um componente genético muito importante.
N NÃO ERRE MAIS!
1 59
É preocupante ver um catedrático da mais conceituada universidade
do paísusar "o"acne e "pilo-sebáceo", quando o mundo só conhece a acne
e pilossebáceo.
Velocidade máxima: "80 KM"
É impressionante o número de equívocos encontrados nas placas de
nossas rodovias, sinal de profundo desrespeito não só ao motorista, como
também à língua. Com que autoridade um órgão pode exigir obediência,
se não tem respeito a coisa nenhuma?
Os símbolos das unidades de medida nunca se escrevem com maiúsculas.
E limites de velocidade se indicam assim: km/h, e não apenas"km" .
Portanto, velocidade máxima: 80km/h. (Note: sem espaço.)
Encontram-se muitos avisos sem autoridade nas rodovias brasileiras.
Mas pedágios há aos montões. E como sabem cobrar!
que nem
Só se usa corretamente quando há indício de idéia consecutiva na
segunda oração. Assim, por exemplo: Fiquei vermelho que nem pimentão.
= Fiquei vermelho que nem pimentão é tão vermelho. *** Vim rápido que
nem um foguete. = Vim rápido que nem um foguete viria tão rápido. * * *
0 ministro ria que nem hiena. = O ministro ria que nem hiena ria tanto.
Não havendo essa idéia na segunda oração (que geralmente é elíptica),
usar-se-á como, ou, então, igual a e até feito: Não seja como (ou igual
a ou feito) seus amigos: preguiçoso. * * * Minha namorada é como (ou igual
a ou feito) gasolina: cara, mas pega fogo por qualquer coisinha!
Certa vez, fez-se um anúncio assim: Oferta da Fotoptica é "que nem"
missa. Todo domingo tem.
A frase verdadeiramente cristã seria esta: Oferta da Fotoptica é como
missa: todo domingo tem.
O uso do dois-pontos, no lugar do ponto, nessa frase, além de significativo,
é obrigatório.
Anúncios há que são uma verdadeira contrapropaganda.
férias
É palavra só usada no plural, que exige todos os determinantes e
modificadores também nesse número: férias escolares, boas férias, férias
coletivas, férias anuais, férias remuneradas, etc.
Recentemente, perguntaram a uma ex-governadora nordestina, que
então postulava a sua candidatura à presidência da República, mas se
encontrava em recesso com os jornalistas: Como estão suas férias? A resposta
veio capenga: "'Tá boa minha férias".
1 176 NÃO ERRE MAIS!
O pessoal "gostam" da Playboy
Se o sujeito está no singular, como pode o verbo ir ao plural? Ah, o
pessoal gosta da Playboy? E da língua? Da língua o pessoal não gosta?
A turma "gostaram" do jogo
E da língua? Da língua, a turma não gostai
O casal de médicos "abandonaram" o paciente em coma
E a língua? A língua, o casal de médicos também abandonou em
coma?
Esta saiu num de nossos principais jornais: O casal de escritores
Jorge Amado e Zélia Gattai "são" também convidados especiais do
presidente.
O casal "são"V. A turma não "gostaram"...
um "quebra-cabeças"
Em nossa língua existem inúmeros substantivos que terminam em
-s e pertencem ao número singular. Ex.: lápis, pires, tênis, conta-gotas,
pára-raios, conta-giros, etc. Por causa deles, muita gente confunde alhos
com bugalhos e usa "quebra-cabeças"no singular. Gente assim, naturalmente,
também gosta de "um chopes"e de "um pasteizinho"...
Numa folha paulistana: Os novos dados são mais uma peça no "quebra-cabeças"
do nosso entendimento dos processos celulares e moleculares
associados ao envelhecimento.
Um jornalista esportivo que, em certa época, enveredou por escrever
páginas na Playboy, escreveu: Andréa Guerra resume num corpo só as
fantasias dos leitores que construíram o delicioso "quebra-cabeças "para
formar a mulher ideal.
A moça, de fato, era um exemplo de formosura, mas o tal redator cometeu
um furo tão infantil, que passou então a ser conhecido por Zezinho
Kfuro.
um "guarda-roupas"
Isto não existe. O que temos em casa (e nos bons dicionários) é um
guarda-rowpa.
O que não existe, porém, consta muitas vezes em dicionários, alguns
até aprovados oficialmente e distribuídos às nossas crianças. Um deles
define gaveteiro desta forma: parte do "guarda-roupas " onde se encaixam
as gavetas.
Talvez estribado nessa definição, declarou recentemente um estilista
sem freio na língua, num programa de televisão: Dizem que Adriane
Galisteu tem "um guarda-roupas" de 35 metros quadrados. Pra guardar
aquela porcaria?
O homem é corajoso!
N NÃO ERRE MAIS! 1 59
"repercutir" os vestiários dos dois times
Os jornalistas esportivos estão inventando mais uma das suas. Agora,
deram de usar o verbo repercutir como transitivo direto. A invenção,
como se vê, já está repercutindo.
Mas não são apenas os jornalistas esportivos os detentores de todas
as maravilhas do mundo. Não. Veja esta notícia lida na Internet: Os investidores
passaram o dia "repercutindo" a pesquisa eleitoral do Ibope
divulgada ontem.
Escreve um jornalista carioca sediado em Brasília: Congresso ainda
"repercute" a nomeação de Garotinho para secretário de Segurança do
Rio de Janeiro. A situação é delicada!
Ora, se não é...
No site de um jornal: O mercado "repercute"o discurso anual do presidente
dos Estados Unidos: o dólar iniciou o dia cotado a R$3,678.
Na Veja 1.907: Os linkers usam seu blog para "repercutir" as informações
que veiculam na imprensa.
Jornalista de revista séria não pode usar esse verbo assim.
Uma das apresentadoras de um telejornal saiu-se com esta: O mercado
"repercute"hoje a alta da taxa Selic, decidida ontem pelo Copom.
O mal se propaga mesmo com grande facilidade.
Nem mesmo o dicionário do entulho, que traz "tira-teima", "todo
mundo" e até o verbo sobressair como pronominal, registra repercutir
nesse sentido.
Como se vê, o caso é grave mesmo...
carros "cinzas"
Cinza é uma daquelas palavras que, ao serem usadas como adjetivo,
na indicação da cor, não variam. Portanto: carros cinza, ternos cinza, camisas
cinza.
Num jornal: As revelações de que o general Geisel defendeu a morte
dos militantes de esquerda na guerra suja, não deslustra sua biografia,
mas servem para atenuar com tons "cinzas", uma reputação de herói da
democracia.
Como também se notou, os conhecimentos do jornalista sobre o emprego
da vírgula são cinza...
comemorativo "a"
Comemorativo se usa com de, sempre com de: Foi inaugurado na praça
um monumento comemorativo do I de Maio. * * * Foi feita uma placa
comemorativa do centenário de fundação da empresa.
N NÃO ERRE MAIS! 1 177
Pois bem, um narrador de esportes da Rede Record de Televisão, durante
a transmissão de um jogo no Maracanã, convidava-nos a todo instante
para o show comemorativo "aos"50 anos da Record.
Essa gente do esporte é incrível! Emociona. Mas também comove...
pigarro
Quem fuma , geralmente, tem isso: pigarro, que, aliás, rima com cigarro.
Algumas pessoas usam "pigarra", coisa que só afeta galináceos. Há,
ainda, os mais corajosos que dizem: Estou com "pigarra na garganta".
Primeiro, o correto é pigarro; segundo, pigarro só dá mesmo na garganta.
Ou já se viu alguém com pigarro no nariz? A frase foi ouvida de uma personagem
de telenovela, o que talvez não admire a ninguém.
atuação de "raros" brilho e vigor
Um adjetivo ou um pronome adjetivo anteposto, quando modifica
dois ou mais substantivos, concorda sempre com o elemento mais próximo.
Portanto: atuação de raro brilho e vigor; o eficiente assessor e secretárias;
a eficiente assessora e secretários; seu marido e filhos; sua mulher
e filhos; qualquer dia e mês; quaisquer dias e mês; distinta senhora e marido;
distinto marido e senhora.
Num jornal: O mercado imobiliário tem "menores" liquidez e rentabilidade
do que muitas outras aplicações.
Num editorial de jornal: O empresário fechou o ano com um protesto
de "raras "felicidade e oportunidade.
Noutro editorial, do mesmo jornal: O governador do Paraná, Roberto
Requião, parece estar fazendo o que está a seu alcance para repetir
no governo Lula o papel desempenhado na gestão Fernando Henrique
pelo ex-governador de Minas Itamar Franco. A bem da verdade, ele se
tem empenhado nisso com "tais" talento e devoção que pode criar mais
problemas ao presidente aliado do que seu modelo criou para o principal
alvo de sua ira cega e devastadora.
No dicionário do entulho, no verbete moralismo se vê na definição
de falso moralismo: comportamento, atitude que denota "falsas"adesão
e defesa de um valor moral qualquer. Nele, todavia, tudo é perfeitamente
normal...
hoje é dois de maio
Do ponto de vista gramatical, a frase merece reparos quanto à concordância
verbal, já que o verbo ser deve concordar com o numerai. A
língua cotidiana, no entanto, vê hoje como sujeito da oração, ou - mais
provável - vê oculta a idéia de dia e, assim, não leva o verbo ao plural.
Numa linguagem formal, use o plural; no dia-a-dia, opte pelo que o
povo usa.
Já na interrogação, melhor será usar o plural: Quantos são hoje?,
Quantos foram ontem?, Quantos serão amanhã?, assim como fazemos
N NÃO ERRE MAIS! 1 59
quando desejamos saber as horas: Que horas são? (Embora possa ser uma
hora.) Nunca ouvi ninguém perguntar "Que hora é?", mesmo porque, se
ouvir, não vou dar resposta...
Que horas "tem aí"?
Não. Não vá pelas invenções. Continue perguntando como se fez em
todos os tempos: Que horas são?
ele é tal "qual" os irmãos
Tal e qual são palavras que concordam com o nome a que se referem.
Se tal, nessa frase, se refere a rapaz, naturalment e não varia; mas qual
está diretamente ligado a irmãos; daí a necessidade do emprego do plural:
Ele é tal quais os irmãos.
Repare em mais estes exemplos: Esses rapazes são tais qual seu irmão.
*** Esses rapazes são tais quais seus irmãos. *** Sou tal quais essas
crianças. * * * Essas crianças são tais qual eu.
Daí ser realmente uma pena termos de cantar assim, naquela canção
que os brasileiros todos conhecemos: Teus olhos são duas gotas pequeninas,
"qual" duas pedras preciosas, que brilham mais que o luar.
Ficaria bem melhor, sem nenhum prejuízo da beleza da canção, que
estivesse quais no lugar de "qual". E, assim, com certeza, os nossos olhos
iriam brilhar muito mais que o luar...
Eis como escrevem nossos jornalistas: Muita gente tem saudade dos
tempos em que o leite vinha em litros em vez de saquinhos. Agora o leite
tipo A recuperou as garrafinhas, em embalagens plásticas descartáveis,
"tal"como as utilizadas nos EUA e na Europa. *** Os travestis, com os corpos
tratados "tal qual"as mulheres, tomaram de assalto a grande cidade.
Alguns escritores modernos não variam os pronomes, considerando
tal qual = como. Achar não ofende... O que mais intriga é que os grandes
escritores, tanto brasileiros quanto portugueses, nunca acharam...
problema difícil de "se" resolver
Não há nenhuma necessidade de usar esse "se": depois de difícil de,
fácil de, duro de, gostoso de, bom de, ruim de, agradável de, etc., a presença
desse pronome é dispensável. Portanto, use sempre assim: problema
difícil de resolver, questão fácil de contornar, osso duro de roer, automóvel
gostoso de dirigir, água boa de beber, remédio ruim de tomar, trabalho
agradável de fazer.
Escreve um leitor da revista ISTOÉ, misturando erro e ironia: Algumas
pessoas questionam se Portugal e o Brasil são países amigos ou
países irmãos. Particularmente, acredito que somos nações irmãs. E o
motivo é fácil de "se"perceber: amigos, a gente escolhe...
Certa vez, a Eletropaulo, empresa energética de São Paulo, fez publicidade
assim: A energia que você usa é muito difícil de "se" obter.
1 179 NÃO ERRE MAIS!
Puro desperdício.
Desperdício, porém, é coisa pouca, quando se apanha um dicionarista
em flagrante usando a impropriedade. Está lá, no verbete latim (que
ironia!): difícil de "se"entender. Difícil mesmo...
problemas fáceis de "resolverem"
Neste caso (adjetivo no plural + a preposição de), além de prescindir
do pronome se, a construção exige infinitivo invariável. Portanto: problemas
fáceis de resolver, mudanças difíceis de fazer; frutos fáceis de madurar;
plantas duras de desenvolver; pessoas fáceis de convencer, etc.
Um famoso político baiano declarou certa feita: Quando os princípios
são os mesmos, as coisas são mais fáceis de "acontecerem".
No Brasil, coisas assim e até muito mais cabeludas são muito fáceis
de acontecer.
gravidez
Usa-se no plural, normalmente: Minha mulher teve duas gravidezes
muito difíceis. *** O tratamento que minha mulher fez a tornou sujeita a
gravidezes múltiplas. * * * Depois de passar por quatro gravidezes problemáticas,
ela resolveu fazer laqueação.
Certa vez, em visita a uma escola do Recife, uma professora de Português
disse, na sala dos professores, deixando seus colegas de olhos arregalados
(mas sem motivo): Nas minhas duas gravidezes, sofri como condenada!

Aliás, professor está acostumado a sofrer como condenado, sem necessariamente
passar por gravidezes...
alarde
Faz-se alarde sempre de alguma coisa. No editorial de uma revista,
porém, leu-se: Muito alarde se fez "com" o fato de o presidente ter sido
recebido com vaias no congresso da CUT.
Vaias? Que boa idéia!...
obedeça à sinalização!
Era assim que deveria estar nas as placas das nossas rodovias. No
entanto, o que vemos é o a sem o acento em todas as placas.
Quem obedece, obedece a alguém ou a alguma coisa. O verbo é rigorosamente
transitivo indireto, assim como o antônimo desobedecer. Veja
exemplos em que ambos os verbos estão empregados corretamente: Obedeça
aos mais velhos! *** Obedeçamos ao regulamento! *** As leis estão
assim, mas poucos lhes obedecem. *** Desobedeceu ao professor e foi
castigado. *** Quem desobedece às regras de trânsito é multado.
Os clássicos usaram este verbo como transitivo direto, e alguns de
nossos escritores contemporâneos os imitaram, talvez na ânsia de a eles
N NÃO ERRE MAIS! 1 59
se parecerem. A verdade é que na norma culta, que deve ser seguida pelos
meios de comunicação de massa (e também pelos escritores de respeito),
o verbo é transitivo indireto.
Para alguns jornalistas, a regência do verbo, porém, ainda é aquela
do tempo do Onça. Num jornal: Bagdá começou a destruição de seus mísseis,
"obedecendo um"prazo estipulado pela ONU.
Numa revista: Quem pensa que malhar é vestir bermuda, top e camiseta,
ouvir as instruções do treinador e esfalfar-se para "obedecê-las"está
enganado.
Enganado está mesmo quem?!...
Certa feita, uma fábrica de refrigerantes lançou propaganda nacional,
usando esta frase imperativa: Obedeça sua sede.
Pessoas de bom-senso, naturalmente, não obedeceram à sugestão.
"ha!, ha!, ha!"
Gargalhada se representa graficamente de outra forma: ah!, ah!, ah!,
e não "ha!, ha!, ha!", como fazem certos jornalistas. Podemos empregar,
ainda, quá-quá-quá!, que é justamente o que muitos deles nos provocam
diariamente.
"à" esta altura dos acontecimentos...
A esta altura dos acontecimentos, podemos dizer que nada vai bem
no quartel de Abrantes...
Antes do pronome demonstrativo esta não se usa o acento grave, porque
não pode haver crase. Mas os jornalistas do quartel de Abrantes continuam
usando-o.
o valor dos aluguéis "caíram" em São Paulo
Frase ouvida num famoso telejornal nacional. Trata-se de um erro de
concordância muito comum, principalmente entre os que não têm noção
de análise sintática, que não têm noção da estrutura da própria língua
que falam.
Se o núcleo do sujeito {valor) está no singular, o verbo tem de estar
no singular; não importa que o adjunto (dos aluguéis) esteja no plural,
porque os adjuntos não interferem na concordância verbal.
Por isso, o que todos deveríamos ter ouvido (até por sinal de respeito)
seria esta frase: O valor dos aluguéis caiu em São Paulo.
Eis outra demonstração de desrespeito de outro telejornal: A organização
dos Jogos Olímpicos "foram"um desastre!
Falar em desastre a esta altura não é mera coincidência.
N NÃO ERRE MAIS! 1 181
Roraima fica "ao" norte do Brasil?
Não. Roraima fica no Norte do Brasil. Da mesma forma: A colônia
alemã está concentrada no Sul do Brasil. * * * A menor incidência de chuvas
ocorre no Nordeste brasileiro.
Agora, repare nestoutros exemplos: O Uruguai é um país que fica a
(ou ao) sul do Brasil. * * * A Venezuela é um país localizado a (ou ao) norte
do Brasil.
Ninguém mais duvida que o Uruguai fica ao sul do Brasil: afinal, a
Província Cisplatina já não nos pertence faz algum tempo. É certo, da
mesma forma, que a Venezuela é um país localizado ao norte do Brasil: se
estivesse situada no Norte do Brasil, teríamos petróleo em abundância, e
não pagaríamos tão caro por uma gasolina ordinária como a nossa.
Numa enciclopédia distribuída pela Folha de S. Paulo, no verbete Ribeirão
Preto se lê: Cidade localizada "ao"norte do Estado de São Paulo.
Ora, ao norte do Estado de São Paulo fica Minas Gerais!
emprestar
Quem cede empresta: Emprestei um livro a ela. *** Ela emprestou a
caneta a uma colega.
Quem se beneficia do empréstimo pede ou toma emprestado: Tomei
emprestado o carro dele. *** Pedi emprestada a tesoura. *** Tomei mil
reais emprestados a Sigismundo.
Numa revista: O horizonte "a" longo prazo é turbulento para as
empresas que "emprestaram" dinheiro para voar. Quer dizer, então,
que as quase falidas companhia s de aviação nacionais estão emprestando
dinheiro?
Note, ainda, que se usou "a"longo prazo.
bater "palma"
Bater palmas é mais gratificante. Há apresentadores de televisão que
pedem uma salva de "palma"para seus convidados. Por que não pedem
também uma rajada de "tiro"? Não há diferença nenhuma...
"Possa" ser que amanhã eu viaje
"Possa"ser é uma expressão corrente em certas regiões nordestinas,
principalmente da Bahia, onde é comum ouvirmos: "Possa"ser que amanhã
faça sol. *** "Possa"ser que eu vote nesse candidato.
Na deliciosa e simpática Salvador pode ser que haj a muitos brincalhões.
Pode ser...
Bem ou "má", a legislação existe
Não. O antônimo de bom é mau\ o de bem é mal. Assim, não se leva
em conta o gênero de legislação, porque não se tem aí um adjetivo, mas
um advérbio (bom é adjetivo; bem é advérbio). Bem ou mal, a explicação
está dada.
N NÃO ERRE MAIS! 1 59
A frase acima foi ouvida na televisão, num desses inúmeros programas
de entrevista, em que saem mais "largatos" que lagartos...
Há pessoas que sentem enorme dificuldade no uso de mau ou má e
mal. Um ex-jogador de futebol, tricampeão do mundo, comenta agora
pela televisão: A defesa do Palmeiras está "má"posicionada. *** Eu já
falei sobre o "má"posicionamento dessa defesa. De vez em quando, solta
lá seu "dibrar" e seus "dibres".
Bola e língua são, positivamente, coisas incompatíveis.
"mais diferente do que"
Isto é brincadeira, mas já aconteceu! Um grande zagueiro do nosso
futebol, titular da seleção brasileira em 1978 e 1982, declarou: Jogo decisivo
é "mais diferente do que" os outros.
Ora, o que é diferente, é diferente. Basta. Pra que "mais"? E "diferente
do que"é linguagem de criancinha.
Bola e língua nunca se deram bem, já é tradição.
"os" 0,5% de juros da caderneta de poupança
Se nem mesmo 1 é plural, que se dirá, então, de meio?
Para alguns jornalistas, no entanto, 1 é plural (e muito plural!). Repare
nas suas frases: O ganho real do aplicador em caderneta de poupança
está restrito apenas "aos"0,5%. *** Só 1,5% "tinham"algum nome de
candidato na cabeça. *** Analisou "os seus "um por cento de intenções
de voto. Ainda bem que "existem estes" um por cento de teimosos. ***
Saiu da eleição com "escassos" 1% dos votos. *** O Brasil é um dos países
onde menos se toma sorvete: 1,5 "litros"por habitante ao ano. ***
Em Brasília falta tudo: moradia, emprego, transporte, assistência médica,
segurança pública e até água para abastecer regularmente "seus" 1,7
milhão de habitantes.
Não é só em Brasília que falta tudo; em certas redações anda faltando
também muita coisa.
EM TEMPO - Podemos ler 0,5 de duas formas, indiferentemente: meio ou
cinco décimos: O meio por cento (ou Os cinco décimos) de juros da caderneta
de poupança.
ela não quis "vim"
Na verdade, vim é forma do passado (vim ontem aqui); fora daí, não
tem cabimento seu emprego. Parece-me, todavia, que essa forma corrupta
só é usada mesmo na fala, em conversa informal. Mas, mesmo na fala,
não se admite o seu emprego nos meios de comunicação de massa. Há um
comentarista de futebol, ex-jogador, que jogou em Roma e lá foi considerado
rei, que usa muito "vim" após outro verbo ou depois de preposição.
Nesse caso, é imperdoável.
Veja exemplos em que só cabe o infinitivo vir: Você não deve vir com
essa roupa tão decotada. *** Ontem eu não pude vir. *** Para vir aqui,
N
N NÃO ERRE MAIS! 1 183
não foi fácil. * * * Antes de vir a Bajé, estive em Lajes. *** Em vez de vir
com Jeni, vim com Juçara. * * * Depois de vir falar comigo, ela foi falar
com Lurdes.
Repare que, se trocarmos o verbo vir por ir, teremos sempre: Por
que ela não quis ir? *** Ontem eu não pude ir. *** Para ir até lá não
foi fácil.
Alguém usaria "im"no lugar de ir?
super-interessante
Não: superinteressante. É assim que se escreve. O prefixo super- só
exige hífen antes de h (super-homem) e r (super-rápido).
Há uma ótima revista nacional com este nome. Repare, porém, como
está na capa. Não é superinteressante? Mas não é superinteressante.
hiper- = super-?
Sim, são prefixos que exigem hífen antes das mesmas letras (h e r:
hiper-humano, hiper-rancoroso) e têm o mesmo significado: hiper- vem
do grego; super-, do latim.
Há, no entanto, uma tendência moderna de conferir a hiper- uma noção
de superioridade, em relação a super-. Assim, um hipermercado seria
um supermercado gigante, com muito mais ofertas de mercadorias que o
supermercado.
Apesar de não ter nenhum fundamento lingüístico, tal diferenciação
está se consolidando.
"Daqui um" pouquinho estaremos de volta
Frase típica de apresentador de programa de televisão, antes de um
intervalo comercial.
Ora, não se usa daqui sem o apoio da preposição a: daqui a um pouquinho
estaremos de volta, daqui a um pouco eu vou, daqui a três minutos
começa a aula, daqui a um minuto estaremos de retorno.
Frase de um jornalista: Cientistas fazem simulação de como seria o
mundo "daqui milhões"de anos sem a existência dos seres humanos.
Pior foi o que disse um apresentador de esportes de famosa rede de
televisão: O jogo "terminou daqui um pouquinho".
Daqui "em" Criciúma é longe!
Quando se usa a preposição de (presente em daqui), usa-se automaticamente
a preposição correspondente, que é a, e não "em": Daqui à praia
são duas quadras. *** Você sabe qual é a distância exata daqui à Lua?
Mais triste do que usar daqui "em"é empregar daqui "há", como se
viu no site do Terra: O carro da Volkswagen deve parar de ser produzido
no país daqui "há"alguns anos.
Daqui a alguns anos, essa gente ainda vai acabar escrever xalxixa...
N NÃO ERRE MAIS! 1 59
ovos "estalados"
Mais saborosos são os ovos estrelados, isto é, ovos fritos sem serem
mexidos. Não faltam boas cozinheiras que nos estrelem ovos. Então, por
que engolir os outros?
O povo usa "estalado", neste caso, por ouvir estalos, assim que os
ovos caem no óleo quente da frigideira.
Certa vez se leu num grande jornal paulistano: Esperando ovos "estalados",
os jogadores do São Paulo eram a imagem do desânimo.
Também, pudera!
"blá-blá-bló"
Há muita gente que gosta disso (até dicionarista). Há quem prefira
blablablás: é menos aborrecido.
Somos obrigado, aqui, a voltar aos dois dicionários mais conhecidos
do público brasileiro: um deles registra blablablá corretamente, e o outro
(aquele) já vem com registro duplo: blablablá e"blá-blá-blá" .
Repare, agora, caro leitor, que grande curiosidade: o primeiro dicionário
registra, no verbete anterior, blá-blá (prato da culinária de São
Tomé e Príncipe), e o segundo, blablá. Afinal, qual é o verdadeiro blá?...
Talvez por causa dessa balbúrdia é que os jornalistas se confundem
e escrevem: Para o ex-ministro da Justiça, o encontro de presidenciáveis
não passou de um "blá-blá-blá "de comadres.
A imprensa brasileira e certos dicionários estão na verdade mais
para quá-quá-quá que para blablablás.
aborígine
Muitos usam "aborígene", por influência da palavra origem. Existem
até dicionários que registram "aborígene"!
Numa revista: No final do século XVIII, quando o explorador inglês
James Cook (1728-79) ancorou o navio Endeavour na quase desconhecida
Austrália, avistou animais que chamaram a sua atenção. Quando
perguntou aos "aborígenes" que animal era aquele, um deles respondeu:
canguru, que em uma das línguas australianas significa não sei.
Há jornalistas brasileiros que vivem dizendo canguru, canguru...
ficar "no" aguardo de notícias
Será sempre mais esperançoso ficar ao aguardo de notícias, assim
como todos ficamos à espera. Nunca ouvi ninguém ficar "na" espera de
dias melhores.
Um homem verdadeiramente apaixonado, por exemplo, fica sempre
ao aguardo dela, ou seja, à espera do ser amado.
Num jornal: O país está parando "no"aguardo de definições no campo
econômico e político.
Aliás, todos estamos também ao aguardo de concordâncias mais razoáveis.
Por exemplo: campos econômico e político.
N NÃO ERRE MAIS! 1 185
rir "à medida em que" lê
Não existe a suposta locução conjuntiva "à medida em que", tão a
gosto de alguns jornalistas. O que temos é à medida que.
Frases da mídia: Forma e fundo; conjuntura e estrutura; imaginário e
real. Uma nítida diferenciação entre esses planos começa a evidenciar-se
"à medida em que"evolui o plano do governo. *** Os dentes contribuem
com a digestão "à medida em que" vão quebrando os alimentos em partes
cada vez menores. *** "A medida em que"vai aumentando os cargos
para o pessoal de São Paulo, maior será a responsabilidade de todos eles
na administração da CBF.
Nesta última, há também um elementar erro de concordância verbal:
"vai" por vão. Há jornalistas que escrevem assim. E querem ser formadores
de opinião!
Por falar em concordância verbal, eis uma notícia de jornal: Ronaldo
e a modelo se falaram por telefone e as chances de uma possível reconciliação
não "estaria" totalmente descartada. Ainda sobre concordância
verbal, eis o que trouxe um jornal especializado em esportes: Os jogadores
do Palmeiras não "terá" o convívio de suas famílias a partir "desta
segunda-feira". Afinal, o técnico Paulo Bonamigo antecipou em um dia
a concentração para o clássico. Ainda sobre concordância verbal, na melhor
revista do Brasil: Na semana passada, as exportações de petróleo
venezuelanas estavam paradas nos portos e "começava"a faltar produtos
básicos nos supermercados.
Em certos jornais, até que já se compreende a ignorância dos jornalistas
sobre os assuntos mais comezinhos da nossa gramática, mas na
pena de um jornalista de respeito e numa revista séria, trata-se de um
erro inadmissível.
Certa vez perguntaram a um astrônomo e geofísico da USP por que
os planetas eram redondos. A resposta: Os planetas são redondos devido
ao fato de esta ser a forma mais estável. "A medida em que" crescem, a
partir de uma nuvem, adquirem essa forma, capaz de distribuir a matéria
em todas as direções.
Agora todos entendemos melhor por que é que certos astrônomos
preferem viver na Lua...
"octagésimo" lugar
Poucos jornalistas conhecem os numerais ordinais, depois de trigésimo.
Até aí eles até que vão bem. Chegando a quarenta, já começam a titubear.
Que se dirá, então de cinqüenta, sessenta, setenta, oitenta e noventa?
Não sai nada mesmo. Aliás, sai: asneira.
Vamos aprender juntos: o numerai ordinal correspondente a quarenta
é quadragésimo; a cinqüenta é qüinguagésimo (note: o u soa); a sessenta
é sexagésimo\ a setenta é setuagésimo (note: sem o p, apesar de certos
dicionários); a oitenta é octogésimo; e a noventa, nonagésimo.
N NÃO ERRE MAIS! 1 59
Repórteres policiais, ao se referirem ao 72.° distrito, preferem dizer
"setenta e dois distrito" a dizer setuagésimo segundo distrito.
zero-quilômetro
Variam ambos os elementos de um substantivo composto formado
por dois substantivos. Esta é a regra mais simples da formação do plural
dos nomes compostos. Ora, se zero e quilômetro são substantivos, o plural
de zero-quilômetro não pode deixar de ser zeros-quilômetros. Portanto:
um zero-quilômetro, dois zeros-quilômetros.
Se fizermos desse composto um adjetivo, equivalente de novo, saído
de fábrica, ele variará normalmente: um carro zero-quilômetro, dois carros
zeros-quilômetros.
Há os que se espantam. Esquecem-se de que lógica e língua são coisas
que não se misturam. Se se misturassem, jamais teríamos esta concordância:
Mais de um passageiro morreu. Ou esta: Menos de dois passageiros
morreram.
A língua não se guia pela lógica; a língua se norteia por normas sintáticas.
Como poucos têm consciência disso, espantam-se com o plural de
zero-quilômetro. Compreende-se.
Os jornalistas escrevem "os zero-quilômetro", "carros zero-quilômetro".
Normal. Veja: "Os zero-quilômetro "pagam 35% de imposto de importação,
fora outros tributos, como o IPI. *** "Mosca branca" entre os
"zero-quilômetro", o carro a álcool também sumiu das lojas de usados.
Como se vê, encontrar jornalista que escreva corretamente é mesmo
uma mosca-branca...
A maioria dos homens ficou nervosa
Nesta frase, correta, mais uma prova de que lógica e língua não se
misturam.
Numa frase em que entra a maioria de + complemento no plural, o
verbo concorda com o núcleo do sujeito (maioria) ou, excepcionalmente,
com esse complemento. Portanto, temos duas concordâncias corretas: a
que vimos acima, gramatical, e a lógica, que é A maioria dos homens ficaram
nervosos.
O mesmo se dá com grande parte de, boa parte de, bom número de,
metade de, etc., chamados coletivos partitivos.
meio-dia e "meio"
Aliás, meio-dia e meia (hora). Ora, se todos dizemos uma e meia,
duas e meia, três e meia, etc., porque, então, meio-dia e "meio"? Como se
viu, há subentendimento da palavra hora, neste caso: uma e meia (hora),
duas e meia (hora), meio-dia e meia (hora).
Nossa, já "são" meia-noite?!
Para evitar o sobrenatural, convém ter mais cuidado: o verbo não
tem por que, aqui, ir ao plural, já que meia-noite não pertence a esse número.

N
N NÃO ERRE MAIS! 1 187
Existem pessoas, no entanto, que dizem: Já "são"meio-dia: preciso ir.
É bom que vá mesmo...
Um candidato a presidência da República, em 2002, derrotado no
segundo turno, declarou horas antes da eleição: "São"meio-dia. Daqui a
vinte horas começa a virada. Virada para quê? Para o sobrenatural?
A antiga e excelente Rádio Jornal do Brasil certa vez teve um locutor
- talvez acossado pelo sobrenatural - que soltou isto: "São " meia-noite e
quarenta e cinco minutos no Rio de Janeiro.
O sobrenatural, assim como o povo, é muito poderoso!
"São" Salvador
O nome da capital baiana é Salvador. Só. Os baianos a chamam também,
carinhosamente, Cidade do Salvador.
Quem nasce em Salvador é salvadorense ou soteropolitano (adjetivo
preferido na Boa Terra). Quem nunca esteve em Salvador, precisa arrumar
um tempo para conhecê-la. Quem nunca esteve na Cidade do Salvador,
não pode dizer que conhece o Brasil. A capacidade comunicativa do
soteropolitano contagia.
EM TEMPO - Soteropolitano vem de Soterópolis, nome erudito de Salvador;
forma-se do grego Soter = Salvador + polis = cidade. Assim, Soterópolis
= cidade do Salvador. Pronuncia-se sotéro-politano.
todas as vezes "em" que
Expressão equivocada; trata-se de mais uma invenção dos jornalistas,
a exemplo de "à medida em que". Veja como eles a usam, sem pejo
nenhum: Todas as vezes "em"que a televisão mostrou homens e mulheres
nus...
Todas as vezes que leio jornal...
caudal
É palavra masculina: o caudal, um caudal. Portanto: Era extraordinário
o caudal do rio. *** Surgiu um caudal de boatos.
Jornalistas há que imaginam haver algo em comum entre caudal e
cauda. Naturalment e que não há. Mas eles insistem. E escrevem: O PT é
apenas um tributário "da"grande caudal da crise brasileira.
É preciso. É necessário. É bom.
Trata-se de expressões invariáveis. Repare nestas frases: É preciso
muita paciência para lidar com crianças. * * * É necessário atenção redobrada,
ao dirigir veículos à noite. * * * É bom toda a cautela neste caso.
Por que podemos construir assim? Porque, geralmente, há um verbo
subentendido depois do adjetivo. Exemplos: É preciso ter muita paciência
para... *** E necessário manter atenção redobrada... *** E bom usar
toda a cautela...
Repare ainda nestas frases, em que também o adjetivo não varia, por
NÃO ERRE MAIS! 1 89
haver um verbo subentendido: É lindo uma mulher que chora. = É lindo
ver...*** Maçã é ótimo para os dentes. = Comer maçã é... *** Cerveja é
bom para engordar. = Beber cerveja é...
Veja, agora, outros exemplos, par a firmar conhecimento: Énecessário
muitos exercícios para aprender isso. = E necessário fazer... *** É preciso
muitas sessões de psicanálise para ficares bom. = E preciso freqüentares...
*** É bom apenas frutas e legumes no verão. = É bom comer apenas...
*** Era preciso informações exatas. = Era preciso obter... *** Será bom
prudência nesse caso. = Será bom ter... *** Calma, para a saúde, é ótimo!
= Manter a calma, para a...
O egrégio Tribunal de Alçada Criminal de São Paulo, ao confirmar
uma sentença, redigiu: Acertada foi a condenação, pois, como é sabido
e reconhecido pela jurisprudência, castigo corporal através de tapas no
rosto de alunos configura o delito de maus tratos, pois é inadmissível tais
corretivos como atos de disciplina escolar.
Perfeito: é inadmissível adotar tais corretivos...
Repare, agora, nesta fras e de jornalista, que acabou confundind o
alhos com bugalhos: Segundo o presidente da UIA (União da Indústria
Argentina), Héctor Mendez, Furlan é o ministro brasileiro que mais preocupa
os empresários argentinos. Para ele, "é necessário"a adoção de uma
política empresarial entre Brasil e Argentina que seja capaz de corrigir
as assimetrias do Mercosul.
Ou seja: o jornalista aprendeu que não se varia a expressão é necessário
em algumas circunstâncias. O problema é que não soube aplicar
o que aprendeu. Repare, ainda, na falta do necessário artigo antes dos
nomes Brasil e Argentina. Neste assunto, é caso perdido: eles não vão se
emendar mesmo.
maus tratos
É assim que se escreve, ou seja, sem hífen, quando significa tormentos,
torturas. Por exemplo: Homem que maltrata os animais, que inflige maus
tratos a esses seres indefesos, não pode ser com justiça de ser humano.
Só o termo jurídico é que leva hífen, formando um nome composto:
maus-tratos. Neste caso significa crime cometido por aquele que põe em
risco a vida ou a saúde de pessoa que está sob sua autoridade, guarda ou
vigilância.
Os jornalistas desconhecem por completo a diferença.
Título em uma revista: Manual dos "maus-tratos".
Conforme sobejamente visto aqui, são constantes os maus tratos que
eles infligem à língua.
exceder
Este verbo pode ser transitivo direto e também transitivo indireto,
mas neste caso só aceita a preposição a: Beba, mas não exceda os (ou aos)
limites!
N
N NÃO ERRE MAIS! 1 189
Um antigo dicionário fornece exemplo com a preposição "de". Daí
por que em alguns elevadores se lê (equivocadamente): Capacidade licenciada:
8 pessoas ou 576kg. É proibido exceder "destes" limites, sob pena
de multa imposta pela prefeitura.
Maus exemplos correm muito mais depressa que os bons.
Quantos são duas vezes dois?
É assim que se pergunta . Sendo vezes palavr a feminina , não tem cabimento
pergunta r Quanto é dois vezes dois?, como se ouve comument e
- e com o verbo e pronome interrogativo no singular!
Eis outros exemplos: Aprendi ontem quantos são duzentas vezes um.
*** Quantos são três mais um? *** Nunca soube quantos são trezentas
vezes três.
O número que aparece depois de vezes não varia, porque se toma
como substantivo: duzentas vezes um. O pronome interrogativo quantos,
neste caso, não varia em gênero.
com nós
O uso de com nós é possível, mas somente quando aparecem palavra s
reforçativa s ou apostos. Assim, por exemplo: As crianças vieram com nós
dois. * * * Entramos em conflito com nós mesmos. * * * Queremos estar em
paz com nós mesmos. * * * Quem irá com nós, professores?
Caso contrário, usa-se conosco. Inadmissível é o uso desta forma com
palavra s reforçativas, como se viu, certa feita, numa revista: Férias - tempo
de abertura de nossos campos de encontro "conosco mesmos", com os
familiares, com os outros, com a natureza, com sua imensa riqueza.
derreter
É verbo pronomina l (derreter-se), na acepção de tornar-se líquido: O
gelo se derreteu em poucos minutos. * ** Fora da geladeira, o sorvete logo
se derreteu.
Um dicionário (aquele) registra-o também como intransitivo.
Certa vez, uma fábrica de fogões, no afã de promover seu novo produto,
mandou afixar painéis em toda a cidade com um texto assim, ao lado do
fogão que estava lançando: Uma promessa que não "derrete"com o tempo.
Mais abaixo se podia ler: Esta marca ninguém apaga.
Será?
plural de júnior e de sênior
De júnior, juniores (ô); de sênior, seniores (ô). Hoj e a maioria dos jornalistas
esportivos aprendeu: eles já dizem direitinho: juniôres, seniores,
mas no início só se ouvia"júniors","sêniors" .
Uma emissora de televisão de São Paulo resolveu promover, certa
vez, um campeonato mundia l de futebol, do qual participariam veteranos
de todo o mundo. Ao darem nome à competição, lambuzaram-se : campeonato
mundial de "sêniors".
N NÃO ERRE MAIS!
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déficit / superávit
Trata-se de duas formas oficiais. A nosso ver, equivocadas. Latinismos
não devem ser acentuados. Os portugueses usam défice e superávite,
formas muito mais "inteligentes".
Não se confunda este caso com o de álibi (com acento). Déficit e superávit
têm terminação incompatível com a índole da língua portuguesa.
Não há palavra em português que termine em -t.
O Vocabulário Oficial, todavia, houve por bem abalizar acentos tanto
em déficit e superávit quanto em hábitat, imitando o espanhol. Como
consideramos que coerência ainda é virtude, preferimos usar, então, em
vez de imitações, as palavras latinas puras: déficit, superávit, habitat.
Nossa preferência, contudo - é preciso deixar bem claro - é pelas formas
défice, superávite e habita, que um dia, sem dúvida, haverão de ser oficiais.

telentrega
É assim que se escreve esta palavra, dè uso recente. Há os que escrevem
"tele-entrega". Convém dizer que tele- é um elemento prefixo-radical
e, como tal, não pode ligar-se a outra palavra mediante hífen. Confira:
telecomando, telecomunicação, teleobjetiva, telerrecado, telerresposta,
telerromance, telessena, etc. Todas essas palavras são pronunciadas com
o primeiro e aberto: té.
Não faz muito tempo, a TV Cultura anunciou um "tele-romance".
Como é mesmo o nome da emissora?...
por cada
Não é importante, mas convém fazer uma ressalva. Às vezes não há
como fugir a esta cacofonia, mas há outras em que ela é perfeitament e
evitável, com a simples omissão da palavra cada. Como nestas frases colhidas
em jornal: Convênio prevê que Prefeitura de SP pagará ao Estado
R$38,14 "por cada"multa aplicada. *** Segundo norma da Agência
Nacional de Telecomunicações (Anatel), ao fim do prazo as operadoras
terão de depositar R$ 50,00 " por cada" cliente que não tenha feito o
cadastro.
No site da Abrelivros, entidade que congrega a maioria dos editores
brasileiros: O governo brasileiro paga menos do que uma revista Caras
"por cada"livro adquirido para distribuição nas escolas.
Não é importante, mas para que usar por cada, quando não há nenhuma
necessidade de usar por cada?
Cinco reais "são" muito por um jornal.
Sujeito que dá idéia de preço, quantidade, peso, medida, etc. exige
o singular: Onze meses será muito: não vou agüentar de saudades, meu
N NÃO ERRE MAIS! 1 191
amor! *** Um é pouco, dois é bom, três é demais. *** Quinze metros era
pouco para fazer o vestido daquela mulherona.
Num jornal: Dois dias "foram" muito pouco para que o PT pudesse
definir todos os detalhes para a campanha das eleições.
dar murro em faca de ponta
Frase tão correta quanto a outra, mais conhecida: dar murro em ponta
de faca.
O brasileiro está cansado de dar murro em faca de ponta: pede mais
segurança e ganha mais imposto; pede mais saúde e ganha mais imposto;
pede mais educação e ganha mais imposto; pede mais saneamento básico
e ganha mais dengue.
Em qualque r circunstância, dando murro em faca de ponta ou
dando murro em ponta de faca, a verdade é que o povo está sempre se
machucando...
por "isto"
Não existe esta locução em nossa língua, mas apenas por isso.
"Antártida"
O verdadeiro nome do continente situado dentro do círculo antártico
e assimetricamente centrado no pólo Sul é Antártica. Tudo o mais é conversa
para pingüim dormir...
E os pingüins andam dormindo demais, a ver-se como escrevem nossos
jornalistas. Veja o que nos diz um deles: O mapa da "Antártida" está
ligeiramente mudado. A pequena península conhecida como Língua de
Gelo Drygalski teve praticamente arrancada sua ponta, numa porção de
5km quadrados aproximadamente, depois que o maior iceberg do mundo
resvalou nela.
árbitro / juiz
Arbitro é mediador de jogos esportivos. Juiz é magistrado que julga
nos fóruns ou tribunais. O árbitro nem precisa ter curso superior; basta
ter diploma de curso médio (que alguns ainda falsificam, para conseguir
apitar jogos). O árbitro nunca julga nada, seu papel é seguir as 17 regras
do futebol e decidir instantaneamente no campo de jogo (o que não é tarefa
fácil), ao contrário do juiz, que estuda, reflete e decide nos autos.
Portanto, nos campos de futebol existem árbitros, e não"juízes", apesar
de os torcedores só chamarem "juiz ladrão".
No site de um jornal: O São Paulo venceu. Mas quem brilhou foram
as "juízas". Apesar dos protestos do Guarani, que teve dois gols anulados,
as meninas acertaram em todas as jogadas polêmicas.
Sim, as meninas acertaram em tudo. Mas... e os jornalistas?
N NÃO ERRE MAIS! 1 192
comunicar "sobre"
Não existe esta regência na norma culta. Quem comunica, comunica
alguma coisa a alguém: Ninguém comunicou o roubo à polícia.
*** Ela não quis comunicar o fato ao marido. *** Comuniquei meus
planos a todos.
Na mídia: Os Estados Unidos estão investigando se os dois filhos de
Saddam Hussein etão entre os quatro mortos no tiroteio ocorrido hoje
em Mosul, ao norte do Iraque. Segundo autoridades norte-americanas,
o secretário de Defesa, Donald H. Rumsfeld, comunicou pessoalmente "o
presidente George W. Bush sobre a operação".
De um ex-árbitro, durante a transmissão de um jogo de futebol pela
televisão: O bandeirinha comunicou o "juiz" "sobre" a agressão do zagueiro
ao atacante. A regra é clara...
comentar "sobre"
Também não existe esta regência na norma culta. Quem comenta,
comenta alguma coisa. E só.
No site da Jovem Pan: Marta não comenta "sobre"saída de secretário.
Bastaria retirar a preposição para que tudo fosse muito mais elegante.
Um dicionário (aquele) fornece, no verbete comentar, exemplo
errôneo do emprego deste verbo. Mais um, menos um, não vai fazer nenhuma
diferença.
atrasar
Este verbo é intransitivo (coisa que chega atrasada) e pronominal
(pessoa que chega tarde ou atrasada): O ônibus atrasou, e ele chegou mais
tarde ao trabalho. *** Se o trem atrasar, não chegaremos a tempo. *** O
chefe se atrasou, chegando mais tarde ao trabalho. * * * Quem se atrasar
não fará a prova.
Há, no entanto, certos dicionários que registram o verbo pronominal
como intransitivo. Em dicionários de hoje, ao que tudo indica, isso e mais
aquilo são coisas muito normais.
No site de um jornal: Chávez "atrasou" outra vez: ouviu um não de
Lula.
É isso mesmo: NÃO!
"Há" muito tempo que não viajávamos
Não, há um erro de uniformidade temporal nesta frase: mistura-se
presente (há) com pretérito imperfeito (íamos). A frase irrepreensível é:
Havia muito tempo que não íamos a Salvador.
Outros exemplos: Havia muito tempo não comíamos tão bem. ***
Não víamos terra havia meses.
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Se o verbo da oração subordinada estiver no pretérito mais-queperfeito
do indicativo, ainda assim, haver ficará no pretérito imperfeito:
Havia mais de cinco anos que não estudáramos (ou tínhamos estudado)
tanto! *** Havia pouco tempo que ele fora estudar em Paris.
Eis, todavia, como se leu num de nossos principais jornais: Uma turista
japonesa que chegara "há"poucas horas na cidade do Rio de Janeiro,
na noite de sexta (12), deixou suas malas no hotel e saiu com o marido
pelas ruas de Copacabana, em busca de sossego, de paz e da brisa do mar,
o que, afinal, todos os turistas buscam ao chegar em uma cidade balneário.
Mas o que Yoshiko Magoshi, de 61 anos, não sabia, ou ignorou, é que
algumas cidades brasileiras oferecem muito mais que fresquidão ou belas
paisagens. Magoshi foi vítima de mais uma tentativa de assalto ontem à
noite, em Copacabana.
No editorial de um grande jornal paulistano: Um traficante carioca
arrependido, disposto a contar o que sabia à Justiça, mudou de idéia
quando soube que o Programa de Proteção à Testemunha fora desativado
"há"cinco meses.
No mesmo jornal, em outra edição: Em ímola, um duelo como "há"
muito não se via.
Numa revista: Até "há"pouco tempo era simples: bolo com decoração
elaborada era privilégio de casamento e o encarregado de confeccioná-lo
chamava-se boleiro. Hoje, os bolos modernos viraram inacreditáveis esculturas
de açúcar e quem os prepara não se intitula mais boleiro, mas
cake designer.
Na mesma revista: Famílias inteiras assistem à Grande Família, da
Rede Globo. "Há" tempo não se via nada assim.
Incrível mesmo apareceu no site da Abrelivros (associação de editores
de livros, principalmente didáticos), no dia 14 de julho de 2003: Mesmo
com todos os problemas de distribuição, cerca de dez novas editoras
surgem por mês no país, para editar os livros dos sonhos de seus donos.
A cena tornou-se rotineira - freqüentadores de livrarias com um acervo
mais versátil, ou seja, que não se preocupam em oferecer apenas bestsellers,
vêm notando o crescente surgimento de novas editoras que não
existiam "há "algum tempo.
Fantástico! Reparou também, caro leitor, na incrível redundância
com que o trecho termina? "Surgimento de novas editoras que não existiam
há algum tempo" é pra lá de Marrakech...
Na quarta da capa de uma gramática: Com a evolução dos estudos
lingüísticos e das pesquisas em língua portuguesa, "há" muito não saía
uma gramática completa que pudesse dar conta deste progresso.
Assim tinha início um editorial de um grande e tradicional jornal
N NÃO ERRE MAIS! 1 59
paulistano: "Há" muito o Brasil não passava por uma fase tão ostensiva
e sistemática de demonstrações de desprezo pelas regras civilizadas de
conduta na vida pública.
O editorial trazia um título interessante: Às favas os escrúpulos.
Enéias, estou aborrecido "consigo"
No português do Brasil, não convém usar consigo em referência à
primeira pessoa, fato comum em Portugal. Entre nós, consigo só se usa em
referência à terceira pessoa: Ela fala consigo mesma. *** Eles trouxeram
consigo os documentos.
Do contrário, use sempre com você(s), contigo ou com o senhor, com
a senhora: Isabel, estou aborrecido com você {ou contigo). *** Enéias, há
uma pessoa aí fora querendo falar com o senhor.
Estados Unidos
Este nome exige o verbo e determinantes sempre no plural: Os Estados
Unidos são hoje a única superpotência mundial. *** Os Estados
Unidos conseguiram o acordo que desejavam. * * * Os Estados Unidos estão
atentos aos acontecimentos na América Latina. * * * Todos os Estados
Unidos foram assolados pelo cataclismo. *** Os Estados Unidos inteiros
estão preocupados com os atos terroristas. *** Os próprios Estados Unidos
reconheceram a falha.
Não se usa apenas "Estados Unidos" sem o artigo, a não ser em circunstâncias
especialíssimas, como em mapas, onde só aparecem mesmo
os nomes dos países: Estados Unidos, Brasil, Alemanha, etc.
Repare nestes exemplos, todos semelhantes: As Filipinas sofrem de
tempos em tempos a ação devastadora de tufões e terremotos. * * * Os Países
Baixos não possuem petróleo. *** Os Alpes ficam na Europa; os Andes
se localizam na América do Sul. * * * Os Bálcãs voltaram novamente
à tranqüilidade. * * * Você sabe onde ficam os Pireneus?
Repare, agora, nesta notícia de tradicional jornal paulistano: Bush
vota e se diz confiante na vitória. Afirmando ter esperança que o resultado
das eleições seja conhecido ainda hoje, o presidente promete liderar o
país, unir o povo e garantir "um"Estados Unidos mais "seguro".
pernoite
É palavra masculina: o pernoite, um pernoite, bom pernoite, mau
pernoite.
Recentemente, porém, um repórter de televisão nos deu má notícia:
"A"pernoite custa baratinho no albergue do pico do Jaraguá.
Quem pagaria um centavo por "ela"?
O verbo correspondente a este substantivo é pernoitar, que não tem
nenhuma forma com "ói"; portanto, pernoito, pernoitas, pernoita, perN
NÃO ERRE MAIS! 1 195
noitam; pernoite, pernoites, pernoite, pernoitem (sempre com o ditongo
fechado).
Um correspondent e da TV Cultur a nos Estados Unidos, todavia,
saiu-se com esta, certa feita: Os carros "pernoitam"nas ruas.
Tenha sempre uma boa "nóite", meu caro jornalista !
gastrointestinal / gastrintestinal
Existe uma regra geral: os elementos gregos ou latinos terminados
em -o- (gastro- e psico-, por exemplo), quando acompanham outros iniciados
por vogai (intestinal e análise, por exemplo), ou por h (hepatite, p.
ex.), perdem esse -o-. Se não, vejamos: gastro + enterite = gastrenterite\
psico + análise = psicanálise; nevro + algia = nevralgia; encéfalo + ite =
encefalite; gastro + hepatite = gastrepatite, etc.
Daí se conclui que, na verdade, só existem gastrenterologistas, especialistas
em gastrenterologia e gastrintestinal. Não obstante, existe o Instituto
Brasileiro de Estudos e Pesquisas de"Gastroenterologia" . Por que
não existiria também, então, o Instituto Brasileiro de Estudos e Pesquisas
de "Psicoanálise"?
Bem, daí entra o argumento: É, mas está nos dicionários. Argumento
fraco: alguns dicionários estão fazendo um triste papel: agasalham tudo.
EM TEMPO - 1) Os antigos (e bons) dicionários registravam ou somente
gastrenterologia, ou as duas formas (também "gastroenterologia"), porém,
conferiam a gastrenterologia o verbete principal. No portuguê s contemporâneo,
prevaleceu o critério de queda do -o-, fato que os que vivem
no tempo do Onça desconhecem. Ou preferem ignorar.
2) Quando as palavra s se formam dentro do próprio idioma, muita s
vezes as duas vogais, a final e a inicial, permanecem. Ex.: aeroespacial,
agroindústria , centroavante, eletroímã, microondas, microônibus, turboélice,
etc.
Euler. pronúncia correta
Quem quiser pronuncia r corretament e este nome próprio, dirá óiler.
Quem diz assim? Ninguém. Pois todo o mundo erra. Sim, caro leitor, todo
o mundo erra.
A luz da lógica, não há como defende r a pronúnci a "êuler". Vou explicar
por quê: o grupo eu alemão soa ói. Euler não é um nome português.
N em brasileiro. É um nome alemão. Ora, as palavra s estrangeiras devem
ser pronunciada s de acordo com a sua língua de origem. Daí por que
pronunciamos spráite (Sprite), náike (Nike), ráiluks (Hilux), uóchintan
(Washington), maiâmi (Miami), renô (Renault), nókia (Nokia), etc.
Voltemos, contudo, ao alemão. Como é que todo o mundo pronunci a
este nome alemão: Reuters? Você sabe: róiters. (Alguém diz"rêuters"?)
Como é que todo o mundo pronunci a Neubarth, nome de uma repórter
de televisão?Você também sabe: nóibar. (Alguém diz "nêubar"?)
Como é que todo o mundo pronunciou o nome da personagem Odete
Reutman, de uma famos a telenovela? (Alguém falava em "rêutmã"?)
N ÃO ERRE MAIS! 1 19 7
Quem seria levado a sério se dissesse que a psicanálise foi iniciada
com "frêud"?
Ora, senhores, quem diz fróid (Sigmund Freud), não pode cair no
ridículo (eu considero assim) de dizer "êuler". Ou a coerência não vale
nada? E se a coerência não valer coisa nenhuma, desculpem-me todos,
mas este não é um mundo razoável.
Pronunciar nome estrangeiro como se português fosse me soa no mínimo
inaceitável. Não são poucos os que pronunciam "klassík" (Classic)
nem "titaník" (Titanic).
O Botafogo do Rio de Janeiro tem um zagueiro chamado Scheidt.
Por que ninguém pronunciava "chêit"? Nem mesmo os narradores e repórteres
esportivos cometem essa estupidez. Todos dizem cháit. Por quê?
Porque o grupo ei alemão soa ai.
O Brasil já teve um grande militar (foi até candidato a presidente da
República) com o nome Euler. Tem um jogador de futebol também com
este nome. Só se ouve "êuler". Só "frêud" explica?
Nova Iorque
É assim que se escreve em português. Se quisermos escrever na forma
inglesa, usaremos New York. O que não se recomenda é a grafia mista:
Nova "York". Por quê? Porque New York é uma locução substantiva. E
nenhuma locução se aportuguesa parcialmente. O aportuguesamento de
qualquer locução deve ser completo, total.
Se temos a locução New Wave (nome que se deu a um movimento do
cinema francês, na década de 1960), temos obrigatoriamente de aportuguesá-la
por completo, ou seja: Nova Onda, e não Nova "Wave". Isto é
ridículo? Pois o que certos jornalistas fazem é justamente a mesma coisa,
quando escrevem Nova "York". Não importa que York seja um nome próprio
(deriva de duque de York). A origem não é relevante.
Veja que interessante: quem nasce em Nova Iorque é nova-iorquino.
Todos os jornalistas escrevem nova-iorquino. Ninguém, até agora, se atreveu
a grafar "nova-yorkino". Ora, como pode alguém ser de Nova "York"
e ser nova-iorquino? Será, sim, se coerência valer alguma coisa, "novayorkino".
Ah, mas isso não existe!, poderão argumentar alguns. E Nova
"York" existe?
A Academia das Ciências de Lisboa manda que se escreva Nova Iorque
desde 1940. A notícia ainda não chegou por aqui. Apesar de todos os
avanços da tecnologia...
advertir
Quem adverte, adverte alguém de alguma coisa: Os guardas rodoviários
estão advertindo os motoristas da forte neblina na serra. *** Adverti-o
de que não tinha razão.
Note: em nenhum dos casos, se usa a preposição "para", nem a preN

NÃO ERRE MAIS! 1 59
posição"contra" , amba s tão a gosto dos jornalistas, que costumam escrever:
Os Estados Unidos advertiram a Rússia "para" que não se envolvesse
no conflito do Oriente Médio. *** Governador do Amazonas adverte
"para" uma ocupação internacional que já estaria ocorrendo, sem alarde,
na Amazônia. *** China adverte EUA "contra" exercício militar em
Taiwan.
Ou seja: eles usam tudo! Menos a preposição correta.
ter bastantes namorados
Bastante, nesta frase, é adjetivo, e todo adjetivo varia. Outros exemplos:
Comprei bastantes peras na feira. * * * Tenho bastantes amigos na
cidade.
Muita gente estranha, mas bastante, aí, eqüivale a muito. Faça a
substituição. Como ficam as frases?
No meio jurídico, esse mesmo adjetivo ora aparece antes, ora aparece
depois do substantivo e eqüivale a competente ou a suficiente: Hersílio de
Sousa vem, respeitosamente, por seus advogados e bastantes procuradores...
*** Não há provas bastantes para a condenação do réu.
Bastante só não varia quando é advérbio; nesse caso também eqüivale
a muito. Faça aqui também a substituição e veja como ficam as frases:
Essas pessoas trabalham bastante. * * * As crianças estão bastante doentes.
*** Os professores ganham bastante mal.
Será que os jornalista s sabem distinguir uma classe de outra? Vejamos:
A proporção ideal de carne é de apenas 30% do total de alimentos
de um prato - que deve conter "bastante"verduras e legumes.
Sabem?
Um âncora de telejorna l afirmou certa vez: Nos países que conheço
- e conheço "bastante"- os pobres moram no centro das cidades; os ricos,
nas periferias. No Brasil é o contrário.
No Brasil, tudo é ao contrário...
bairro "das " Perdizes
A cidade de São Paulo conhece apenas um bairro, por sinal muito
simpático (mas dos mais vitimados pela dengue): Perdizes (sem o artigo).
Assim, ninguém mora "nas"Perdizes, mas em Perdizes. Nenhuma linha de
ônibus pass a "pelas" Perdizes, mas por Perdizes.
Nome s de bairro exigem normalment e o artigo (a Lapa, a Penha, o
Leblon, a Tijuca, o Leme, as Laranjeiras, os Aflitos, a Pituba, etc.), mas
este é uma das exceções, a par de Ipanema, Pinheiros, Copacabana, Santana,
Itapuã, Cascadura, Brotas, Cajazeiras, Tamarineiras, etc.
As pessoas moram na Lapa , no Leme, nas Laranjeiras, na Pituba ,
mas também moram em Ipanema , em Cascadura , em Cajazeiras, etc.
Quand o se usa o nome de um bairro pelo de um estádio, se houve r um
adjetivo, omite-s e o artigo. Assim, temos: O Náutico perdeu o título em
plenos Aflitos.
N NÃO ERRE MAIS!
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Recentemente, uma apresentadora de um programa esportivo pela
televisão, bem ao meio-dia, anunciou uma péssima notícia: O Fluminense
perdeu em "plena "Laranjeiras.
A beleza da moça, de lindos olhos verdes, superava qualquer gafe.
Pois não é que foram substituí-la tempos depois por um sujeito intolerável?
A vida tem dessas coisas: os opostos estão sempre se encontrando.
tirar "uma fina" de um carro
Não, ninguém tira "uma fina" de coisa nenhuma. Quem passa muito
rente por alguém ou por alguma coisa, geralmente com um veículo, tira
um fino. Mas há muita gente por aí que anda tirando "uma fina" dos outros.
Há até gente mais corajosa, que quer passar ainda mais perto dos
outros; então, tiram"uma fininha"...
meses: algarismos indicativos
Só se usa o zero antes de 1 (janeiro) e de 2 (fevereiro), para se evitarem
possíveis adulterações: 12/01/1987,15/02/2004. Se não procedermos
assim, fica fácil, num escrito, muda r o mês de 1 para 11 e de 2 para 12, de
acordo com a conveniência do falsificador.
Como não existem os meses 13,14,15, etc., não há nenhuma necessidade
de usar um zero antes dos números 3 (março), 4 (abril), 5 (maio), 6 (junho),
7 (julho), 8 (agosto) e 9 (setembro). Portanto: 12/3/1949,18/4/1999, e
assim por diante, ou seja, sem o 0 antes do algarismo indicativo do mês.
O "mau" das pesquisas eleitorais
Quando um estudante confunde mal com mau, compreende-se, mas
quando jornalistas de grandes e respeitados periódicos, que desejam
ser formadores de opinião, fazem tal confusão, é imperdoável. Pior ainda
quando, não aceitando o erro, querem justificá-lo, provocando uma
emenda muito pior que o soneto.
Todo estudante que se preza sabe que mal pode ser substantivo (de
pl. males), advérbio e conjunção: O mal do brasileiro é sempre querer
levar vantagem em tudo. *** Ela canta mal. *** Mal abriu a boca, começaram
a rir.
Mau é antônimo de bom: homem mau, mau tempo, mau-humor, mau-
-caráter.
Creia comigo, caro leitor, que isso é mais simples do que andar para a
frente. Pois bem, mas aVeja publicou certa vez um artigo na seção Ponto
de Vista com este singular título: O "mau"das pesquisas.
Ante a enorme grita de seus assinantes mais esclarecidos, a redação
da revista não teve a humildade de reconhecer que errara, coisa a que
todo ser humano, por mais perfeito que seja, está sujeito. Não. Resolveu
consultar um professor de Língua Portuguesa. E precisava?! Mais uma
vez, foi infeliz. Escolheu mal: o homem abalizou o emprego do "mau",
mediante algumas laudas, pelas quais recebeu naturalment e polpudos
N NÃO ERRE MAIS! 1 199
honorários. Bastaria escrever, no entanto, uma só linha: Todo inconveniente
ou toda desvantagem é um mal.
E, assim, todos estaríamos livres daquele "mau" maroto, safado, patife.
O mal dessa revista está na caturrice crônica. (Errei?)
mau-humor
É assim que se grafa, mas muitos substituem mau por "mal" nesta
palavra.
Ora, se humor é substantivo, e mal é advérbio, um não pode combinar
com o outro, porque a palavra que modifica o substantivo é o adjetivo
(mau); portanto, com ou sem mau-humor, escreva sempre corretamente.
No site de um jornal de esportes, no entanto, se leu, recentemente: No
Parque Antártica, a chamada Turma do Amendoim é um grupo conhecido
pelo latente "mal-humor".
O time já causa mau-humor, a diretoria e os conselheiros do clube já
causam mau-humor. E agora também o jornalista...
mal súbito
É assim que se escreve, porque aqui mal aí é substantivo (o mal, os
males), e não advérbio.
Num jornal: A experiência universal indica que um grande número
de pessoas que morrem em decorrência de traumatismo ou "mau"súbito
poderiam ser salvas.
Título de um jorna l paulistano: "Mau" súbito mata torcedor no
Morumbi.
220 pp. = duzentas e vinte páginas
Muitos usam "duzentos", não flexionando o numerai. Nenhum livro
do mundo tem "duzentos" e vinte páginas.
Não obstante o óbvio, volta e meia se ouve alguém dizer, mormente
pela televisão, que o acidente provocou "quatrocentos"e quinze vítimas.
Aliás, a essa altura já serão quatrocentas e dezesseis as vítimas, porque
uma sofreu mal súbito só de ouvir a tolice...
Certa vez, uma repórter de uma famosa rede de televisão noticiou a
morte de "duzentos"e noventa pessoas que estavam a bordo de um avião
iraniano, abatido pelos norte-americanos, no golfo Pérsico.
Os americanos abateram o avião; a repórter fulminou a língua.
Mulheres bonitas é o que não "faltam" no Brasil
O sujeito de faltar, nessa frase, não é mulheres, mas o pronome relativo
que (representante de um termo no singular, o pronome o). O verbo
de ligação, em frases assim, concorda com o pronome neutro o, e não com
o termo no plural. Sendo assim, temos: Mulheres bonitas é o que não falta
no Brasil. *** Candidatos foi o que não faltou ao emprego anunciado. * * *
Vagas é o que não falta na indústria e no comércio. *** Fofocas é o que
nunca falta por aqui.
N ÃO ERRE MAIS! 1 201
Como se vê, quem conhece análise sintática não comete erro em fra -
ses deste tipo. Mas há quem não queira o ensino de análise sintática nas
escolas. De certa forma, é compreensível: quem concluiu todo o seu curso
superior fazendo X nas questões das provas deve ter perdido o contato
com o raciocínio; por isso, compreende-se a resistência a tal ensino.
dar "de graça"
Trata-se de clara redundância. Quem dá, já entrega de graça. Dar "de
graça" é chover no molhado.
Outra bobagem é ganhar "de graça". Ora, quem ganha, naturalmente
não paga nada pelo objeto ganho.
Mas bobagens é o que mais se vê por aí. Um ex-prefeito de São Paulo,
por exemplo, acusado de ter-se enriquecido no cargo, saiu-se com esta
e com ênfase: Eu dou "de graça" a fazenda para quem provar que tenho
essa propriedade.
Não é uma graça?
aumentar "ainda mais"
Aumentar já traz a idéia de mais. Comete redundância, portanto,
quem "aumenta mais", ou quem "aumenta muito mais", ou quem "aumenta
ainda mais". É o mesmo que "diminuir menos", "reduzir menos",
"subir pra cima"e"desce r pra baixo".
Certa vez, uma famosa rede de televisão anunciou-se assim: "Aumentou
ainda mais "a audiência da Globo.
Aumentou muito não serve?
No site de um jornal paulistano: Propostas norte-americanas para
o plano de livre comércio para as Américas causaram reação negativa do
Itamaraty e deverão aumentar "ainda mais " as divergências entre "Brasil"
e "EUA". (Brasil e EUA estão entre aspas porque aparecem sem o
competente artigo: o Brasil, os EUA.)
Aumentar consideravelmente não serve?
Num editorial de outro jornal paulistano: Enquanto as autoridades
discutem fórmulas para coibir a violência, o desprezo a medidas sensatas
já adotadas para garantir a vida de testemunhas e juizes revela como a
inépcia administrativa do poder público é um estimulo para que o crime
organizado aumente "ainda mais "sua eficiência operacional.
Aumente muito não serve?
Comentário de um megaempresário, agora também dramaturgo, no
site da Jovem Pan: Corre-se o risco de as reformas tributária e da Previdência,
como estão sendo discutidas, aumentarem "ainda mais "o desemprego
e a economia informal.
O risco é geral...
N NÃO ERRE MAIS! 1 201
acrescentar "mais"
Se para alguns a redundância aqui é clara, mas outros nem tanto.
Veja o que saiu num jornal paulistano, na primeira página: A USP e a
Escola Paulista de Medicina estão "acrescentando mais" aulas práticas
aos seus currículos.
É preciso, na verdade, acrescentar aulas, muitas aulas, a certos jornalistas.
E os manuais de redação estão aí pelas livrarias, pretendendo
"ensinar" normas da língua.
acessório
É esta a palavra que significa complemento, detalhe. Eis, todavia, o
que se leu no site de um jornal paulistano, alguns dias depois da queda
de Saddam Hussein: Adolescentes, adultos e velhos - homens de todas as
idades - fazem fila nas barbearias de Bagdá para se livrar dos bigodes,
"assessório " quase oficial nos tempos do ex-ditador.
E os manuais de redação?
É de "se" esperar que...
Não se usa o pronome se entre a preposição e o infinitivo quando este
conjunto eqüivaler a um adjetivo (de esperar = esperável ou esperado).
Num dos editoriais de um grande jornal paulista: Era de "se"esperar
que o realismo administrativo produzisse choques frontais contra as utopias
voluntaristas dos grupos radicais do PT e, mais ainda, que a imensa
gama de problemas e a lentidão dos resultados das políticas adotadas
para solucioná-los aprofundassem a crise de identidade pela qual passam
o presidente e seus braços direitos, obrigados inúmeras vezes a negar suas
arraigadas convicções pessoais.
Escreve outro jornalista: Como era de "se" esperar: o PT está aparelhando
o Estado brasileiro e politizando a administração.
Sempre é de esperar que os jornalistas, um dia, evoluam, aprendam a
escrever. Afinal, é do homem evoluir...
entre "eu" e ela há muito amor
Desconfie sempre de quem diz ou escreve "entre eu". Desconfie
sempre!
Eu só se usa antes de verbo (claro ou subentendido); as preposições
pedem mim. Portanto: Entre mim e ela há muito amor. *** Nunca mais
vai haver paz entre mim e essa gente.
Numa coordenação deste tipo, a prioridade é sempre para a primeiN
ÃO ERRE MAIS! 1 202
ra pessoa, principalmente quando um dos elementos coordenados possui
certa extensão. Por exemplo: Entre todos aqueles que me ajudaram a sair
daquele inferno, que é o Vietnã, e "mim"sempre existiu mais do que solidariedade
humana.
Recentemente, um jornalista de uma famosa rede de televisão foi assaltado
no Rio de Janeiro por quatro meliantes. Mesmo sem resistir, levou
uma bala, que passou rente a sua orelha esquerda, sem atingi-lo. Considerando
o fato um verdadeiro milagre, reagiu (mas só algumas horas
depois): Tenho certeza de que Deus estava entre a bala e "eu".
Compreendeu-se a sua emoção, mas não se perdoou a sua imperícia...
"pseuda penalidade"
Pseudo- é prefixo e, como tal, elemento invariável. Sendo assim, não
pode haver "pseuda", "pseudos", "pseudas".
Esse prefixo só exige hífen antes de palavras iniciadas por vogai
(pseudo-amigo), h (pseudo-herói), r (pseudo-religião) ou s (pseudo-sábio).
Fora daí, não há hífen. Portanto, escreva: pseudoliderança, pseudodirigente,
pseudo ciência, pseudopoeta, pseudopenalidade, pseudopunição,
etc.
Os narradores esportivos é que apreciavam muito dizer "pseuda penalidade",
"pseudos árbitros", "pseuda liderança", "pseudos dirigentes",
"pseuda infração". Na ânsia de mostrarem erudição, acabavam enfiando
os pés pelas mãos.
Se pseudo- é prefixo, e não adjetivo, jamais poderá haver a forma
"pseudamente", já que o elemento -mente se pospõe a adjetivos no feminino.
Eis, no entanto, o que se leu no editorial de um tradicional jornal
paulistano: Errar, todos os partidos erram. O problema do PT é ver virtudes
onde existe erro, quando o erro é seu. Os outros estão sempre errados,
jamais o PT. O secretário de Comunicação, Luiz Gushiken, não apenas
considerou injustas as críticas que têm sido feitas ao governo, como tentou
dar uma justificativa "pseudamente" científica para o aparelhamento
do Estado.
Errar, todo o mundo erra. (Era assim que deveria ter começado o
editorial... )
manter / deter / conter / entreter / obter / reter
Todos estes verbos são derivados de ter e por ele se conjugam: Você
é um desonesto: não manteve a palavra! *** Se ele mantiver a palavra,
farei o negócio. *** O patrulheiro deteve o motorista bêbado. * ** O povo
não conteve a insatisfação e vaiou o presidente. * * * Um dos ladrões entretinha
o guarda, enquanto o outro roubava. * * * O ministro voltou dos
EUA dizendo que não obteve novo empréstimo. *** Retiveram toda a arrecadação
da partida.
Há os que usam "manteu" , "mantesse" , "deteu", "conteu", "entreN
NÃO ERRE MAIS! 1 59
F tia", "obteu", "reteram" , etc. Há também até certos autores e professores
que defendem estas formas. O mundo anda perigoso, caro leitor,
muito perigoso...
Num jornal paulistano: O técnico e o vice-presidente do Corinthians
"manteram" dois contatos sigilosos.
No mesmo jornal: Se o governo "manter"a correção da tabela, terá o
aplauso do setor industrial.
"desmistificar" a matemática
Nem mesmo o mais sábio dos homens consegue tamanha proeza!
Quem faz ver uma coisa como ela realmente é desmitifica a coisa, e não
" desmistifica-a ".
Desmistificar é desmascarar. A gente precisa aprender a desmistificar
todos esses charlatães esotéricos que pululam por aí, tungando os incautos.
A política e a vida vivem desmistificanâo demagogos e corruptos.
É preciso desmistificar o câncer de mama e incentivar o auto-exame. No
jogo do amor, é preciso desmistificar a idéia de que os homens não gostam
de se envolver e as mulheres estão sempre insatisfeitas.
Pouco antes das eleições de 2002, leu-se num jornal universitário: A
perspectiva de que um novo modelo poderia ter mais sucesso na condução
da política econômica norteou também o apoio de empresários de vários
setores ao candidato petista. Em uma economia globalizada, boa parte
da sobrevivência econômica depende de criar competitividade. Neste
cenário, muitos empresários notaram que o modelo neoliberal não era
mais o adequado, apesar de o governo FHC contar com a credibilidade
do mercado internacional. Parte destes empreendedores começou a ver o
modelo de Lula como uma alternativa viável de crescimento econômico,
ao privilegiar o mercado interno. Assim, passou-se a desmistificar a figura
de Luiz Inácio, não mais visto como o líder de uma ruptura radical
com o mercado internacional, como o patrocinador do caos.
Perfeito.
Passemos, agora, aos imperfeitos. Recentemente, uma editora lançou
uma obra sobre cálculos financeiros para todo o sistema bancário. A propaganda
veio assim: O obra procura "desmistificar" toda problemática
do cálculo e torna possível aos menos versados na arte do cálculo, com a
utilização da Calculadora HP12C a conclusões espetaculares.
Num grande jornal paulista, se leu certa vez esta declaração de uma
veterinária: Temos de "desmistificar" o leite de cabra, que ainda é visto
como remédio.
Remédio é a palavra certa...
NAO ERRE MAIS! 20 5
"quadriplicar"
Não existe esta forma. A palavra correta é quadruplicar (= redobrar,
reduplicar, tornar quatro vezes maior).
Frase de uma repórter de televisão: O número de funcionários "fantasmas"
na Assembléia Legislativa este ano "quadriplicou".
Dois erros numa frase curta. A proporção é injusta.
Não faz muito, um repórter da TV Cultura usou "quatriplicar".
"ultrassom"
O prefixo ultra- exige hífen antes de vogai (ultra-azedo), h (ultra-
-higiênico), r (ultra-revolucionário) ou s (ultra-som). Portanto, também:
ultra-sonografia.
Repare nestas, que não se grafam com hífen: ultracomunista, ultrabarato,
ultracaro, ultraconservador, ultraleve, ultraliberal, ultramar, ultramicroscópio,
ultravioleta.
Alguns médicos acham que não têm nenhum compromisso com a
língua. E fazem "ultra-filtração" de sangue-, e usam, à frente de seus consultórios:
"ultrassom","ultrassonografia" , etc., além de dizerem"pálato" ,
"catéter", etc.
Tudo isso serve para quê? Para aumentar a confiança, naturalmente...

raios "ultravioletas"
Ultravioleta não varia no plural: raios ultravioleta, radiações ultravioleta,
luzes ultravioleta, lâmpadas ultravioleta.
Frase de um nobre jornalista: A camada de ozônio que protege a Terra
das radiações "ultravioletas"vai continuar nesta década.
Coisas ruins nunca deveriam continuar. Mas continuam!
"os meia dúzia"
Meia-dúzia (repare: com hífen) é palavra feminina, está bem claro,
mas há os que não vêem assim. Veja como escreveu alguém, em importante
jornal paulistano: O PC do B está se esvaziando, ou seja, cresce no sentido
contrário, e acabará restrito "aos meia dúzia " de dirigentes, tendo à
frente o João Amazonas, que acabará falando sozinho.
Há por aí uma meia-dúzia de jornalistas que arrepia!
subsídio
Pronuncia-se subcídio, e não"subzídio" . Também com valor de c tem
o s de subsistir e de subsistência.
Quem diz "subzídio", "subzistir", "subzistência" está obrigado, por
coerência, a dizer também "subzolo" e "subzecretaria". Sob pena de não
subsistir por muito tempo...
O mais incrível é que há os que têm a coragem de escrever "subexisN

NÃO ERRE MAIS! 1 59
tir"! Veja o que nos informou um jornalista: "Subexistem" algumas dúvidas
a respeito do funcionamento da escala móvel, mais conhecida como
gatilho salarial.
O tal do gatilho veio mesmo para fazer estragos gerais...
Dê "um chego" até aqui!
Frase própria de adolescente. Em todo o caso, é sempre melhor dar
uma chegada e até uma chegadinha que dar "um chego".
eis aqui
Há redundância nesta expressão? Absolutamente, não!
Segundo um manual de redação, porém, eis já significa aqui está. Teria
cometido redundância Newton Mendonça, quando compôs, com Tom
Jobim, o excelente Samba de uma nota só? Eis aqui este sambinha, feito
de uma nota só. Há redundância aqui?
Redundância, redundância mesmo, de arrepiar pêlos e cabelos, é a
que apareceu no jornal que publica esse mesmo manual: Um diplomata
africano contou que, ao chegar em Angola, em 1982, precisou comprar
vara de pesca e anzol e "pescar peixe"para o seu jantar, tamanha a escassez
de alimentos na capital angolana.
Isso é que é re-dun-dân-cia.
eis que
Não se usa com propriedade esta locução em substituição a porque,
pois ou porquanto. Assim, por exemplo: Deve chover logo, "eis que" nuvens
plúmbeas se acumulam no horizonte.
Existem certos advogados que apreciam escrever assim: O réu foi
condenado, "eis que"confessou o crime.
Só se usa corretamente eis que para indicar situação de imprevisto,
eqüivalendo a de repente, sem ser locução conjuntiva: Quando os namoradinhos
menos esperavam, eis que surge, então, o pai dela, furioso! ***
Quando menos esperávamos, eis que desaba uma tempestade!
"expo"
Quando se reduzem palavras, e a redução termina em -e ou em -o, ela
se torna, geralmente, uma oxítona. Assim é que temos apê (de apartamento),
metrô (de metropolitano), expô (de exposição), etc.
Além do quê, diz-se espô, e não "ékspo", como muito se ouve: Visite
a "Expo" Center Norte esta semana!
NAO ERRE MAIS! 2 0 7
"eme-ele"
A abreviatura do submúltiplo do litro, o mililitro (mL), tem sido lida
desta forma: "eme-ele".
Você vai a uma farmácia, já com algum problema, aborrecido, chateado,
às vezes até com dor, e o atendente então solta a pergunta: - O senhor
quer água oxigenada? De quantos "eme-eles"?
Como você é elegante, caro leitor, naturalment e responde educadamente:
- De 50 mililitros. Mas há pessoas neuróticas, estressadas, que
respondem de forma bem diferente...
Qualquer dia destes ainda vai aparecer um "artista"por aí que vai ler
lOkm desta forma: dez "cá-emes". Ou 5kg desta: cinco "cá-gês".
Cheguei, "me troquei" e saí
Não existe o verbo "trocar-se". Convém sempre trocar de roupa.
Hoje, os jogadores "aquecem" no próprio gramado
Quando os atletas, antes de uma partida, preparam-se fisicamente
para dela participar, eles se aquecem (o verbo é pronominal, rigorosamente).
Hoje, muitas equipes se aquecem no próprio gramado; antigamente
se aqueciam nos vestiários.
Declaração de um jogador: Participei da preleção com os meus companheiros,
até fiquei com o grupo no aquecimento. Só não "aqueci" junto
com o pessoal, porque estava suspenso e não ia participar do jogo.
Aquecer a língua é uma boa sugestão.
em face de
É a locução que temos: Em face das dificuldades surgidas, os ministros
resolveram entregar o cargo. *** Em face do exposto, peço a condenação
do réu. * * * Em face da crise energética, devemos economizar energia.
*** Em face dos boatos de ontem, o treinador resolveu pedir rescisão
do contrato com o clube.
Na linguagem forense, sobretudo, usa-se muito a locução "face a",
que não temos: "Face ao"exposto, peço a condenação do réu.
Os bons advogados, contudo, não a usam.
repetir "outra vez"
Redundância visível, a exemplo de repetir "duas vezes", repetir "de
novo"e repetir "novamente".
Não há redundância nenhuma, contudo, em repetir três vezes ou
mais.
N NÃO ERRE MAIS! 1 207
Alguns narradores de futebol pela televisão costumam dizer: Vamos
"rever outra vez"o lance!
Há quem tape olhos e ouvidos...
Veja-se estoutra "maravilha" colhida num jornal: Repetindo "a mesma
coisa" que aconteceu nos EUA, o filme Matrix (2003) não conseguiu
superar a bilheteria do Homem-Aranha (2002).
reincidir "de novo" no "mesmo" erro
Duas redundâncias em tão curta frase. Reincidir já significa, por si
só, tornar a praticar. Quem reincide, só pode reincidir na mesma coisa,
não há como fugir. Procure não reincidir no erro, caro leitor, é sempre
salutar!
lançamento novo / novo lançamento
Novas redundâncias. Nunca vi nenhuma empresa fazer lançamentos
velhos, nem velhos lançamentos.
Recentemente, um conhecido professor de oratória de São Paulo,
homem muito competente no seu ofício, lançou um novo livro, que teve
este nome: Um jeito bom de falar bem. A editora que publicou a obra fez
cartazes de propaganda nestes termos: O mais "novo lançamento"do professor
...
Não creio, porém, que o professor tenha lido o cartaz antes de o tornarem
público.
em hipótese nenhuma
É a única expressão que temos: Não vou pedir perdão a ela em hipótese
nenhuma. * * * Não VOU mais lá em hipótese nenhuma.
No Nordeste, no entanto, usa-se muito "de"hipótese nenhuma: Não
concordo com isso "de"hipótese nenhuma!
Certa vez, em Recife, um irado pai vociferou a um pretenso genro:
Você, seu cabra-safado, não vai casar com minha filha "de" hipótese
nenhuma!
E o casamento, de fato, não saiu. Sorte ou azar do noivo?
A família enlutada, os nossos "sentidos pêsames".
"Sentidos pêsames" é coisa de "demente mental": na palavra pêsames
já existe a idéia de sentidos, doloridos, etc. Trata-se, portanto, de
redundância clara. Há muita gente, no entanto, que, para mostrar muita
sinceridade, exagera e acaba chovendo no molhado.
milênios "de anos"
Mais redundância. Quem fala em milênios, já fala em anos, evidentemente,
mas isso não bastou para que o presidente de uma central de
N NÃO ERRE MAIS! 1 208
trabalhadores declarasse, emocionado: Há milênios "de anos"que os trabalhadores
estão sendo explorados pelos empresários.
Emoções muito fortes são, de fato, perigosas.
manter o "mesmo" time
Está claro no verbo manter a idéia de mesmo, igual, etc. Mas há muita
gente que gosta de manter "a mesma" disposição da adolescência, que
aprecia manter "o mesmo" dinamismo do ano passado, que deseja manter
"o mesmo"entusiasmo dos colegas, etc. Trata-se de gente realmente vigorosa,
que gosta de repetir tudo direitinho...
substituir um dispositivo "por outro"
Ora, sim, senhor... Alguém consegue substituir um dispositivo pelo
mesmo? Quem conseguir, esteja certo: é extraterrestre...
batom "na boca"
Há certas redundâncias que arrepiam todos os pêlos e cabelos, de
vivos e mortos. Certa feita uma senhora, entre admirada e crítica, disse
a outra, ao nosso lado: Veja, aquele rapaz está usando "batom na boca"!
Ora, alguém usaria batom noutro lugar?!
planos "para o futuro" / sorriso "nos lábios" /
estrelas "do céu"
Quem duvidará de que há novamente aqui mais três redundâncias?
Fazer planos "para o futuro" dá a entender que alguém possa fazer planos
"para o passado", o que seria, sem dúvida, uma grande inovação...
Quando ela, a um galanteio, responde com um sorriso "nos lábios",
tome cuidado, porque ela também pode responder com um sorriso em
outro lugar...
E os românticos que encontrarem estrelas luminosas noutro lugar,
que não no céu, que me escrevam!
não ver "qualquer" beleza em alguém
Qualquer se usa nas frases declarativas afirmativas; nas negativas se
emprega o pronome existente especialmente para elas: nenhum (e variações).
Portanto: Não vejo nenhuma beleza nessa moça.
Numa repartição pública se leu certa vez este aviso: Não estão abertas
"quaisquer"inscrições para o INAMPS.
Coincidência ou não, tempos depois o INAMPS foi extinto.
Não "grita" comigo!
Frase comum na língua falada, mas que contém erro no emprego do
imperativo negativo, que vem todinho do presente do subjuntivo. Como grita
não é forma verbal desse tempo e modo, fica fácil perceber o inconveniente,
que na língua escrita é imperdoável. Não grite comigo!: essa é a ordem.
N NÃO ERRE MAIS! 1 59
Na língua falada é comum encontrarmos frases assim: Ela teve de
casar? Não "brinca"! *** Não "cumprimenta"esse cara! Ele é indecente!
*** Não "amola" o papai, filhinho! *** Por favor, não me "beija" na frente
de todo o mundo! *** Não "conta"isso pro seu pai! *** Não "mexe"em
vespeiro!
Para acertar a forma, basta conjugar o presente do subjuntivo. E cada
uma delas aparecerá. Pela ordem: brinque, cumprimente, amole, beije e
conte.
Eis, agora, frase dita por um arcebispo brasileiro, em resposta a um
jornalista que lhe perguntou se não estava na hora de o mundo ter um
papa brasileiro, especialmente agora que o país tem um presidente operário:
Não, "não mistura" o Lula nessa história ainda não. Aí confunde
tudo, porque ele com o Espírito Santo não se entende muito bem.
Meu anjinho da guarda, acaba de me advertir: Não mexa em vespeiro!...

tratar "à"
Às vezes, vemos anunciada frase assim: Precisa-se de secretárias.
Tratar "à"Rua da Paz, 100. O verbo tratar, em frases deste tipo, usa-se
com em. Por isso, quem quer tratar de um assunto, vai tratar em algum
lugar: Precisa-se de secretárias. Tratar na Rua da Paz, 285. *** Interessados
no emprego devem tratar na Avenida do Trabalho, 153.
"formado-me"
Particípio não admite a posposição de pronome oblíquo: Nasci em
Bajé, tendo me formado em Majé.
Não obstante isso, leu-se num jornal paulistano: As vendas de caminhões
leves da Ford têm sido fator importante na nova fase da montadora.
A comercialização nesse segmento tem "ajudado-a"a contrabalançar
a ausência de lucros significativos dos carros compactos. O repórter falou
com o sobrinho do governador, que teria "aconselhado-o"a evitar...
"uns par de"
É comum, sobretudo no interior do país, ouvirmos a expressão inexistente
"uns par de": Meu time já ganhou "uns par de" títulos. Alguns,
vários, diversos: é só escolher qualquer destes pronomes, e tudo ficará em
seu devido lugar.
"Ave-maria", que mulher feia!
Ave-maria é nome de oração. Quando alguém se admira de algo, usase
ave, Maria: Ave, Maria, quanta corrupção! *** Ave, Maria, que bela
classe política temos!
Vale acrescentar que o plural de ave-maria, em que o elemento ave é
interjeição latina e significa salve, é ave-marias.
Certa vez, um repórter perguntou a um de nossos ministros da área
N NÃO ERRE MAIS! 1 59
econômica qual a saída para a crise. A resposta estava na ponta da língua:
A saída para crise é ajoelhar e rezar três "aves-marias ".
Ave, Maria: ministro que não sabe ao menos rezar três ave-marias,
tem, no mínimo, que rezar dez salve-rainhas e uns vinte pai-nossos, só
para poder permanecer no cargo. Coincidência ou não, três meses depois
foi exonerado.
"normatização"
Convém usar normalização no lugar de "normatização", que é um
neologismo dispensável. Observe que a sigla Inmetro assim se desenvolve:
Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial.
estar "ao" par de tudo
Quem diz estou "ao"par deve ficar a par disto: ao par é expressão de
uso estritamente comercial; quando dois países negociam reciprocamente,
e um compra do outro tanto quanto este lhe vende, o câmbio está ao
par, também ao par estará a ação emitida por uma empresa quando seu
valor atual é o mesmo do valor nominal, ou seja, aquele que se encontra
declarado na referida ação.
No sentido de estar ciente, inteirado; ter conhecimento, usa-se a par:
estar a par de tudo, estar a par de toda a fofoca do bairro, estar a par da
vida da vizinha, estar a par da cotação do dólar,etc.
Os jornalistas parecem desconhecer a diferença.Veja como escrevem:
Jacqueline Kennedy não gostava, mas aceitava as aventuras "extra-conjugais"
do marido. Estava também "ao par" dos esforços de membros do
staff presidencial, afim de conseguir encontros amorosos para Kennedy.
De quebra, o jornalista ainda escreveu"extra-conjugais" .
virar "às" esquerda, "às" direita
É perigoso à beça fazer qualquer desses tipos de conversão. Quem,
um dia, precisou tomar alguma informação numa dessas pequenas cidades
do interior, fatalmente já ouviu: Vire "às" esquerda ou Vire "às"
direita. Nunca faça isso, caro leitor! Prefira tomar à direita ou tomar à
esquerda: o perigo de ir dar a um beco sem saída é bem menor...
levar as crianças à escola
Esta é a construção da norma culta. No português do Brasil, contudo,
prefere-se o emprego da preposição "em": Quem levou as crianças "na"
escola? No português elegante sempre se construirá: A babá leva todos os
dias as crianças ao parque. * * * O taxista levou o turista ao aeroporto.
*** O namorado queria levá-la ao motel, mas ela não foi.
Hortênsia, estão chamando você "no" telefone
Esta é uma frase típica da língua cotidiana, sempre informal, despretensiosa.
No português culto se prefere o emprego da preposição a,
N NÃO ERRE MAIS! 1 59
porque chamar, aí, dá idéia de movimento, e em português todo verbo ou
expressão que der idéia de movimento usa-se melhormente com a preposição
a. Portanto, na norma culta: Hortênsia, estão chamando você ao
telefone. *** Virgílio, estão chamando-o à sala do diretor. *** Chamei-o
ao escritório. * * * Ninguém me chamou à cozinha, para ajudar. * * * O professor
sempre me chama ao quadro-negro. *** Chamaram-me à janela
para ver o desfile. *** Quem é que está me chamando ao portão?
São frases - convenha comigo, caro leitor - muito mais elegantes.
O povo prefere chamar "no" telefone, "na" janela, "no"portão. Não, não
está errado. É apenas uma questão de bom-gosto.
Nos jornais e revistas, essa regência popular deve ser evitada. Deve.
Veja, porém, como se lê neles: O ministro da Aeronáutica foi chamado
"no"Rio para tentar explicar.
E a elegância, o bicho comeu!
descer ao andar térreo
Também aqui se trata de um verbo de movimento (descer). A preposição
mais indicada para acompanhar este verbo, numa linguagem formal,
mais elegante, é a preposição a. O povo, contudo, desce "no"andar térreo,
desce "no"porão, desce "no"ponto de ônibus.
Não, não é errado. A questão é outra.
"peãozada"
Não. Uma porção de peões forma uma peonada, e não uma "peãozada",
muito comum na língua falada despretensiosa.
Você transcreveu "certa" a frase?
Certo e errado, quando advérbios, não variam; eqüivalem, respectivamente,
a certamente e erradamente.Veja exemplos: Será que ela sabe somar
certo a conta? *** Você transcreveu certo a frase? *** Enviei certo toda a
documentação. *** Copiei errado a lição. *** Mandei errado a carta.
Eis, agora, exemplos em que certo e errado são adjetivos, variam
normalmente, portanto não eqüivalem a certamente e erradamente: Ela
transcreveu a frase certa, e não a frase errada. *** Ela me deu a conta
certa. * * * Eles me entrearam a conta errada. * * * Está certa a sua frase.
* * * O professor considerou errada a minha lição.
Antigo Testamento
Expressão preferível a "Velho Testamento", que passa a idéia de que
o livro já está ultrapassado ou defasado. Os termos velho e antigo não são
sinônimos perfeitos.
compadecer
Este verbo, no português contemporâneo, usa-se mormente como
pronominal, tanto na acepção de sentir compaixão (rege de) quanto na
NAO ERRE MAIS! 213
de harmonizar-se, conciliar-se (rege com): Cristo se compadeceu do sofrimento
dos homens. *** Compadeci-me do seu precário estado físico. ***
A generosidade se compadece com a humildade. *** Um juiz não pode
compadecer-se com o crime organizado.
De um desembargador do Distrito Federal, acusado de vender habeas
corpus a narcotraficantes: Não acredito que os bandidos que matam
juizes pelo Brasil afora consigam aqui no Distrito Federal obter crédito
em suas palavras para matar a carreira de um juiz que nunca "compadeceu"
com o crime, muito menos com o tráfico de drogas.
A língua condena...
daqui ao estádio é uma boa "esticada"
Quem quer chegar tranqüilo a um estádio, ou a qualquer destino,
sem nenhuma dor de consciência, dá uma boa estirada (= caminhada longa),
e não "esticada". Também é de uma estirada que se emprega por de
uma vez, sem interrupção ou parada: Fui de São Paulo a Vitória de uma
estirada. *** É cansativo ir de uma estirada até Manaus.
chamar
É verbo transitivo direto, na acepção de convocar: Cristo chamou Pedro
para ser seu vigário na terra. - Cristo chamou-o para ser seu vigário
na terra.
Numa aprazível capital nordestina, uma entidade religiosa mandou
afixar outdoors pela cidade. Neles se lia: A vocação é uma resposta ao
compromisso bastismal.Você já descobriu para que Deus "lhe"chama?
Eu, francamente , ainda não!...
Cem vidas tivesse eu, "daria-as" por Carolina
Futuro nenhum aceita pronome átono posposto ao verbo. Quem deseja
ser autenticamente romântico, que o seja por completo: Cem vidas
tivesse eu, dá-las-ia por Carolina.
Os jornalistas não são o que podemos chamar o exemplo acabado de
romantismo. Veja quanto prosaísmo: Compras externas "limitariam-se"a
US$600 milhões mensais. Não há dúvida de que o S40 traz algo de diferente.
Por ser feito pela Volvo, "esperaria-se" uma carroçaria quadrada,
formas sisudas e um feitio conservador. Que nada!
Que nada mesmo!
zircônio
Nome de um elemento químico metálico (símb.: Zr), muito leve e resistente
à corrosão e ao calor, de largo emprego industrial. Muito bem,
repare: o nome é zircônio.
Numa propaganda de um novo tipo de lentes para óculos: As lentes
N NÃO ERRE MAIS! 1 59
Crizal são tão invisíveis que você pode esquecer que está de óculos. Isso
porque elas possuem a mais avançada tecnologia em anti-reflexo. Sua
camada de "zircone"torna as lentes ultra-resistentes a arranhões e muito
mais duráveis.
Duráveis?!
A mãe fez tudo para que o filho "sossegasse-se"
O modo subjuntivo geralmente exige uma conjunção {que, se, quando,
etc.). Como as conjunções são fatores de próclise, isto é, exigem que
o pronome oblíquo venha antes do verbo, não há como defender a colocação
da frase acima, que se usa portuguesmente assim: A mãe fez tudo
para que o filho se sossegasse.
Alguns jornalistas, contudo, nem mesmo consultam a orelha e escrevem:
Lula cometeu uma grosseria, ao temer que os interesses de Brizola
"limitassem-se"apenas à sucessão presidencial.
É incrível que jornalistas não saibam sequer colocar os pronomes
nas frases. A própria orelha rejeita essa colocação.
ele não "houve" nada, nada!
Parece incrível, mas ainda há gente que confunde houve, forma do
verbo haver, com ouve, forma do verbo ouvir.
Num livro sobre aves, encontramos esta "pérola": O papagaio é a única
ave do mundo que imita a voz humana, repetindo tudo exatamente
como "houve".
Num jornal paulistano: Nos últimos dias, o governo andou justificando
o déficit comercial, que muitos atribuem ao câmbio, ao déficit público
persistente. "Ouve" até comparações entre o caso brasileiro e os twins
deficits (déficits gêmeos) dos Estados Unidos.
Que mal lhe pergunte: e os manuais de redação?...
Escrevo direito ou Direito, medicina ou Medicina?
Do jeito que achar melhor. Tais palavras, como outras que designam
curso de estudo, não precisam necessariamente ser escritas com inicial
maiúscula, a menos que a frase exija. Como nesta frase de pára-choque
de caminhão, por exemplo, muito galhofeira: Caso seu marido não faça
Direito, eu faço. O uso da inicial maiúscula afasta de pronto qualquer interpretação
maldosa, que certamente o caminhoneiro não nos quer forçar
a ter...
adequar-se
Este verbo, assim como precaver, só se conjuga nas formas arrizotônicas
(aquelas cujo acento prosódico recai fora do radical): adequamos,
adequais; adequemos, adequeis. Sendo assim, a gramática tradicional
não reconhece as formas adequo, adequas, adequa, adequam nem
adeque, adeques, adeque, adequem. Não há, contudo, nenhum absurdo no
NAO ERRE MAIS! 215
seu emprego: O que mais se adequa às suas necessidades? *** Espero que
meu perfil se adeqiie às exigências da empresa.
A gramática estabelece sejam substituídas tais formas por outras, de
verbos sinônimos, tais quais acomodar, ajustar, amoldar, etc. A verdade
é que os verbos defectivos estão perdendo a condição de defeituosos ou
incompletos para o cotidiano da língua contemporânea. Em todo o caso,
convém respeitar a gramática tradicional, principalmente na língua escrita
e até mesmo na língua falada, em momentos que exigem alguma
formalidade, como num julgamento ou numa entrevista.
panorama "parcial" / panorama "geral"
São impróprias as duas expressões. Se panorama traz os elementos
gregos pan- (= tudo) e -orama (= visão, espetáculo), a palavra já significa
visão total, vista de tudo, vista geral.
Sendo assim, nenhum panorama pode ser "parcial" nem "geral",
conforme se leu no editorial de importante revista semanal de informação
(ed. 1.597): O Brasil passa por um momento delicado, um desses instantes
de sobressalto em que os sinais se confundem no painel de instrumentos.
O governo parece sem rumo, o congresso gasta o seu tempo em interrogatórios
e o cidadão comum tornou-se mais descrente em decorrência da
maré de escândalos. Contra esse pano de fundo, nada mais recomendável
do que se distanciar um pouco do epicentro da crise para observar o "panorama
geral".
Como cidadão comum - confesso - também estou descrente. Mas não
surpreso: o próprio ministro da Justiça foi a uma faculdade de Direito de
São Paulo para proferir uma palestra. O tema: Drogas nas escolas: um
panorama "geral". Pois é.
Certa vez, anotamos esta frase de um seqüestrado, logo após sua libertação:
Não fomos amarrados no cativeiro, fomos tratados como "gente
humana " mesmo.
Neste caso, é perfeitamente compreensível: a emoção superou a razão,
e a síndrome de Estocolmo aflorou. Se, por acaso, você riu, não se
esqueça de que "gente humana " nada fica a dever a "panorama parcial"
ou a "panorama geral". Tudo é coisa de "demente mental".
Se ela, que é mulher, não gosta de homem, "que dirá eu"!
"Que dirá eu" é expressão própria da língua falada. Na língua mais
cuidada se usa que se dirá de mim, que se dirá de nós, etc.: Se ela, que é
mulher, não gosta de homem, que se dirá de mim! *** Se Calasãs, que é
professor, escreve errado, que se dirá de mim! * * * Se ele, que é presidente,
não resolve a situação, que se dirá de nós!
Podemos usar ainda quanto mais eu!, quanto mais nós, etc. e até muito
menos eu!, muito menos nós, etc., evitando, assim, "que dirá eu!", "que
dirá nós!", porque eu não "dirá"nada nunca!
N NÃO ERRE MAIS! 1 59
uma patinete / a matinê
É esse o gênero correto destes dois substantivos: feminino. A patinete
ainda está na moda, mas a matinê parece que não tem mais vez entre
os adolescentes de hoje. Ficou para trás o tempo em que os estudantes
preferiam namorar na matinê do cinema, tempo em que pegar na mão
da namoradinha era uma doce conquista! Ficou realmente no passado a
matinê.
Já patinete voltou recentemente à moda. Numa revista, em manchete:
"Os velhos "patinetes viram mania.
gerúndio + infinitivo
Não se flexiona infinitivo que depende de gerúndio. Portanto, construiremos
sempre assim: Já foi marcada a época dos exames, devendo
as provas ser realizadas no período de 5 a 20 de dezembro. (E não: "serem".)
*** Alguns corpos das vítimas do acidente já foram retirados do
local, devendo seus familiares proceder ao exame de reconhecimento no
IML. (E não: "procederem".) *** As inscrições ao concurso estão abertas,
podendo os candidatos dirigir-se à sede da empresa. (E não: "dirigiremse".)
*** A documentação está correta, devendo expedir-se os respectivos
atestados de freqüência. (E não: "expedirem-se".)
Na Folha de S. Paulo, ed. 21.130, escreveu um ex-governador paulista:
Não podem as forças democráticas "ficarem" divididas e subordinadas
a interesses ou posições de intransigência.
Começava justamente com ele a insegurança pública, vivida até hoje
pelos paulistas.
"corpo delito"
Quando alguém sofre uma agressão corporal, há repórteres que anunciam:
Foi ao Instituto Médico-Legal para fazer exame de "corpo delito".
Isto é: falam na coisa, sem saber bem de que se trata. Corpo de delito
é o conjunto dos elementos materiais que comprovam a ocorrência de um
fato criminoso. Existe o corpo de delito direto, feito por meio de exame
ou vistoria, e o corpo de delito indireto, que é efetivado por depoimento
de testemunhas. Mas sempre corpo de delito.
Ela disse que mora na Avenida Sul, número "tanto"
O pronome indefinido tanto, neste caso, deve figurar no plural: Ela
me disse que morava na Rua da Paz, número tantos. * * * Teresa me deu o
telefone, número tantos, e partiu.
piscicultura
A piscicultura é a arte de criar e multiplicar peixes para consumo ou
ornamentação. A palavra nos vem do latim pise- = peixe + cultura.
Não faz muito, porém, uma emissora de televisão apresentou uma reportagem
sobre a criação de peixes em cativeiro. No vídeo apareceu (isto
c incrível!): A moderna "psicultura".
NAO ERRE MAIS! 217
De moderno, isso, de fato, tem tudo! As pessoas conseguem confundir
o que é da alma (psic-) com o que é do peixe (pise-).
cair na "gandalha"
Quem já não caiu, pelo menos uma vez na vida, na gandaia? Cremos
que todos nós.
Uma atriz de telenovela, porém, resolveu cair de outro jeito, bem
mais comprometedor: O síndico aderiu à "gandalha ".
Talvez tenha sido a ânsia de não parecer caipira (que diz "paia" por
palha, "muié" por mulher). Preocupação, a nosso ver, descabida, já que
houve até um presidente da República que declarou no exterior que os
brasileiros, sem exceção, somos todos caipiras.
Mas se até o síndico aderiu à gandaia, a coisa devia mesmo estar
muito boa!
olhar de "esgueio"
Quem olha obliquamente, de soslaio, geralmente desconfiado, olha
de esguelha. Mas muitos dizem "esgueio" ou "esgueia". A esses, devemos
sempre olhar de esguelha.
Escreveu incrivelmente correto uma jornalista, certa vez: O namoro
dos gansos começa com um olhar de esguelha da fêmea, "que" o macho
corresponde sem inibição, mostrando sua excitação.
Note: ela acertou no esguelha, mas se complicou na regência verbal
e no uso do pronome relativo adequado. A frase que ela realmente quis
usar, sem poder, foi esta: O namoro dos gansos começa com um olhar de
esguelha da fêmea, ao qual o macho corresponde sem inibição, mostrando
sua excitação.
É, portanto, mais um jornalista ao qual devemos olhar sempre de
esguelha...
ao lado de / do lado de
São ambas expressões corretas: Você está ao lado dos bons ou do lado
dos maus? * * * O partido expulsou os deputados e senadores que não estiveram
ao lado do (ou do lado do) governo, nessa votação. * * * Afinal, voce
está do meu lado ou ao lado deles?
caso "seríssimo"
Não: caso seriíssimo. Os adjetivos terminados em -io antecedido de
consoante possuem o superlativo com dois ii: friíssimo (ãefrio), maciíssi
mo (de macio), necessariíssimo (de necessário), precariíssimo (de precá
rio), propriíssimo (de próprio), provisoriíssimo (de provisório), reaciona
riíssimo (de reacionário), revolucionariíssimo (de revolucionário), suma
riíssimo (de sumário), vadiíssimo (de vadio), etc.
Os adjetivos terminados em -io antecedido de vogai possuem, todavia,
o superlativo com um i apenas: feíssimo (defeio), cheíssimo (de cheio), etc.
N
N NÃO ERRE MAIS! 1 59
Os jornais, diariamente, trazem problema s "seríssimos". A revista
Veja, por sua vez, resolveu "inovar". Na ed. 1.794, pág. 94, trouxe: Sob a
eosmecêutica, esse nome "feiíssimo", agrupam-se os cosméticos com propriedades
terapêuticas e os remédios com o poder de embelezar.
Cabe aqui aquele conhecido dito popular: Ouviu o galo cantar, mas
não sabe onde, nem como, nem por quê.
Um dicionário (aquele) registra todos os superlativos, como necessariíssimo,
seriíssimo e precariíssimo, mas (matreiramente) não registra
provisoriíssimo nem sumariíssimo.Vè-se: estamos bem de dicionários...
caixa de "Pândora "
Não, não existe esta caixa. Segundo a mitologia, Pandora (dó) foi
a primeir a mulhe r que surgiu no mundo. A expressão caixa de Pandora
significa fonte de todos os males.
Assim, podemos afirma r que a inflação é a caixa de Pandor a de toda
a economia. Essa mesma fras e foi ouvida de um jornalista especializado
em economia. Mas com caixa de "Pândora".
Você mora em Santa Bárbara "D'Oeste"?
No Estado de São Paulo, existe uma cidade muito simpática, de povo
acolhedor, amigo, e mulheres lindas, sobretudo inteligentes, chamada
Santa Bárbara d'Oeste.
No interior de qualque r locução substantiva própria, todas as palavras
átonas se grafam com inicial minúscula. Portanto, também: Afogados
da Ingazeira, Santo Antônio d'Aldeia, Dias dÁvila, Estrela d'Oeste,
conde d'Eu, Olho dÁgua das Flores, Rio d'Una, Rápido d'Oeste, Joana
d'Are, Antônio d'Alembert, etc.
Você mora em "S." Paulo?
Não, moro em São Paulo. Atenção par a isto: nomes geográficos não
se abreviam. Portanto, escreva sempre por extenso: São Paulo, Coronel
Fabriciano, Marechal Cândido Rondon, Dona Inês, Engenheiro Passos,
Santa Bárbara d'Oeste, São Manuel, Dom Pedrito, General Câmara, Doutor
Severiano, Padre Cícero, Frei Inocêncio, Tenente Portela, Major Vieira,
Almirante Tamandaré, etc.
A norma foi fixada pela Conferência de Geografia, em 1926, com o
apoio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Não se estende aos
nomes de logradouros públicos, que se abreviam: Avenida Mar. Castelo
Branco, Rua Gen. Carneiro, etc.
Títulos de jornais se vêem com abreviaturas. Só se perdoa àqueles
periódicos que foram fundado s antes de 1926.
MM TEMPO - Em Mato Grosso existe uma cidade chamada Vila Bela da
Santíssima Trindade, que, em razão de sua extensão, tem seu nome abreviado
assim: "V. Bela da SS Trindade". Haverá perdão?
N NÃO ERRE MAIS! 1 218
"sagrar-se" campeão
Esta é mais uma do jornalismo esportivo brasileiro. Seus dignos representantes
não se cansam de afirmar que o Corinthians "se sagrou"
campeão paulista, que o Flamengo "se sagrará" campeão brasileiro. Em
português, o verbo nunca admitiu tal emprego.
O mal, todavia, justament e porque é um mal, se propaga para outros
setores do jornalismo. Os jornalistas da Veja também resolveram adotar
o verbo inexistente: Depois de fazer sucesso com a equipe feminina, o
treinador Bernardinho "sagrou-se" campeão mundial de vôlei com a seleção
masculina. *** Sob o comando de Luxemburgo, o time do Cruzeiro
"sagrou-se" campeão brasileiro. Aqui, dois erros, porque o Cruzeiro nem
"se sagrou", nem foi campeão brasileiro, mas sim campeão da Copa do
Brasil.
Nem mesmo o dicionário do "tira-teima" e do "sobressair-se" conseguiu
abonar "sagrar-se" por tornar-se. Como se vê, o caso é grave...
Dado "ao" interesse pelo carro, seu preço subiu
Dado, quando eqüivale a por causa de, não se usa com "a": Dado o
interesse pelo carro, seu preço subiu. * * * Dada a importância do jogo, foi
escalado um árbitro experiente. * * * Dados os inconvenientes apontados,
escolheu-se outra solução. *** Dadas as circunstâncias em que ocorreu o
acidente, tudo indica que o chofer do ônibus dormiu ao volante.
Quando dado eqüivale a interessado, versado, é que se usa a: O rapaz
não era muito dado ao estudo. * * * Edite era muito dada à leitura.
Nos autos de um processo: A vítima vem passando sérias dificuldades
em residir no local, "dado às"constantes provocações proferidas pelas
vizinhas.
Não é provocação?
tampar = tapar?
Não. Tampar é fechar usando tampa ou qualquer outra peça movediça
própria. Assim, tampamos panelas, garrafas, bueiros, vidros de
remédio, etc.
Tapar é fechar, encobrir, vedar, vendar, sem necessidade do uso d
tampa. Desta forma, tapamos tudo o que tem tampa e o que não tem tampa:
tapamos a boca, o ouvido, os olhos, o nariz, um buraco qualquer, etc
Numa propaganda de televisão, certa vez, recomendava-se um medi
camento para desobstrução do nariz. Assim: Dormir com o nariz "tampa
do"é o maior sufoco.
Desse jeito, francamente , não dá nem par a dormir...
"emissão" de posse
Convém não confundir emissão, do verbo emitir (= pôr em circulação
exprimir), com imissão, do verbo imitir (= fazer entrar, investir). Assim
temos: emissão de cheques, emissão de opinião, mas: imissão de posse
N NÃO ERRE MAIS! 1 59
Num jornal: Para o juiz, o ministro está, no mínimo, mal informado,
porque a justiça federal tem um andamento muito rápido no que se refere
à "emissão" de posse.
Quem mesmo é que está mal-informado?
campeonato sul-americano "sub-20"
É o tipo de campeonato que já começa mal entre os brasileiros. Se
subvinte se escreve sem hífen, nada muda quando se substitui a palavra
por algarismos. Assim, o correto é grafar sub20, subi5, sub23. É até questão
de economia de espaço. Mas quem é que consegue convencer certos
jornalistas da vantagem de uma economia dessas?
Qual das misses "são" as preferidas?
Erro de concordância. Qualquer pronome interrogativo no singular,
antecedido da preposição de, exige o verbo no singular: Qual das misses
é a que tem mais chance de vencer o concurso? *** Qual das misses é a
preferida? *** Qual de vocês fez isso? *** Quem de todos esses alunos
ganhará O prêmio?
Declara, então, a mulher de um dos candidatos derrotados ao governo
de São Paulo: As mulheres dos outros candidatos são simplesmente
suas esposas. Eu não. Qual das outras mulheres dos candidatos "são conhecidas"
nacionalmente, independentemente da profissão do seu marido?

Todo pronome indefinido de singular também exige o verbo no singular,
ainda que esteja seguido de nomes ou pronomes no plural. Ex.:
Nenhum dos três goleiros da seleção era bom. * * * Nenhum dos atacantes
chutava a gol. * * * Cada um de nós sabe o que faz. *** Cada um dos ministros
tomava uma decisão diferente. *** Qualquer das pessoas presentes
poderá dar sua opinião.
A tendência popular, neste caso, é esquecer o sujeito (o pronome indefinido)
e dar toda a atenção ao nome pluralizado que se lhe segue. Daí
0 erro.
assaltar "nos faróis"
Farol por semáforo ou sinaleira? Não. Todo farol pressupõe foco potente
de luz. No sinal luminoso de trânsito não há esse requisito básico,
1 >or absoluta desnecessidade. Os portos têm farol; os veículos têm farol,
mas nenhum sinal de trânsito tem "farol". Por isso, nunca pare ao "farol"
vermelho: vá sempre em frente! Se encontrar, porém, um sinal vermelho
ou um semáforo no vermelho, não avance!
mau-caratismo / bom-caratismo |
São neologismos. Como mau-caráter e bom-caráter não têm um
nhstantiv o correspondente, oficial, cria-se. Repare neste texto de Roberlo
Campos, ex-ministro do Planejamento, um dos homens mais cultos
N NÃO ERRE MAIS! 1 59
que este país produziu: O subdesenvolvimento não resulta de espoliação
internacional ou de falta de recursos naturais. E sempre um fenômeno
cultural: misto de idiotice e mau-caratismo. Infelizmente, ambas as coisas
são abundantes neste subcontinente.
Se os maus-caracteres estão em todos os cantos, enquanto os bons-
-caracteres minguam, tinha de existir um substantivo que representasse
esse vício de personalidade tão asqueroso.
colchão / coxão
São palavras que não devem ser empregadas uma pela outra, principalmente
a primeira pela segunda, quando esta designa corte de carne:
coxão mole, coxão duro.
Chegar a um açougue e pedir um "colchão"duro é confiar demais na
dentadura...
Será que o Corinthians "classifica"?
Não. Os verdadeiros times de futebol, aqueles que dão alguma alegria
à sua torcida, classificam-se para as fases finais de seus campeonatos.
Note: o verbo é classificar-se, que significa ser qualificado num torneio
ou num campeonato para a fase seguinte, e nã o simplesment e "classificar".

Os repórteres esportivos vivem dizendo: Eu acho que o Corinthians
não "classifica".
E é a preposição para que se usa com esse verbo, e não "a".
N o s jornais se lê comumente : O time se classificou "ã"próxima fase
do torneio. Resta saber quando é que certos jornalistas vão se classificar
para a grande fase do jornalismo brasileiro...
concentrar \
Também é verbo pronominal, quando se usa, em futebol, por ficar em
concentração: Os jogadores já se concentraram para o jogo de domingo.
* * * Há certos atletas que não gostam de concentrar-se.
Recentemente, um jornal estampou em manchete, na página de esportes:
"Concentra"ou não "concentra"?
O jornalista, autor disso aí, é que tinha de se concentrar bastante
antes de ir à redação.
sou "de" menor
Ninguém é "de"menor nem "de"maior. Na língua culta ou mais cuidada
existe o menor de idade e o maior de idade. Portanto, diga sempre,
como gente grande: sou menor. Ou, então, como gente que entende: sou
maior.
No registro coloquial, todavia, só se encontr a "de" menor e "de'
maior. Um dicionário (aquele) abona as expressões impugnada s
Compreende-se .
2 2 2 NÃO ERRE MAISI
"fundamento"
Para não continuar errando, convém que todo jogador de futebol,
viciado em erros de passes, treine bastantes fundamentos.
Os primeiros rudimentos ou as primeiras noções básicas ou funda -
mentais de qualquer coisa são fundamentos, sempre no plural.
Agora, permita-me, caro leitor, uma opinião: jogador profissional que
erra passe é algo imperdoável. Para quem só faz isso na vida, e ganha fortunas
só para fazer isso na vida, é difícil aceitar. Jogador profissional que
erra passes ou que erra um gol á frente da meta é comparável a professor
que escreve "xarxixa". Dá pra aceitar?
fim-de-semana = fim de semana?
Não. Fim-de-semana é lazer, descanso. Todo aquele que trabalha tem
direito a seu fim-de-semana remunerado.
Fim de semana é final de semana. Todo fim de semana eu viajo.
Fim de semana todo o mundo tem: pobre, rico, ladrão, corrupto, bandido,
político, vizinho, prostituta, etc. Todo mês tem no mínimo quatro
fins de semana. Não há como fugir dele (a não ser morto).
Fim-de-semana é coisa de gente que pode usufruir as delícias da
vida; é o week-end dos ingleses e norte-americanos.
Os parlamentares brasileiros invariavelmente "esticam" seus fins-desemana,
que começam na sexta-feira (de manhã) e se encerram na segunda-feira
(à noite). Nem todos podemos tamanha proeza...
Apesar de ser clara a diferença (e muito simples de entender), há
um grande jornal paulista que, vendo-se impossibilitado de percebê-la,
adotou apenas a escrita fim-de-semana para ambos os sentidos. (E dá-lhe
manual de redação!...)
Reclamo não tanto por mim, "mas" pelas crianças
A palavra que corresponde a não tanto é quanto, e não "mas" ou "mas
também", correlativos de não só. Portanto, reclame, mas reclame não tanto
por si, quanto pelas crianças.
Repare ainda nestas frases: O namorado a beijou não tanto por desejo
quanto por hábito. *** O jogador se contundiu não tanto pelo choque
com o adversário quanto pelo mau estado do gramado. * * * Juçara veio
até aqui não tanto para buscar o livro quanto para me ver.
Observe que tal correlação implica predomínio de um fato sobre
o outro; a correlação não só... mas também enuncia adição de fatos,
ambos importante s e significativos: Não só eu, mas também o motorista
pegamos no sono. *** Não só o garoto, mas também a mãe viram o
disco-voador.
palavra de honra
Usa-se com em: Dou minha palavra de honra em que isso é verdade.
N NÃO ERRE MAIS! 1 59
* * * O presidente deu sua palavra de honra em que erradicaria o analfabetismo
em cinco anos . * * * Dê sua palavra de honra em que não vai cobrar
isso dele! * * * Ela deu sua palavra de honra em que me procuraria.
Na primeira página de um jornal: O novo ministro da Fazenda deu a
sua palavra de honra "de" que as taxas de juros começarão a cair a partir
de hoje.
A verdade é que as taxas de juros acabaram caindo mesmo. E o ministro
também...
As partes ou a parte contrária "entrarão" em acordo
Quando há mistura de números no sujeito composto, conforme se vê
nesta frase, a concordância se faz sempre com o elemento mais próximo,
e o fator determinante é a conjunção ou, de valor corretivo. Portanto: As
partes ou a parte contrária entrará em acordo. *** Os ladrões ou o ladrão
conseguiu fugir pela chaminé. * * * O ladrão ou os ladrões conseguiram
fugir pela chaminé. * * * Os assassinos ou o assassino continua solto. * * *
O assassino ou os assassinos continuam soltos.
Num jornal paulistano: Existe uma síndrome do candidato. Na verdade,
é o próprio candidato que fabrica sua síndrome, de modo que os
sintomas ou a massa deles "variam" de acordo com a personalidade, o
temperamento, o caráter (se existente) de cada caso examinado.
Em outra edição, do mesmo jornal: Desde 11 de setembro de 1973,
"estão" em vigor no Chile um ou mais estados de exceção.
errata
Esta palavra é um plural latino, cujo singular correspondente é erratum.
Assim, só tem cabimento o seu emprego quando se vai tratar de
dois ou mais erros; quando se vai corrigir apenas um erro, usa-se, naturalmente,
erratum.
Não faz muito, contudo, o Ponto Frio mandou publicar uma nota de
esclarecimento na Folha de S. Paulo (ed. 25.204, pág. 5), para corrigir um
único erro e encimou-a com a palavra errata. O Ponto Frio não teria, assim,
entrado numa gelada?
Mas não é só o Ponto Frio que aprecia uma geladinha. Na pág. 10 da
mesma edição da referida folha, há outra errata. Agora do Pão de Açúcar,
que também quis consertar um erro surgido num de seus anúncios.
A vida está mesmo muito difícil. Principalmente nos supermercados...
Isto são horas de chegar?
Esta é uma frase típica de pais preocupados, dita geralmente de madrugada...
Muitos duvidam de sua correção, mas sem razão.
O verbo ser, quando aparece entre um pronome ou um nome no singular
e uma palavra no plural, concorda com esta, a não ser em alguns
casos especiais, como, por exemplo, quando o pronome ou o nome representa
pessoa. Assim: Você é grande, mas não é dois. *** O neto é as delícias
dele.
N
N NÃO ERRE MAIS! 1 59
De outra forma, podemos construir sem receio: Isso são ossos do ofício.
*** Aquilo são estrelas ou são planetas? *** Meu lazer eram aqueles
exercícios. *** Nossa diversão sempre foram esses brinquedinhos. ***
Pesquisas são uma necessidade durante as eleições.
Se, porém, o pronome demonstrativo o vem como predicativo, a
concordância do verbo ser se faz geralment e com ele: Problemas é o
que não falta no Brasil. *** Risos era o que ninguém gostaria de ver
naquele instante.
Num jornal: Mas o destaque do C3 "é"realmente as linhas modernas
e bastante atraentes.
Repare agora nestas frases, colhidas na etiqueta de uma loja: Conforto,
praticidade e beleza é o que procura o homem moderno. Pesquisa,
tecnologia e bom gosto é o que oferecemos.
Esse livro é para "mim" ler?
"Mim" não ler coisa nenhuma. "Mim" não estudar português, "mim"
só gostar de ganhar presentes. "Mim" também gostar de pipoca!
Quem é que fala assim? Só mesmo índio é que fala assim. Pois quem
usa "mim" antes de verbo está falando quase igual. Sem saber.
Gente civilizada, educada, elegante, usa apenas eu onde o índio quer
"mim": Não deu para eu ir ao escritório hoje. (E não: Não deu para "mim"
ir ao escritório hoje.) *** Deram um bom livro para eu ler. (E não: Deram
um bom livro para "mim" ler.) *** Deixaram tudo para eu fazer. (E não:
Deixaram tudo para "mim "fazer.)
Não havendo verbo, aí, sim, empregaremos mim: Deram um bom livro
para mim. * * * Deixaram tudo para mim.
EM TEMPO - Note estas frases, todas absolutamente corretas: É difícil
para mim dirigir e prestar atenção à sua conversa. * * * Foi duro para mim
vê-la sofrendo.
À primeira vista, podem parecer frases de índio. Não são. Neste caso,
na verdade, as frases se encontram em ordem inversa. Repare na ordem
direta: Dirigir e prestar atenção à sua conversa é difícil para mim. Vê-la
sofrendo foi duro para mim.
Reparou? O mim nada tem que ver com o verbo; não se trata de sujeito,
mas de complemento nominal: difícil para mim, duro para mim.
Não entendi "tamanhas" ignorância e falta de educação
Não. Um adjetivo ou um pronome adjetivo anteposto, quando modifica
dois ou mais substantivos, concorda sempre com o elemento mais
próximo: Não entendi tamanha ignorância e falta de educação. *** Foi
um caso de raro brilho e acontecimento. *** Onde estão seu marido e
filhos? * * * Aonde foram sua mulher e filhos? * * * Visitarei vocês qualquer
dia e mês destes.
No editorial de um importante jornal de São Paulo: O empresário
fechou o ano com um protesto de "raras "felicidade e oportunidade.
N NÃO ERRE MAIS! 1 59
Rara infelicidade e ocasião.
Noutro jornal de São Paulo: O mercado imobiliário tem "menores"
liquidez e rentabilidade do que muitas outras aplicações.
Enfim, o jornalismo brasileiro vai de vento em proa...
Bom "Ano Novo" o todos!
Desejo malfeito: tanto ano-novo quanto ano-bom se escrevem com
hífen e com iniciais minúsculas. Por isso, o desejo sincero só pode vir
desta forma: Bom ano-novo a todos!
Numa revista: Fumar menos está entre suas promessas para 2003?
Bem, é melhor rever seus planos para o "ano novo".
No site de um jornal: Feriado do "Ano Novo" deixa 109 mortos em
estradas federais. Ué! e os manuais de redação?!
Num dicionário (aquele) se lê, na definição de réveillon: ceia da noite
de "Ano-Novo". (Por que as iniciais maiúsculas, se assim nem o próprio
dicionarista registra?)
seja quem for
Esta é uma locução pronominal indefinida invariável, por conta do
pronome quem. Assim, construímos: O governo punirá todos os corruptos,
seja quem for. * * * A morte leva todas as pessoas, seja quem for, pobre
ou rico.
Por ocasião do trágico acontecimento numa das faculdades cariocas,
na qual foi vítima uma estudante, que ficou tetraplégica, a direção da
escola emitiu uma nota em que afirma sua disposição de colaborar com a
polícia e encontrar o autor ou os autores do crime, "sejam quem forem".
O criminoso, até hoje, está à solta...
instalações "hidro-sanitárias"
Hidro- é um elemento prefixo-radical, e nenhum elemento prefixo-
-radical exige hífen. Portanto: hidrossanitário, hidroginástica, hidromassagem,
etc.
A maioria dos engenheiros e arquitetos, no entanto, continua insistindo
em duas coisas: nas instalações "hidro-sanitárias" e no "ante-projeto".
Ainda não tive o prazer de conhecer nenhum que escrevesse de outro
modo, ou seja, corretamente. Ou teria sido apenas uma desagradável
coincidência?
No Sul "gia" demais no inverno
No Sul geia muito no inverno. O verbo é gear, e não "giar". Todo verbo
terminado em -ear ganha um i nas formas rizotônicas. Confira: passear
(passeio, passeia), massagear (massageio, massageia), frear (freio, freia),
recear (receio, receias), torpedear (torpedeio, torpedeia), etc.
Veja, agora, como um comentarista esportivo do Rio de Janeiro, velho
N NÃO ERRE MAIS! 1 59
botafoguense, tido até por poeta entre seus colegas, vacilou, ao escrever
no Jornal do Brasil, recentemente: Eles não fazem isto e ainda "torpediam"quem
tenta defendê-los.
Eu nunca faço isso e ainda torpedeio quem faz...
"freiada"
O verbo frear tem como substantivo correspondente freada, e não
"freiada". Nessa família de palavras, só freio tem i; as demais não: freando,
freava, freasse, freado, etc.
Anote, ainda: afear, enfear, estrear, recear, rechear, passear, todas sem
i. Mas todos os substantivos correspondentes com i: feio, estréia, receio,
recheio, passeio.
Escrevem os jornalistas: O teto solar surgiu logo depois da II Guerra
Mundial, quando era preciso economizar aço ao máximo e os carros tinham
parte da capota substituída por tecido. Como o tecido "enfeiava"o
carro, surgiu a idéia de fazer o teto abrir. * * * A nova rede de televisão do
Paraná deve "estreiar" dia 25 de fevereiro.
E quando é que os jornalistas vão estrear um novo português, um
português respeitoso?
"no que pertine" à questão das multas
Advogados sérios, confiáveis, não usam "no que pertine" por no pertinente,
ou no concernente, ou no referente. Além dessas expressões, esses
mesmos advogados podem usar no que concerne e no que se refere. Eles
jamais usam "no que pertine".
falar "numa boa" com os adversários
Melhor será falar às boas com todo o mundo, e não só com os adversários.
O povo gosta muito de falar "numa boa", de ficar "numa
boa" , mas é às boas que significa amigavelmente, em clima amistoso,
pacificamente.
A expressão popular se usa com propriedade quando há um termo
subentendido. Assim, por exemplo: Passei vários dias doente, mas agora
estou numa boa. Isto é: Passei vários dias doente, mas agora estou numa
boa condição, situação, etc.
"louva-deus"
Nenhum bicho tem este nome. O inseto verde, predador, cuja postura,
quando pousado, lembra alguém de joelhos, em oração, tem nome parecido:
louva-a-deus. Alguns jornalistas, todavia, criaram outro bicho. Veja:
Pesquisadores norte-americanos descobriram que o "louva-deus", inseto
que parece um ramo de árvore, possui um ouvido localizado no centro do
corpo que tem por função, além da auditiva, iludir seus inimigos e atrair
um companheiro para reprodução.
Em que mata se encontra esse bichinho?
N NÃO ERRE MAIS!
1 59
do Oiapoque ao Xuí
Até bem recentemente se dizia que o Brasil ia do Oiapoque ao Xuí.
Pois uma de nossas revistas semanais de informação informa que não é
bem assim, fazendo matéria sobre o "Arroio Chuí". E repete várias vezes
a cacografia.
A gafe é tão grave quanto a de certa emissora de televisão, quando
falou num faraó inexistente, chamado "Queóps".
"próximos 1 km"
Nas nossas rodovias, volta e meia se lêem placas assim, quando está
havendo algum reparo: Cuidado - entrada e saída de veículos - "próximos
1 km".
Se 1 nunca foi plural (ao menos entre os terráqueos), como entender
o uso de "próximos"? Ademais, os símbolos das unidades de medida se
escrevem imediatamente após o algarismo, sem nenhum espaço. Além do
quê, só se usa o algarismo de 2 em diante.
Portanto, a placa deveria trazer outro aviso, mais educativo, mais
respeitoso: Cuidado: entrada e saída de veículos no próximo quilômetro
(ou, por tolerância, no próximo km). Em rigor, também não se usa abreviatura
sem o devido algarismo, mas por medida de economia ou de falta
de espaço nas placas de sinalização, admite-se tal prática.
Quem passava pela Rodovia dos Imigrantes, em São Paulo, notava
placas de aviso assim: Fone de emergência - "cada 1 Km". Ora...
Como se vê, o problema das nossas rodovias não está só nos buracos,
nos enormes buracos, mas também nos furos, que talvez sejam até mais
perigosos...
asa-delta
Faz no plural asas-deltas sem nenhuma dificuldade: qualquer estudante
do ensino médio sabe fazer o plural de compostos constituídos de
dois substantivos, porque os dois elementos sempre variam.
Apesar de a pluralização ser corriqueira, um jornalista resolveu
complicar, ao escrever: Brasília passou a ter seus céus cortados por "asas-
-delta".
Por que o erro? Imagino que seja porque não consta em nenhum dicionário,
para a devida consulta. O mesmo "fenômeno" se dá com o plural
de sem-terra, sem-teto, etc. Não há no dicionário. Sem bússola, o barco
afunda mais rápido...
ter dor "na costa"
É difícil! As pessoas não têm "costa", mas costas. Países é que têm
costa, ou seja, litoral, região à beira-mar. Repare na imensa diferença por
estes exemplos: Minhas costas estão doendo: o que será? *** Eu estava
de costas; fui atingido pelas costas. * * * Não sei por que Aguinaldo me
N NÃO ERRE MAIS! 1 59
voltou as costas. *** Qual e o único inseto que anda de costas? *** Suas
costas estão vermelhas: caiu ou apanhou? *** A costa brasileira é extensa.
* * * Os navegantes alcançaram a nossa costa depois de mil dias. * * * A
Bolívia e o Paraguai não têm costa.
De um ex-presidente: O peso do combate à inflação não pode ser jogado
somente "na costa"do povo pobre.
Depois, um famoso humorista, no seu programa de entrevistas pela
televisão, ao tentar desenhar o mapa do Brasil, fala em "costas do Brasil".
Como o pobre nunca teve "costa" nem o Brasil nunca teve "costas",
como é que se dorme com um barulho desses?
depor
Este verbo, na acepção jurídica, é transitivo direto ou intransitivo,
mas nunca transitivo indireto. Portanto, construímos: A família depôs
que ele sempre foi um filho problemático. *** Todos os funcionários da
firma foram obrigados a depor na polícia.
No site da Jovem Pan, porém, aparece a novidade (desagradável), ou
seja, o verbo usado como transitivo indireto: Pai do médico esquartejador
depõe "à"polícia.
Ninguém depõe "a" coisa nenhuma.
alterar
Este verbo é pronominal na acepção de modificar-se, transformar-se,
mudar, e não é intransitivo em nenhum significado: A cor do camaleão se
altera de acordo com o meio. *** Seu humor se altera conforme as condições
meteorológicas.
No site de um jornal: Desempenho do Astra bicombustível não "altera"
quando se troca de combustível.
Não há o que não se altere na pena de certos jornalistas...
"manter a direita"
Quem viaja pelas nossas rodovias está fadado a ler placas com este
aviso: "Mantenha a direita". Ou: "Conserve a direita". Mais seguro, porém,
é manter-se à direita, é conservar-se à direita.
Outra bobagem que se lê à beira das nossas rodovias é esta: "Mantenha
a sua mão ". É o caso de perguntar: Com quê? Com um bom hidratante?
De que marca?
tornar-se "em"
O verbo tornar-se rejeita a preposição "em". Portanto, devemos construir:
O Brasil se tornou pentacampeão mundial de futebol. *** Muitos
se tornaram reféns do bandido. *** Um cão da raça pastor islandês tornou-se
principal personagem das manchetes dos jornais dinamarqueses,
recentemente, depois que conseguiu sobreviver por 68 dias preso em um
poço, perdendo a metade de seus 22kg.
N NÃO ERRE MAIS!
1 59
No site de um jornal, em manchete, numa linda terça-feira: Lucélia
de Carvalho se torna "na" 1." brasileira a ganhar dois ouros individuais
em Pan.
Depois, no início da matéria: Lucélia de Carvalho conquistou "nesta
terça-feira" a medalha de ouro no kumite acima de 58kg do caratê nos
Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo e se tornou "na"primeira atleta
brasileira a ganhar dois títulos consecutivos em provas individuais na
competição continental.
Dizem que esse jornal se tornou o melhor do país...
sassafrás
Varia normalmente no plural: sassafrases.
Num jornal: A morte dos cedros, "sassafrás", canelas e guapuruvus,
entre outras árvores frondosas, eliminou dois andares ou patamares de
floresta.
pagar / perdoar
Estes dois verbos se usam da mesma forma: pagar (ou perdoar) alguma
coisa a alguém. Note: o objeto indireto é sempre pessoa; o direto é
coisa. Portanto, pagamos dívidas, pecados, compromissos, etc., mas pagamos
ao dono do armazém, ao dentista, ao médico, ao taxista, à costureira,
à professora particular, aos empregados, etc. Se transformarmos isso em
pronomes, eis como fica: Paguei-lhe ontem a dívida, não foi? ** * Eu quis
pagar-lhe, mas ele não quis receber.
Portanto, não se usa "pagá-lo", "pagar o dono do armazém" ou "pagála",
"pagar a dona do armazém", em referência a pessoa, mas apenas pagar-lhe,
pagar ao dono do armazém, pagar à dona do armazém.
Agora, o verbo perdoar. Perdoamos dívidas, pecados, desfeitas, ofensas,
etc., mas perdoamos ao devedor, ao pecador, ao ofensor, ao irmão, ao
vizinho, ao amigo, ao colega, etc. Se transformarmos isso em pronomes,
eis como ficará: Seu pai ainda não lhe perdoou aquela sua má-criação?
* * * Luís, seu amigo diz que nunca vai perdoar-lhe. * * * Depois de muito
tempo é que fui perdoar-lhe.
Portanto, não se usa "perdoá-lo", "perdoar um amigo" ou "perdoála",
"perdoar uma amiga", em referência a pessoa, mas apenas perdoarlhe,
perdoar a um amigo, perdoar a uma amiga.
No site de um jornal, em manchete: Mãe perdoa "o"filho pela morte
de estudantes. Logo abaixo: Ela pede que as famílias de Liana e Felipe
também perdoem "o" seu filho.
O crime cometido foi desses que não merecem perdão.
Uma de nossas melhores revistas semanais de informação trouxe
certa vez um anúncio da própria publicação em forma de advertência: A
redação é uma das provas mais temidas pelos vestibulandos. Em geral,
examinadores não "perdoam quem"foge ao tema ou comete erros grosseiros.
A seção Veja Educação é uma ótima ferramenta para quem deseja
N NÃO ERRE MAIS! 1 59
escrever em bom português. Traz testes de vocabulário, reportagem sobre
dificuldades da língua e dicas sobre recursos estilísticos. Há ainda a seção
Erros e Acertos, com as regras seguidas pelos jornalistas da revista.
Depois de errarem na regência do verbo perdoar, eles ainda se acham
no direito de oferecer dicas sobre português. Durma-se com um barulho
desses!
benzinho / amorzinho / brotinho
São três palavras absolutamente invariáveis em gênero, mesmo em
referência a mulher. Trata-se de diminutivos carinhosos, respectivamente,
de bem, amor e broto, também, naturalmente, nomes sobrecomuns.
Portanto, usamos: Ifigênia é meu benzinho. *** Juçara é meu amorzinho.
* * * Sua filha é um brotinho lindo!
Há namorado apaixonado por aí que, quando comete alguma asneira,
digna de fim de namoro, sai-se com esta, junto à amada: "Benzinha",
não foi por querer. Perdoa!
Tem perdão?
Uma jornalista, talvez vizinha desse namorado imperdoável, resolve
imitá-lo, escrevendo numa folha de São Paulo: "Brotinha": se você já fez
14 anos, mas ainda não tem 21; se mede mais de "lm68", mas não ultrapassa
"os lm81"; é bonita, é bonita e é bonita, acordei
Acorde?! Quem usa"brotinha","lm68"e"o s lm81", em vez de brotinho,
l,68m e o l,81m, ainda tem coragem de pedir que alguém acorde?!
Aparecida
É este o nome da cidade paulista, onde se situa a maior basílica do
Brasil, dedicada à padroeira do nosso país, Nossa Senhora Aparecida.
Os jornalistas, porém, insistem em chamá-la Aparecida "do Norte", uma
cidade que, em verdade não existe, assim como não existe Salto "de Itu",
mas apenas Salto.
aparte
É palavra masculina: o aparte, um aparte. No diminutivo, mantém
naturalment e esse gênero: um apartezinho. Mas muita gente continua pedindo
"uma apartezinha" por aí.
Um deputado, p. ex., num debate pela televisão, saiu-se com esta:
Hélio, se me permite "uma apartezinha rápida", gostaria de falar sobre
esse assunto.
Pois fale!...
"por causa que"
Não, não existe nada "por causa que". Mas, apesar disso, apesar de
sua inexistência, um dicionário (aquele) a registra. E mais: registra também
"por causo que"! É, o mundo está ficando mesmo muito estranho,
muito perigoso!
N NÃO ERRE MAIS! 1 230
Talvez "por causo" desse registro, um provedor da Internet tenha lançado
recentemente em manchete esta frase: Felipão confessou que só usa
três zagueiros "por causa que" Cafu não sabe marcar.
Certa vez, ouvi um pseudo-apaixonado se dirigir assim à namorada:
"Benzinha, onte eu num pude vim, por causo que tive doente, apesar que
tava loco pa vê ocê".
Será que elas acreditam mesmo em gente assim?!
Certas passagens e frases da vida - não sei por quê - me fazem lembrar
um fato relatado por uma professora e ocorrido numa de suas salas
de aula:
O aluno era de péssimo aproveitamento em português. A professora,
sempre muito dedicada, querendo corrigir mais um de seus inúmeros
erros, mandou-o escrever cem vezes o pretérito perfeito do verbo caber,
porque ele só dizia "cabeu", em vez de coube. A tarefa deveria ser feita
depois que as aulas terminassem, como uma espécie de castigo.
O garoto, então, encheu a página de coube: coube, coube, coube...
No finzinho, escrupuloso, deixou uma nota no caderno à professora, já
ausente: Fessora, num escrevi cem vez por causo que num cabeu.
Já que pra chorar não dá, a gente ri...
pão-duro
Trata-se de nome absolutamente invariável em gênero: turma pãoduro,
namorada pão-duro, mulher pão-duro, gente pão-duro. Da mesma
forma: Sua amiga é um pão-duro de marca maior!
A Veja, no entanto, na ed. 1.626, pág. 172, revela que a linda modelo
gaúcha Gisele Bündchen é "pão-dura"assumida.
Será?
No site de um jornal houve a confirmação: Descobrimos um defeito
em Gisele Bündchen: ela é "pão-dura".
Como é que tem coragem de falar em defeito aquele que está cheio
deles?!
dedo-duro
A exemplo de pão-duro, também é nome invariável em gênero. Portanto,
use sempre: gente dedo-duro, vizinha dedo-duro, turma dedo-duro,
namorada dedo-duro, colega dedo-duro. Da mesma forma: Sua namorada
é um dedo-duro de marca maior!
nó-cego
A exemplo de pão-duro e dedo-duro, também é nome invariável em
gênero. Portanto, use sempre: gente nó-cego, vizinha nó-cego, turma nócego,
namorada nó-cego, colega nó-cego. Da mesma forma: Sua irmã é
um nó-cego de marca maior!
N NÃO ERRE MAIS! 1 59
"marcar-mos" / "poder-mos" / "fazer-mos"
Não, não se separa a terminação -mos do resto do verbo. Por isso, escreva
sempre: marcarmos, podermos, fazermos, entregarmos, pedirmos,
etc.
Só os pronomes átonos se ligam por hífen às formas verbais: marcarnos,
fazer-nos, entregar-nos, pedir-nos, etc.
"raspar" bigode
Ninguém, em sã consciência, faz isso. As pessoas que não são masoquistas
preferem rapar o bigode: é bem menos dolorido!
Bigode, axilas, cabeça e pêlos se rapam. O que se raspa é taco, parede,
porta, janelas e, recentemente, até bilhete de loteria.
Lembre-se das palavras de Deus a Moisés: Os sacerdotes não raparão
as cabeças, nem as barbas, e não farão golpes no seu corpo.
A uma ordem de tamanha magnitude, obedece-se!
quinta e "sexta-feiras"
Não, não deve haver variação neste caso, porque feira não é adjetivo.
Portanto, usaremos sem nenhum problema: O comércio estará fechado na
quinta e sexta-feira. * * * Não haverá aula na segunda e terça-feira.
gás lacrimogêneo
É este o nome do gás, e não "lacrimogênio", cacografia que recebeu
nítida influência de gênio. Mas... que tem a ver lacrimogêneo com gênio?
Nada. O povo, contudo, sempre vê alguma coisinha...
Não só o povo; alguns jornalistas também. Eis como se leu no site
de um jornal, recentemente: Em meio ao gás "lacrimogênio", opositores,
situacionistas, policiais militares e a Guarda Nacional se misturam numa
batalha campal nas ruas da capital da Venezuela.
A luta continua...
Cheguei agora "do" Guarujá
É assim que se ouve sempre. Mas nomes de cidade rejeitam o uso do
artigo. Note que todos empregamos assim: Cheguei agora de Campinas,
de São José do Rio Preto, de Santos, de Jaú, de Bauru, de Franca, etc.,
sempre sem o artigo. Portanto, também: Cheguei agora de Guarujá, voltei
de Guarujá, estou em Guarujá, não conheço Guarujá.
Existe atualmente uma certa febre, na mídia brasileira, de usar o artigo
não só antes dos nomes de cidade {"o" Jaú, "o Bauru", "a Franca", etc.),
mas agora também com nomes de Estado que não exigem essa classe de
palavras. Então, ouve-se: "o" Sergipe, "o"Pernambuco, "o" Goiás; cheguei
agora "do"Sergipe; estou "no"Pernambuco, já voltei "do" Goiás.
No site de uma folha paulistana: Avião da FAB some em vôo "no
PE". Dias depois, no mesmo site, apareceu esta manchete: Tornado "no"
N NÃO ERRE MAIS! 1 232
Chipre deixa 30feridos. Dias depois, no mesmo site: Portuguesa contrata
jogador que estava "no" Chipre: o meia Luciano Souza, 31, que estava no
AEL Limassol, "do" Chipre, assinou contrato por um ano. Agora, no site
de tradiciona l jorna l paulistano, em manchete: MST realiza sete ocupações
"no" PE.
Nessa baderna toda, quem acaba se machucando são os que se orientam
pelos tais manuais de redação, que são, sem dúvida, uma maravilha!...
Ou seja, é um festival de invenções, que só podem sair mesmo de cabecinhas
altament e privilegiadas.
mulheres alemãs e crianças catalãs
Perfeito. Alemão fa z no plura l alemães-, alemã fa z no plura l alemãs;
catalão faz no plura l catalães; no feminino, catalãs. Aliás, todas as pala -
vras terminada s em -ã fazem o plura l mediant e o acréscimo de s: fã, fãs;
romã, romãs; amanhã, amanhãs, etc.
De um jornalista : Depois de uma guerra nuclear, não haverá
"amanhães".
Ou seja, par a esse jornalista , existe "amanhão", e não amanhã.
Não é assustador?
Deus - "nEle"
Em referênci a a Deus, grafa-s e com inicial maiúscul a o pronome ou
a contração: Creio muito em Deus e espero que Ele sempre esteja comigo.
*** Acredito em Deus e confio Nele. *** Acredito em Deus e quero estar
sempre junto Dele.
Há muitos, no entanto, que usam "nEle", "dEle", etc.
visar / aspirar
São verbos que exigem a presença da preposição a, no sentido de
pretender, objetivar: visar ou aspirar a um cargo, visar ou aspirar a um
prêmio, visar ou aspirar a uma boa carreira, visar ou aspirar a um diploma,
visar ou aspirar à presidência da República.
Ambos os verbos podem (note: podem) dispensar a preposição, se
vierem antecedidos de infinitivo. Portanto: ele visa (ou aspira) conquistar
esse cargo; ele visava (ou aspirava) eleger-se no primeiro turno. Os que
primam pelo rigor, no entanto, preferem construir: ele visa (ou aspira)
a conquistar esse cargo; ele visava (ou aspirava) a eleger-se no primeiro
turno.
Na mídia: Nas emissoras de televisão não há nenhuma preocupação
com programas que visem "o"desenvolvimento da criança, como programas
de cunho educativo. *** Parreira não conseguiu fazer o treino nesta
segunda-feira na China, visando "o" amistoso marcado para quarta, às
9h30 contra a seleção chinesa.
Acho que estamos precisando criar urgentement e um programa que
vise ao melhor desempenho profissional de alguns jornalistas.
N NÃO ERRE MAIS! 1 59
ver / vir
Cuidado, ao usar estes verbos! O problema maior com o primeiro se
dá no futuro do subjuntivo. Muitos usam "se eu ver", o que não existe.
O futuro do subjuntivo do verbo ver é este: vir, vires, vir, virmos, virdes,
virem (que muitos pensam ser do verbo vir). Portanto: Se eu vir Juçara,
darei o seu recado. *** Quem vir meus filhos por aí, por favor, aviseme!
* * * Na hora que eu vir Selma, vou arrancar-lhe os cabelos! * * * Não
vou descansar, enquanto não vir esse caso resolvido. *** Aquele que vira
Deus e continuar ateu, não terá salvação.
O futuro do subjuntivo do verbo vir é: vier, vieres, vier, viermos, vierdes,
vierem. Eis frases com tais formas: Se eu vier aqui amanhã, falarei
com vocês. *** Quem vier mais cedo será recompensado. *** Quando eu
vier aqui novamente, tudo será diferente. * * * Na hora que eu vier a Salvador,
resolverei esse caso. *** Aquele que vier a Deus e não O vir, não
merecerá salvação.
Só por mera curiosidade, eis como aparece nos jornais: Quem passar
pela Avenida Ribeiro Dantas, em Bonsucesso, e "ver" o rosto do Cristo
Redentor...
Isso me faz lembrar aquela frase de pára-choque de caminhão: Se
você me "ver" abraçado com mulher feia, separe, que é briga!
Estamos no 2005.° ano da era cristã: como escrever
por extenso?
Assim: estamos no segundo milésimo quinto ano da era cristã.
Suponhamos, agora, que você tenha sido o 3001 ° colocado num concurso.
Escreverá, então: Fui o terceiro milésimo primeiro colocado no
concurso.
Suponhamos, ainda, que alguém seja a 5.232.- pessoa de uma fila.
Dirá, então, revoltado, naturalmente: Sou a quinta milésima ducentésima
trigésima segunda pessoa da fila!
os democrata-cristãos
É este o plural de democrata-cristão. Quando um composto é formado
de dois adjetivos, só o último varia: social-democratas, nacional-
-socialistas, social-liberais, marxista-leninista, policial-militares, liberal-progressistas,
etc.
Numa revista semanal de informação: Segundo a pesquisa, os "sociais-democratas"
receberiam 40% dos votos contra 38% dos "democratas-cristãos".

No principal jornal baiano, esta manchete: "Democratas-cristãos"
deixam o governo de Berlusconi.
Assim, não há cristão que agüente!
N NÃO ERRE MAIS! 1 234
"aparição" do papa no terraço da basílica
Os jornalistas brasileiros insistem em confundir aparição com aparecimento.
A primeira só se usa com seres sobrenaturais e com fenômenos;
a segunda é que se aplica aos demais casos. Assim, temos: a aparição da
Virgem, a aparição de um fantasma, de uma alma, a aparição do Sol, de
um cometa, etc.
Mas: o aparecimento do papa no terraço da basílica, o aparecimento
do governador para falar com um seqüestrador, o aparecimento do candidato
para as câmaras de televisão, etc.
Eis como se viu escrito numa de nossas revistas semanais de informação:
Jader Barbalho faz "aparições" certas nos três noticiários
diários.
O jornalista não soube informar, porém, quando foi que o ex-senador
virou fantasma ou qualquer outro ser sobrenatural...
"Anexo" segue a foto
Anexo não é advérbio (palavra invariável), mas adjetivo (palavra variável).
Como o adjetivo toma sempre o gênero e o número do substantivo
modificado, temos: Anexas seguem as fotos. *** Anexos seguem os recibos.
*** Anexa segue a nota fiscal. *** Anexos envio os documentos. ***
A foto está anexa aos documentos. * * * A Alvares Penteado era uma escola
anexa ao curso superior. *** Vão aqui anexos seus livros preferidos.
Eis outro exemplo de emprego inadequado dessa palavra: "Anexo"à
presente envio-lhe a nota fiscal. Vemos aí anexo novamente como advérbio.
A frase legítima é: Anexa à presente envio-lhe a nota fiscal.
Apenso se usa rigorosamente como anexo. Convém, contudo, não
confundir anexo com incluso (= o que está dentro, o que está contido; ou
seja, eqüivale a incluído). Anexo é o que está junto, ligado, unido. Repare
nestes exemplos: Já está inclusa na conta a comissão do garçom. *** Seguem
anexas as novas listas de preços.
"em anexo"
Os que sentiam uma natural dificuldade no emprego de anexo como
adjetivo resolveram encontrar uma saída (pouco honrosa) para o problema:
criaram a locução"em anexo", que, como locução, não sofre variação
nunca. Ora, "em anexo" eqüivale rigorosamente a "em junto" . Quem enviaria
"em junto " sua foto?
"lapizão" de cera
O aumentativo de lápis - qualquer criança sabe - é lapisão, mas uma
fábrica de lápis de cera achou de estampar na caixa do seu produto, em
letras enormes: "Lapizão"de cera. Não tenho visto o referido produto: ou
acabou, ou mudaram o nome. Se acabou, mereceu; se mudaram o nome,
fizeram-no a tempo.
236 MÃO mm MAIS!
creme dental com "micro-partícula"
Cuidado com esse tipo de creme dental! Há uma empresa que anda
divulgando aos quatro cantos do mundo que acabou descobrindo isso aí.
Se tivessem feito propaganda de um produto com micropartícula, talvez
fossem levados mais a sério.
O elemento micro- não se liga a nenhuma palavra mediante hífen,
com apenas uma exceção: micro-habitat.
As vendas do comércio caíram "em" 30%
O verbo cair, assim como aumentar e diminuir, não admite "em",
nesta frase e semelhantes: As vendas do comércio caíram 30%. *** As
vendas de veículos caíram 10%. *** As vendas de chuchus aumentaram
50%. *** A inflação diminuiu 8% este ano.
Nos jornais: Conjunto de opcionais pode aumentar o preço de um
carro "em"mais de 20%. *** O movimento de compensação de cheques
em Salvador caiu "em" cerca de 30%.
A paciência de alguns já caiu 100%.
puro-sangue / pele-vermelha / cara-pálida /
pronto-socorro
São substantivos compostos formados por adjetivos e substantivos,
elementos que variam normalmente no plural: puros-sangues, peles-vermelhas,
caras-pálidas e prontos-socorros (có).
Nos jornais: Criar cavalos "puro-sangue" é um negócio milionário.
*** A miséria é intercalada com publicidade de jatos particulares e cavalos
"puro-sangue". *** Gerônimo, líder dos "pele-vermelha". *** Com
a greve dos médicos, a população passou a procurar os "pronto-socorros "
da Prefeitura.
Pois é.
lotação
Pode ser palavra feminina ou masculina, com significados diferentes.

A lotação é a capacidade de veículos coletivos, elevadores, salas de
espetáculo, estádios, etc.: a lotação do ônibus é de 40 passageiros.
O lotação é redução de autolotação, ou seja, qualquer veículo coletivo
(carro, perua, ônibus, etc.) que transporta passageiros de um ponto a
outro da cidade, com maior rapidez e preços maiores que os coletivos de
linha regular, saindo do ponto de origem somente quando se completa a
sua capacidade de transporte. Assim, usaremos: O motorista do lotação
estava nervoso, porque o prefeito o proibiu de trabalhar. Há muitos lotações
clandestinos na cidade.
Num telejornal: A população paulistana voltou hoje a se apertar
"nas" lotações, por causa da greve dos ônibus.
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muçarela
É este o aportuguesamento correto do italiano mozzarella. Nunca é demais
repetir: os dois zz italianos dão c ou ç em português, mas jamais"ss".
Há uma variante, mozarela, que deve ser desprezada, porque ninguém
usa. Nem o seu Mané, do boteco da esquina, que prefere escrever
"mussarela". Mozarela, no entanto, ele se recusa a escrever no cartaz do
seu estabelecimento. Tem bom-gosto. E bom-senso.
Um dicionário (aquele) registra mozarela a par de muçarela, mas
(veja!) dá o gênero feminino para a primeira e masculino para a segunda.
A vacilação oficial acerca da ortografia deste italianismo tem provocado
desencontros ortográficos em alguns periódicos, entre os quais
a Veja, ed. 1.785, pág. 60, que traz três vezes "mussarela", justamente a
forma preferida do seu Mané.
É para a frente que se anda
Perfeito. Há muita gente que deseja andar para trás, quando escreve:
É "para frente" que se anda, isto é, sem o devido uso do artigo antes da
palavra frente. Note que em situação antônima (com o uso de atrás), o
artigo não aparece.
Antigamente, ficou famosa uma frase entre nós: O Brasil é um país
que vai pra frente. Está correta. Por quê? Porque aí houve a contração de
para a em pra. Aliás, não eram poucos os que diziam: O Brasil é um país
que vai "pa "frente.
A verdade é que, com pra ou com"pa" , o país ainda não foi. Irá?
"semi-final" / "semi-novos"
O prefixo semi- só exige hífen antes de palavras iniciadas por vogai
(semi-analfabeto, semi-automático, semi-eixo, semi-interno, semi-oculto,
semi-úmido), h (semi-horda), r (semi-reta) ou s (semi-selvagem). Em
qualquer outro caso, não deve aparecer o hífen.
No site de um jornal: Peixe obtém um bom resultado na Cidade do
México. Precisa de uma vitória simples na Vila para ir à "semi-final".
Chega a ser inacreditável que ainda haja jornalistas que escrevam
"semi-final", assim como inacreditável são as revendedoras de automóveis
que vendem "semi-novos".
movimento "ético-moral" na política
Trata-se de uma redundância: o grego ethike corresponde ao latim
morale. Sendo assim, ética e moral são rigorosamente sinônimos. Daí por
que não existe nada (sério, pelo menos) que seja "ético-moral" ou "ético
e moral", tão a gosto da oposição brasileira. Essa é uma questão de ética
e sobretudo de moral, foi a frase de conhecido político brasileiro, que até
chegou à presidência da República.
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A medida tornou "inelegível" vários candidatos
A palavr a inelegível está modificando um termo no plural; portanto:
A medida tornou inelegíveis vários candidatos.
Eis outros exemplos: Faço minhas as suas palavras. *** Deixaram
esburacadas as estradas federais. * * * É preciso tornar novamente agradáveis
as noites paulistanas. * * * O voto eletrônico tornou impossíveis as
fraudes. *** Convém tornar úteis os deficientes físicos.
Nos jornais: O IBGE só considera como "desempregado"aqueles que
procuraram emprego nos 30 dias anteriores à consulta. * ** O governo vai
divulgar nova tabela do IPI de modo a tornar "compatível" as alíquotas
brasileiras "às" cobradas pelos seus parceiros do Mercosul.
No lugar de "compatível " deveria estar compatíveis; no lugar de"às" ,
com, que é a verdadeira preposição pedida por compatível.
Como se vê, o jornalismo brasileiro continua evoluindo...
plantei de jogadores
Plantei é palavr a que se usa com propriedad e em alusão a atleta s
de primeir a linha, a craques. Assim, o Flameng o tem o seu plantei, o
Palmeira s tem o seu plantei, o Cruzeiro, o Atlético Mineiro, o Grêmio,
o Inter, etc.
A Folha de S. Paulo, todavia, public a em seu manua l de redação exatament
e o inverso, ou seja, condena o emprego da palavr a plantei em
referênci a a jogadore s de futebol.
"estupideza" sem "tamanha "
É certo que "estupideza " é uma aberração, mas nem por isso deixa de
constar em dicionário (aquele).
Os que variam o pronome tamanho, quand o faz parte da expressão
sem tamanho (= enorme, grandioso) demonstr a desconhecer os princípios
mais elementares da língua portuguesa.
Conhecido jornalist a esportivo, que pens a conhecer todos os segredos
da nossa língua, mas já notável pelos furos que comete, soltou isto,
não faz muito tempo: O deputado Eurico Miranda é de uma desfaçatez
sem "tamanha"!
Ao ouvir a desfaçatez, acabei eu próprio ficando com uma cara sem
tamanhol O referido deputado pode ter lá seus pecados, mas até par a
criticar é preciso ter alguma classe, saber o que faz. Senão, perde-s e a
autoridade (quando se tem, naturalmente).
Não é por acaso que já lhe chamam Zezinho Kfuro.
engajado / alistado / integrado / reintegrado
Usam-s e de preferênci a com a preposição em, assim como todas as
palavra s da mesma família, além de condução e recondução: estar engajado
num movimento, numa candidatura; estar alistado no Exército;
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já estar integrado no plantei; ser reintegrado nas funções; engajar-se na
luta; o alistamento no Exército; integrar-se no grupo, a condução (ou recondução)
do funcionário no cargo se deu por mandado judicial.
Nos jornais: Há dentro do próprio Palácio do Planalto uma corrente
não engajada "à"candidatura oficial. *** Fábio Costa é reintegrado "ao"
elenco do Corinthians.
Declara uma professora de Psicologia da Educação, na revista Veja: Se
o indivíduo não consegue se integrar "a"uma sociedade, tenta destruí-la.
Sem dúvida...
Não estou hoje "nos" meus melhores dias
Quando alguém se levanta visivelmente mal-humorado, pode dizer
que não se levantou num dos seus melhores dias, mas não "nos seus melhores
dias".
Como estou hoje num dos meus melhores dias, posso ainda continuar
explicando: uma pessoa que dança, depois de longo tempo de inatividade,
pode dizer a seu par: Estou como nos meus melhores dias. Agora, sim,
podemos usar a expressão toda no plural, porque se trata de uma comparação:
entre os tempos antigos e os atuais.
Dersa
Sigla de Desenvolvimento Rodoviário S.A. Como as siglas são do
mesmo gênero da primeira palavra que as formam, Dersa é o, e não "a".
Não importa que seja empresa. O SBT também é empresa e é o, porque é
Sistema Brasileiro de Televisão.
Apesar da evidência, ainda há quem continue falando em "a" Dersa.
Há quem continue escrevendo "a"Dersa. A gente entende...
Os jornalistas da Veja se emendaram por um tempo, escrevendo corretamente:
o Dersa. De repente, porém, a recaída: novamente na revista
só se lê "a"Dersa. A gente sempre entende...
Os sabonetes custaram R$5,00 "cada"
O pronome cada é sempre adjetivo, por isso não se usa isoladamente.
Portanto: cada pessoa, cada sabonete, cada um, etc.: Os sabonetes custaram
R$5,00 cada um.
Num dicionário, distribuído oficialmente nas escolas, aprovado pelo
MEC, encontrou-se esta definição de basquete: Jogo disputado entre duas
equipes de cinco pessoas em dois tempos de vinte minutos "cada ".
Quem são as vítimas? As nossas crianças, naturalmente.
cheirar
Na acepção de ter ou exalar cheiro, este verbo se usa sempre com a (é
transitivo indireto): Suas mãos cheiram a perfume. *** Sua camisa está
cheirando a cigarro.
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Pode significar também ter semelhança com: Isso cheira a malandragem.
* * * Isso está cheirando a golpe.
Um jornalista, âncora de telejornal, já disse isto, entre outras coisas
censuráveis: O desfecho desse escândalo está "cheirando pizza" com sobremesa
de marmelada. ISSO É uma ver-go-nha!
O Brasil está cheio de vergonhas.
o mesmo
É vicioso o emprego de "o mesmo" em substituição a pronomes. Repare
nestas frases: A polícia foi atrás do bandido, mas ele conseguiu fugir.
(E não: A polícia foi atrás do bandido, mas "o mesmo" conseguiu fugir.)
* * * Compraram o livro e não o levaram. (E não: Compraram o livro e não
levaram "o mesmo".) *** A inauguração do cinema se deu ontem; a ela
compareceram várias autoridades. (E não: A inauguração do cinema se
deu ontem; "ã mesma" compareceram várias autoridades.) *** O fenômeno
foi visto por Luísa e Manuel, que não quiseram dar entrevistas sobre
ele. (E não: O fenômeno foi visto por Luísa e Manuel, e "os mesmos " não
quiseram dar entrevistas sobre "o mesmo".)
Nos jornais: Haverá maneira de se consumirem frutas e hortaliças
sem que "as mesmas"percam as suas propriedades nutritivas? *** O signo
de Touro é justamente o que exalta os valores materiais, ou a preservação
"dos mesmos". *** De fato, foi uma grande idéia promover esta Feira
de Artesanato, mas é preciso que "a mesma" seja trabalhada de maneira
profissional.
Como se vê, a imprensa continua a mesma...
Agora, num dicionário (aquele): Rapto consensual. Crime que consiste
em raptar mulher maior de 14 e menor de 21 anos, com o consentimento
"da mesma".
dizer "em" aüto e bom som
Não, é preferível dizer alto e bom som (sem a preposição "em"): O pai
disse alto e bom som: neste mês você não vai ter mesada! *** O ganso é
uma boa ave de guarda: ele tem bons ouvidos e emite alto e bom som o seu
alarme, ao perceber alguma anormalidade. * * * Ela repetiu alto e bom
som: Não quero mais nada contigo!
Numa revista: Garotinho disse "em" alto e bom som que sua sucessora
(Benedita da Silva) irá tungar os servidores, mudando a data de
pagamento do funcionalismo e deixando de antecipar o 13° salário.
Houve quem, sem ser servidor fluminense, tenha se sentido tungado...
Um dicionário (aquele), todavia, registr a a expressão também
com a preposição. Não me surpreende. A gente está acostumado a ser
tungado...
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Desesperado, ele "começou chorar"
Antes de infinitivo, começar não dispensa a preposição: Desesperado,
ele começou a chorar. * * * É preciso começar a pensar no futuro. * * *
Quando você começará a ter juízo? *** Em que século os jornalistas
brasileiros vão começar a escrever melhor?
Além de começar, também aprender exige a preposição a: aprender a
nadar, aprender a dirigir, aprender a viver.
No site de um jornal: "Aprenda cuidar"dos pés.
Não estaria na hora de aprender a cuidar da língua?
Curioso é que no mesmo site, no mesmo dia, apareceu ainda isto: Veja
o que "vai acontecerá"hoje nas novelas.
"Foi aconteceu" o quê?
"Viva" os brasileiros!
Embora todo o mundo use viva como se fosse uma interjeição, trata -
se de um verbo, sujeito, portanto, a variações. Salve! é que é interjeição e
não varia nunca. Se o sujeito do verbo viver, em frases assim, estiver no
plural, o verbo deverá, naturalmente, acompanhá-lo. Portanto: Vivam os
brasileiros! *** Vivam os noivos! *** Vivamos nós, brasileiros! *** Viva
eu! *** Viva ela! *** Vivam as férias! *** Vivam os políticos brasileiros!
Recentemente, uma revista de moda lançou publicidade com esta
frase: "Viva"os novos tempos!
Como os velhos ainda não morreram, que vivam os velhos e os novos
tempos!
um doze "avos"
A palavra avo, que só se usa com denominadores acima de dez, concorda
com o numerador. Portanto, 1/12 se lê um doze avo, 2/12 se lê dois
doze avos.
Há um dicionário que "ensina" diferente: que devemos sempre usar
"avos". Não. Talvez por causa desse "ensinamento", escreveu certa vez
uma jornalista: O TGV, trem francês que desenvolve 270km/h, poderá fazer
a ligação entre São Paulo e o Rio de Janeiro. Sozinho, hoje, o projeto
custaria cerca de 3 bilhões de dólares - exatamente um 75 "avos "da dívida
externa brasileira.
sósia
É nome sobrecomum, ou seja, usa-se o sósia tanto para a mulher
quanto para o homem, assim como criança, vítima, testemunha, pessoa,
ídolo, etc. Portanto: Todos queriam ver o sósia da rainha, que era uma
mulher brasileira. ** * O sósia de Julia Roberts no Brasil é uma garota de
16 anos. *** Estavam procurando um sósia para Natalie Portman, mas
não encontraram.
Os dicionários brasileiros, no entanto, insistem em registrar este substantivo
como comum-de-dois. Não é assim em nenhuma língua latina.
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Quando eu "pôr" a mão naquele dinheiro...
O futuro âo subjuntivo do verbo pôr é puser, puseres, puser, pusermos,
puserdes, puserem. Todos os seus derivados, que são muitos, conjugam-se
por ele: apor, compor, depor, dispor, expor, impor, opor, propor,
repor, sobrepor, supor, transpor, etc.
Numa das revistas masculinas: As vésperas da eleição presidencial, o
episódio apressou mudanças. Estava claro, então, que um novo elemento
se "sobreporá"à tradicional divisão entre republicanos e democratas.
"Sobreporá", em vez de sobrepusera, é de dividir não só republicanos
e democratas...
Lurdes é da mesma idade que "eu"
Nas comparações, é comum estar subentendido termo ou termos já
anteriormente mencionados, mas na frase apresentada não há nexo sintático
entre "eu" e outro termo anterior. Portanto, convém comparar assim:
Lurdes é da mesma idade que a minha. (Isto é: Lurdes é da mesma
idade que a minha idade.) *** Hersílio é do mesmo time que o meu. (Isto
é: Hersílio é do mesmo time que o meu time.) [E não: Hersílio é do mesmo
time que "eu".]
adido
Adido é funcionário auxiliar de uma embaixada, sem pertencer ao
quadro diplomático nem estar subordinado a chefes, que trabalha numa
repartição em tarefas bem definidas ou específicas. O feminino é adida.
Rege a: Visitei um adido à embaixada brasileira em Paris. *** Hersílio é
o novo adido a imprensa. (Atenção: esse a é mera preposição, por isso não
tem acento grave.)
Alguns jornalistas ainda escrevem: A "adido"cultural "da"embaixada
brasileira explicou que... , ou seja, dois erros em cinco palavras.
Numa revista: Pelo menos vinte leitores estranharam a ausência de
Portugal no ranking do turismo, publicado na reportagem Os estrangeiros
sumiram. João Mota Pinto, adido comercial "da" embaixada de Portugal
em Brasília, escreveu para a redação lembrando que o país recebe
12,2 milhões de turistas por ano.
"madrilenho"
Quem nasce em Madri, capital da Espanha, é madrileno, e não "madrilenho".
Eis, porém, como escrevem nossos jornalistas: Ronaldo esteve
numa famosa boate "madrilenha" para comemorar o aniversário de Beckliam
e passou a noite na companhia de amigos. *** Nas poucas vezes
em que saia para o ataque, o time "madrilenho"parava na eficiente marcação
feita pelo time do Barcelona durante toda a partida. * * * Confundir
um barcelonense com um "madrilenho" é o caminho mais curto para
entrar numa "fria".
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empresas "laranjas "
Todo e qualque r substantivo usado em funçã o adjetiva não varia. Assim,
temos: empresas laranja, empresas fantasma, promoções surpresa,
seqüestros relâmpago, produtos pirata, crianças prodígio, operários padrão,
carros esporte, elementos chave, países tampão, carros chefe, camisas
vinho, sapatos gelo, tons pastel, ternos cinza, etc.
AVeja, ao comenta r a prisão dos donos da Schincariol, por sonegação
fiscal, em junho de 2005, fez-nos ler assim: Empresas "laranjas" ou de
fachada emitiam notas fiscais frias.
Cheguei "às " dez para a meia-noite.
Este é um erro generalizado entre nós, brasileiros. Ora, se dez se refere
a minutos (que é palavr a masculina), não tem cabimento chegar"às "
dez par a a meia noite, mas sim aos dez par a a meia-noite, ou seja, aos dez
minutos par a a meia-noite.
Acostumemos as orelhas: O telejornal, naquela época, começava aos
cinco para as oito. * * * Eles retornaram aos vinte para a uma. *** A reunião
começará aos quinze para as nove. *** O ônibus saiu aos dois para as seis.
Se "caso" eu não puder ir, irá meu filho.
"Se caso" é uma combinação espúria, já que amba s as palavra s são
conjunção. Melhor será cantar Se acaso você chegasse do que Se "caso"
você chegasse. Não acha, não?
Eu nunca faria uma coisa "dessa" .
N em eu: sempre que o pronome demonstrativo, em contração com a
preposição de, substituir o substantivo anterior, usar-se- á no plural, já
que Eu nunca faria uma coisa dessas eqüivale a Eu nunca faria uma coisa
dessas coisas.
Outros exemplos: Fizemos um esforço daqueles e nada conseguimos.
*** Um país destes não pode passar por tantas crises. *** Depois de um
esforço desses, vocês nada conseguiram?!
ioga
Quando todo o mundo já dizia apenas ióga, quando todo o mundo já
estava acostumado com a pronúnci a ióga, eis que surge uma corrente que
vem insistentement e pronunciando iôga.
Existem, ainda, os que admitem amba s as pronúncias, distinguindo
cada uma delas com um gênero: a ioga (ó), par a esses fenômenos da semântic
a moderna , seria a prátic a do ioga (ô), que seria a filosofia em si.
Há, ainda, uma terceira vertente: dos que só grafam yôga, que, a bem da
verdade, já não é português.
A palavr a nos vem do sânscrito yogah = união com Deus, através do
inglês yoga.
Cremos ter encerrado bem esta nova edição: em união com Deus, ou
seja, em ioga.
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